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5 Engano
Notas iniciais
Pouco tempo se passou depois do sucedido. Elienor e o pai tentavam ao máximo restabelecer o equilíbrio em casa depois da execução de Odete. O pai trabalhava o máximo que podia, desde o nascer do sol até anoitecer, deixando o trabalho doméstico para Elienor. A rapariga agora continuava a sentir-se presa devido às suas inseguranças e medos. A conversa que teve com Chat Noir parecia mais distante e já não lhe dava tanta força como dantes. Ela sabia que precisava de descansar… Mas não podia. Não agora quando os níveis de criminalidade aumentavam significamente. Era constantemente chamada para fazer o trabalho sujo dos guardas-civis e, enquanto isso, o trabalho em casa arrastava-se cada vez mais. Mas a quem poderia recorrer? Não tinha ninguém com quem pudesse partilhar o seu segredo.
Elienor suspirava pesadamente enquanto limpava o suor da testa.
— Acabei, finalmente, de limpar a casa! – A menina senta-se na cadeira completamente esgotada. Do teto desceu a kwami que lhe pertencia.
— Bom trabalho, Tikki. Obrigada por teres limpo os cantos onde não chegava. – Elienor retira assim uma bolacha, que tinha guardado, do seu bolso.
—De nada Elienor. É o mínimo que podia fazer! – Esboça um grande sorriso e depois dá uma grande dentada no doce que lhe foi entregue.
Elienor observava alegremente a sua amiga a comer. Era raro ver o kwami se movimentar tão livremente pela casa devido à presença de sua mãe — que, obviamente, era constante — e como tal tinha que andar quase sempre escondida – ou no cabelo da moça ou até mesmo nas suas vestimentas que eram relativamente largos.
— Que se passa, Elienor? – Mastiga o último pedaço da bolacha e esboça outro sorriso mais satisfeito.
— Deve ser difícil para ti, Tikki. Dantes não deves ter tido nenhum espaço de liberdade mas, agora que a minha mãe não está, já podes andar livremente. – Desabafa melancolicamente. Esboçou um pequeno sorriso com a intenção de não preocupar a pequena amiga com a sua observação. Todavia não foi possível. Pequenas lágrimas escorreram dos seus olhos ao se relembrar do que se sucedeu. Para as esconder tapou a cara com as duas mãos. Não queria que ela visse o seu estado deplorável e lastimável.
— Eu estou bem… Eu estou bem… — murmurava enquanto sentia pequenas caricias no seu cabelo e nas suas pontas dos dedos. Apesar de dizer que estava bem o seu coração partia-se a cada dia que passava. Por mais tempo tinha que aguentar aquela farsa? Por quanto mais tempo tinha que esconder aquilo que estava a sentir? Nem despedir da sua mãe conseguiu. O seu funeral nunca se veio a realizar. Nunca é entregue à família o corpo de uma execução como aquela. Não por ser desprezível, mas sim, para mostrar como aquela mulher tinha morrido. O quão significava aquela morte para França: Traição. Tinha morrido como alguém capaz de trair o grande reino que amava. Naquele momento, o seu corpo jazia agora numa vala comum. E só esse pensamento igualava a saudade que sentia por ela.
—------------- Mansão Dubois —-------------
Oliver remexia os seus vegetais enquanto pensava nas semanas anteriores. Todo o caos, toda a mágoa, toda a perda que ocorreu em tão pouco tempo que passou. Tudo graças ao seu querido pai – que contra a sua vontade — tinha que manter contacto. O rapaz tinha-o visto ao pé do patamar, todo confiante e sem qualquer pingo de humanidade. Aquele que se nominava de Eric Dubois não era uma pessoa e sim um monstro. Infelizmente, o loiro não podia fazer nada contra o seu parente. Era uma marioneta nas suas mãos e só como Chat Noir é que podia lutar contra ele.
— Senhor Oliver, por favor, acabe a sua refeição. – Uma voz fina e feminina chamou-o à atenção. Era uma das empregadas que estava encarregue pelo serviço das refeições.
— Perdi o apetite. – Oliver levanta-se do seu cadeirão e arrasta-a a ponto de fazer um pequeno ranger. Com um pouco de força, atira o guardanapo para cima da mesa e sai da grande divisão, deixando os seus subordinados em choque com a sua reação repentina.
— Grande espetáculo, “senhor” Oliver. Dou lhe um 9 de 10. – Brinca com entusiasmo a pequena criatura preta. O rapaz tenta olhar fixamente o seu amigo com olhos acusadores mas acaba por perder aquela batalha e deixa-se levar pela animação daquele kwami.
— Plag, só tu para não veres o que se está a passar. – Oliver atira-se para a grande cama que se situava no seu quarto. Necessitava de descansar um pouco já que, como Ladybug, ele tinha feito um trabalho extraordinário esta semana.
— A cidade está um caos. Grande mudança. – Brinca, novamente, com a situação enquanto coloca outro pedaço de camember na boca. O loiro só teve energias para revirar os olhos. Desviou o olhar do seu amigo e fixa-se no teto e nos seus pensamentos.
“Ladybug deve se sentir devastada” “Ladybug trabalhou muito esta semana..” “Ladybug… Ladybug”. Era tudo o que o rapaz poderia pensar – na sua amada. Prometeu a si mesmo não se intrometer na explicação da reação que a heroína teve. Todavia sempre achou muito estranho tal alarido por uma única cidadã. “Talvez sejam mesmo parentes… “ Com essa afirmação, os seus pensamentos voltaram-se para outra pessoa – Elienor. A rapariga poderia estar devastada naquele momento. Apesar de não a ter visto no público, decerto, já tinha conhecimento do que aconteceu. Podera, era a sua própria mãe. De certeza que estaria de rastos.
— Não ias descansar? – Pergunta Plag depois de ver o seu amigo se levantar da cama e se dirigir a uma das grandes janelas que existiam no seu quarto.
— Preciso de ver Elienor… Mas como? – Pensou alto. Não poderia aparecer de repente sem qualquer tipo de convite. Seria indelicado.
— Não olhes para mim. Ainda não acabei o queijo. – A pequena criatura lambeu os beiços enquanto contemplava outra fatia da sua iguaria favorita. Oliver rapidamente olha para o seu companheiro, dando-lhe uma ideia instantânea.
— É isso! – Plag olha-o com certo medo e receio.
— Oliver! – A voz suou por todo o grande corredor e interrompeu a ação do loiro. O mesmo encontrava-se de frente à porta de entrada a preparar-se para a abrir. Todavia, mal tinha ouvido a voz do seu pai, o seu corpo estremeceu e ficou à espera nervosamente do que o seu pai lhe iria dizer.
— Passa-se algo, meu pai? – Perguntou nervoso enquanto o burguês descia as escadas calmamente. Tudo aquilo deixava-o ainda mais nervoso. O que será que lhe iria dizer? Iria o proibir de sair?
— Não estarás a sair muito, meu filho…? – Com o corpo direito e uma compostura perfeita, Eric começava a pressionar o pobre rapaz. A sua voz e o olhar que dava era o suficiente param tal.
— Me desculpe, pai. Mas terei que tratar de uns assuntos pendentes. – Tentava ao máximo não olhar para o seu pai. Caso o fizesse, perdia qualquer tipo de força de vontade para sair daquela casa.- Com licença… — diz rapidamente ao abrir a grande porta.
Dubois observa o próprio filho a correr em direção ao portão que estava logo ligada à rua. Ficou alguns minutos a olhar para a frente até ser chamado por um empregado.
— Peço desculpa por incomodá-lo, senhor Dubois, mas chegou uma carta para si.
O homem dá meia volta e fecha a porta com força.
Elienor ocupava-se com os trabalhos domésticos. Encontrava-se agora no grande mercado onde tinha que comprar alguns ingredientes para fazer as refeições. O costume: batatas e pão. Infelizmente, o povo não tinha dinheiro para muito mais. Todo o dinheiro que conseguiam juntar era distribuído pelos impostos e era pouco aquele que chegava para a alimentação. Ninguém conseguia se queixar.
A rapariga morena olhava atentamente para o ambiente animado que estava à sua volta. Não queria correr riscos, muito menos depois do grande aumento da criminalidade que se fez sentir. Ninguém estava agora seguro, não enquanto ela estava ali cercada pelos olhos do público.
— Cuidado!
Uma carruagem com um cavalo assustado aproximava-se a uma velocidade alucinante. As pessoas fugiam o mais rápido que conseguiram enquanto outras protegiam as mercadorias. Elienor encontrava-se no meio da confusão e via os animais a se aproximarem. Não se conseguia mexer. Não encontrava forças no seu corpo para sair do sítio. “O que está a acontecer comigo?!”
— Senhorita? – Uma voz masculina fê-la abrir aqueles olhos que fecharam com medo. Aos poucos via-se nos braços de um jovem rapaz com olhos verdes que começava a reconhecer.
— Chat Noir? – Pergunta-se a si própria, intrigada pelo fato do rapaz estar ali. Olhou à sua volta e viu que Chat Noir fez das suas – estavam num telhado. Suspirou profundamente e afastou-se rapidamente dos braços dele. Aquele herói não tinha qualquer interesse nos olhos de Elienor. Não ao contrário de Oliver, aquele rapaz que ela sempre gostou.
— Peço imensa desculpa, senhorita. Sou… — começou a apresentar-se.
— Chat Noir, eu sei. Ou melhor, toda a França sabe. – O seu tom era meio rude mas o rapaz só esboçou um sorriso. – Elienor… Obrigada… por me ter salvo. – Agradece, finalmente.
— É o meu dever, senhorita.
O vento soprava gentilmente e o ambiente estava ameno. De lá cima conseguia-se ver o animado mercado assim como também o ouvir. Era um barulho tal que preenchia as ruas ao seu redor. Mas isso era a vida do povo — barulhenta mas calma e confortável.
Elienor perdeu-se em pensamentos e Chat Noir reparou em tal. Gostaria de perguntar pela sua situação mas como poderia?
— Passa-se alguma coisa? – Pergunta nervoso. Ninguém proferiu nenhuma palavra até a morena dizer algo.
— Como consegue, Chat Noir? Como consegue manter a sua compostura quando Paris está à beira da destruição? – Fez uma pausa e suspirou. – Eu não aguentaria. É muita responsabilidade para uma só pessoa.
O garoto inclinou a cabeça. – Uma só pessoa? Mas eu tenho Ladybug! Acredite em mim, Elienor. Se não fosse pela companhia de Ladybug eu tinha caído em desespero. – Voltou o seu olhar para o céu que continha algumas nuvens. – Não é uma tarefa fácil. Por vezes sinto-me um completo inútil. – Sorri alegremente como uma criança. – Mas eu sei que não sou inútil enquanto tiver LadyBug ao meu lado! Eu sou forte e ninguém me pode vencer.
Elienor levanta uma sobrancelha, um pouco duvidosa da declaração tão repentina daquele rapaz. No entanto, depois de alguns minutos com um clima um tanto tenso, a rapariga ri. Depois de semanas, Elienor finalmente riu. Conseguiu rir depois de tudo o que aconteceu. E fora Chat Noir a dar-lhe aquele riso. O herói que pensava que era uma cabeça no ar, um convencido e pervertido, era a razão que a fazia rir naquele momento.
— Disse algo errado, senhorita? – Pergunta confuso sem saber o que dizer.
— Não, nada. – Responde-lhe enquanto limpava as lágrimas que tinha depois de tanto rir.
Chat Noir e Elienor olharam-se fixamente e fez-se uma grande pausa. O casal entreolhava-se e, consequentemente, os seus corpos aproximavam-se cada vez mais. Estavam tentados a continuar apesar de tudo contra eles. As faces ainda mais perto permitiam sentir o toque leve da respiração do outro. Estavam cada vez mais perto de um beijo mas pararam de repente.
Desviaram o olhar com um tanto de vergonha tornando o clima cada vez mais tenso. Foi o rapaz que teve que interromper o silêncio entre eles.
—Desculpa… Eu… Tenho alguém de que gosto. – Confessa meio envergonhado pelo que ia prestes fazer. Os seus impulsos iriam-lhe pregar uma peça se não fosse pela sua força de vontade. Onde é que ele tinha a cabeça?
— É… Eu também. – Confessa a rapariga um tanto ruborizada. Abriu um pequeno sorriso ao perceber o quão idiota iria ser se continuasse com aquela farsa. Chat Noir não era Oliver e nunca será. Quem verdadeiramente amava era o rapaz de cabelos loiros que trabalhava honestamente.
— Excelente! – O burguês finalmente sorriu. Um sorriso vitorioso após saber do conteúdo da carta. Finalmente, depois de todos aqueles anos, o seu plano iria começar. – Enfim… O plano Hawkmoth pode entrar em ação. – O seu sorriso espalha-se por toda a divisão da sala de estar. A carta fora colocada na lareira para eliminar qualquer tipo de provas que o pudessem acusar daquilo que iria fazer.
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