Up To No Good

10 Natal com os Malfoy


Notas iniciais
Boa leitura!

Charlotte arrumou as malas, aliviada. Era bom dar um tempo na temporada de quadribol depois de um jogo tão difícil contra a Grifinória. Não gostava de se lembrar dos acontecidos daquele dia além da sua vitória. Só a lembrança do sorriso de Fred a fazia fraquejar e isso era perigoso. A forma como quase perdeu o jogo por causa de um garoto era vergonhosa. Sua vontade era sair correndo e se esconder do mundo, com medo do que seu pai e a alta sociedade do mundo mágico pensariam. Na verdade, ela adorava a sensação que a lembrança trazia. A insegurança da presença dele, o perfume forte e aconchegante que ela sentia quando o rapaz chegava perto, aquele sorriso irônico, idiota e irritante... Largou esses pensamentos tolos para se concentrar em sair logo dali e encontrar quem realmente merecia sua atenção.

O salão comunal da Sonserina estava quase vazio. A maioria de seus colegas já havia partido, mas ela sempre preferia ir na manhã de Natal, pois era quando Scorpius pegava o trem. Enquanto saia em direção à porta, foi surpreendida por uma mala encantada que voou em sua direção, derrubando-a. Não seria um dia normal em Hogwarts se não topasse com um Weasley.

- Ah meu Deus, Charlotte, você tá bem?

A ruivinha parecia mesmo preocupada. Se abaixou para ajudar Charlotte, que deu um tapa em sua mão cheia de raiva por ter sido chamada pelo primeiro nome. Essa Rose Weasley realmente é uma sem noção. Levantou sozinha e já estava pronta para travar um duelo ali mesmo, não importando as consequências desse ato, mas uma voz simpática em suas costas a fez mudar de ideia.

- E aí, pronta?

Scorpius estava parado na porta, usando um elegante cachecol sob seu casaco da Sonserina, segurando uma mala apenas e a gaiola de sua coruja em cima. Ele nunca levava muito para casa, afinal eram apenas alguns dias. Mas Charlotte fazia questão de levar toda a sua bagagem, pois não confiava em ninguém. Queria ficar mais tempo observando seu sorriso cativante, mas percebeu este sendo direcionado a uma certa cabeçuda atrás dela e então puxou o rapaz para fora.

Correram até o trem que já estava quase partindo – o imprevisto com Rose tinha atrasado os dois, coisa que deixava Charlotte com ainda mais raiva. Se acomodaram na cabine número cinco, como sempre e apreciaram a viagem agradável com chocolate quente e conversas do tipo que Charlotte só tinha com Scorpius, e vice-versa. Viu uma ou outra cabeça vermelha passando pelo corredor. Pegava o trem com eles todos os natais, já havia se acostumado. Por mais que insistisse, Scorpius não queria viajar em outro dia senão na manhã de Natal, então o encontro era inevitável. Mas ela fazia de tudo para evitar a distração, conversando sobre tudo que poderia imaginar para ter a atenção do garoto. Ela havia esquecido como se sentia perto dele. Scorpius era a encarnação da segurança que Charlotte precisava sentir. Com um pai tão rígido e uma mãe que não a compreendia, era normal que precisasse dele para se sentir bem. Não era a toa que estava apaixonada por ele desde a primeira vez que conversaram.

Na porta principal de King’s Cross, dois carros já os esperavam. Como em todos os anos, aquela era a hora de uma despedida temporária. Cada um ia para sua casa ver a família e se preparar para o tradicional jantar de Natal dos Malfoy, que sempre contava com a presença ilustre da família Benningham.

Em casa, recebeu um comprimento formal do pai – que parecia estar de bom humor – e um aceno da mãe, que obviamente não compartilhava da mesma alegria aparente do pai. Charlotte tentou sondá-la, mas não conseguiu nada. Não ligando muito, foi se arrumar. Essa era uma das poucas noites em que Charlotte Benningham procurava ficar linda. Passou horas cuidando do cabelo, que no final foi preso para trás, usou um vestido de gala verde musgo de alças finas novo, junto de uma sandália de salto alto preta. Sobre os ombros, um xale preto de renda terminava o visual. Era uma roupa bastante incomum pra ela, mas valia a pena usar algo especial só uma vez por ano.

Na mansão dos Malfoy, tudo estava pronto e impecável quando a família Benningham chegou. Todos, é claro, estranharam o desânimo de duquesa durante a conversa animada na sala de estar da casa, mas ninguém tratou de comentar. Cansados de escutar o assunto chato dos pais, Charlotte e Scorpius foram ter a própria conversa na varanda da casa.

Ficaram falando de assuntos aleatórios ao luar por alguns minutos e quando o frio finalmente começou a incomodar Charlotte, Scorpius cedeu o casaco do paletó para a amiga. Tudo estava perfeito. Scorpius, sempre muito simpático e interessante, transformava a noite em algo incrível. Charlotte se sentiu muito segura naquele momento para finalmente contar sobre seus sentimentos, mas ele foi mais rápido.

- Sabe, Charlotte... Já faz um tempo que eu gostaria de te contar uma coisa. – Ele pausou por alguns segundos, deixando a menina preocupada. – É que, é algo que eu só posso dizer pra você. Só você vai entender, afinal você me entende como ninguém. – Ela não sabia se ria ou se desesperava pelo que imaginava que ia ouvir. O sonho finalmente se tornava realidade! – Já faz mais de dois anos que eu percebi que gosto de alguém. É meio bobo sabe, ela é tão incrível e inteligente, todos sabem o nome dela. Como ela vai olhar pra mim? Eu pareço ter 10 anos de idade...

- Acho que qualquer garota em sã consciência ficaria lisonjeada de ser essa sua escolhida. – Ela abriu um grande sorriso. – Mas é uma sorte que só uma vai ter.

- Então... Você acha que a Rose vai gostar de saber que eu gosto dela? – Rose? – Quer dizer... A gente mal se fala, mas... – Rose? Rose Weasley? – Eu sinto que ela também tem algum tipo de sentimento por mim. O que você acha?

Isso estava acontecendo mesmo? O rapaz de seus sonhos tinha acabado de contar que estava apaixonado pela garota que era o fantasma da vida de Charlotte? Ela estava mesmo toda arrumada, esperando por uma declaração da maneira mais romântica possível enquanto ouvia ele falar dos planos que tinha com outra? O mundo de Charlotte desabou naquele momento. A garota perdeu seu chão, não soube mais como reagir. Tudo que pôde responder foi “Ela é uma garota de sorte”. Durante o resto da conversa, durante o jantar, durante a volta pra escola. Scorpius falava mais e mais enquanto Charlotte só queria calá-lo. Infelizmente, o Natal daquele ano não foi tão estonteante quanto a tradição mostrava...