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9 Prisão
Notas iniciais
O povo em pouco tempo já sabia das novidades mais recentes. Muitos foram aqueles que deram as costas aos seus supostos heróis, aqueles que melhor representaram França e aqueles que eles supostamente iam lutar com. Os outros chamavam-nos de hipócritas enquanto ainda se orgulhavam naquilo que LadyBug fez pelo povo, ainda mencionando que tudo o que aconteceu poderia ser mentira, um esquema mesquinho que a nobreza teria muito orgulho e nenhuns escrúpulos para realizar. Infelizmente, eram poucos aqueles que pensavam dessa maneira. As provas pareciam apontar para um único suspeito (ou talvez a nobreza queria que pensassem em tal).
Paris estava desfeita pela traição da sua heroína. Viam agora Chat Blanc como uma transformação, uma mudança para algo ainda melhor do que antes. Ele era agora o único símbolo de justiça perante o povo e, ironicamente, era controlado por aqueles que eles mais odiavam.
Chat Blanc trancou-se no seu quarto e agora era simplesmente Oliver, um rapaz burguês com um coração destroçado. Na sua mente, estava a reviver a dor e o desespero que sentiu logo ao saber que a sua mãe tinha falecido. Ladybug seria condenada sem qualquer direito de se defender ou até mesmo de dizer a sua parte da história. Os mais ricos controlavam e o que eles queriam era ver aquela rapariga morta para voltarem ao poder. O loiro detestava aquela visão, nunca concordara com tais valores morais e sempre teve uma opinião negativa quando a nobreza começou a apoiá-los. Dizia que não queria ter qualquer tipo de relações com pessoas que não se interessavam pelos assuntos do povo. Só concordou após ver que era benéfico para Ladybug, e também, para o seu trabalho. Como nunca ninguém soube quem eram, não ouve qualquer tipo de recompensa em dinheiro ou em cargos altos e altamente oportunistas.
— Oliver? – Uma empregada entrou no seu quarto antes de bater à porta delicadamente. A mesma aproximou-se do rapaz que se encontrava deitado na cama. – Sente-se bem? – Pergunta calmamente com a gentileza de uma mãe.
— Sim, obrigado. Só preciso de descansar. – Tranquiliza a senhora com a voz abafada. Tencionava passar o resto do dia em silêncio, com os seus próprios pensamentos até conseguir achar uma solução para salvar a sua amada.
— Peço desculpa incomodá-lo, senhor. Mas têm visitas. – Oliver suspirou e levantou-se da cama com pouca vontade para conviver. O seu único pensamento era descansar os pensamentos e a mente. Nada mais. O rapaz descia o corrimão de ferro devagar e com poucas forças. Eram poucas as vezes que recebia visitas e, por esse motivo, devia de ser importante o motivo da tal visita surpresa. Assim que desceu completamente as escadas, movimenta-se até à entrada da casa onde a sua visita esperava por ele. Até não ver quem era não mostrava qualquer tipo de emoções na sua face mas ao ver um rosto amigo conseguiu esboçar um pequeno sorriso.
— Maya! O que você faz aqui? – Pergunta mais entusiasmado do que estava a alguns minutos atrás. No entanto, a sua animação desaparece aos poucos depois de ver a fase preocupada da garota.
— É a Elienor! Não a encontro em lado nenhum…! Preciso de ajuda, Oliver. – As palavras saiam muito rápidas para ele perceber o que ela lhe queria comunicar. À medida que falava, mais confusão ele sentia.
— Tenha calma. Respire fundo e acalme-se… — Maya seguiu as ordens de Oliver com rigor e conseguiu facilmente se acalmar do estado de euforia que se encontrava.
— Há dias que não tenho notícias de Elienor. Não desde a morte da sua mãe… — O loiro lembrou-se então, da execução de Odete, da exagerada reação que Ladybug tivera àquela tragédia. Poderia ser? Ou não? A confusão desta vez estava dirigida agora a teorias que não batiam certo.
— Muito bem, eu irei a ajudar. Prometo, Maya. Me indique onde é a sua casa. – Explica, aplicando a mão sobre os ombros sobre a rapariga escura. – Haveremos de a encontrar, tenho certeza. – Maya assentiu com a cabeça enquanto limpava os cantos dos olhos que começavam a lacrimejar. Ela sentia medo, medo pelo que poderia acontecer à sua melhor amiga que, recentemente, quase tudo lhe tinha acontecido.
Os dois rapidamente chegaram à casa de Elienor e começaram logo a procurar por pistas pelo paradeiro da amiga em comum. Perguntaram ao pai se a tinha visto recentemente e ele também admitira que não a tinha visto há algum tempo e só se tinha reparado nisso naquele momento. Os dois não quiseram criticar o homem por tal pois a sua mente estava repleta de trabalho e da dor que a morte da sua amada lhe tinha dado. Oliver nunca pensou que a família de Elienor vivia naquele estado e muito menos naquelas condições desumanas. Sabia agora, com ainda mais enfâse, o motivo de LadyBug lutar tanto por aquela classe social. O estado das casas, o pagamento, a quantidade de comida, a medicação, tudo aquilo era distribuído pelo povo em quantidades bem menores do que a nobreza dizia dar aos trabalhadores. O ódio pelos mais ricos crescia cada vez mais dentro de si e sabia que, se ele não fizer nada, LadyBug iria morrer.
Os dois jovens revistaram o quarto da amiga, à procura de pistas que lhes pudessem dizer onde estaria. No entanto, pouco encontraram. A única coisa que possuía aquele quarto era uma cama medíocre, com a madeira a cair de podre, um pequeno lavatório para lavar a face e as mãos e uma cómoda com uma vela em cima. Não havia nenhum indício de luta, descartando a possibilidade de ter sido levada, e muito menos alguma carta de despedida, também retirando a possibilidade de ter fugido para um melhor país. Todavia a preocupação pela amiga intensificava, apesar de terem um pouco de mais pistas, cada vez mais caminhavam-se por um beco sem respostas. Oliver pensou que o melhor seria se separar de Maya para aumentarem o raio das buscas. Seriam só dois a procurar mas de certeza que haveria mais chance de encontrarem pistas sobre o desaparecimento de Elienor. O loiro encaixava as peças na sua teoria macabra, tentando arranjar algum argumento lógico para que não fosse possível tal teoria. No entanto, era difícil e cada vez mais se convencia que Elienor e Ladybug tinham alguma coisa em comum entre si. Só não sabia o quê.
Os pingos que caiam na pedra fria incomodavam cada vez mais os ouvidos da rapariga morena. O seu estômago queixava-se por falta de alimento, normalmente estava já habituado à privatização de comida mas a quantidade de alimento que davam na prisão era relativamente muito menor. A brisa fria que as pedras deixavam passar deixava a nossa heroína com arrepios. Era muito maltratada naquela prisão. E, todavia, não esperava outro tipo de tratamento naquele lugar. Estar viva já era uma grande sorte.
O seu miraculous deixou de apitar, e consequentemente, passou a ser Elienor. Tikki rapidamente caiu no chão completamente exausta e tentava ao máximo recuperar as suas forças. A morena não conseguia fazer nada para a ajudar.
— Tikki, estás bem? – Perguntou-lhe, enquanto via pequenos movimentos dela que acusavam que ainda tinha forças para se mover.
— Estou bem, obrigada. Só preciso de… Descansar. – Elienor via que Tikki estava completamente de rastos e aquela cena doía-lhe o coração. Queria a confortar, dizer-lhe que iriam sair dali o mais rápido possível – algo que, ela bem sabia que não podia ser verdade. A traição de Chat Noir ainda lhe perfurava amargamente na sua mente, se relembrando o quão idiota tinha sido ao pensar que ele ainda tinha salvação.
— Eli… — a pequena criatura abraça a perna da sua amiga. A pequena criatura conseguia sentir perfeitamente todos os sentimentos da humana – angustia, desespero, medo, raiva e fome. A heroína de Paris estava agora à mercê da nobreza, algo que nunca pensou em acontecer. Mas aconteceu… E sempre que ela pensava nisso, o ódio que sentia por Chat Noir era cada vez mais intensificado.
— Eu consigo… Eu vou conseguir sair daqui. – Elienor mostrava a sua face verdadeira. Não aquela que tem mostrado desde que entrou na masmorra mas sim aquela que melhor se reflete em si. A sua face de Ladybug. – Nós vamos conseguir.
A morena esboça um sorriso fraco para a criatura cor-de-rosa que usava as suas últimas forças para se agarrar à grande perna. O desespero era visível e ela a compreendia muito bem. Começou, então, a preparar um plano de escapatória. Talvez fosse doer mais do que pensava mas ia correr esse risco. Observou o seu redor — uma pequena janela era a única fonte de iluminação naquele espaço minúsculo. Era também a maior fonte de oxigénio e, consequentemente, a sua ligação para a rua. Após tentar fazer um plano na sua mente, sabia que tinha que agir rapidamente ou seria apanhada pelos guardas. Ouviu passos do longe e, retirando dessa informação, viu que tinha que agir depois de os donos de tais passos desaparecerem.
— Tikki. – Sussurrou na esperança de despertar a sua pequena companheira. – Necessito da tua ajuda. – Pede enquanto dá leves toques na pele de Tikki.
— O que… Necessitas? – A pequena tentava ao máximo se levantar, tentava mostrar a Elienor que ainda tinha forças para a ajudar. Todavia, fazia-o com muito esforço. A rapariga sabia que não podia pedir muito dela, e por isso mesmo, talvez o seu plano não resulte. Preferia apodrecer naquela prisão do que fazer Tikki sofrer. Ela é a essência de LadyBug, e como tal, necessitava de a proteger incondicionalmente.
— Deixa estar, Tikki. – Desistiu da sua ideia. – É arriscado para ti e nem sei se vai resultar.
— Diz-me, Elienor. Talvez… Não seja tão arriscado. – A pequenina tentava escalar a perna da morena, numa tentativa de mostrar que conseguia aguentar muito mais.
— Esquece, Tikki. Eu arranjo outra solução. – A primeira ideia de Elienor era pedir à pequena que a transforma-se em Ladybug por uns momentos a fim de obter o ioiô. Se conseguisse tal coisa, talvez conseguisse apanhar as chaves que se encontravam fora da cela.
A pequena não conseguia continuar a conversa. Claro que possuía argumentos o suficientes para lhe mudar de ideias, mas a sua energia estava bastante baixa. Pouco conseguia fazer e Elienor sabia bem disso. Por essa razão, ela começou a tentar arranjar outro plano de fuga. Observou à sua volta, à procura de alto suficientemente comprido para usar. Conseguiu encontrar um osso velho, talvez de um dos antigos prisioneiros ou da pouca comida que têm dado. No entanto esse objeto encontrava-se distante e a única forma de o recuperar proporcionava dor a Elienor. A sua ferida pingava pequenas gotas de sangue mas era o suficiente para lhe doer, ainda mais se esticar o braço. Mas ela sabia que era a única opção de sair dali. Se o conseguir apanhar, talvez consiga destruir as algemas que lhe circulavam os braços e as pernas. Suspirou fundo e esticou o braço o máximo possível, deixando sair alguns gemidos de dor. Só naquele momento é que se apercebeu o quão perto os passos estavam. Conseguia sentir a pressão enquanto o som se intensificava e ela tentava chegar ao osso com bastante dificuldade. Os passos eram leves, talvez de um soldado desarmado ou até mesmo de Eric Dubois. Os mesmos aproximavam-se cada vez mais, deixando Elienor sem escolhas senão desistir de apanhar o seu osso.
A porta abriu-se aos poucos e ela começou a ficar nervosa. Porquê a visita repentina? Será que iria ser executada agora? Todas estas perguntas a deixavam extremamente nervosa até ao momento de conseguir ver quem tinha aberto a porta. A escuridão era imensa e, por isso, não conseguia ver bem a pessoa até a mesma se aproximar do freixo de luz. O som dos passos eram os mesmos e quando Elienor viu quem era, os seus olhos arregalaram-se. Um indivíduo com um bigode e uma face que continha traços de ser asiático.
— Ladybug… Vim aqui para te ajudar. – O homem parecia simpático, no entanto, a rapariga não conseguia confiar nele assim tão facilmente.
— Quem é você? – Gritou enquanto protegia e escondia Tikki nos seus braços. O pequeno homem riu animado.
— Podes-me chamar de Mestre Fu.
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