As noites pareciam chegar mais rápido que o normal, e naqueles tempos confusos em Beacon Hills, aquilo era um problema para todos que queriam o bem da cidade. Por mais incrível que parecesse, tudo estava calmo naquela noite, os únicos barulhos que podiam ser ouvidos eram os grilos, o vento nas folhas, que balançavam e cantarolavam num ritmo natural, Derek poderia chamar aquilo de ‘a canção da noite’. Ele estava posicionado na varanda do seu loft velho, aquele lugar dava uma vista incrível para toda a cidade e parte da floresta, já que era em um andar bem elevado. O cheiro do café forte exalava no local, ele estava quente, vide a fumaça que saia de uma xícara preta com alguns símbolos em vermelho, herança de família, cada símbolo significava algo para os Hale. O lobo ergueu o recipiente e deu uma olhada rápida nos símbolos, lembrando-se dos seus familiares, mas na maioria das vezes vinha fogo à sua mente, o incêndio que havia matado boa parte deles, aqueles flashbacks não eram nada agradáveis. Por vezes o semblante de Derek com os olhos fechados mostravam claramente o que vinha em sua mente, mas ele logo se desfez daqueles pensamentos dando um gole farto no café quente, que desceu como navalhas direto no estômago. Ele voltou a apoiar a xícara na mureta que trazia segurança à varanda, logo pode ouvir o ranger de uma porta ao seu lado, sua atenção voltou-se de imediato a ela. Peter Hale, tio de Derek, um dos sobreviventes que havia presenciado todo o incêndio, parecia ter sentido o que o sobrinho sentira segundos atrás, seu semblante combinava com o Derek naquele momento, e ele se aproximou com sua pose de durão completamente caída.

– Noite difícil? – perguntou Peter, sentando-se na mureta da varanda. Embora não demonstrasse se importar muito com Derek, seu rosto não apresentava sarcasmo nenhum, estava sério, realmente dava importância ao que o sobrinho sentia, ao menos naquele momento.

– Isso realmente importa Peter? – rebateu Derek, pegando a xícara mais uma vez e dando um breve gole nela, olhando de canto para o tio e então pondo a xícara mais uma vez onde estava.

– Você dificulta Derek, você dificulta muito. – Peter parecia arrependido pelos males que já havia causado a Derek, suas palavras pareciam um pedido de desculpas, ele de certa forma queria recomeçar uma relação, como tio e sobrinho, como realmente era pra ser, como Talia queria que fosse.

Ele se levantou da mureta e voltou para dentro do loft, percebia que aquilo não iria dar em nada e preferiu subir pelas escadas e ir ao segundo andar da residência, era onde ficava a maior parte do tempo.

Derek terminou de tomar seu café e voltou para dentro, por um momento pensou apenas em tomar um banho e ir dormir, mas ainda estava cedo, por mais que a noite estivesse escura demais, então os flashbacks retomaram sua mente, parecia um sinal, algo pedindo para que ele fosse a casa dos Hale no meio da floresta, mas ele sabia que eram apenas resquícios da tragédia que rondavam sua cabeça. Quando se deu conta, já estava na porta do loft vestindo sua jaqueta preta de couro, como de costume. Ele iria visitar sua antiga residência.

Mais uma vez Stiles tinha saído para acompanhar seu amigo Scott nas corridas noturnas, mas ele nunca corria, apenas fazia companhia, companhia essa que era quase uma caminhada sozinho, pois Scott saía correndo algumas vezes e nem sequer se preocupava em dar atenção ao pobre Stiles. Aquela era mais uma dessas noites, onde Scott avistou uma raposa e saiu em disparada atrás dela, apenas para treinar sua velocidade, saber o caminho certo por onde andar na floresta, tudo aquilo que um lobo poderia se esforçar para saber.

Aquela era a primeira vez que Stiles conhecia onde estava. Ele estava próximo da casa abandonada dos Hale, sabia daquilo pelas árvores mortas que sinalizavam proximidade ao local. Não era um dos locais mais seguros da floresta, mas também seria fácil de Scott buscar o amigo depois, a grandiosidade dos escombros e o cheiro de Stiles logo atrairiam o alfa.

A porta estava entreaberta, Stiles só a empurrou e ouviu o sussurrar dentro da casa, que parecia ter vida própria e contava sua história a cada passo dado ali. O garoto caminhou até a sala de estar, um local dominado por vegetação, uma lareira velha, uma poltrona que Derek usava quando morava ali, uma mesinha e algumas estantes, como também vários móveis quebrados.

O garoto se aproximou de uma das estantes, podendo ver as coisas que haviam ali, coisas que não significavam absolutamente nada para ele, tirando algumas joias de família, já tomadas por musgos. A mão de Stiles ousou abri a porta de vidro ali, e assim que abriu, guiou-a até uma corrente de couro com um pingente em ouro idêntico ao símbolo que Derek tinha tatuado em suas costas. Stiles aproximou a mão do pingente, tocando ele com a ponta dos seus dedos brancos, até ter o contato direito com o pingente já em cima dos seus dedos.

– O que você está fazendo aqui?! – Perguntou Derek surpreso ao sair de um canto escuro no meio da sala de estar.

Um grito de puro terror –de certa forma, cômico- foi liberado por Stiles, que jogou o pingente e a corrente para longe assim que ouviu a voz grossa e raivosa de Derek, quase como um rosnado. – Desculpe Derek! Eu não sabia que estava aqui, eu nem deveria estar aqui, desculpe. – Stiles estava sem palavras, seu coração batia forte, a luz da lua que invadia a casa mostrava o quão pálido ele havia ficado.

– Stiles! Stiles! – A voz de Scott ecoou do hall de entrada da casa, ele havia sentido o medo do amigo e de imediato correu para ajuda-lo, embora ele não corresse perigo nenhum. – O que aconteceu aqui? O que houve Derek? – Scott fitava ambos preocupado, só sabia que Derek estava com raiva –como sempre- e que Stiles estava pálido e com os batimentos acelerados.

– Pergunte ao seu amiguinho e sua infeliz curiosidade. – O rosto de Derek estava com aquela mesma raiva. Ele caminhou até o local onde o colar havia parado e voltou à estante, colocando no lugar de antes e fechando a porta de vidro. – Vocês, vão embora daqui! – Scott poderia não perceber, mas Stiles ainda via um lado humano em Derek, e embora a iluminação no local não fosse intensa, a proximidade do humano com o lobo fez com que Stiles percebesse os olhos molhados de Derek, ou tinha passado colírio recentemente, ou estava chorando, e o mais provável era a segunda opção.

– Vamos Scott. Derek está certo. – concordou o rapaz.

– Mas, Stiles... – relutou Scott, já sendo empurrado pelo amigo.

– Sem ‘mas’, vamos logo. – completou Stiles, empurrando Scott até a porta e saindo dali, fechando a porta atrás de si.

Derek relaxou o corpo e caminhou até a poltrona, sentando-se ali e apoiando o cotovelo no braço da poltrona, erguendo a mão e deitando a testa em seus dedos, pensando na sua família e de repente, Stiles veio a sua cabeça, percebendo a consideração que o garoto havia tido ao ver Derek diferente de como costumava ser, como ele havia percebido aquilo.

– Agora me conte Stiles. O que foi aquilo? Você concordou com o Derek? Quanto ele te pagou? – Scott já estava caminhando pela calçada junto com o amigo, indo em direção a casa dele e enchendo-o de questionamentos que não tinham respostas em sua cabeça.

– Da mesma forma que eu percebo quando você não quer companhia de outros, eu percebi que o Derek também não queria, então era melhor irmos. – Esclareceu o garoto, já subindo os degraus que davam na porta da sua casa, abrindo ali com as chaves que tirara do bolso segundos atrás.

– Bom, se é assim, tudo bem então. – aceitou o moreno, dando as costas para Stiles assim que ele abriu a porta.

– Ei, Scott... – Stiles segurou o braço do rapaz antes que ele pudesse sair da sua varanda, puxando-o para abraça-lo de forma carinhosa. – Obrigado por hoje, por ter aparecido de imediato. – Falou num tom baixo já que sua boca estava próxima a orelha do amigo.

– Sempre, bro. Você é meu irmão, cara. – O abraço retribuído de Scott foi mais forte, mas logo soltou ele e lhe afagou o rosto antes de sair da sua varanda e seguir pela calçada, caminhando na direção da sua casa.

Stiles entrou em casa e fechou a porta atrás de si, percebendo a escuridão lá dentro, provavelmente seu pai ainda não havia chegado e não chegaria. Seus passos ecoavam pela casa, até ouvir o barulho do seu celular no bolso, barulho de sms. Ah, deve ser Scott falando algo que se esqueceu de me contar hoje, pensou Stiles. Mas surpreendeu-se quando viu na tela do celular o nome ‘Derek’ com o conteúdo da mensagem sem nem precisar desbloquear o touch screen, que continha um simples ‘Obrigado’.