Up all night I won't quit
12 [BEANDI] - Capítulo 2
Era a primeira vez que eu sentia algo assim.
Medo. Curiosidade. Euforia. Tudo ao mesmo tempo.
Assim que saí do castelo, ouvi as vozes de meus amigos não muito longe. Segui o som, e os encontrei indo em direção a fenda que eu tinha entrado. Yas, que era a segunda mais baixa, tentava passar por ela.
— Ei, de onde você veio? — Jay me viu primeiro. Ele havia parado de gravar, porém ainda segurava o celular prontamente.
Skye e Yas tornaram a olhar para mim também.
— Eu... Consegui achar uma saída lá pela frente. É ainda menor que essa, nem adianta tentarem — a mentira passou mais rápido pelos meus lábios que pela minha cabeça. Por que eu tinha mentido?
E por que contar a verdade parecia, em meu subconsciente, uma sentença de morte?
Skye ainda me olhava com desconfiança. Yas apenas deu de ombros e limpou as mãos esfregando uma na outra.
— Bom, nós tentamos — disse e começou a fazer o caminho de volta. Jay foi atrás.
Eu os segui, mantendo o máximo de naturalidade. Skye se pôs ao meu lado e dava para notar de relance que elu me encarava.
— O que foi? — perguntei, por pouco não gaguejando.
— Eu sei quando você mente. Você pisca mais vezes — respondeu, o semblante mais sério do que elu jamais esteve.
— Impressão sua.
— Bea, seu pescoço está com hematomas. Pequenos, mas estão aí. Aconteceu algo ruim? — sua expressão mudou para preocupação. Skye podia ser inconveniente as vezes, mas sempre foi fiel aos seus amigos. A gente.
Eu sorri.
— Não é nada demais. Tinha alguém lá dentro, mas eu consegui sair... E não sei onde a pessoa foi — era o melhor que conseguia dizer. Não era total verdade, nem total mentira.
— Hm. Sabe que estamos contigo para o que precisar né? — elu me abraçou de lado e bagunçou meu cabelo com a mão livre, e eu ri.
— Sei. Sei sim.
***
Decidimos não postar o vídeo do castelo. Skye tinha me ajudado a contar que eu não me sentia confortável em postar, e que quando estivesse confortável de novo iríamos todos juntos. Jay e Yas entenderam sem problemas. Afinal, não era o primeiro vídeo que desistíamos de postar.
A história da mascote da universidade que o diga.
Nos dias seguintes, tentei ignorar o acontecimento daquele dia. Eu tinha voltado a ser Beatriz, estudante de Artes cênicas, colega de quarto de Yasmin, estudante de História, que gostava de ler fanfics, ver doramas e escutar Katy Perry em qualquer oportunidade.
Yas era a amiga que não imaginava que teria, por termos personalidades bem diferentes. Eu gostava de todas as cores, ela só de preto e marrom. Eu ouvia Twice, e ela Dreamcatcher, e por aí vai. Além da cicatriz sinistra que ela carregava no olho direito, que era de uma íris e esclera de cor azul leitosa, contrastando com o olho esquerdo que era castanho. Ela me contou depois de muito tempo que tinha sido um cachorro que a havia arranhado e ela perdeu a visão do olho esquerdo, mas eu não achava que isso era totalmente verdade.
Skye vivia com ideias de próximos vídeos que poderíamos roteirizar e compartilhar, e por alguma força maior do universo tínhamos entrado em semana de prova e não seria possível ter tempo para nós quatro ao mesmo tempo gravarmos. Elu ficou decepcionade no começo, mas logo aceitou e voltou a falar de coisas de nerd de música e como odiava ter que aprender a tocar violoncelo por ordem dos pais.
Jay era o mais tranquilo de todos nós. Ele nunca reclamava das coisas, mas tínhamos certeza de que ele julgava tudo e todos consigo mesmo. Como um estudante de Direito, era certo a cautela em escolher o que dizer ou fazer. Jay foi o último a entrar em nosso grupo, e ele acabou sendo a calmaria que estávamos precisando.
Depois de longos três dias estressantes fazendo minhas provas práticas e teóricas, eu estava livre por um dia. A primeira coisa que tinha decidido fazer assim que cheguei em meu dormitório e me joguei na cama foi procurar pelo castelo em hashtags no TikTok.
De fato, algumas pessoas tinham sim tentado entrar lá, e algumas até conseguiam, mas sem mencionar ninguém que morava lá. Para eles, era só uma construção abandonada afetada pela passagem do tempo.
Não iria desistir tão fácil. Procurei por todas as outras redes sociais que eu tinha – inclusive Pinterest – sem sucesso.
Quando estava quase admitindo derrota pelos algoritmos, Yas entra no dormitório com um sorriso no rosto.
Isso não era comum.
— O que rolou? — perguntei, me levantando para ficar sentada na cama, o celular passando o vídeo de alguém ensinando a retocar mecha de cabelos coloridos.
— Vi Fran escorregando no piso molhado — ela não se aguentou e começou a rir, e eu também.
Não me leve a mal, Fran era uma querida. Ela cuidava do jornal da universidade, e era como nossa Barbie. Ela raramente errava em algo.
E aqui estava, Yas me contando que ela tinha escorregado e caído.
Rimos por longos segundos até ela recuperar o fôlego.
— O que vai fazer hoje? Só tenho mais uma prova amanhã, tô pensando em ir no clube de vôlei — Yas tinha jogado sua mochila em um canto e pego outra bolsa que era onde guardava suas coisas de esporte.
— Pensando em sair por aí. Sei lá. Espairecer a cabeça. Minha cabeça tá pesada de tanta prova feita — eu peguei meu travesseiro para brincar com as pontas da fronha.
— É... Bem-vinda a vida adulta — ela debochou, e eu joguei meu travesseiro com toda a força nela.
Assim que o travesseiro a atingiu, ela me olhou com uma irritação divertida e me jogou o travesseiro de volta. Dei um grito tentando me defender estendendo meus braços, e consegui.
— Quem é a boa no vôlei agora? Acabei de fazer um bloqueio de sucesso — brinquei, e ela estava prestes a me jogar sua bolsa inteira em minha cabeça quando desistiu de repente.
— Tanto faz. Estou indo lá, até depois — ela pegou sua bolsa e acenou.
— Até! Diz para Chloe que mandei um oi.
Vi um positivo com a mão antes da porta ser fechada.
Deitei na cama com um suspiro, e, depois de 20 minutos de TikTok e mais 10 de Twitter, decidi que iria voltar ao castelo. Sozinha.
Por que se eu consegui sair viva de lá na primeira vez, eu conseguiria sair na segunda certo? Eu não precisava contar isso aos meus amigos, até porque sabia que eles não me deixariam ir. Eu sabia o que era melhor para mim, e o melhor para mim agora era descobrir qual era daquela pessoa. Era alguém tentando me pegar uma peça? Ou estaria ela falando a verdade?
Peguei meu celular, meu carregador e a chave do dormitório, o trancando assim que saí. Sabe-se lá quando Yas voltaria, sempre era bom garantir. Comecei meu caminho de volta para o castelo, tentando ao máximo não me perder.
Eu não era a melhor pessoa com direções, mas eu estava me esforçando. Pesquisei no Maps, coloquei na visão de satélite e segui a rota que aparecia. Quando cheguei na frente da construção, a lua já se erguia no céu limpo. Era uma noite bonita e eu conseguia ouvir as corujas e as folhas das árvores farfalhando.
Analisei o castelo por fora, e até tirei uma foto da frente. Parando para pensar, essa já foi a moradia de alguém muitos anos antes. Eu me perguntava que pessoas moravam por aqui...
Procurei pela fenda que consegui entrar outro dia e lá estava ela, a tábua jogada no chão que acredito que Yas tinha esquecido de devolver na parede. Me encolhi e passei por ela.
Visitar o castelo durante a noite era muito mais sinistro que de dia. O corredor era um breu completo, e o próprio salão só era possível enxergar seus entornos com a luz da lua que passava pelas janelas quebradas. Em uma hora, tive certeza de ver uma coruja ou algum pássaro sobrevoando uma das janelas mais altas, como se procurasse por algo dentro.
Com certeza aqui devia ser moradia de alguns bichos como guaxinins, corujas e até cobras se duvidasse. Não era só a flora tomando seu lugar, a fauna estava também.
— Olá? — minha voz ecoou por todo o castelo. Até cheguei a pensar que estava em um filme de terror.
Bom, dependeria do final que eu teria essa noite.
— Olá? — repeti. Sem resposta.
Comecei a explorar o castelo até onde conseguia. Procurei por algo detrás das cortinas, tentando abrir portas e forçando os candelabros das paredes em busca de alguma passagem secreta. Em um deles, até terminei de quebrá-lo sem querer. Decidi deixar no chão em um canto e seguir explorando.
A esse ponto, até tinha me esquecido do meu celular. Eu estava me entretendo com o que poderia encontrar por ali e na esperança de encontrar a pessoa de volta.
Sei lá, vai que ela estivesse de bem humor dessa vez?
Senti aquele arrepio familiar de novo quando tentava abrir duas portas duplas que me chamaram a atenção. Ao me virar, lá estava elu com os braços cruzados.
— O que faz aqui? — perguntou em alto e bom som.
Queria eu ter essa presença na hora de apresentar seminários...
— Oi! Sou a Bea, lembra? — Estendi a mão para elu. — A que você tentou matar — disse sarcástica. Espero que elu notasse que era só sarcasmo.
— Não foi isso que perguntei.
Recolhi minha mão, guardando-a no bolso da calça. Estendi a outra em direção as portas.
— O que tem do outro lado?
Elu me olhou nos olhos, parecendo procurar por algo. Não consegui sustentar seu olhar por muito tempo sem sentir minhas bochechas esquentarem.
— Nada da sua conta — respondeu, e começou a andar para o lado contrário de onde eu tinha vindo.
Então fiz o que qualquer pessoa sensata faria: eu a segui.
— Pare de me seguir.
Eu a ignorei. Comecei a prestar atenção em como seus passos eram silenciosos e que elu tinha um perfume cítrico.
Em segundos, eu estava caindo e batendo minhas costas com tudo no chão. Elu tinha acabado de me dar uma rasteira.
— Posso pelo menos saber seu nome? — questionei depois que consegui me levantar. Uma dor chata latejando em minha lombar.
Sem resposta.
— Seus pronomes então? — continuei.
Estávamos chegando em uma área aberta... O jardim dos fundos do castelo. Apesar da natureza estar tomando conta de toda a construção, dava para notar que o lugar já tinha sido um dia um jardim bem-organizado. Havia flores secas por todo o chão e fiquei chateada por elas. Deviam ser lindas.
— Não me importo com isso — elu respondeu.
— Ah, ok! Vou te chamar por qualquer um então.
Continuamos o caminho em silêncio. Eu olhava para todos os lados procurando por algo que pudesse reconhecer ou que eu pudesse pesquisar sobre depois. Vendo tantos castelos em filmes, esse era o primeiro sem obras de arte nas paredes e brasões em cortinas e bandeiras.
— A quanto tempo você... — comecei e fui interrompida por um resmungo.
— Por Deuses o que você quer? — elu se virou, seu olhar de irritação me dava calafrios.
— Eu... não sei bem. Queria voltar aqui para ver você e saber mais coisas desse lugar, mas se não foi possível eu posso ir embo...
— Isso! Faça isso mesmo e não volte.
Suspirei, tomei coragem para olhá-la nos olhos levantando o queixo. Elu devia pelo menos ser uns 15cm mais alte que eu.
— Tudo bem — e dei meia volta.
Pelo menos eu tinha tentado. Eram mais palavras trocadas que da última vez, isso já era uma conquista.
Voltando pelo corredor, procurei por qualquer coisa que pudesse ter perdido na vinda. Encontrei uma tapeçaria escondida em meio as ervas-daninhas que cresciam entre as pedras da parede.
Nela tinham três figuras: duas delas, uma de cabelo ruivo e outra de cabelo castanho se distanciavam do castelo. Uma outra, estranhamente semelhante a pessoa que eu conversava até segundos atrás, parecia olhar para as outras duas se distanciando.
Analisando bem, eu conseguia enxergar uma outra figura ruiva ao longe, parecendo dormir. Guardei tudo isso em minha mente. Poderia ser útil depois.
Ao chegar no salão principal, senti o calafrio em minha nuca.
— Andi — eu escutei.
— O quê? — perguntei assim que me virei. Elu suspirou.
— Pode me chamar de Andi.
— Ahh — eu sorri. Finalmente, eu tinha como chamá-la agora. — Prazer, Andi.
A porta da frente se abriu com um rangido. Eu corri para chegar do lado de fora, mas ainda tinha algo a perguntar.
— Posso vir aqui...
— Não. — E a porta se fechou na minha cara.
Espera. Elu estava longe, não tinha como abrir e muito menos fechar a porta, e a mesma coisa aconteceu naquele dia.
Ai... Meus... Deuses. Andi tinha poderes, ou mágica... Ou os dois!
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