Usuário Final

25 Capítulo Opcional: A Dama Imortal


Suas mãos ainda estavam trêmulas, ela tentava a todo custo controlá-las, mas parecia uma tarefa exageradamente complicada. A cabeça estava leve, como se fosse desmaiar a qualquer instante, mas ela jamais faria isso. Repetia para si mesma vez após outra, que estava tudo bem, que com certeza era só porque estava afastada há muito tempo.

Materializou uma pistola pequena nas mãos, girou-a entre os dedos e a transformou em uma submetralhadora, mirando o vazio da cobertura do 673 com o cano escuro da arma. Já foi mais rápida um dia, mas nada que um pouco de treino não a fizesse voltar aos dias de glória.

HeLa, a Dama Imortal, a alcunha a perseguia como um lobo selvagem persegue um coelho. Já passara tempo demais ali, com aquele céu escuro e os prédios acinzentados ao seu redor, tempo demais para ver mais da metade das pessoas pelas quais um dia se importou morrerem, quando tudo o que ela podia fazer era virar as costas para lutar outro dia. Se tivesse morrido há tempos atrás, todos os dormentes que salvou ainda estariam vivos? Alguma alma caridosa e altamente capacitada se arriscaria noite após noite matando Devoradores de nível 3 para salvá-los? A resposta chegava a ser indecente de tão óbvia. Era o que a motivava a continuar, o fato de que a cada dia que ficava viva, era um Devorador a menos na Rede, um dormente a mais que poderia abraçar a família que ela nunca teve. Se sentiria feliz por isso, se apegaria às suas felicidades como se fosse a dela própria. Mas a teoria, como sempre, funcionava melhor do que na prática.

A submetralhadora parecia tão leve quanto uma pena, como se a mão dela e a arma fossem feitas uma para a outra, um encaixe perfeito. A dama que nunca morre gostaria de que a Rede tivesse o mesmo efeito nela, que as duas se completassem, mas a cada noite ela odiava mais aquele lugar, odiava com todas as forças que tinha e esse ódio ultrapassava qualquer sentimento bom que poderia ter.

Na distância, seus olhos treinados captaram um movimento e a submetralhadora deu lugar a um rifle. Atirou com apenas uma mão e os vidros do prédio ao longe se tingiram de vermelho e preto. Um Devorador a menos no mundo.

— Que porra Bia! — Hector se sobressaltou com o susto provocado pelo disparo, quase derrubando Valéria, que estava deitada sobre suas pernas — O que foi isso?

— Cuidando para que a nossa casa fique segura — ela respondeu mecanicamente, sem nenhuma emoção na voz.

— Faz tempo que não fazemos uma ronda por aqui. Vou pegar o novato para fazer isso um dia desses. Você tem certeza que não quer deixar isso para depois?

— Não, Hector. Precisamos botar isso a limpo.

Hector apenas concordou com um aceno de cabeça, enquanto Valéria a observava com a mesma expressão do namorado. Eles sempre se preocuparam, por mais autossuficiente que ela fosse. Beatriz gostava disso, gostava mesmo, a sensação de alguém zelando por sua vida, se colocando na linha de fogo por ela, era o sentimento mais puro que poderia existir, era verdadeiro. Ela os amava de verdade, eram a sua família ou talvez bem mais do que isso, eram os únicos pelos quais valeria a pena morrer, se é que à ela, isso seria concedido um dia.

Desfez o rifle e voltou sua atenção para a distância, para o vazio da Cidade Silenciosa, enquanto o Martinez flutuava sem rumo sobre sua cabeça, as ruidosas correntes chocando-se com o som dos trovões longínquos.

Achava que tudo estava terminado no dia em que correu até sua parceira com as mãos tão trêmulas quanto naquela noite, seus olhos estavam cheios de lágrimas que ela não conseguia segurar. Despedaçada. Quebrada. Ferida. E aquela moça que ela tanto gostava fez o que sempre fez, sorriu.

Abaixou a cabeça nas mãos, espantando as lembranças que a rasgavam por dentro.

Foco. Precisava manter o foco.

Tentou pensar na missão que se obrigou a ir para tentar se distrair do garoto e do maldito link, onde algo relativamente simples quase fugiu do controle. A ideia era ajudar uma equipe de reconhecimento, cuidando da segurança deles enquanto exploravam uma anomalia sistêmica num prédio abandoado, mas seu sincronismo irregular quase a matou. Os presentes no local olhavam para ela com espanto e admiração, maquinando perguntas das quais nunca fariam.

“Porque ela sempre sobrevive?”

“Porque não posso ser como ela?”

“Como ela conseguiu liderar os Helldivers?”

“Ela é imortal mesmo?”

Perguntas e porquês. Acusações e olhares. Era sempre assim, sempre carregava uma responsabilidade tremenda nos ombros, levando a fama que lhe foi imposta como uma cruz de espinhos que era obrigada a carregar. E o esforço ficava ainda pior quando alguém morria, como o garoto que teve parte do corpo arrancado por uma Pacificadora. Para ela, uma missão daquele nível era simples, para os outros era mortal. Beatriz não soube dizer por quanto tempo ficou lá, apenas observando até os olhos dele perderem o brilho, enquanto um homem dizia que tudo ficaria bem. Ela gostaria de mentir como aquele Usuário, mesmo que os olhos dele o traíssem toda vez que ele tentava sorrir, mostrando o quanto era quebradiço.

Mas a ela, esse direito também foi negado. Precisava ser forte.

E pensar que mesmo com toda aquela frieza e força, nada havia a preparado para aquela noite, quando viu aquele sorriso tímido e os olhos que pareciam atravessá-la como uma faca. O Link o havia tornado tão parecido com sua antiga parceira, que não via mais diferença entre os dois.

Olhar para ele com aquela cor no indicador era quase repulsivo, ao mesmo tempo em que fazia com que ela sentisse uma atração irresistível que a empurrava para ele, e ela sabia que mesmo tentando escapar, hora ou outra seria pega por aquele sentimento. Adam estava em sua equipe e estava ligado permanentemente a ela, intimamente. Não existia uma rota de fuga para isso, pois mesmo que todas as circunstâncias que pareciam tê-lo trazido até ali cheirassem como uma armadilha — uma bela e mortal armadilha — ela, por algum motivo estúpido, não estava nem um pouco preocupada com o risco que estaria se metendo ao se envolver com o garoto.

Ela não sabia no que pensar, se Adam era confiável ou se estava ali pelo mesmo propósito da amiga morta. Não sabia. Seus sentimentos se embaralhavam como uma bola de macarrão enrolada num garfo torto. Um verdadeiro nó cego.

Carla chegou pouco tempo depois, com os fios amarelados construindo seu corpo, como se ele fosse criado e costurado por um exímio tecelão, milímetro por milímetro.

— Não vem me dar sermão — avisou ela, de antemão. Não parecia estar disposta a admitir o erro, como era de se esperar.

— Que merda você pensou que estava fazendo? — questionou Beatriz, fria e rispidamente, porém sem nenhuma emoção.

— Treinando o garoto.

— Isso incluiria tentar matá-lo? — Hector provocou, se aproximando junto com Valéria.
Carla apenas sorriu e deu de ombros, dirigindo-se novamente à Beatriz:

— Eu estava enganada. Simples assim, foi um erro, ele quase morreu, eu quase morri, beleza, assunto encerrado.

— Não está nada encerrado! — exclamou Beatriz, de forma ameaçadora. Hector deu um passo para trás, mas Valéria se manteve no mesmo lugar. — Porra, você quase botou tudo a perder numa única noite!

— Ele pediu por aquilo! Todo mundo tem que ficar encrencando com a minha idade?

— Ninguém além de você mesma encrenca com a sua idade... — disse Valéria, baixo mas audivelmente.

— Escuta aqui fofinha — E disse isso de maneira agressiva —, nada disso teria acontecido se você tivesse mantido a porra da tua boca fechada! Você não consegue segurar nada?

— Agora a culpa é minha? Você joga o menino de cima de um prédio e eu sou a culpada? — Valéria se defendeu, quase a ponto de gargalhar. Mas com certeza não seria por achar a situação engraçada.

— O que é isso? Um tribunal? Vocês vão me prender agora? — debochou, Carla, estendendo as mãos juntas, como se as oferecesse para serem algemadas.

— Ninguém vai prender você. — respondeu Beatriz, ainda num tom de voz calmo — Mas você está se comportando feito uma criança. Nós não matamos os membros dessa equipe, você sabe.

— Criança? É sério isso? Por que acredito que não é nada do que você já não tenha feito antes, não é mesmo? — E Carla nem mesmo precisou ver o rosto de todos para perceber a besteira que tinha falado. As vezes ela passava dos limites, e de vez em quando Beatriz acreditava que ela não possuía um.

Beatriz respirou fundo, passou a mão pelo rosto, ajeitando delicadamente o cabelo e controlou um crescente impulso de estapear Carla. Lembrou-se da última vez que o fizera, arrancando três dentes dela, compensação por ter levado um tiro. Mas apesar de tudo, ainda eram amigas e confiavam uma na outra de uma maneira quase simbiótica. Desavenças sempre existirão, mas a confiança também.

— Exatamente — Beatriz respondeu, para a surpresa de todos —, e se for necessário farei de novo, então não preciso que você faça isso por mim. Ao contrário de você, eu sei lidar muito bem com os problemas dessa equipe.

Ninguém disse nada e ela sabia o porquê. Beatriz não a culpava, não depois de saber tudo o que Carla estava passando no mundo real, toda a pressão que tinha que suportar a cada segundo que permanecia na Rede. Carla e a sua parceira foram amigas um dia, tanto quanto ela mesma. Mas Beatriz, mesmo sem conseguir, fazia o possível para superar o passado, já Carla nem mesmo tentava. A traição deixara uma marca profunda nela, que se sentiu responsável por não descobrir que a garota estava matando pessoas. Desde então passara a desconfiar de tudo e todos muito mais que o normal, muito mais que o tolerável pela maioria das pessoas. E uma vez mais, ela não a culpava. Por mais que aquelas palavras duras pudessem ferir, Carla apenas havia dito a verdade.

— Bom, Carla, você já está avisada, o mínimo que você tem a fazer é pedir desculpas a ele. — E mais uma vez, tentou ser como a garota que ela matou e sorriu. Mas a máscara que usava já começava a apresentar sinais de uso e isso começava a se tornar preocupante.

— Mas nem fu...

— Direto ao assunto da reunião — Beatriz a interrompeu, continuando — Nosso novo companheiro de equipe se mostrou um Usuário Final exemplar. Exemplar demais, se é que vocês me entendem. Valéria, nos conte o que você descobriu.

Valéria ficou olhando de Beatriz para Carla e em seguida se apressou a materializar a tela translúcida, desta vez um pouco maior para que todos pudessem ver os gráficos e códigos que eram exibidos.

— Bom... eu monitorei os resultados de batalha dele. Como vocês podem ver, o Adam acumulou mais dados de batalha do que nossa equipe acumula em uma semana, o que é anormal para os padrões de qualquer novato. Infelizmente não consegui as informações do status dele, como sincronismo, AC, então não sei como ele lidou com a batalha.

— Puta merda! — exclamou Hector — Ele tem um código de ADM? E o que aconteceu com os dados? — perguntou cruzando os braços e apontando para a tela.

— Não — Valéria respondeu prontamente —, ele é tão normal quanto eu ou você. Divergência temporal e interferência nas comunicações, foi isso que aconteceu. Os códigos vieram quebrados, eu e o Gabriel tivemos que decodificar tudo para chegar aos dados de batalha.

— Então essa baboseira toda significa que ele não tem nada a ver com a vadia, certo? — questionou Carla, cruzando os braços e olhando discretamente para Beatriz.

— Não, realmente eles não possuem ligação, foi a primeira coisa que eu chequei.

— E como você explica o Link? — Beatriz perguntou, apontando para o próprio indicador.

— É por sua causa.

— O quê?

— Bia, isso pode parecer estranho, mas ele desenvolveu um link com “você”. Esse não é o Link dela, é seu e dele. Não existe nem um único dado que ligue os dois.

— Então não tem nada de errado com ele?

— Tirando os dados de batalha, não. Por mais anormal que essa situação seja, acredito que ele pode ser só um prodígio. — Finalizou Valéria, olhando para todos e desfazendo a tela — Só o que me intrigou é que alguém limpou os dados de acesso dele, eu nunca vi isso acontecer antes.

— Ou seja, tem mais alguém na jogada. — Hector concluiu, olhando para Beatriz — Ele não parece o tipo de pessoa que limparia o próprio perfil.

— A não ser que ele queira esconder algo, não é mesmo? — Beatriz falou, num tom de acusação. Não importava o que dissessem, ela não conseguia digerir a ideia de que Adam fosse inocente em tudo aquilo. Um lado dela queria desesperadamente acreditar nisso, no fato de que o garoto precisava ser salvo de alguém, que ele havia sido enviado até lá para ser protegido como ela e Carla chegaram a deduzir, mas um outro lado não conseguia aceitar isso, o vermelho da traição que pulsava em conjunto com ela o denunciava. Algo estava terrivelmente errado, isso era fato.

— Bia, eu não fui com a cara dele — disse Carla — mas, porra, não tem nada de errado com o garoto. Eu mesma achei que tivesse e que conseguiria arrancar algumas coisas dele, mas o cara é só um novato!

— Você o quê? Então era por isso que.. — e deixou as palavras morrerem e antes que perdesse a paciência novamente, continuou com outra linha de raciocínio — Adam é um novato que matou um nível 2 sozinho. Será que só eu acho que isso é terrivelmente errado?

Todos se entreolharam por um momento. Obviamente que nenhum prodígio iria tão longe. Devoradores eram bestas sanguinárias e perigosas, se enfrentados sozinhos se tornavam basicamente imbatíveis, mesmo um de nível inferior. E Beatriz já estava na Rede há tempo o bastante para saber que sorte até poderia salvar uma vida, mas jamais mataria um nível 2.

— Muito eficaz seus métodos de interrogatório, Carla, meus parabéns — provocou Valéria, batendo palmas silenciosas.

— Vai se foder! — retrucou Carla — Segura sua fofinha aí, Hector.

— Vou ignorar você por hoje, Carla. — disse Hector sorrindo, e depois se voltou para Beatriz — Beatriz, realmente eu só conheço duas pessoas que fizeram isso — Hector descruzou os braços. Se tivesse bolsos no USV, teria enfiado as mãos neles —, uma delas está bem aqui na minha frente e a outra está morta. A ligação de vocês dois já é prova o bastante para mim.

— Então, ele está aceito? — questionou Beatriz, para finalizar com a opinião de todos. Apesar de ser a líder, ainda havia uma democracia ali.

— Acho que sim — respondeu Valéria, timidamente —, mas ele está aqui sob circunstâncias estranhas, como você mesma citou a respeito do Devorador. Eu acho que talvez exista algum peixe grande jogando por detrás da cortina. O Adam é uma boa pessoa, quem está por trás disso tudo, eu creio que não.

— É isso aí fofinha! E chefe — disse Hector, apontando o dedo para Beatriz de forma teatral —, não se preocupe, não vamos baixar a guarda!

— Odeio quando você me chama desse jeito — resmungou Beatriz, rindo.

— Bia, eu e o Gabriel vamos continuar monitorando tudo o que ele fizer. — falou Valéria — Dessa vez não vai ser como sua antiga parceira, se ele vai sacanear a gente, vamos pegá-lo primeiro! — e deu um soco na própria mão, como Hector costumava fazer — E tenho que admitir que se ele fizer isso, por pior que seja, pelo menos a história que estou escrevendo vai ficar incrivelmente emocionante! — comemorou com um gritinho.

Carla sorriu, balançando a cabeça negativamente e ao olhar para Beatriz, confirmou com um daqueles olhares que significavam muito. Não importa o que fosse acontecer, estariam todos juntos.

Beatriz retribuiu o gesto e por um momento, olhando aquela garotinha que pensava ser adulta e um cara grande com sua pequena namorada otaku, percebeu apenas o quanto gostava deles. Se Adam era uma boa pessoa e poderia fazer parte daquela família? Ela ainda não sabia ao certo, mas pensou no que sua amiga morta faria. Adam ainda não teria seu voto de confiança, mas no momento, daria a ele o benefício da dúvida.

Independentemente do que fosse acontecer, uma coisa era certa: faria o que fosse necessário para proteger a sua família e iria até o fim, derrubando todas as cartas grandes do baralho no processo, mesmo que para isso, a Dama tivesse que abrir mão da imortalidade.