Untouchable
5 Capítulo 3 - Primeira impressão
Notas iniciais
I — Alice
Eu entro no quarto e tranco a porta. Não estou afim de qualquer interação social. Nem mesmo com Lotte, com quem costumo desabafar. Ela também não parece muito afim de me ouvir desabafar. E eu também não estou afim de fazer isso por ela, porque as minhas opiniões quanto o que ela está fazendo com vida dela, vão magoá-la. Então apenas me deito na minha cama e deixo o desespero tomar conta de mim.
— Mas quem foi que teve a ideia de gênio de me por para trabalhar num projeto social?! — Pergunto em voz alta para o nada. — Vou te contar...
Sento-me na cama e vejo uma revista na poltrona. A revista que Lotte deixou para eu conferir quem era o tal de Sett.
— Lotte, eu te odeio... — Murmuro quando a curiosidade me vence.
Pego a revista da poltrona e volto a me sentar na cama. Sett não está na capa. Ainda bem, porque seria muito desaforo um Oito zé-ninguém estampar na capa de uma revista só porque o os pais dele dão migalhas aos pobres. Através do sumário encontro a página que fala sobre ele. As fotos não foram tiradas em um estúdio, e sim escondidas por um paparazzi.
Em uma delas ele está andando pela cidade em um clima que parece ameno. Usa um suéter branco com listras azuis ao estilo marinheiro. Está na cara que o suéter é de uma loja departamento. Não deve nem ser de cashmere. Tal ideia me deixa ligeiramente nauseada. A calça que ele usa é um jeans simples, que obviamente também não é de marca. E por fim seus sapatos. São como “converses quentinhos". E têm marca. Mas são aquelas marcas simples que as pessoas pobres usam para dizer que são ricas, mas que nenhum rico realmente usa. E a cereja do bolo? Um boné. Sim, um boné daqueles com marcas idiotas e desconhecidas estampadas e de aba redonda.
Nas fotos dá para ver seu corpo muito bem, apesar de não ter nenhum close no rosto (ainda mais com aquele boné). O suéter é bem coladinho e dá para perceber tudo por baixo dele. Sett não têm músculos. Mas tampouco é magro, nem gordo. Apenas comum. Parece ser do tipo que faz exercício suficiente para se manter saudável, mas nunca para melhorar a estética. Ele não têm (visivelmente) nenhum peitoral ou barriga de tanquinho, nem bíceps trabalhados. Ele é esguio e simples. Têm ombros e braços fortes, mas para por aí.
Na próxima página o clima aparenta estar um pouco mais frio quando as fotos foram tiradas. Ele usa uma camisa polo azul-marinho e um sobretudo preto simples (provavelmente de loja de departamento). Uma calça jeans igualmente simples e tão sem-marca quanto ele é sem-grana. E o mesmo tênis. O mesmo tênis! Dá para acreditar?!
Nesse conjunto de fotos tem um close do rosto dele. Sett tem o cabelo curto bem aparadinho dos lados e talvez milímetros mais longo no topo, de um castanho-acinzentado. Seus olhos também são castanhos. Ele tem "ruguinhas fofas de sorriso" (como chama a Lotte) ao redor dos olhos, mas sinceramente, jamais notaria ele se andasse pela rua. Ele é comum demais. Nada comparado aos meus ex-namorados (muitos deles modelos) ou ex-ficadas.
Espera! Porque eu estou comparando ele aos meus ex-namorados?!
De qualquer forma, minha avaliação final: Nada de especial.
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II — Sett
Os três dias passam voando. Eu descubro que meus pais já ajeitaram tudo para a minha partida. O que me deixa ainda mais preocupado que eles estejam com as expectativas altas demais em relação ao meu desempenho. Nunca fiquei frente a frente com a imprensa. Nunca dei sequer uma entrevista. Me sinto desconfortável com isso. Tinha trabalho sério no abrigo, não entendo porque me colocar para fazer propaganda (que obviamente não era o que eu fazia de melhor). Mas jamais questionaria os meus pais.
Por isso empacoto minhas roupas meu, computador portátil, me despeço de Dália e pego um voo para Caster. Eu já viajei várias vezes de avião, inclusive para outros países, mas pela primeira vez estou nervoso com o que encontrarei no destino. O avião é um jatinho particular e eles servem até champanhe na cabine.
O voo passa rápido, e logo que chego ao aeroporto, uma equipe de filmagens me encontra e se apresenta. A diretora se chama Ghael. Ela é uma mulher na faixa dos trinta e cinco anos com um jeito tranquilizador. Tem um sorriso aberto e simpático. Ela me explica que eu devo agir com naturalidade na frente da câmera e que se quiser posso conversar com ela. Vou até a esteira onde apenas as minhas malas estão rodando já que o voo é particular.
A medida que atravessamos o gigantesco aeroporto de Caster, Ghael me faz uma série de perguntas e eles filmam as respostas que dou. Quando saio do aeroporto. Uma limousine me espera do lado fora. "Quanta extravagância..." penso um pouco chateado por ter de fazer parte disso. A equipe de filmagem vai quase toda para outro carro ficando comigo apenas um cinegrafista chamado When. Ele parece ser um pouco mais velho que eu.
—Você pode falar com a câmera durante o trajeto para o palácio. — Avisa ele e instantes depois a luzinha que indica que a câmera está filmando, se acende.
Esfrego as mãos na minha calça por um instante me sentindo desconfortável.
—Bem... Hã... Estamos agora indo para o palácio. Eu só vi esse lugar na televisão. Não sei o que esperar... Nem como me comportar, na verdade. — Completo com uma risada. When faz sinal positivo dizendo que eu estou fazendo certo. — E ainda conhecerei a Princesa Alice, a qual também vi apenas pela TV. Tudo aconteceu bem rápido e eu ainda estou um pouco zonzo... Ou talvez seja apenas o voo de quatro horas... Mas de qualquer forma apenas estar em uma limusine já faz com que eu me sinta desconfortável e extravagante, então espera só até eu chegar no palácio...
When sorri, e depois de um rápido sinal, desliga a câmera.
—Você foi muito bem, não se preocupe... — Diz ele com um sorriso tranquilizante.
Assinto, mas sinto como se estivesse prestes a vomitar, o que pode ser coisa do jet lag, mas eu realmente suspeito que é emocional. A noite passa apressada pela janela fumê do carro.
A limusine finalmente chega na entrada do palácio. Ele ergue-se belo a nossa frente. Moderno e clássico ao mesmo tempo. Algo como Aritânia.
O palácio de Aritânia é realmente enorme. Composto por três prédios de formatos diferentes, interligados por pontes suspensas que passam por cima do Jardim Real. E, como When me explica, cada prédio tem uma função:
O prédio oeste tem um formato curvo para frente que se assemelhava a uma onda gigante prestes a quebrar. Ali fica a biblioteca, o salão de festas, sala de jogos, quadra coberta, centro de eventos, cinema privado, e outros serviços de lazer.
O prédio leste é largo, com colunas que o sobem em espiral como se algum gigante tivesse agarrado um prédio comum e o torcido. Ali fica os quartos, a cozinha, salão de jantar, sala de estar e outros locais de conforto.
O último prédio, o prédio norte, é a sede da administração do país. Também é o mais alto e esguio de todos, completamente retangular, como um bloco longilíneo.
Com as grandes pontes a interligá-los eles formam uma espécie de triângulo. No espaço entre eles está o enorme jardim, com árvores e flores, nativas e exóticas. No centro dele tem ainda um grande lago artificial com uma fonte d’água que o transformava em um espetáculo luminoso toda noite.
A equipe de filmagem chega logo depois da gente. Na frente do prédio norte, na entrada do palácio, a família Real nos espera. Rei Andrew e a Rainha Cloe, Príncipe Lewis e a Duquesa Scarlett. Entre os quatro está ela. Alice.
A Princesa Alice parece me perfurar com os olhos. Não de uma maneira ameaçadora, mas de uma maneira crítica. Atravesso a distância até os cinco e como manda o protocolo, aperto a mão de todos. Todos parecem extremamente receptivos e formais ao mesmo tempo. Alice sorri para mim a todo momento. A equipe de filmagem filma nosso primeiro encontro.
De perto ela parece irreal. Sua pele é pálida e macia. Ela é linda, e tudo menos artificial. Seus cabelos são loiros e lisos, caindo em cascata pelos seus ombros. Seus olhos são de um azul profundo. Ela veste um vestido preto com dourado e sapatos pretos e brancos. Parece ter saído de um filme antigo. Ela sorri para mim com simpatia enquanto entramos no palácio. Seu cheiro suave de baunilha inebria meus sentidos. Sorrio para ela de volta.
Minha atenção finalmente se volta para o palácio pela primeira vez. E ele passa a mesma impressão que o exterior. Moderno e clássico ao mesmo. Não há nada antigo, mas tampouco não há nada moderno. É como um meio termo. Há peças milenares completando espaços limpos e minimalistas. Há papéis de parede modernos combinando com móveis vintage.
Alice solta uma risadinha quando me vê tão estupefato com o palácio. Eu retribuo o sorriso.
— Você tem uma casa adorável. — Digo com um sorriso brincalhão.
Alice arqueia uma sobrancelha e seu modo crítico volta à tona. Ele desvia o olhar para o corredor onde a equipe de filmagem nos grava.
— Obrigada.
— Vamos até o Salão Principal para a entrevista. Que tal? — Pergunta Ghael para Alice.
Alice sorri e assente animada.
—Ah, sim claro!
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O Salão Principal é maior que meu apartamento inteiro. No centro estão duas poltronas, uma de frente para a outra, separadas por uma mesinha de centro. Ghael agradece à Alice e depois se vira para nós dois.
— Bom, eu quero entrevistar vocês dois em separado, ok?
Assentimos e eu sou escolhido para ir primeiro.
As perguntas são simples. Sobre minha vida pessoal, mas também sobre meu trabalho. Ghael me pergunta sobre o que espero do programa em conjunto. Nós falamos da minha súbita "fama". Tudo ocorre de modo rápido e superficial.
— Ok. — Diz Ghael em tom de finalização. — Nos vemos no final do programa.
Eu fico no salão esperando a entrevista de Alice terminar. Ele parece doce e ao mesmo tempo uma pessoa determinada. Parecida com como aparece nas revistas. Minha opinião quanto pessoas ricas e famosas começa a mudar.
A entrevista de Alice também não demora muito a terminar. Ghael e sua equipe de filmagem começam a empacotar o equipamento.
— Bem, por hoje é só. — Avisa a diretora. — Amanhã nos encontraremos logo depois do café da manhã.
Ela sai com a equipe, até que sobra apenas eu e a princesa. Um silêncio constrangedor cai sobre nós.
— Eu nunca vou me acostumar com esta atenção. — digo com um sorriso constrangido. Alice vira-se para mim novamente com seu olhar crítico, mas dessa vez há realmente ameaça.
— Olha só, seu plebeu, nós só nos falamos na frente da câmera. Eu não vou suportar o seu ar de pobreza mais do que já sou obrigada, portanto nestas quatro semanas, fique fora do meu caminho. — Ela cuspiu de modo superior, e com um leve arfar de incredulidade deixou o salão.
Fiquei parado sem entender muito bem o que tinha acontecido.
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III — Lotte
Eu ando com pressa pelo corredor. As pessoas estão distraídas com a chegada do convidado e com o jantar por isso passo despercebida. Saio do palácio pelo jardim e depois sigo para o alojamento de empregados. quase automaticamente me dirijo para a casinha de Teddy que é exatamente igual às outras. Eu paro na frente da porta e bato com os nós dos dedos suavemente. Segundos depois a porta se abre deixando o ar aquecido acalmar a noite de inverno. Teddy tem os cabelos bagunçados e molhados e cheira a perfume e loção pós-barba.
— Oi. — Diz ele com um sorriso.
Me inclino e o beijo suavemente nos lábios. Quando tento me afastar ele me puxa mais para perto, me impedindo.
— Nós ainda temos duas horas antes da sessão... — Murmura ele, separando seus lábios dos meus por um segundo.
Dou uma risadinha enquanto entramos agarrados em seu apartamento. Fecho a porta atrás de nós.
— Acho que não tem problema perdermos o comecinho. — Respondo com um sorriso.
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