Urameshiya!

2 When Will I die?


Notas iniciais
Inspirado na lenda urbana "Kokkuri-san".

Fazia meses que não tínhamos uma noite fria daquele jeito.

Eu estava com nada mais nada menos que uma blusa, um moletom e dois agasalhos. Daria tudo para deitar em minha cama quentinha, embaixo de toneladas de cobertores. Mas eu não iria fazer isto naquela noite. Aquela seria uma noite diferente, e eu já a estava esperando há quase um mês. Naquela noite, eu ia dormir na casa da minha amiga Kaya.

Ou melhor, pelo visto dormiria na porta da casa da minha amiga Kaya, porque já tinha tocado a campainha quatro vezes e ninguém atendia. O tempo se passava, juntamente com a minha paciência, e eu estava prestes a começar a esmurrar a porta quando a voz dela perguntou, do outro lado da porta:

- Quem é?

- Mitsu Watanabe! – Respondi, com a frustração estampada na voz – Quer abrir logo a porta, Kaya?

- Já vai...

“Já vai”. Belo jeito de dizer “Só depois que você virar uma escultura de gelo”, por que até ela achar a porcaria da chave para abrir a porcaria da porta, já tinham se passado mais uns cinco minutos. Mas enfim, a porta foi aberta.

- Foi fabricar a chave? – Perguntei, ao entrar. Tirei meus agasalhos e os pendurei no mancebo.

- Esperar no frio foi seu castigo. Nós tínhamos combinado às 19h, e você só chegou às 19h30. – Kaya respondeu – Eu e a Ichimi já estávamos achando que você não vinha mais.

- Ichimi?! Mentira que você convidou a Ichimi para dormir aqui também!

- Convidei sim. E daí?

– Ela é... estranha.

- Fala mais baixo, gênio. Ela está nos esperando no meu quarto, e pode nos ouvir. – Ela falou, sussurrando – É, eu sei, tem a questão de que ela vê espíritos e tudo o mais, mas a minha mãe é amiga da mãe dela e me obrigou a convidar. Mas ela não é tão ruim assim. Só é... estranha. Aliás, sabe aquelas meninas que morreram?

- Katsumi Yoshida, da nossa escola, e aquela outra do colegial, Momo Esqueci-o-sobrenome?

- É. Então, a Ichimi disse que elas foram mortas por um espírito.

- Não. Elas foram mortas pelo vaso sanitário. – Respondi com seriedade, apesar de não estar falando sério. Mas era a única explicação que minha mente admitia para a morte de garotas no banheiro.

Kaya riu.

- Tudo bem, cada um com a sua opinião. Vamos para o quarto?

Assenti, e nós fomos. E lá estava Ichimi, sentada na cama de Kaya.

Devo admitir que eu fiquei surpresa quando a vi. Eu imaginava que, fora da escola, ela usava roupas pretas, de bruxa, ou algo do tipo. Mas ao invés disso, ela estava vestida inteiramente de branco e rosa claro. Quando eu entrei, ela sorriu simpaticamente para mim.

- Oi, Mitsu.

- Ah, oi, Ichimi... – Respondi.

- Mitsu, pode deixar a sua mochila em qualquer canto no chão – Disse Kaya – Agora que você chegou, nós podemos ir jantar. Depois nós vamos começar a nossa noite do pijama.

Coloquei minha mochila perto da cama dela, a abri e tirei de lá um embrulho de presente. Então, o entreguei à Kaya.*

- Ah, obrigada. – Ela se curvou rapidamente e aceitou o presente. Então, o pôs sobre sua escrivaninha.

Fomos jantar. A mãe de Kaya tinha pedido pizza. Enquanto nós comíamos, fomos conversando, e conforme a conversa corria, fui vendo que Ichimi não era nada como eu tinha imaginado que ela era. Na verdade, ela era simpática, amigável e gentil, e falava comigo como se eu fosse uma grande amiga dela. Fiquei com a consciência pesando sobre tudo de ruim que eu já tinha pensado dela. Prometi para mim mesma que nunca mais julgaria uma pessoa que eu não conhecesse direito. E me convenci de que não era culpa de Ichimi ver espíritos. Mas nem tocamos nesse assunto.

Depois do jantar, quando voltamos para o quarto, foi que perguntei:

- E então? O que vamos fazer primeiro?

- Que tal “Verdade ou Consequência”? – Sugeriu Ichimi.

- Não. – Eu e Kaya negamos ao mesmo tempo. – Nunca dá certo – Ela acrescentou.

- Ah... Então eu não sei. Nunca dormi na casa de uma amiga antes. – Ichimi disse.

Não me surpreendi. Ela nunca falava com alguém na escola. Ninguém queria ficar perto da garota que era estranha e via espíritos. Fiquei com pena dela.

- Vamos jogar Trip to Candyland! – Falou Kaya.

- Kaya... Nós jogávamos Trip to Candyland quando tínhamos cinco anos – Eu a lembrei.

Trip to Candyland era um jogo de tabuleiro, daqueles com fadas, princesas, e pessoas-biscoito que o jardim da infância joga. E, sim, era um jogo muito bobo, mas Kaya também era.

Meu argumento de nada adiantou. Ela já tinha ido pegar o jogo no armário dela. Ela demorou um pouco para achar, mas quando conseguiu, o trouxe e virou o tabuleiro e todas as peças no chão. Então, ela, eu e Ichimi nos sentamos em volta e começamos a montar o jogo. Fazer o que, não é?

O jogo era ainda mais idiota do que eu me lembrava, e mais eterno do que eu me lembrava. Logo já tinha se passado uma hora inteira e ainda estávamos no maldito jogo. Foi quando eu declarei que já bastava, e me levantei, caminhando até a janela só para me afastar daquilo.

- Ah, Mitsu! Se não vamos jogar isso, vamos fazer o que então? – Kaya perguntou.

- Sei lá! Kokkuri? — Eu sugeri, com sarcasmo e com a voz afetada.

Kokkuri era também um jogo de tabuleiro, mas era muito diferente de Trip to Candyland. Na verdade, não tinha nem comparação. Por que, enquanto Trip to Candyland era um jogo de aventura infantil, Kokkuri era um jogo de invocar espíritos. Ele funcionava assim: Os jogadores escreviam todos os caracteres de Hiragana** num papel. Depois, punham o dedo em uma moeda e perguntavam a data de suas mortes, e um espírito respondia, guiando a moeda para os caracteres, formando as palavras. Muito parecido com brincadeiras ocidentais como a Tábua Ouija.

- Tudo bem! Kokkuri, então! – Respondeu Kaya. Eu não esperava que ela concordasse.

- Hm... Acho melhor não. – Disse Ichimi.

- Por que não? – Eu perguntei. – É uma boa ideia. Vamos! – Sim, sim, eu não queria brincar de Kokkuri de verdade, mas já que eu mesma tinha falado, não ia bancar a covarde.

Kaya logo arranjou um papel e uma caneta, e começou a escrever os caracteres velozmente. Eu franzi a testa ao vê-la escrevendo.

- Melhor você me deixar escrever. Duvido que os espíritos vão conseguir ler a sua letra. – Eu falei. Bom, eu não queria ofender, mas a letra dela era muito feia. Eu, inclusive, se não soubesse que ela estava escrevendo na ordem do alfabeto, não conseguiria ler.

- Ei. – Protestou Kaya – Minha letra é bonita, você que é muito mente fechada para perceber, Mitsu.

- Tudo bem, então. Seu médico me disse para eu não te contrariar. – Respondi, dando de ombros, e assumindo um sorriso maroto.

- Hahaha. Muito engraçado. – Ela falou, sem, no entanto, rir.

Kaya terminou de escrever e pegou uma moeda em seu cofre de porquinho, que estava na escrivaninha ao lado dos presentes que eu e Ichimi havíamos trazido para ela para representar a nossa gratidão por ter nos convidado para dormir lá. Então, acendeu seu abajur e apagou a luz do quarto, deixando o ambiente mais escuro e sombrio.

- Realmente precisa disso? – Perguntei.

- Por quê? Medo? — Kaya provocou.

- Que nada. – Retruquei.

- Kaya, acenda a luz. – Ichimi pediu, com calma – O Kokkuri já é um ritual que irrita aos espíritos, se você desligar a luz, eles ficarão furiosos.

- Bobagem. – Kaya respondeu, e se sentou diante do tabuleiro improvisado, com a moeda. – Então? Podemos começar?

Eu e Ichimi nos sentamos ao lado dela e também pusemos nossos dedos na moeda. Nós duas sabíamos que era inútil discutir com ela.

- Temos de começar certo, para não deixá-los mais irritados ainda. Deixe-me começar, então. – Disse Ichimi.

- Vá em frente. – Induziu Kaya.

- Kokkuri-san. Você está disponível, Kokkuri-san? – Ela perguntou, delicadamente. De repente, tive um espasmo. Sinistro.

- Posso perguntar primeiro? – Kaya pediu.

- Claro. – Confirmou Ichimi.

- Kokkuri-san, quando eu vou morrer?

A moeda começou a disparar pelo papel. Nenhuma de nós três parecíamos assustadas, apesar de Ichimi parecer um pouco aborrecida. Mas, apesar de não ser eu quem fazia, eu sabia que uma das duas era quem estava trapaceando, guiando a moeda.

Logo a data foi dita: “Ano 2012, mês sete, dia cinco”. Mais conhecido por amanhã.

Eu era amiga de Kaya desde os seis anos de idade, e tínhamos catorze. A conhecia tempo suficiente para saber que ela estava assustada, apesar de fingir não estar.

- Mas que besteira! – Ela declarou, e se levantou. – Querem saber? Não quero mais.

- Entendo você. – Disse Ichimi solidariamente. – Mas sente-se para terminarmos o ritual direito.

- Eu não quero terminar isso direito! Eu... só quero ir dormir. – Falou Kaya, com a voz chorosa.

- Kaya – Ichimi falava com a típica gentileza – vai ser pior se não terminarmos o jogo direito. Os espíritos...

- Já até sei. Vão ficar irritados com a gente. Mas eu não quero terminar, e nem vou! – Ela decidiu, e antes que pudéssemos impedir se deitou em sua cama e se cobriu até a cabeça – Apaguem a luz quando terminarem.

- Mitsu. Eu não posso fazer algo se ela não quer, mas vamos terminar nós duas. – Falou Ichimi.

- Certo. – Concordei. Então, nós despedimos dos espíritos e nos livramos do papel, da caneta e da moeda.

Depois disso, apagamos a luz e também fomos dormir.

*********

No dia seguinte, quando acordei, Ichimi já estava acordada, arrumando sua mochila para ir embora. Olhei em volta procurando Kaya, mas ela ainda estava em sua cama, dormindo.

- Bom dia, Mitsu. – Ichimi me cumprimentou, ao ver que eu tinha acordado.

- Bom dia – Respondi, falando baixo para não acordar Kaya. Depois me levantei, peguei minha roupa na minha mochila e fui ao banheiro me arrumar.

Quando voltei, Ichimi já tinha terminado de arrumar as coisas dela, mas sorriu para mim e disse:

- Vou esperar você para irmos embora juntas.

Agradeci e comecei a arrumar as minhas coisas. Quando acabei, peguei minha mochila e perguntei:

- Você acha melhor acordarmos Kaya para dar tchau para ela?

Ichimi apenas assentiu.

Me aproximei da cama dela e comecei a chamar pelo seu nome, mas ela não respondia. Como eu não era muito paciente, puxei seu cobertor para ela acordar.

E vi apenas seu corpo, banhado por seu próprio sangue.

Eu fiquei horrorizada, mas Ichimi, que tinha se posto ao meu lado, parecia ainda muito calma, como se já esperasse isso.

- Eu não falei que os espíritos se irritam quando não terminamos o ritual direito? É por isso, Mitsu, que não podemos brincar com essas coisas.

Notas finais
*No Japão, quando alguém é convidado para ir à casa de outra pessoa, por educação sempre leva um presente.)
**O Japão tem três tipos de escrita: O Hiragana, que é o mais básico. O Katakana, que é apenas para onomatopeias e palavras estrangeiras. E o Kanji, que é o mais complicado, tendo mais de 6.000 caracteres.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.