Unterschied
1 OneShot.
Uma das principais características do século XXI é algo que deveria ter começado há tempos; e apesar desta trazer felicidade para alguém em específico ou alguns em específico, também carrega consigo a amargura e tristeza de outros. O divórcio. Digo, não sou eu quem se separou, mas fui abatido da mesma maneira. Meus pais estavam infelizes e eu queria vê-los bem novamente. Não tinha outra forma, não é mesmo? Vidas seguem.
As línguas também.
O bairro criticou a dita mãe solteira, como se morássemos em um quarteirão católico. Os garotos na escola implicaram.
“Onde está seu pai, Mail?”.
“Abandonado pelo próprio pai”.
“Nem seu velho te quis idiota”.
Era estúpido, eu sei. O fato é que às vezes doída — bem como ocorreu aos meus seis anos, quando fiz a lembrança do dia dos pais e depois a encontrei na lixeira de casa.
“Depois que o garoto nasceu o pai deu o fora”.
"Abandonou a esposa durante o parto, é?!".
Hoje faz exatamente nove anos, desde que vi a primeira foto de meu pai; ele estava encostado em um carro azul. O cabelo escuro tinha grandes entradas, além de um cenho franzido parecer ser sua principal característica. A barba por fazer era algo notável também. Mamãe falava o quanto ele era machista dentro de casa e o quão ele era ranzinza também. Oh sim, as pessoas mudam. Essa era a imagem que eu tinha de meu pai, que nunca sequer me ligou desejar feliz aniversário. Um homem que provavelmente ficaria careca lendo jornais em busca de anúncios de lotes longe do centro da cidade grande.
Unterschied
Me chamo Mail Jeevas, tenho dezenove anos e atualmente resido em Okinawa, ao sul do Japão. É uma cidade tranquila, com uma bela vista para o mar. Estou no segundo semestre da faculdade de veterinária e sim, ainda não sou independente o suficiente para sair da casa da minha mãe. Trabalho meio período em uma creche próxima à minha casa. É um bom serviço, já que me dou bem com crianças.
Enquanto caminho e observo os ladrilhos da calçada, a voz da minha mãe ecoa em minha mente, como um vinil arranhado.
“Eu ainda não acredito que você é... Isso... Meu filho. Um jovem tão bonito.”
“Mail, por favor, sabe o que fazem com gays hoje em dia?”
Me assumir antes de sair de casa não pareceu uma ideia tão boa após ser executada. As coisas seguiram, apesar disso. Está chovendo, uma garoa simples; meu guarda-chuva é detestável, acho que preciso comprar outro. Na pequena TV na janela de uma loja conveniência pela qual passei afirmava ser sábado e que no domingo também choveria, impossibilitando a todos os jovens de sair de casa curtir o sol e a praia.
Hoje um amigo do meu professor vai deixar o filho sob os meus cuidados. Estou um pouco nervoso, é a primeira vez que recomendam meus serviços. O outro lado da moeda é divertido também: outro encarregado foi contratado. Portanto, metade do serviço pesado vai sair das minhas costas. Parece um bom dia.
Avisto de longe a grande casa amarela, de dois andares e telhado azul. A fachada estava desbotada. Quando entro, já posso escutar os gritos das crianças alvoraçadas correndo de um lado para outro. Algumas me avistam entrar.
— Não abracem o tio, ele está molhado — sorrio, tirando os tênis e jogando minha mochila de lado.
— Nem está – reclama Amellie, uma garotinha de seis anos que usa uma longa trança.
— Não estou? – levanto minhas sobrancelhas com ar de surpreso, enquanto observo minhas próprias vestes — é verdade, não estou não. Me abraça entãaaao.
Pego Amelie no colo e ela sorri, segurando a gola da minha camisa. O corredor é largo e enfeitado de diversos desenhos infantis, de monstros, carros, animais e personagens da Disney. A sala seguinte é grande; as crianças a chamam de O Teatro. Gostam de assistir e produzir peças sob variados temas, mas que sempre acabam com o mocinho sendo devorado pelo dragão.
— Tio Matt!
Sobre TioMatt e Tomate. Genial.
— Tio, tem um garoto que parece um fantasma ali, ô – segui o dedo da criança até aonde ela apontava. Não pude deixar de sorrir.
— Nate?
Nate River era um amigo de infância. Naturalmente britânico, albino e com uma rara doença que deixava seus cabelos alvos. Era um garoto quieto e reservado. Mas era um amor de pessoa também.
— E você conhece mais algum jovem que tem cabelo branco? – ele respondeu tentando não ser sarcástico. Só tentou mesmo. Se levantou da cadeira e caminhou até mim – alias, essas crianças falam muito de você. Você é uma babá em tanto, hein?
— Aah, eu tento né – sorri, colocando a garota no chão – e respondendo a sua pergunta... Eu conheço o carinha de um jogo que tem o cabelo branco. Só que a cara dele é azul – ele sorriu meio e olhou as crianças ao meu redor. Ah tá – crianças, eu vou conversar um pouco com o fantasma e depois a gente brinca.
Era hoje.
— Meu pai me fez vir trabalhar aqui – ele concluiu tão rápido que tenho certeza que se perdeu na fala junto comigo.
— Como é? – o puxei pela manga da camisa cinza fazendo-o sentar comigo numa mesa ao canto da sala colorida.
— Isso mesmo que você ouviu – sorriu e cruzou as pernas.
— Seu pai o mandou aqui para trabalhar? Espera, deixe-me processar isso.
A mãe de Nate havia falecido no parto, e seu pai, naturalmente japonês, havia voltado ao Japão para continuar sua vida próxima à família. Não tão diferente de meu mãe, o de Nate era um tanto quanto... Mau. O trágico fato dele também não ter um de seus pais foi o que nos juntou durante o fundamental. Felizmente algo bom saiu disso.
— Sim. Bom... Mais ou menos isso. Ele queria levar mulheres em casa e sabe né. Minha presença atrapalha os planos. Aparentemente meu peculiar cabelo branco agrada as crianças e eu consegui ser contratado aqui. Parece que você reclamou em busca de ajuda, então sequer pediram tempo de experiência ou adaptação. De agora em diante sou todo seu.
Reaprenda a digerir as noticias, ruivo.
— Ok... – levantei. Seria bom trabalhar com ele — Ok, cuidamos das crianças de cinco a sete anos, que é a maior demanda. O turno de final de semana começa às oito da manhã e terminas às sete da noite. Uma hora e meia de almoço e...
— Eu já sei. Me explicaram. Quero que você me ensine a lidar com eles.
— Olha, você é fã de montar quebra cabeças e construções de lego... Cartas né? Eles vão adorar. Pegue naquele baú alguns dados e mãos a obra. Vou chamá-los e fazê-los ficarem observando, quietinhos. Mas sempre faça algo que estimule eles a participar. Tipo... Isso — peguei alguns dominós e os coloquei em pé e em fileiras; chamei um dos garotos e pedi para que os derrubasse, da forma que quisesse.
— Ok – ele deu de ombros, como se minha dica fosse extremamente banal. Caminhou até o baú indicado e começou a montar um castelo com cartas de baralho. Organizei as crianças que pareciam hipnotizadas com a perfeição milimétrica de Nate.
— Mail! Tem alguém batendo! – a cozinheira gritou do outro cômodo.
— Sim... – olhei um homem de paletó e segurando uma pasta escura, junto a um garotinho loiro e emburrado, que segurava firme uma barra de chocolate amassada.
— Você deve ser o garoto que cuida das crianças. Olha, eu estou com pressa, esse é Mihael, meu filho e esse é o café da manhã dele. Pode olhar lá dentro na tal lista que vai ver meu nome: Jonathan Keehl. Volto até as oito – e lá se ia o homem de paletó. Aquele era o café da manhã? Ele sequer se despediu do garoto. Oito horas? A creche fechava às sete!
— Er... Oi Mihael, eu sou Mail – me agachei, apoiando as mãos nas minhas coxas em busca de equilíbrio. Segurei a mão do garoto – vamos entrar e brincar? Você gosta de fazer o que?
— Gosto de comer chocolate... E gosto de... Brincar.
Mihael aparentava ter seus sete anos. Era loiro e tinhas os olhos azuis. Pele bronzeada e vestia um short listrado e uma camisa de frio azul escura. Não parecia uma criança má cuidada, mas com toda certeza não tão feliz. Talvez ainda estivesse com sono.
Passaram-se as horas.
Near – apelido velho de Nate – parecia entrerter bem as crianças.
Mihael estava emburrado em um canto desde que chegara.
E eu estava pensando no que fazer com ele.
O almoço já tinha passado. Havíamos sentados em uma mesa e comido como todo dia. Mihael não comeu nada e Nate ficou em um canto observando-nos. Certo que não podíamos deixar Mihael sem almoço por simples capricho dele, mas ele não abria a boca nem por chantagem. O que fazer num momento desses?
06h43m p.m.
— Até segunda! – me despedi de Alex, que caminhava sorrindo ao lado da mãe — quantos ainda... – observei Mihael sentando em um canto da sala, abraçado aos próprios joelhos. Aquilo me doeu o coração.
— Hey, loirinho – sentei-me ao seu lado e peguei meu Game Boy Color – quer tentar? – ofereci, mostrando o joguinho do Pokémon.
— E-eu... Eu quero – ele pegou o mini game da minha mãe, parecendo mais animado e iniciou o jogo.
Logo Near estava do meu lado. Parecia cansado.
07h52m p.m.
— Está gostoso – riu Mihael enquanto comia mais um pedaço do hambúrguer, enquanto uma batatinha caia no chão.
— Então Near? Como foi seu primeiro dia? – imitei a voz e sotaque de Madame Bouchier, uma antiga professora.
Ele riu, tomando mais um gole do milk-shake de chocolate que havíamos encomendado.
— Foi muito bem, senhora – sorri ao lembrar do quanto ela odiava ser chamada de senhora.
“Senhora é para velhos!” E ela com sessenta e dois anos era o que?
— Sabe... – começou a criança – é a primeira vez que como na mesa com duas pessoas... Sempre é com meu pai ou sozinho. Minha mãe está viajando tem dois meses... E meu pai trabalha de manhã até a noite quando eu já estou dormindo.
08h24m p.m.
O pai dele já estava passando da conta.
— Cuidado! – Nate avisou, antes mesmo do prédio que nós três estávamos fazendo com os dados desabar.
— Desculpa... – o garotinho se desculpou com cara de choro.
— Tem nada não. Vamos começar de novo – sugeri juntando os dados que haviam se espalhado pela sala.
08h59m p.m.
— Está perfeito, não? – sorri, me sentindo vitorioso, diante da minha grandiosa escultura com torres de vigilância e muros de proteção.
— Sim – Nate se levantou – minhas pernas estão dormentes – comentou.
— Matt... Amanhã você vai estar aqui? – perguntou Mihael.
— Seu pai trabalha domingo? – perguntei, ansiando a resposta negativa.
— Trabalha.
Silêncio.
Aquele garoto se criou sozinho ou é impressão minha?
— Bem... Amanhã... Amanhã vamos estar aqui sim. Mas não vamos ficar muiiito tempo – o vi ficar tristonho, coisa que fez eu me sentir um monstro. Não era como se eu de fato fosse, mas...
— Mas caso você venha para cá, pode ter certeza que ficaremos mais Mi – River deu sua palavra. E a palavra dele era a minha.
— É isso aí!
— Matt! Tem alguém na porta!
Dessa vez Nate veio junto a mim, ao abrimos me deparei com a cara de irritado do senhor Keehl na porta.
— Vim buscar o Mihael – falou o óbvio, afinal, o loiro era a última criança ali.
— Até amanhã Matt, Near – o garotinho buscou se despedir da gente, enquanto seu pai o arrastava.
— Pois é. Vamos embora? – olhei o carro escuro sair rápido.
— Vamos – suspirou o garoto ao meu lado, colocando o sapato.
Fiz o mesmo e saímos. Estava chovendo ainda e era relativamente tarde da noite.
— Nate... Lembra aquele... Aquele nosso beijo, quando estávamos na sétima série? – pergunto, vendo-o ficar vermelho.
— Lembro.
Um beco escuro, do lado da mesma loja de conveniência 24h. Prensei o garoto contra a parede molhada, sentindo os pingos de chuva gelados. Seu sorriso revelava seus pensamentos.
— Quero repetir – meu coração batia forte. Não era sempre que tinha que tomar as decisões. À frente.
— Vá em frente – provocou e então tomei os lábios macios e gelados dele.
Agarrei-lhe a nuca, e intensifiquei o beijo.
“Meu Deus, que calunia”
“Vão para um hotel, seus bando de viadinhos.”
“Feche os olhos filho. Não quero que veja isso”
“Que nojo.”
Dia seguinte; 09h08m a.m.
— Matt! Near! – Mihael gritou ao nos ver. Veio correndo em nossa direção.
— Mi! Como passou a noite? – perguntei ao loiro que entrou sorridente dentro na creche.
O mundo dava voltas? Mihael não se despediu do pai.
— Bem! Na verdade eu fiquei pensando se encontraria com vocês hoje – comentou, tirando o tênis preto.
— Mas não falamos que estaríamos aqui?
— Falou... – ele olhava as outras crianças observando o castelo que fizemos ontem – Legal né? Foi eu, o tio Near e o tio Matt que fizemos! – ele se vangloriou.
— Tios, ensina pra gente? – perguntou Matthew, nos rodeando junto as outras crianças.
“Será que conseguimos fazer um igual?”
“Vamos tentar?”
“É lindo”
— E-ei! Não mecham! Fui eu e os tios que fizemos! – o loiro reclamou com os outros, os empurrando. No fim, Mihael empurrou um deles que caiu em cima da construção – Vocês... Vocês... – ele começou a chorar.
— Hey, calma Mi – o peguei no colo, e ele chorou no meu ombro enquanto se agarrava na minha blusa.
Carência e falta de atenção podiam ser temas bastante sérios.
— E-les... eles não vão t-tirar vo-cês de mim... Nã-ão vão – e o garoto soluçava...
— Shhh, calma... – o abracei.
— Você está bem, Mel? – River perguntou atrás de mim, olhando o loirinho que sorriu.
— Estou.
12h02min p.m.
— Quero que vocês sempre estejam comigo, tá mamãe? – Sim. A pergunta de Mihael foi dirigida a mim – e espero que continue brincando comigo, papai – sorriu, olhando para um Nate vermelho.
Ok, brincar de casinha era curioso.
Acabo de ligar para pai dele. Falei que iriamos sair e antes das quatro voltaríamos à creche. O pai dele disse que podíamos ir, e que antes das nove voltaria. Ele era tão irresponsável que não perguntou onde iriarmos e o que faríamos. Beleza.
Estávamos passando pela minha casa. Os convidei pra entrar. E logo dei de cara com minha mãe.
Agora, imagine a linda situação:
Eu estava sorridente em casa – algo não muito recorrente -, com o garoto que beijei na sétima série – portanto, o motivo de terem descoberto que eu era gay -, e pra completar, com uma criança no colo. Perfeito.
— Olha mãe. Meu filho e meu namorado.
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