Unwritten
5 Capítulo Quatro
Notas iniciais
Bella POV.
Alguns dias após a minha conversa com Leah — quase três semanas, precisamente -, eu estava de volta ao consultório médico, os resultados de exame em mãos. Cumprimentei a secretária com um sorriso, informando do meu horário e entregando tudo o que era necessário, antes de me sentar, Edward ao meu lado. Apoiei a cabeça em seu ombro e suspirei pesadamente.
Ainda era meio surreal, para mim, acreditar que eu estava, de fato, grávida.
Edward e eu tínhamos praticamente voltado à nossa rotina após aquela noite, a mesma que eu havia conversado com a minha irmã. Eu não contara a ele sobre os meus pais ainda e, sinceramente, não sabia se contaria — não por agora. Sempre que alguém perguntava como o nosso feriado havia sido, ele fazia uma cara tão estranha… Eu não queria que ele tivesse que lidar com os meus problemas além dos dele.
Provavelmente eu estava sendo irracional ou algo assim, mas… bem, eu achava que era melhor esperar. Afinal, nós tínhamos outras coisas para nos preocupar.
Eu, principalmente, tinha outras coisas para lidar. Como assumir a minha vida financeira, por exemplo. O início de dezembro trouxe provas finais e trabalhos, assim como as contas… Agora comigo por conta própria, eu me vi sem saber o que fazer. Não sabia se conseguiria a bolsa na faculdade. E caso não conseguisse, eu não sabia se conseguiria lidar com tudo: pagar mensalmente a faculdade, assim como as contas que Edward e eu dividíamos no apartamento e lidar com as despesas do bebê.
Eu realmente não queria pensar naquilo agora.
Por isso, quando o reitor me chamou para conversar quase três semanas após o meu pedido de bolsa, eu me vi caminhando trêmula até o escritório dele. Que eu tenha conseguido uma bolsa, que eu tenha conseguido uma bolsa.
Eu bati suavemente à porta, como a secretária dele havia me pedido para fazer e esperei, a cada minuto mais ansiosa. Entrei quando ouvi o seu pedido e sorri de forma hesitante. Ele abriu um sorriso e indicou para eu sentar na cadeira à sua frente. Eu tentei avaliar o seu rosto. Ele estava sorrindo. Não podia ser um mal sinal, podia?
E naquele dia, eu, finalmente, recebi uma notícia boa. Uma ótima, na verdade.
Eu não tinha conseguido bolsa integral, algo que nem eu mesma esperava, mas tinha conseguido uma boa parcela, algo que me ajudaria muito nos próximos anos. Tudo o que eu precisava fazer, de acordo com o reitor, era continuar a manter as minhas notas altas.
Saí da faculdade me sentindo muito melhor, com um peso a menos em meus ombros. Estudei como nunca para as provas que estavam por chegar, o que exigiu o dobro do esforço. Eu parecia mais sonolenta do que nunca e cansada. Peguei-me cochilando em meus livros diversas vezes, sendo que, em algumas delas, Edward teve que me carregar para a nossa cama, porque eu nem acordava quando ele me chamava.
Procurei ir dormir mais cedo, então. Os enjoos matinais continuavam, mas tinham diminuído um pouco, o que eu agradeci. Não era agradável acordar toda manhã tendo que correr para o banheiro, embora Edward tenha parado de fritar bacon. Conforme os dias foram passando, as provas começaram a se aproximar, assim como a data de entrega e apresentações dos trabalhos. Eu me encontrava exausta a cada dia, mesmo tendo dormido bem, e, sinceramente, eu não via a hora da pausa de inverno chegar.
E então o Natal chegaria.
E eu não tinha a mínima ideia do que faria esse ano.
Eu sempre passara Natal com os meus pais, sempre. Às vezes nós ficávamos em casa, mas na maioria das vezes viajávamos para algum lugar. Era estranho pensar em ficar sozinha no apartamento. Era estranho não ter uma ceia para ajudar a preparar, aquela expectativa boba com os presentes. Era estranho imaginá-los fazendo isso sem mim. Ou ter lembranças dos feriados anteriores. Meu pai sempre fazia um chocolate quente delicioso — o melhor que eu já havia tomado — para mim e para a minha irmã, mesmo com nós duas já crescidas — e se sentava conosco no sofá, ele no meio de nos duas, para assistirmos a algum programa igualmente bobo. Minha mãe se reuniria depois, trazendo o café da manhã, e nós ficávamos a manhã toda ali, curtindo um ao outro.
Era bom.
E era estranho pensar, também, que eu não iria nem conversar com eles, que eu não iria vê-los.
E doloroso.
Tomei uma respiração profunda, não querendo me lembrar disso naquele momento e começar a chorar no consultório médico. O Natal seria daqui a duas semanas e eu ainda não conseguia me imaginar passando-o longe de Charlie, Renée e Leah.
Uma tradição que havia durado dezenove anos e que seria quebrada. Era difícil.
– Isabella Swan?
Eu me levantei ao ouvir meu nome, segurando a mão de Edward e arrastando-o atrás de mim. A médica nos cumprimentou com um sorriso no rosto e apertou as nossas mãos, antes de se sentar e perguntar como as últimas semanas haviam sido e como eu estava me sentindo.
Expliquei a ela sobre algumas cólicas que tinham me incomodado recentemente e, sinceramente, me deixado preocupada. Ela ouviu com atenção, nunca me interrompendo enquanto eu terminava de falar.
– Elas são esporádicas — concluí. — E fracas… Eu devo me preocupar?
Ela sorriu.
– Enquanto elas continuarem assim, esporádicas e fracas, não — respondeu. — Elas são normais, dentro destas circunstâncias. É normal a gestante ter algumas cólicas até o terceiro mês, devido ao próprio crescimento uterino e a adapção dele a este fator… Algumas mulheres costumam senti-las novamente no final do sétimo e início do oitavo, também.
Eu assenti, um suspiro de alívio escapando de meus lábios.
Entreguei, então, meus exames a ela e esperei até que os analisasse, me sentindo feliz quando ela falou que tudo estava dentro da normalidade. Depois ela me instruiu a ir para a sala ao lado, onde faria uma ultrassonografia. Edward me seguiu, o tempo todo calado, o que eu estranhei um pouco.
– Está tudo bem? — eu indaguei, após me deitar. A médica ainda não havia aparecido, então aproveitei para conversar um pouco com ele. — Você está um pouco calado…
– Sim, está tudo bem — ele sorriu. — Só prestando atenção no que ela estava dizendo.
Eu assenti.
A doutora Adams apareceu, então, e começou a explicar o que examinaria naquele dia. Confesso que a palavra Translucência Nucal me assustou um pouco, algo que eu achava que deveria acontecer com muitas mães, mas ela me tranquilizou, sempre falando de forma tranquila e gentil e sorrindo.
Eu não pude deixar de sorrir quando vi a imagem se formando na tela e senti as lágrimas tomaram conta dos meus olhos quando ela começou a me mostrar os braços, as pernas, as costelas, a coluna… e o dedos! Tão pequeninhos...
Era difícil acreditar que havia um bebê crescendo em meu útero.
E era, ao mesmo tempo, completamente incrível.
Saí de lá sorrindo imensamente. Primeiro porque eu tinha conseguido, de fato, ver o meu filho dessa vez e, segundo, porque ele estava desenvolvendo corretamente.
E, sinceramente, eu não via a hora da próxima consulta. E também não via a hora de descobrir o sexo do bebê.
Eu ainda estava assustada e achava que logo iria estragar tudo e fazer o meu filho me odiar, mas… como eu podia não sorrir ao descobrir tantas coisas novas e ao pensar em tudo isso acontecendo dentro de mim?
Eu liguei para Leah assim que cheguei em casa, contando tudo a ela. Ela riu comigo, fez algumas perguntas e perguntou se ela poderia estar em meu parto, o que me fez rir novamente.
– É claro que sim! — eu disse. — Ou você acha que eu não vou querer a minha enfermeira favorita lá?
Infelizmente, porém, a conversa logo mudou. O tom da minha irmã ficou sério, a risada morreu…
E eu sabia que ela queria falar sobre o Natal.
– Você já fez algum plano para o feriado? — ela indagou.
Eu suspirei.
– Não, não fiz — sussurrei. — Acho que vou acabar ficando por aqui mesmo… Edward e eu montamos a árvore há alguns dias… e eu já tenho o presente dele aqui… Os presentes. Pensei em comprar algo para os nossos pais, mas não acho que eles aceitariam… Então, comprei para você, Edward e Sam…
Foi a vez dela suspirar.
– Nós vamos viajar no dia vinte e três, mas estaremos de volta no dia vinte e cinco– comentou. — Podemos passar aí? Aí faremos uma comemoração, só nos quatro. O que acha?
Eu sorri.
– Eu adoraria, Leah, você sabe disso — comentei. — Mas não quero que você mude os seu planos por mim. Você e Sam devem ficar um pouco com os pais dele também…
Ela bufou.
– Estaremos aí à noite– insistiu. — Apenas prepare o jantar. Eu levarei a sobremesa!
Eu não pude deixar de rir.
Conversei com ela durante mais algum tempo, antes de desligar. Contei a Edward sobre os planos, então, e tornei a perguntar se ele tinha certeza de que não iria para Forks.
– Não, não — sorriu. — Meus pais vão viajar… Achei melhor ficar por aqui esse ano… E você? Tem certeza de que não quer ir passar com os seus pais?
Eu virei o rosto, sabendo que ele leria a mentira em meus olhos quando eu falasse que não. Eu não queria, ainda, contar sobre o dia da conversa.
– Não, vamos ficar por aqui mesmo. — Apertei a sua mão gentilmente. — Vou preparar algo para comermos, ok?
As coisas ficaram agitadas nos dias que se seguiram, e eu sinceramente pensei que ficaria louca na semana das provas. Edward e eu mal parávamos em casa e quando estávamos lá, ficávamos mais perdidos em nossos livros e trabalhos. Não tivemos muito tempo para nós mesmos e esse era um dos motivos para eu estar ansiando pela pausa de duas semanas que teríamos.
Na quinta, penúltimo dia de aulas do ano, eu me vi caminhando até o estacionamento da faculdade quando as aulas acabaram, sentindo-me exausta. Encostei-me no carro de Edward e fechei os olhos, desejando que ele pudesse chegar logo e pudéssemos ir para casa. Eu não via a hora de dormir um pouco, antes de ter que levantar para estudar.
– Bella?
Eu abri meus olhos e sorri um pouco quando vi o meu namorado se aproximando. Ele me cumprimentou com um selinho rápido e se afastou, avaliando-me com atenção.
– Está tudo bem? — ele indagou. — Você parece… exausta…
Eu ri.
– Só estou com sono, mas estou bem — encolhi os ombros. — Pronto para ir para casa?
Ele hesitou por um momento e olhou para trás, antes de me fitar novamente. Eu segui os seus olhos e vi alguns de seus colegas de classe ali. Sorri, então. Ele provavelmente queria sair com eles ou algo assim.
Desde que voltamos de Forks, Edward e eu não tínhamos saído mais. Quero dizer, eu não tinha. Ele saiu com seus colegas uma ou duas vezes, mas já tinha algum tempo desde que ele tinha se permitido divertir.
– Os caras querem ir jogar sinuca e se divertir um pouco — ele explicou quando me pegou olhando para o seu grupo de amigos. — Eu disse a eles que não achava que você estava se sentindo bem, sabe… podemos ir para casa se você quiser. Eu não me importo.
Eu sorri para Edward e apertei a sua mão gentilmente. Ele vinha sendo um amor para mim, mas eu conseguia ver o quão ele queria se divertir.
– Vá — eu disse. — Eu ficarei bem.
Ele ergueu a sobrancelha.
– Tem certeza? — indagou. — Eu não me importo de ficar…
Revirei os olhos.
– Sério, Edward, vá — ri. — Você parece que precisa se distrair um pouco.
Ele sorriu.
– Você poderia ir conosco… — ele começou. — Se divertir também…
Eu tornei a revirar os olhos.
– Acho melhor não — respondi. — Estou cansada. Só quero ir para casa e dormir um pouco, ok? Eu ainda tenho que dar uma revisada na matéria da prova de amanhã…
Ele insistiu mais uma vez, antes de ceder. Deixou a chave do seu carro comigo, já que um de seus amigos o deixaria em casa mais tarde, e me deu um selinho, antes de se virar e partir. Eu fiquei o observando com seus amigos durante algum tempo, um pequeno sorriso no meu rosto. Era estranho me imaginar com eles em um bar agora.
Era estranho pensar em como uma notícia tinha mudado minha vida completamente.
E não queria nem imaginar em como as coisas seriam daqui um ano, quando o meu filho estivesse aqui.
Suspirando pesadamente, eu entrei no carro e dirigi até o apartamento que dividíamos. Ele não ficava muito longe dali, apenas uns dez ou quinze minutos de carro, e logo eu estava lá.
Tomei um banho longo e quente, deixando que a água batesse em minhas costas e relaxasse os meus músculos. Quando terminei, coloquei um pijama velho e confortável e ajustei o despertador para tocar dali a duas horas. Eu já havia estudado para a prova de amanhã, mas queria dar uma revisada para poder relaxar.
Entretanto, antes mesmo que eu pudesse fechar os olhos, a campainha tocou, fazendo-me gemer de infelicidade.
Resmungando, eu me coloquei de pé e caminhei até a sala, sem me importar com as roupas que eu usava. Abri a porta, pronta para xingar a pessoa que tinha me impedido de dormir.
Entretanto, assim que eu vi quem era, eu perdi completamente e voz.
O que Renée estava fazendo ali?
– Mãe? — Eu consegui dizer. — O que você está fazendo aqui?
Ela sorriu para mim, parecendo nervosa, e apertou a alça da sua bolsa, puxando-a de forma firme contra o seu ombro. Eu apenas a observei, enquanto pensava em mil razões para ela estar ali.
– Aconteceu alguma coisa com meu pai? — eu indaguei, não aguentando o silêncio. — Está tudo bem?
Ela suspirou.
– Não, está tudo bem — murmurou. — Eu só queria conversar com você… Posso entrar?
Eu dei espaço para a minha mãe, ainda perplexa. Eu não esperava ouvir mais dos meus pais. Não tão cedo, pelo menos.
Segui-a para a sala e a observei se sentar na poltrona, colocando a bolsa no colo. Sentei-me no sofá, meus olhos o tempo todo nela, e esperei que ela começasse a falar.
– Eu sinto muito por ter fugido daquela maneira quando você nos contou a… novidade — ela começou. — Não posso inventar desculpas para a minha atitude, mas… bem, não vou. Só queria dizer que sinto muito. Nós devíamos ter tido essa conversa antes.
Eu comecei a relaxar, um sentimento bom tomando conta de mim, achando que, finalmente, eu teria pelo menos um dos meus pais ao meu lado. Talvez ela pudesse me ajudar a fazer Charlie entender e aceitar.
– Mas… Bella… — ela suspirou. — Você realmente parou para pensar na decisão que tomou?
Eu a fitei durante algum tempo, não entendendo aonde ela queria chegar.
– Hmmm… sim — murmurei. — Estou fazendo pré-natal, estou me cuidando… Eu quero ter essa criança, mãe.
Minha mãe me observou durante alguns instantes, antes de tornar a suspirar.
– Bella… — ela começou. — Querida, você ainda é tão nova… Por que você não faz o que o seu pai sugeriu e… tenta novamente mais tarde?
Eu engoli em seco. Aparentemente, eu estava errada. Renée não estava ali para me apoiar. Ela estava ali para fazer o que Charlie tinha tentado, porém de uma forma mais delicada, por assim dizer.
– Porque o seu pai está certo, Bella — ela continuou. — Você acabou de começar a faculdade, tem uma vida toda pela frente… Pode estar pensando que é fácil, mas uma criança vai privá-la de muitas coisas.
Eu senti as lágrimas enchendo os meus olhos, mas trinquei o maxilar, tentando impedi-las de escorrerem pelo meu rosto. Eu não daria esse gosto a ela.
Mas se ao menos ela soube o quão aquelas palavras estavam me machucando…
– Você teria coragem de fazer isso? — eu indaguei. — Teria coragem de abortar e seguir em frente, como se nada nunca tivesse acontecido?
Ela hesitou por um momento.
– Bem, se eu fosse nova… — começou.
Mas eu não permiti que ela continuasse.
– Você faria isso comigo ou com Leah? — eu indaguei. — Abriria mão de nós?
Ela se encolheu um pouco ao ouvir a raiva em minha voz.
– É diferente, Bella — respondeu, algum tempo depois. — Eu era mais velha, tinha estabilidade financeira e…
– Não, mãe — cortei-a novamente, colocando-me de pé. — Não venha com essa, por favor! Sim, essa gravidez foi uma completa surpresa, um erro meu e de Edward, mas eu não vou abortar! Pode acabar com o meu futuro, eu posso não ser capaz de terminar a faculdade… Eu não me importo! Como posso abortar e seguir em frente, como se nada tivesse acontecido? E se eu quiser engravidar novamente no futuro? Como posso fazer isso e não olhar para trás e pensar que eu matei o meu filho?
Eu estava arfando, meu peito subindo e descendo depressa. Sabia que estava vermelha e que as lágrimas escorriam pelo meu rosto, mesmo com todo o esforço que eu tinha feito. Elas não eram de tristeza agora, porém. Eram de raiva.
Eu sinceramente não conseguia acreditar que minha mãe tinha saído de Forks e vindo até aqui só para tentar me convencer a abortar. Como se não fosse nada!
– Vai embora — sibilei. — Por favor, vai embora! Estou me virando bem sozinha, sem você e Charlie. Não preciso de vocês tentando me obrigar a fazer algo que não vai acontecer.
Virei-me e entrei no quarto, fechando a porta atrás de mim e encostando as costas nela. Fiquei ali por um tempo, enquanto implorava mentalmente para ir embora sem insistir em conversar comigo novamente.
Soltei um suspiro de alívio quando escutei a porta da frente se fechando, e, após algum tempo, eu saí do quarto. Ficar naquele apartamento, de repente, sozinha, não pareceu uma boa ideia, então eu peguei a minha bolsa com os meus livros e saí, disposta a caminhar um pouco.
Acabei parando em uma praça ali por perto e me sentei em um banco, sentindo-me completamente exausta. Puxei um dos resumos dos livros que eu havia feito para a prova de amanhã e tentei reler, mas não consegui me concentrar em nada. Acabei apenas observando o movimento ao redor e, quando dei por mim, as lágrimas estavam escorrendo pelo meu rosto novamente.
– Moça? Está tudo bem?
Eu olhei para cima e encontrei um homem me fitando com atenção, seus olhos castanhos parecendo preocupados. Seus cabelos eram pretos, curtos e espetados, e seus olhos eram castanhos. Ele me fitava com atenção, como… se me conhecesse? Eu balancei a cabeça, afastando tais pensamentos. Provavelmente eu estava ficando louca ou algo assim.
– Sim — menti. — Obrigada por perguntar.
Ele me observou durante mais algum tempo, antes de assentir e se afastar. Não querendo assustar as outras pessoas da praça, eu limpei as lágrimas e respirei fundo algumas vezes, tentando me acalmar. Por fim, puxei o meu celular e liguei para a minha irmã.
Eu precisava conversar com alguém.
– Ei, Bell. — Ela atendeu ao terceiro toque. — Tudo bem?
– Ei, Lee. — Sorri um pouco ao dizer o apelido que eu usava para chamá-la desde pequena. — Você está ocupada?
– Não… — disse, parecendo notar que a minha voz estava estranha. — Aconteceu alguma coisa?
Sentindo a minha garganta apertar novamente, eu contei a ela o que havia acontecido há pouco, sobre como Renée, nossa doce mãe, havia vindo me visitar e as palavras que tinham saído da sua boca — o que ainda era meio difícil de acreditar. Eu falei de uma vez, sem fazer qualquer pausa, não dando espaço para Leah falar.
Quando terminei, respirei fundo e fechei os olhos, não querendo começar a chorar novamente. Sinceramente, eu estava cansada de chorar.
– Ela… ela fez isso? — A minha irmã parecia incrédula. — Nossa mãe? Mas… mas…
– Eu sei. — Soltei um riso amargo. — Não consigo acreditar ainda, mas… ela fez, Lee, e eu…
Parei de falar antes de completar a frase, porque eu sabia que começaria a chorar em breve. Pensar no que Renée havia feito mais cedo só me fazia lembrar da reação de Charlie e… eu não queria. Eu evitava de pensar nisso todo dia, porque só fazia com que eu me sentisse sem esperança e sozinha.
– Shhhh, Bella, por favor. — Leah disse, tirando-me dos meus devaneios. — Não fica assim. Eu sei que é difícil, acredite em mim… Eu também não consigo imaginar a mamãe fazendo isso… E nem o papai, se eu não tivesse presenciado a cena que ele deu…
Eu assenti, embora ela não pudesse ver.
– Nós vamos dar um jeito, ok? — ela continuou, sem esperar por uma resposta minha. — Eu, você, Sam, Edward… Todos nós estaremos aqui com você.
Eu sorri.
– Você quer que eu ligue para ele e peça que ele vá te encontrar aí? — indagou. — Eu posso fazer isso, se você quiser.
Eu suspirei. Eu daria tudo para Edward estar aqui agora comigo, mas eu ainda não havia contado o que tinha acontecido no feriado de Ação de Graças e não queria ter que explicar porque eu estava chorando.
– Não, não precisa — suspirei novamente. — Eu estou indo para casa agora… Preciso tentar dar uma revisada na matéria antes de ir dormir.
– Certo– murmurou. — Mande-me uma mensagem quando você chegar, por favor? Só para eu saber que você chegou bem…
Eu sorri.
– Pode deixar, Lee — murmurei de volta. — Eu ligarei.
Desliguei o celular e me coloquei de pé. Antes de ir para casa, andei um pouco na praça, respirando fundo e tentando me acalmar. Eu não sabia se Edward já estaria em casa quando eu voltasse e, caso estivesse, eu não queria que ele visse meu rosto e descobrisse que eu estava chorando.
Entretanto, eu não precisei me preocupar com isso. Ele não estava em casa quando eu cheguei. Eu fiz um sanduíche rápido para comer, sem humor para jantar, e depois estudei um pouco, antes de ir para a cama.
Acordei algum tempo depois, com um barulho. Eu me sentei na cama, piscando rapidamente, e soltei um suspiro de alívio quando vi Edward entrando, parecendo um pouco bêbado…
– Edward?
Ele resmungou alguma coisa e se jogou no sofá, mas não me respondeu. Eu me levantei e tirei a sua jaqueta e os seus sapatos, antes de ajeitá-lo na cama. Por fim, suspirei e me deitei novamente.
Eu mal podia esperar por amanhã à tarde. Assim, eu estaria livre das provas durante algum tempo e teria duas semanas para descansar. Meu primeiro semestre na faculdade e tudo já estava uma completa bagunça.
Eu não queria nem imaginar como os outros seriam.
_
No dia seguinte, Edward saiu e chegou tarde novamente, já de madrugada, mas ele não estava bêbado dessa vez, embora parecesse um pouco estranho. Ele tinha terminado as suas provas um dia antes do que eu e, devido à ressaca na sexta, nem às aulas havia ido. Quando eu cheguei, feliz por ter terminado, eu o encontrei se arrumando para sair novamente.
E foi assim no sábado. E no domingo.
E na segunda. E na terça.
Eu me vi sentada no sofá na terça à noite, encarando o pequeno jantar que eu havia feito para nós dois para a véspera de Natal. O jantar ficou frio e ele não apareceu. Suspirando pesadamente, eu me vi embalando tudo e guardando na geladeira, após me forçar a comer um pouco. Por fim, enrolei-me no sofá e adormeci enquanto lágrimas escorriam pelo meu rosto.
Talvez fosse só cisma minha ou algo assim, mas… por que Edward estava saindo tanto? Ele nunca fora disso… Saíamos nos finais de semana antes de eu descobrir que estava grávida, mas só… nunca cinco dias seguidos.
Eu acordei no dia seguinte um pouco mais tarde do que de costume e me encontrei deitada na cama. Edward já havia se levantado. Corri até o banheiro e, após a minha higiene matinal, encontrei-o na cozinha, tomando café da manhã.
– Bom dia… — murmurei, fitando-o com atenção. — Tudo bem?
Ele ergueu a sobrancelha, não parecendo entender o porquê da pergunta.
– Hmmm, sim — respondeu, após engolir o que estava mastigando. — Por que pergunta?
Eu continuei o observando.
– Eu fiquei te esperando ontem à noite — comentei. — Fiz uma pequena ceia para nós dois…
Ele pareceu arrependido por algum instante, antes de mudar a expressão rapidamente, como se… como se não se importasse?
– Eu pensei que comemoríamos essa noite — disse, encolhendo os ombros. — Sua irmã e seu cunhado estarão aqui por volta das seis, não é?
Eu assenti, sem saber o que dizer. Edward sorriu, então, e se colocou de pé. Só então eu notei que ele não usava pijama.
– Você vai sair? — eu indaguei.
Ele assentiu. Colocou seu prato e copo na pia, antes de lavá-los rapidamente e deixá-los em um pano para secar. Eu o observei se movimentar pela cozinha e guardar tudo o que ele tinha usado. Ele seguiu para a porta da cozinha, por fim, e sorriu para mim de forma hesitante.
– Vou jogar um pouco na casa de Jake e Ben — respondeu. — Estarei de volta por volta das seis, ok?
Ele não esperou por uma resposta e saiu da cozinha, deixando-me parada ali. Escutei alguns barulhos no quarto e soube que ele estava ali, mas não tive coragem de ir lá e perguntar por que ele estava agindo daquela forma, sendo tão estranho, tão frio e distante…
O que eu tinha feito?
– Feliz Natal para você também, Edward — sussurrei, baixo demais para ele escutar, sentindo meus olhos encherem de lágrimas.
Alguns segundos depois, escutei o barulho da porta da sala se abrir e fechar e o apartamento ficou silencioso demais.
E eu soube que estava sozinha. Pela primeira vez em meus dezenove anos de vida, eu estava passando o Natal sozinha.
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