Untitled
4 I can't remember how
Notas iniciais
Algumas semanas se passaram, minha tristeza não diminui, ela continua lá, no mesmo lugar, só que a noto menos.
Continua na casa da Marcela, não tive coragem de voltar a casa dos meus avós. Estou tentando ter uma vida normal, mas pedi afastamento da Clínica, consegui até ir ao cinema com meus amigos, ando saindo com meus irmãos, acho que estou fazendo progressos.
Encontrei o policial que tinha me dado a notícia da morte dos meus avós um dia desses, conversamos um pouco, o nome dele é Breno e ele tem 28 anos, não tinha reparado antes o quanto ele era bonito, é alto com olhos e cabelos cor de mel, ele até me chamou pra sair, mas recusei disse que num futuro próximo talvez, ainda estou muito abalada para sair com um estranho.
Meus pais me ligaram para saber como eu estava, sabiam que eu seria a mais prejudicada com a morte dos meus avós, afinal sempre fui a pessoa da família mais próxima deles. Eles até me chamaram para almoçar lá, eu aceitei, achei um tanto quanto estranho, mas aceitei.
- Sara, você veio. Disse minha irmã com um lindo sorriso no rosto me abraçando.
- Eu disse que vinha não disse?
- Disse, mas eu não acreditei. Ela disse pegando na minha mão me levando para a sala onde estavam meus pais e meu irmão.
- Senta filha, não precisa ter vergonha, você é de casa. Disse meu pai.
- Eu era de casa. Eu disse me sentando ao lado do meu irmão, Matheus.
- Como você está? Perguntou minha mãe.
- Ainda viva, mas vou superar, pode ter certeza.
- É, vai mesmo, você já passou por coisa pior.
- É, passei mesmo, e sozinha, sem a ajuda de ninguém, sempre fui forte apesar de tudo.
- Como anda sua saúde? Perguntou minha mãe, tentando mudar o assunto.
- Você quer saber se eu me curei da AIDS? Você ainda não sabe que não tem cura?
- Mas eu achei que com o tempo, sei lá, ela sumisse.
- AIDS não é como uma gripe que você toma remédio e passa.
- Mas você não parou de tomar os remédios não né?
- Claro que não, mas eles apenas servem para me manter viva, não para me curar.
- E como estão as coisas na chácara? você não voltou mais lá. Indagou meu irmão mudando o assunto.
- O vizinho, que era amigo do vovô tá cuidando das criações, mas eu pretendo vender tudo, o gado, as aves, tudo. Você sabem que eu nunca concordei com isso de criar esses animais e depois matá-los para vender a carne.
- Mas, você vai vender pra quem? Perguntou meu pai.
- Não sei ainda, pedi o vizinho pra olhar se tinha alguém interessado, mas ele ainda não me deu resposta.
Depois desta longa conversa, fomos almoçar, me sentei na mesa, novamente ao lado dos meus irmãos, meus ainda tinham um enorme desconforto a sentar perto de mim.
Meus pais não falaram nada enquanto comíamos, meus irmãos falavam com intusiasmo sobre a escola.
Quando acabei, disse que ia embora, já não estava mais suportando olhar para eles lá, quase imóveis e sem falar uma palavra.
- Não vá ainda Sara. Disse minha mãe.
- Não posso ficar aqui o resto do dia, a casa da Marcela é longe daqui, e eu preciso descansar.
- Eu e seu pai estivemos pensando, você poderia voltar a morar com a gente agora, vamos passar uma borracha no passado, em tudo o que aconteceu, vamos recomeçar como se nada tivesse acontecido.
- Passar uma borracha no passado como? Ele ainda está vivo em mim, e vai estar sempre, até o último dia da minha vida.
- Filha, nós desculpamos você, acredite. Disse meu pai com um tom de dó.
- Vocês me perdoam? Como assim, eu não fiz nada.
- Nós te perdoamos, sabemos que você não teve culpa, você pegou AIDS daquele desgraçado, ele te contaminou, você não teve chances. Argumentou minha mãe.
- Ei, eu tive culpa sim, eu aceitei ter relações sexuais com ele sem me previnir, mas nem ele mesmo sabia que tinha AIDS, eu o amava, faria tudo novamente, do mesmo jeito e eu não preciso do perdão de vocês, porque não fiz nada de errado, não me considero uma coitada, como vocês acham que eu sou, me considero uma vencedora, por ser uma sobrevivendo da AIDS. Disse saindo.
- Sara, volta a morar com a gente, por favor. Ouvi Kelly dizendo suavemente.
Kelly era sem dúvida a pessoa mais doce que eu já conheçi em toda minha vida. Ela falando isso me fez parar, e olhar bem no fundo dos seus olhos verdes, lindos. Era me passava calma, seriedade.
- Você sabe que eu amo muito você não sabe? Você e o Matheus. Eu disse afanando seus cabelos loiros, brilhantes como o sol.
- Se você ama a gente, volta a morar aqui, quando você tá por perto fica tudo mais facíl, eu e o Matheus sentimos muita falta do vovô e da vovó e sua também, a gente tinha 6 anos quando você foi embora, nunca convivemos com você o bastante.
- Você sabe que eu não fui embora, que eu fui botada pra fora, que eles me tiraram daí, não dá pra voltar, se eu voltar eles vão me olhar torto 24 horas por dia, nunca vão chegar perto o bastante de mim, vão sempre ter nojo de mim.
Dei um beijo na testa dela, e um abraço bem apertado e entrei no cara para ir embora.
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