Utopia
1 Capítulo 1
—A polícia investiga a gerência de modelos Fúria vermelha em um minucioso caso de tráfico internacional de drogas. A presidente da agência não quis falar com os nosso jornalistas. – Clique.
—O maior traficante do Brasil continua foragido. De acordo com a delegada Isabela Pereira, César, o traficante de renome, escondeu pistas de sua fuga. ‘’ Não sabemos onde ele fugiu e o nosso trabalho está longe de ser concluído’’. – Clique.
—Neste momento, no centro da cidade, ocorre uma batalha entre os manifestantes e a polícia. Lojas estão sendo depredadas e assaltadas pelos vândalos. Até o momento, treze mortes confirmadas. Três são de policiais. Daqui a pouco, vamos trazer mais informações sobre o grande protesto que ocorre em todo Brasil. – Clique.
Desligo a TV e coloco a minha calça jeans. Realmente, é entediante onde vivo. Construí esta grande mansão, onde escuto meus passos ecoando em toda a casa. Não acendo a luz em meu quarto. A cena que vejo podia muito bem moldurar. Charmosa e doce, cabelos dourados e pele macia, seu sono profundo e angustiante... Nua em minha cama. Pego meus cigarros e o isqueiro, fico diante da imensa janela. Não costumo olhar o clima, mas parece que Deus sabe dos problemas que passo e mostra o mais melancólico ato. Troveja muito e o céu está nublado... Cinza. Como os meus olhos. Não chove. Assim como eu não choro. Pego uma carta em meu bolso e leio.
John. Parece que o tempo passou muito rápido. Não costumo ser boa com as palavras. Enfim, lembro muito bem quando éramos mais jovens. Você sempre foi um rapaz sério e interessante, muito inteligente e bonito. Sinto falta de acariciar o seu cabelo liso. Nosso primeiro beijo foi ainda na adolescência, lembra? Ainda leio os livros de romance e filosofia que você costumava me dar de presente. É simplesmente, nostálgico... Quero me desculpar por tudo. Desde que a gente se separou, ainda não consigo tirar você da minha cabeça. Minha vida não foi mais a mesma. Tudo que eu quero é você, John. A falta que eu sinto da sua companhia, chega a doer. Espero que leia esta carta.
Com amor, Sofia.
Acendo meu cigarro e fecho os olhos. Sinto os pulmões se encherem de angústia, onde passeia em minhas entranhas e acalma meu coração. Ah, a depressão é uma poesia... E em segundos, solto a fumaça no ar, tentando, de alguma forma, trazer a resposta que eu nunca tive...
—Como eu pude deixar isso acontecer?
Há seis anos...
—Como está querido Johnny? Que festa magnífica!
Festa? Ratos de ternos caros com suas amantes. As esposas talvez nem saibam... Ou apenas fingem para não perderem os fins de semana no cabeleireiro. Eis o habitat natural dos ricos. Jogue a isca, como champanhe e caviar, e surgirão os poderosos empresários e políticos. A mansão se torna a gaiola, com piscina e mulheres bonitas. Típico.
—Estou bem, senhor deputado. Fique à vontade. – Meus lábios doem por estar forçando um sorriso.
Mal sabem eles que consegui todo esse dinheiro graças ao pôquer e algumas ligações internas. Investi em empresas menores, mas conscientemente. Consegui levantar pequenas empresas, tornando-as multinacionais. Consegui lucrar e me tornei um milionário mais jovem que o comum. Sim, os meus vinte e cinco anos são poucos vividos para uma vida tão longa. Criei cassinos ilegais por todo o estado do Rio de Janeiro e ainda acredito ter sido erro meu. Por isso, preciso aliciar essas pessoas para a polícia não me atrapalhar. A mídia é meu alvo. Meu nome tem que estar limpo. E aí sim, concluir meu objetivo.
Ajeito meu paletó e pego o microfone.
—Boa noite, senhores. É bom ver vocês se divertirem. Lembro como foi trabalhoso pra chegar aqui. É gratificante ver meu nome nas revistas ou em outros pontos midiáticos como o economista brilhante. Fico lisonjeado por vocês, senhores, confiarem em mim. Ainda tenho muito a aprender. Mas o meu trabalho ainda não acabou. Estou doando obras literárias e verba para melhorias de trinta orfanatos do estado. Ainda é o início e continuarei ajudando aqueles que precisam.
A festa termina ás vinte e três horas. Troco minhas roupas, pego a chave do fusca e deixo a mansão para partir ao apartamento onde vivi por dez anos. É pequeno e empoeirado, pois não o visito faz tempo. Os documentos estão encaixotados por todo o chão. Deixo as chaves na mesa e descanso na antiga poltrona. Mas o problema é que não posso dormir. Joe está furioso, principalmente porque eu convidei um bando de mesquinhos para minha mansão. Calma, Joe... Não consigo controlá-lo. O que você quer? Pego os cigarros, saio do apartamento e entro no primeiro ônibus que passa no ponto. Não posso atacar o motorista, Joe. Preciso controlá-lo. Por que você vive justamente dentro de mim? Um demônio com sede de sangue querendo se apoderar do meu corpo. Minhas mãos tremem e a ansiedade me consome.
Chego ao destino. O céu está escuro, pronto para chover. Entro na favela. Vielas e mais vielas sem nenhuma alma nos arredores. Escuto o som pesado do armazém abandonado. Que maravilha, Joe. Fez-me vir a um clube de luta clandestino. Os filhos dos ricos apostam, por um punhado de reais, nos pobres diabos.
—Veio para apostar? – Um rico aparece me entregando uma lista.
—Vim para lutar. – Vejo a face de assustado do rapaz. Ele me empurra para a arena. No caso, as pessoas que estão em volta de dois lutadores.
—Esse é o seu oponente, cara.
Um homem massacrou um favelado, que saiu arrastado pelos braços. Um negro alto, forte e olhos sem vida, seu corpo lotado de cicatrizes prova o estilo violento que leva. Joe, esse cara é puro músculo. Não tem como vencer...
Eis que nasce o maldito Joe.
Adrenalina.
Sangue.
Somos a escória.
Aceito o desafio.
Levo meu primeiro soco. Caio e vejo os ratos gritando e jogando dinheiro no chão. Essa situação me dá nojo. Sempre fui um admirador da luta, mas este homem cheira a esteroides. Simplesmente, fede a pobreza e usa a violência em troca de dinheiro. É... Esse cara é podre. Sendo manifestado por esmolas concedidas desses playboys que visitam a favela só pela diversão, pela dor de outros. Miseráveis.
Estou de pé, prevejo os seus golpes lentos, e golpeio com um soco bem no centro do esôfago. Perde-se o ar, lanço meus braços em suas pernas. Ele consegue sair caindo por cima de mim. Ele, pela segunda vez, soca meu rosto. Mais um e desvio, o seu punho é parado pelo cimento do chão. Consigo utilizar o jiu-jitsu. Fecho o meu triângulo e golpeio seu crânio. Inverto o jogo, e fico por cima.
O meu primeiro soco, lá se vai o nariz.
O segundo, seu supercílio corta.
O terceiro, Joe ainda não está saciado.
O quarto, estouro os dentes do coitado.
O quinto, ele desmaia.
O sexto, Joe quer sua morte.
O sétimo, o sangue de meu oponente respinga em meu rosto.
O oitavo, e consigo controlar o Joe, que por sua vez, teve seu orgasmo.
O silêncio paira e só o som do Three Inches Blood continua depois do caos. Pego as notas do chão e jogo no peito do meu oponente. Visto meu casaco e saio pela porta, abrindo o guarda-chuva. A chuva é densa e de difícil visibilidade. Meu corpo parece um espírito, vagando sem caminho entre as vielas. Paro no ponto de ônibus e faço malabarismo com o guarda-chuva para acender o último cigarro. Trago a cura para os meus pulmões ofegantes. Meu olho roxo está fervendo de tanta dor. Quando solto a fumaça, um sujeito esbarra em minhas costas. Como não percebi esse cara? E lá se vai o último cigarro, jogado numa poça de água...
Chego ao apartamento. Entro, tirando o casaco e pegando uma cerveja da geladeira. Sento no sofá empoeirado e percebo que há uma carta no bolso do casaco, que eu jogara no chão. Pego a carta, sem remetente no envelope, apenas enviado para meu nome. Aquele sujeito o colocou no bolso do casaco sem eu perceber. Abro.
Quando as duas flechas se encontrarem em nordeste, se equipa com suas ideias. Quando a estrada é única, desvie para o caminho inabitado. A escuridão é tenebrosa. Ilumine o seu trajeto para que sua alma não caia em queda livre. Quem é destro, irá resolver o seu destino. Caminhe na trilha. Sete passos e o seu único fio de luz irá se encontrar.
E no final da carta, escrito ‘’ De seu professor, Salomão’’. Ele não estava morto?! Não há datas.
Olho para o relógio da parede, o horário está uma e meia da manhã. Uma metáfora.
Aceito a missão.
Pego a chave do fusca e parto para esse tal ‘’ destino’’. Entro na estrada principal que liga a cidade com a outra. Mão única. Olho para minha direita e vejo uma estrada que estava em obras, mas por algum motivo o qual não sei, foi abandonada. Entro e presto mais atenção no lugar que o farol do meu fusca ilumina. Lá na frente, há uma ponte quebrada. ‘’ Ilumine o seu trajeto para que sua alma não caia em queda livre’’. Genial! Saio do fusca e pego uma lanterna. ‘’ Quem é destro, irá resolver seu destino’’. Entro na trilha, escondida pelas plantações densas, em minha direita. Um, dois, três, quatro, cinco, seis... Sete. ‘’ E o seu único fio de luz irá se encontrar’’. Encontro uma cabana com sua única vela acesa na janela. Piso nas poças de água que a chuva fez. Bato na porta da cabana que por sua vez, abre.
—Bem-vindo John.
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