Untouchable

3 Capítulo 1 - Acreditar


Notas iniciais
Oi o/ Finalmente o primeiro capítulo. Eu adorei escrever esse cap ^-^ Espero que vocês gostem de ler...

I — Sett

Apresso o passo. Ainda são oito da manhã, e eu já estou praticamente correndo no Abrigo, completamente ofegante. Ao meu lado Dália ri do meu estado. Ela acabou de chegar, por isso ainda possui fôlego o suficiente para rir. Já eu dormi aqui no Abrigo, e fui acordado três vezes durante o sono para emergências no centro administrativo. Hoje pelo visto vai ser um dia bem cheio. Finalmente chegamos ao refeitório. A cozinheira aproxima-se de mim. Seu rosto redondo e gentil, enrugado de preocupação.

— Desculpe, Sett, mas realmente precisamos de mais ingredientes.

— Pensei que tinham comprado os dessa semana.

— Compramos, mas simplesmente não foi o suficiente.

Passo as mãos no cabelo. Cada Abrigo vinculado a Ong Um Lar tem um orçamento apertado. Vivemos de doações e nem sempre isso é o suficiente.

— Vou ver o que consigo fazer, ok? — Aviso à cozinheira.

Ela assente com rapidez, e volta novamente para a cozinha.

— Para o escritório agora? — Pergunta Dália.

Apenas assinto, e voltamos para o corredor principal. Pegamos o elevador até o quinto andar. Ali seguimos pelo corredor até o meu escritório, onde me deixo cair na cadeira desconfortável. No meu escritório há armários com arquivos e uma mesa com um computador. Além disso tem um sofá onde eu durmo. Dália se senta no sofá e solta uma risadinha.

— O que foi? — Pergunto franzindo a testa.

— Sua cara está horrível

Lanço-lhe um olhar de reprovação. Mas depois solto o ar.

— Foda-se... Minha cara não é importante.

Ela solta mais uma risadinha e assente. Dália está de cabelos escuros presos numa trança. Seus olhos castanhos estão ressaltados com maquiagem leve, e ela usa uma roupa bonita demais para ser confortável.

— Devia considerar dormir mais... — Aconselha ela. — Em uma cama, por sinal.

Reviro os olhos.

— Não tenho tempo de dormir — Afirmo enquanto passo a mão pelo meu rosto, cansado.

— Você deveria dar um tempo no trabalho, Sett. Têm apenas vinte e dois anos, não quarenta. Sabe? Você devia relaxar, fazer amigos, sair... — Ela olha para as próprias mãos — Namorar.

Eu sei que Dália tem uma quedinha por mim. Ela nunca tentou nada, e eu me sinto grato por isso. Não quero perder uma funcionária valiosa como ela.

— Você também só tem vinte e três. — Lembro-a

Ela sorri.

— É diferente. Eu tenho algo para fazer depois de sair daqui. Você vive no trabalho, literalmente.

Rio também.

— Vou... considerar.

Dália continua sorrindo para mim um segundo além do necessário, antes de se levantar, e ir até os armários pegar uma pasta.

— Nós vamos ter que usar o depósito de segurança para poder pagar a comida para essa semana. — Diz ela de modo profissional.

Suspiro.

— Já usamos semana passada.

— Eu sei, mas não temos outra opção. Há muita gente utilizando o Abrigo. Talvez deveríamos pedir uma verba maior para a Organização.

— Não. Meus pais confiaram a direção completa desse Abrigo a mim. Não vou decepcioná-los. Consigo fazer isso.

— Sett, em primeiro lugar: você é jovem. Vai ter tempo suficiente para aprender a comandar. — Diz ela, revirando os olhos. — Sabe, você não tem que fazer tudo agora. Vai com calma... Segundo: não é um problema de gestão. Estamos fazendo o que podemos. Nem sempre as contas fecham. Você tem que entender isso.

Assinto apático.

— É. Acho que sim...

Alguém bate na porta do escritório, e tanto eu quanto Dália nos viramos para ver quem é. Harold, um dos assistentes do setor administrativo, aparece na fresta entre a porta e o umbral. Ele esquadrinha a sala até seu olhar se pousar em Dália.

— Dália, precisamos da sua ajuda lá no setor.

Ela assente para Harold.

— Já estou indo.

Harold desaparece porta afora. Dália novamente olha para mim.

— Eu vou dar instruções para eles acessarem o depósito de emergência, está bem?

Dou de ombros.

— Ok...

Ela me lança um sorrisinho tranquilizador, antes de também sair do escritório.

Apesar de todos os esforços de Dália, não consigo deixar de pensar que estou fracassando. Meu pai me colocou no comando do Abrigo de Ewoa há quatro meses. Antes disso eu estava sempre em viagens em nome da ONG. Eu queria que meus pais confiassem em mim. Que soubessem que eu era competente e capaz de cuidar da Organização. Então quando ele finalmente aceitou me deixar no comando de algo tão delicado como um Abrigo, achei que finalmente tinha conquistado a confiança deles. Mas tudo durou pouco, e agora as contas nem sequer fecham.

O nosso Abrigo se parece com uma escola. O prédio principal ficam os dormitórios coletivos e banheiros. Depois atravessando o pátio, fica o prédio administrativo, uma pequena biblioteca e enfermaria equipada. Um segundo prédio, fica a cozinha, de frente ao refeitório, e as salas de artesanato e outras atividades. É relativamente pequeno, mas é um lar para muita gente.

Eu simplesmente amo meu trabalho. E nunca sequer cogitei fazer nada diferente. Fui criado em meio a trabalhos voluntários, ajudando pessoas a ter perspectiva de vida. E meus pais sempre me ensinaram o valor de ajudar o próximo, e o quanto isso te enriquece. Mas eles além de serem incrivelmente empáticos, também eram ótimos com finanças, o que é essencial em uma organização que sobrevive com doações.

Quero ser como os meus pais, mas simplesmente não consigo estar a altura...

Alguém bate na porta me arrancando dos meus pensamentos.

— Entre. — Peço.

Dália abre a porta e do umbral anuncia.

— Sett, você tem visitas.

» «

II — Alice

O vento invade o castelo pelas janelas. Ainda está ligeiramente frio. A capital de Aritânia, Caster, nunca fica realmente frio. Nem mesmo no inverno. Mas o palácio nunca é realmente quente. Nem mesmo no verão. Então o mantemos fechado no inverno. Mas hoje faz sol, e os empregados já estão preocupados com o longo período fechado, por isso resolveram abrir as janelas.

Estou no Salão da Tarde. O vento quase invernal sopra pela sala esfriando o chá na bandeja. Charlotte pega a xícara dela e bebe um pouco. Eu prefiro os macarrons.

— Mamãe ligou. — Avisa Lotte.

A mãe de Lotte, Joanna, que também é minha tia, vive em outra cidade. Ela se casou com um conde. Quando Lotte tinha quinze anos, Joanna a deixou passar uma temporada no palácio. Lotte nunca mais voltou. Sempre que tia Joanna vem para o palácio ela tenta convencer a filha a voltar, mas Lotte sempre se recusa. Tia Joanna deixa Lotte aqui porque em Caster ela tem a oportunidade de estudar na melhor escola do país, junto comigo.

E agora nós duas nos formamos (na melhor escola do país!), temos vinte anos, e passamos os dias bebendo chá, conversando e indo a festas de pessoas importantes (que também se formaram na melhor escola do país!).

— O que ela disse? — Pergunto finalmente começando a beber o chá, que já perdeu o sabor em contraste com o macarron.

Lotte dá de ombros.

—Disse que vem daqui há um mês nos visitar...

— Sério? E você não está animada?

Lotte fita a xícara por um segundo antes de pousá-la novamente na bandeja.

— Não sei como eles vão reagir ao Teddy...

—Eu sei como eu reagiria. E não seria bem. — Lotte me olha com irritação. — Que é? você sabe o que eu penso desse seu namoradinho serviçal. Pelo menos você tem um mês para terminar com ele até seus pais chegarem.

— Francamente Ally... —Diz Lotte se levantando.

— O que foi? — Pergunto. É assim que todos na minha casa reagem quando eu expresso minha opinião.

— Você sabe que eu não gosto que você fale assim dele. — Esbraveja ela.

—Olha só Lotte. Você já sabe a minha opinião. Sempre soube.

Ela suspira pesadamente.

—Ally, eu te amo. Mesmo. Mas falta isso aqui —Ela fez um gesto com o polegar e o indicador. — Para você cruzar a linha.

Olho para ela sem me deixar afetar.

— Eu só quero o melhor para você Lotte. E um cara que trabalha meio período e faz faculdade, com certeza, não é o melhor para você.

Ela estreitou os olhos incrédula.

— Não importa se ele trabalha ou faz faculdade. Ele me ama e me respeita. É o melhor para mim. Você é que não faz bem para mim.

Ela sai do Salão da Tarde e dá de cara com minha mãe na porta. Elas se cumprimentam e Lotte desaparece pelo corredor.

— Andou brigando com a sua prima de novo? — Pergunta minha mãe curiosa, sentando-se na poltrona onde antes estivera Lotte.

Dou de ombros.

— Melhores amigas brigam. Nada de mais.

— Hum, sei... —Diz minha mãe sem realmente acreditar. —Sabe a Lotte gosta muito do Edvard. E você é a melhor amiga dela. Deveria apoiá-la agora.

— O Edvard não é o cara certo para ela... — Respondo simplesmente.

— É, talvez não. — Diz minha mãe. — Mas isso é algo que ela deve decidir.

Apenas fico calada. Eu e minha mãe quase nunca concordamos em alguma coisa. Meu relacionamento com a família ficou mais complicado de uns tempos para cá. Eu apenas me dava bem com Lotte. Mas quando ela começou a namorar com Edvard, há cerca de um ano, minha relação com ela foi por água abaixo, também. Paramos de tocar no assunto para evitar discussões. Mas ainda assim não era a mesma coisa.

— Alice, quero conversar com você, sobre uma coisa. — Diz a minha mãe. Ela passa o dedo delicadamente pela borda do pires.

— Depois do almoço, ok? — Peço com um suspiro. Não estou mais afim de ter discussões com minha mãe aquela manhã.

— Está bem. Depois do almoço.

» «

III — Lotte

Eu quero ficar com raiva dela. Sério. Mas simplesmente não consigo. Alice é a pessoa que me acolheu quando eu cheguei na casa dela, e fez de mim a sua melhor amiga. Tudo bem que eu era a melhor chance dela de possuir uma melhor amiga. Mas ainda assim, nós fomos à mesma escola. Nós fomos as mesmas festas. Ficamos bêbadas juntas. Choramos juntas. Desde os treze anos. Isso não se apaga assim...

Viro um corredor e então a porta de saída do palácio surge no meu campo de visão. Eu amo o palácio. Ele com certeza é mais minha casa do que a mansão de meus pais em Ewoa. Mas algo me diz que logo direi adeus a ele. Avanço pelo gramado verde e bem aparado. Cumprimento alguns guardas pelo caminho.

Não entendo Alice. Podemos ser amigas de infância, mas ainda não consigo entendê-la. O porquê dela ser tão mesquinha. Eu nunca me importei com isso na verdade. Ela era minha amiga, e eu apoiaria ela, mesmo que eu soubesse que estava errada. Mas ela foi piorando. Eu deixei os pensamentos infantis de casar com milionários e ser princesa, pela percepção de que dinheiro (e morar em um palácio) não eram tudo.

Mas Ally quer fazer da vida dela um conto de fadas...

— Charlie? —Eu sorrio, mesmo sem me virar porque conheço essa voz e só há uma pessoa que me chama de "Charlie".

Giro sobre os calcanhares e vejo Teddy há alguns passos de distância. Ele sorri ao constatar que sou eu mesmo, e vem na minha direção.

— Indo aonde, hein? — Pergunta ele antes de me dar um abraço.

Enterro meu rosto em seu peito e solto uma risadinha.

— Estava indo para o alojamento te ver.

Ele me afasta o suficiente para olhar em meu rosto.

— Aconteceu alguma coisa? — Perguntou ele. — Você parece nervosa.

Eu rio, porque ele sempre sabe quando eu estou nervosa.

— É. Na verdade é um conjunto de coisas.

Ele passa as mãos no cabelo.

— Entendo... — Diz ele.

Ele se inclina e me beija. Pode ter se passado um ano, mas eu ainda me sinto flutuar. Eu devolvo o beijo e agarro sua camisa polo, porque simplesmente não consigo afastar o pensamento de que Teddy está escapando pelos meus dedos. Ele também parece sentir a mesma coisa, pelo modo como segura minha cintura.

— Vai ficar tudo bem, ok? — diz ele, olhando nos meus olhos.

Assinto e o abraço.

» «

Tirando, o meu próprio quarto no palácio o meu lugar preferido no mundo é o alojamento de Teddy. Nós entramos e ele fecha a porta, e depois abre todas as janelas deixando a luz entrar. Eu me sento no sofá.

— Quer chá? — Pergunta ele sentando-se ao meu lado, e colocando uma mecha do meu cabelo atrás de minha orelha.

Faço que não com a cabeça e me inclino na direção de sua mão desfrutando do seu toque.

— Não. Foi assim que meus problemas começaram. — Digo com um meio sorriso.

Ele assente meio confuso.

— Ok. O que aconteceu dessa vez?

— Meus pais estão chegando. — Sinto ele ficar tenso ao meu lado. — Daqui à um mês.

Ele assente.

— É. Isso é um problema. — Concorda ele.

Eu contei à minha mãe que eu tenho um namorado há quatro meses. Antes disso eu mantive Teddy em segredo de todos, menos de Alice. A família de minha tia recebeu bem a notícia. Mas eu estou preocupada com meu pai. Ele não chega no nível da Ally, mas também não acho que ele será compreensivo com o fato de Teddy ser um serviçal.

— Sabe, talvez ele goste de mim... — Diz Teddy com um sorriso.

Solto uma risadinha.

— Que é? — Pergunta ele, mas também está sorrindo — Aposta quanto? Eles vão ficar caidinhos pelo meu charme irresistível.

— Aposto que sim. — Digo e me aproximo dele.

Me enrosco ao seu lado e ele passa os braços sobre mim.

— Eles vão gostar de mim. Não se preocupe. — Diz ele.

Eu quero acreditar. Eu realmente quero.

Notas finais
Hey espero que tenham gostado. Passem no blog da fic: http://untouchablefanfiction.blogspot.com.br/ Deu um trabalhão para fazer ele, mas eu acho que o resultado final ficou realmente bom ^-^ No blog vai ter muita coisa extra, então passem por lá sempre, ok? E lá vai ter a roupa que a Lotte e a Alice usaram nesse cap... Então espero que tenham gostado. Deixem reviews, e até a próxima.