Utopia

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Oi! Se a música Menina Veneno tivesse uma história, eu a contaria desse jeito...

A chama cálida preencheu o quarto de sombras quando Enzo acendeu o primeiro fósforo. Correu a mão pálida e fina de moço até a ponta do cigarro barato, oferecendo o princípio ativo para sustentar o seu vício. Tragou. O silêncio preencheu o espaço entre as quatro paredes do seu quarto. A faísca de fogo era a única coisa que podia ser vista na penumbra da noite e a fumaça claustrofóbica, que já era tão comum às suas narinas, se acomodou em frente a sua face, dispersando-se em meio ao ar.

Ouviu a voz aguda de Tia Augusta gritando para as crianças saírem do corredor e irem para as suas camas, os passos pesados da senhora gorda ecoaram em frente à porta de madeira velha que isolava o quartinho de pensão.

Logo os passos pararam e as pancadas das crianças correndo para os seus aposentos cessou. Enzo esticou a mão e bateu o que restou do cigarro sobre o cinzeiro, espalhando as cinzas sobre ele.

– Tudo bem, sobrinho? – a voz era a arrastada e cansada de Tia Augusta do outro lado da porta.

– Em perfeita ordem, minha tia.

– Dorme bem, tá? Tu vai sair amanhã cedinho para banhar?

Enzo pensou um pouco antes de responder. Uma luz brilhou pelo filete riscado por um rasgo na cortina e ele caminhou até a janela arrancando a seda velha com um só movimento. Apoiou-se no parapeito sentindo a brisa cair sobre si e o cenário bucólico, onde começa a nossa história, ganhar o tom pálido da luz da lua.

– Vou, minha tia. Que hora é essa?

– Dez para meia-noite. Não demore muito para dormir, certo?

– Quando a lua também for se deitar, eu me cubro. – sorriu mesmo ainda que a tia não pudesse vê-lo.

– Lembra de fechar a janela e vê se não acende esse cigarro com tudo fechado, todos já foram dormir.

– Tudo bem, minha tia.

Não ouviu mais nada além das ondas do mar sobre a areia um pouco abaixo do morro da pensão da Tia Augusta. Era um lugar lindo, essa Bahia. Sentiu vontade de descer e se deliciar com os pés descalços na areia molhada, com a água salgada que parecia tão doce em sua pele, com o cheiro da maresia que se impregnava em cada poro do seu corpo franzino de vinte e dois anos, mas tudo que fez foi virar as costas para a janela e encarar as pilhas de livros e mais livros postados na escrivaninha que bem pendia um pouco para a esquerda.

Deixou o resto do cigarro deitar-se no cinzeiro e seu corpo sobre a cama. Acendeu o abajur velho que tanto gostava, cor de carne como bem dissera uma cantora alemã lá pelas bandas do Rio de Janeiro.

Fechou os olhos por um espaço de uma eternidade no intervalo de dois minutos. Com os olhos já abertos, virou o rosto para porta no exato momento em que ouvira passos na escada.

Suaves, mas precisos. Delicados, mas certeiros o suficiente para que Enzo pudesse ouvir o caminhar sobre o assoalho. Esperou até o momento em que a porta abriu, rangendo em um protesto para a troca das dobradiças.

Não era uma aparição, daquilo ele sempre teria certeza. Sentiu os olhos brilharem fitando a cor morena que ele tanto via e desejava. O seu andar despretensioso com as pernas nuas o embebedava, parada com os braços finos e o corpo esguio encostado na soleira da porta, o corpo coberto por nada mais que uma camisa social branca, molhada e transparente.

Ele nunca saberia com ela havia conseguido entrar. Pois, isso não teria a mínima importância quando ela estivesse lerda em seus braços. Enzo a adorava. Desde a unha do polegar até o último dos seus fios de cabelo. De cada tracinho verde riscado em suas íris até o fim dos tempos.

– Querendo dormir tão cedo? Que regresso. – Ela riu. O rapaz sentou-se como pedra. Apenas os olhos se moviam em transe enquanto observava o seu caminhar.

Nunca saberemos o nome da menina então vamos supor que se chame Lucinha. Ela não devia ter mais que dezesseis anos, dava para ver por trás dos olhos travessos de menina. O modo como o seu cabelo ficava solto, como o sorriso se desenhava no rosto queimado do sol da praia do Encanto... Encantava (se me permite fazer este trocadilho).

– Vou embora de tardinha amanhã – respondeu – Quero aproveitar a praia na aurora, meia-noite já está tarde demais para o meu gosto.

– Eu estava lá agorinha mesmo. – Lucinha caminhou até o parapeito da janela, não se importando se Enzo teria ou não a perfeita visão do seu quadril. Ele viu os rastros de areia molhada deixada para trás e as pegadas pequenas úmidas sumiam alguns segundos após a menina contemplar a lua, em meio a janela e os restos da cortina rasgada esquecidos no chão. – A água tá morna, dizem que o continente esfria mais rápido que o mar, isso é bom.

– Deve ser bom morar no litoral – Enzo continuou, mesmo que a sua atenção não estivesse na conversa e sim na silhueta de Lucinha... tão menina! – Eu não tenho uma vista linda dessa no interior, só mesmo aqui na Tia Augusta.

O rapaz viu os cabelos castanhos roçarem as bochechas de Lucinha com graça, como uma carícia, quando ela se virou para encará-lo sorrindo travessa, escondendo uma malícia mascarada de inocência que Enzo sabia bem que não era verdadeira.

– Oxe, de que vista tu fala, Enzo? – suas pernas esguias se postaram uma em frente a outra, cruzadas, quando ela apoiou os cotovelos na janelinha, de costas para o horizonte. – Daqui – ela olhou para o corpo e logo depois fez um gesto com o queixo para o mar – ou dali?

Ele queria se deliciar em seu sorriso travesso. Queria sentir a suas falanges percorrerem a pele morena e descascada, imperfeita e castigada pelo sol nordestino. Sentiu os pelos do braço se eriçarem, mas sabia que a causa não era a brisa que acometia o quarto, tão leve e fresca, e sim a presença perturbadora de Lucinha.

Seu ponto fraco, seu subconsciente, sua anima. Sua menina veneno, cuja peçonha imobilizava num simples olhar, o grito mais agudo no vazio da solidão, o desejo por água no sertão, a miragem que engana no deserto.

– Tu não vai responder?

Ele queria, mas as palavras eram como espinha entalada em sua garganta: arranhava à simples menção da voz da adorada.

– Isso não precisa de uma resposta.

– Vou entender como bem quiser.

– Como queira. – Enzo deu de ombros embora se importasse.

– Como tu me quer.

Se Enzo se concentrasse poderia sentir a pressão do sangue por suas veias, o coração acelerado, a pupila dilatada. Tudo isso era culpa do veneno de Lucinha. Ele era a sua presa e a predadora nunca estivera tão próxima de pegá-lo em uma emboscada, ainda que ele era quem quisesse conquistá-la.

Os contornos de Lucinha eram uma mancha escura quando ela se distanciou da janela. As mãos delicadas na cintura, deixando que as vestes subissem um pouco a mais que o indicado. O rapaz só foi capaz de ouvir a sua gargalhada ecoar entre as quatro paredes, suspeita de fuga para os quartos ao lado. De repente Enzo já estava tão perto da menina que poderia sentir o seu cheiro de mar incontido e selvagem.

Não resistiu tê-la tão perto. Suas mãos tomaram seus braços e a corrente elétrica gerada pelo toque de suas peles fez com que Enzo se sentisse em um campo magnético, como dois pólos de um imã que se atraem sem empecilhos.

– Tá louca? Imagina se Tia Augusta ouve tuas risadas? O que vou dizer?

– Ouvir minhas risadas? – a menina sorriu e Enzo, por estar tão próximo, sentiu o seu hálito. Era puro eucalipto. – Só você é capaz de me ouvir, meu anjo.

Lucinha se desvencilhou se suas mãos como quando Enzo tentava pegar o vento. Era inconstante e ele nunca a entenderia, mesmo passados mil anos de encontros à meia-noite.

Quando deu por si ela já estava longe, e o verde profundo de suas íris o fitavam pelo espelho velho.

– Eu sou tua utopia, Enzo.

Lucinha sorria como uma dissimulada traquina. A camisa passava a escorregar pelo seu corpo úmido, o tórax já estava à mostra e tudo o que Enzo pode ver era o reflexo de seus seios bem desenhados e de uma cintura fina esculpida. Seu corpo estava nu.

– Sou o teu ideal inalcançável, tua sede de amor e tua fonte de devaneios.

– Menina...

– ...Veneno. O que corre por tuas veias fazendo tu se sentir preso e livre e apaixonado e desprendido.

– Não entendo.

– Não há o que entender, meu anjo. Não notou que nem precisa me chamar? Que sou o que tu pensa? Que sou o que tu quer fazer?

Parecia óbvio, mas Enzo não compreendia. Ele balançou a cabeça, talvez seu juízo estivesse fora do lugar, porém ele ainda podia ver Lucinha o olhando, parecendo querer arrancar a sua alma.

– Você tá tentando me deixar louco?!

– Não, Enzo. Eu apenas também sou a tua loucura.

O quarto pareceu girar e Enzo deitou-se em sua cama para não cair. Pensou em nossa Lucinha, mesmo que ela estivesse no mesmo quarto que ele. Em toda cama que ele se deitava parecia sentir sua presença e ouvir a sua voz, Lucinha parecia tomar a sua mente e entorpecê-lo. Suas pálpebras pesavam, o sorriso da menina travessa mais próximo do seu olhar enquanto ele adormecia.

A cegueira não era desejada, mas era o preço que se pagava por dormir com a janela aberta. A aurora acometia sua visão.

Ainda não deve ser cinco da manhã, ele pensou.

Rolou, o corpo doía pela posição desconfortável e, num lampejo de memória ao se ver no espelho com os cabelos bagunçados e as olheiras imutáveis, se lembrou dos olhos verdes inquietantes e intimidadores de Lucinha.

“Eu apenas também sou a tua loucura”. Suas palavras invadiram sua memória. Olhou as paredes pálidas, se perguntou se enlouquecera.

O mundo era pequeno demais para os dois e, talvez, por isso Lucinha não existisse.

Notas finais
Gostaram? Nossa Lucinha travessa... sentirei falta dela.Crticas e sugestes? Apenas gostou; amou? Ah, deixa um comentrio, vai? *-*Beijos!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!