Up To No Good

15 Depois da Aula


Notas iniciais
Boa leitura!

A aula de Estudo dos Trouxas nunca foi tão entediante. Charlotte queria sair logo dali para o compromisso de mais tarde no corujal. Por um lado, estava animada com o que poderia acontecer. Odiava admitir, mas sentia falta da companhia do ruivo. Por mais que não tivessem muito contato, o pouco que tiveram foi bem divertido e imprevisível. Uma sensação horrível e que Charlotte estava começando a adorar. Mas também pensava que aquilo talvez fosse uma cilada e que era possível que no lugar de Fred lá em cima, toda a sua família estivesse a esperando para descontar nela a raiva que provavelmente tinham de seu pai. Mas não, Fred não faria isso... Faria? James Potter era o idiota que implicava sempre com ela, Fred nunca tinha lhe feito mal. E o recado tinha chegado nela através de Rose que apesar de tudo era uma boa moça. Teve um arrepio na espinha pensando no que poderia acontecer naquela noite. Lembrar de levar minha varinha. Ao final da aula, foi no dormitório e pegou a varinha. O sol já começava a se por naquele fim de tarde e o frio começava a rondar os campos de Hogwarts. No alto da torre do corujal deveria estar pior.

Subiu as escadas com cuidado para não escorregar na neve derretida. Chegou lá em cima, quase sem fazer barulho e percebeu que Fred já estava lá. O ruivo estava sentado numa das janelas, observando o pôr do sol com uma coruja se alimentando no seu ombro. Mas não era qualquer coruja, era Diana, a fiel escudeira de Charlotte. Sorriu quando viu o rapaz, que ainda não tinha percebido sua presença.

– Bem, estou aqui. – Sem tirar os olhos da paisagem na janela, ele sorriu de leve. Era incrível como aquela luz de fim do dia fazia seu rosto reluzir deixando os olhos verdes ainda mais profundos e intensos.

– Achei que você não vinha. – Ele desceu da janela e caminhou na direção de Charlotte, com uma expressão amigável. – Isso aqui chegou agora há pouco pra você. – Fred entregou pra menina um pacote que tinha chegado com sua coruja. Anexada a ele, uma carta que vinha com o remetente de Elle Lockwood. Os ingredientes da poção do amor! Fred olhava perplexo pra animação da menina com o embrulho, enquanto ela tentava disfarçar. Então lembrou que só aquilo havia chegado, nenhuma carta de seu pai dando explicações sobre o sigilo feito quanto a novidade do novo emprego. Assim, a animação acabou em um segundo. Uma sensação péssima envolveu a menina, que tentou mudar a situação puxando uma conversa bem humorada.

– Você quebrou o trato. – Fred não entendeu a frase inesperada da menina. – Você não falou comigo da última vez que nos vimos. Quebrou o trato. – Ele riu lembrando do dia em que levou a garota para um passeio de hipogrifo.

– O trato era que você falaria comigo.

– Se vale pra mim, vale pra você. – Charlotte estalou os dedos e Diana voou para seu ombro, matando a saudade de dona e amiga. – O que você quer comigo? Por que me chamou?

– Nada demais. Queria te ver, conversar... Eu gosto de conversar com você. Digo, gosto de falar enquanto você esperneia. – O jovem riu pensando que aquela era a primeira conversa decente que já tiveram. Na verdade, Charlotte estava começando a gostar também. – Então, como vai? Você andou sumida.

– Estou péssima. A hostilidade quanto a mim nessa escola só aumentou depois que meu pai assumiu como ministro. – Ela sentiu um pesar nos olhos de Fred. Falar do ministro trouxe a ele uma lembrança ruim. – Ah, sobre isso... Olha, eu não sei o que meu pai fez mas eu não tive participação, eu não fazia ideia. Não é justo você e todo mundo colocar a culpa em mim.

– Você não sabe mesmo?

– Claro que não! Eu só sei que toda a sua família está me odiando. – Fred se moveu para mais perto ainda e encarou a menina olhando bem no fundo de seus olhos por alguns segundos, como se estivesse constatando que ela falava a verdade. Ela sentia vontade de dar uma bofetada bem no meio da cara dele, mas por algum motivo desconhecido não se movia. – Vai ou não me dizer o que está acontecendo?

– Ele fez um corte orçamentário, disso você deve saber. A tia Hermione tinha um cargo muito alto e foi rebaixada pra algo ridículo, quase uma secretária. E o meu pai... – Ele hesitou. Aquilo realmente o matava por dentro. – Ele perdeu o emprego. O tio Harry me mandou uma carta falando sobre isso há algum tempo atrás e agora eu não sei o que vai acontecer lá em casa. As coisas vão se complicar.

Charlotte não podia acreditar nisso. Tudo bem, era terrível que o Duque tivesse demitido o pai de Fred e rebaixado sua tia por simples implicância, mas não era o fim do mundo. Quer dizer, eles poderiam arrumar empregos melhores, não podiam? Pra Charlotte era bem difícil entender isso, já que nasceu em berço de ouro. Mesmo se a mãe não tivesse uma carreira brilhante no quadribol e o pai não fosse um grande nome no ministério, ainda seriam ricos graças à herança da família do Duque. A verdade é que ela nunca entenderia o porque da enorme tristeza de Fred, mas não ia questionar. Não enquanto ele fazia aquela cara de tristeza na frente dela.

– Isso é ruim, mas... Não é o fim do mundo. – A menina tentava reanimar o rapaz. – Se tudo der errado você ainda pode virar modelo. – Mas o quê? – Com esse rostinho...

De fato, Charlotte não era boa no uso das palavras e quando tentava fazer piadas só podia dar em desastre. Mas a menina meio desajeitadamente conseguiu fazer o rapaz rir da besteira que tinha falado. Missão cumprida. Ele voltou a olhar pela janela, onde não se via mais o sol. Na verdade agora já estava tudo escuro em volta deles.

– Vamos voltar? Se alguém pegar a gente aqui a essa hora vamos nos dar muito mal. – Fred lembrou que o toque de recolher era rígido. – Ainda mais eu estando com você que é...

– Menor de idade. Você já fez essa piada.

Desceram as escadas tentando não fazer nenhum barulho, caso alguém estivesse passando na hora. Por diversas vezes quase caíram, mas Fred sempre conseguia se equilibrar e segurar Charlotte, que era meio desajeitada. O rapaz sempre acabava rindo dela, que não achava a menor graça. Uma das vezes, quando estavam no último degrau, ouviram passos na direção deles e entraram em pânico. De repente não era tão engraçado. Se fosse algum professor ou funcionário da escola, provavelmente as casas de Sonserina e Grifinória perderiam dez ou vinte pontos, além da bronca que levariam da McGonaghal e da fofoca que isso provocaria. Saíram correndo e se esconderam atrás de um arbusto contra a parede. Fred era muito alto, então precisou se abaixar e ficar cara a cara com Charlotte pra ser coberto pelo arbusto. Encolheu o corpo e grudou-o contra o da menina na parede. Agora a distância entre eles era de menos de um centímetro. Ficaram em silêncio esperando algum movimento por ali, mas a única coisa que aconteceu foi o surgimento de dois namoradinhos voltando correndo pro castelo depois de um encontro. Os dois riram de como tinham se desesperado por causa de algo tão inútil. Mas quando Charlotte percebeu como estavam, não achou mais graça. Fred a olhava intensamente calado, como se estivesse analisando e tentando ler a mente da menina. Será que ele vai...? Não, com certeza não! Empurrou o corpo do menino que se afastou dela, um pouco sem jeito. Depois de um momento constrangedor de silêncio, ele finalmente trouxe a tona o sorriso lindo e irônico.

– O que você vai fazer amanhã depois da aula?