Unstoppable
1 Prólogo
Um tiro. Essa foi a única coisa que consta como minha ajuda num caso. A única coisa que lembram que eu fiz. E a única coisa que não queria que constasse. Uma morte não faz de mim um herói, faz de mim um assassino. Uma coisa que eu nunca pensei que seria. E que nunca quis ser. Eu cheguei a desistir de ser um policial o que fez muitos acharem que esperava que alguém me seguisse. Que dissesse “hey precisamos de você”. Mas não só eu não o esperava como ninguém o fez. Porque eu só dei um tiro. Porque eu só sei puxar um gatilho. Porque por mais que me esforçasse não conseguia seguir a linha do pensamento deles. Por mais que tentasse cada informação parecia ser tirada de algum espaço anos luz a frente. Um espaço ao qual a minha mente parecia não ter acesso.
Passei o caso guiado então pela fé em meus companheiros, pela lealdade a eles e pela minha necessidade se ajudar. Isso era uma necessidade não um dever moral. Era o que o meu coração dizia que devia fazer, principalmente quando pessoas inocentes começaram a fazer parte das vítimas. Então mais uma coisa começou a me guiar, meu coração. E algumas vezes o que o cérebro parece se negar a entender o coração parece aceitar. Por mais que a ordem dissesse coisas que para mim pareciam sem base, eu me sentia impulsionado a seguí-la. Porque acima de tudo eu confio em meu coração.
E foi o meu próprio coração que me fez voltar a trabalhar. E é ele que me diz que o Raito se perdeu, que na realidade ele queria ser um herói, mas que no meio do caminho o poder foi grande demais. Então decidi dar o meu melhor por eles. Na realidade antes de tudo isso acontecer nunca pensei sobre a existência de anjos,mas agora, sem eles, começo a acreditar. E começo a me perguntar se isso vem do fato deles apenas terem me acolhido e me feito crescer como pessoa, ou se isso vem apenas do meu medo de pensar que jamais irei vê-los novamente. Acabo então decidindo mantê-los vivos, no meu trabalho, na minha memória e claramente no meu coração. Acabo por conservá-los em minha própria existência. E assim me mantendo mais confiante e pronto para sorrir de novo.
Lendo essas palavras assusto-me comigo mesmo. Hey o brincalhão tem sentimentos. O cara que faz besteira e está sempre lá também fica triste. Mas também permanece indo em frente e honrando as promessas. E eu prometi continuar dando o meu melhor, com ou sem reconhecimento. Sorrio então afinal a vida continua e meus amigos estão vivos em mim. Olho pela janela e assisto a chuva cair. Eu sou como uma daquelas gotas. Sozinho não tenho importância alguma. Mas acompanhado de muitos posso criar algo grande. Mesmo que ninguém reconheça que aquela gotinha ajudou a formar a grande tempestade a frente. Afinal é só mais uma. Mas uma que se juntou com milhares. E que juntas fizeram algo bom. Saio então de casa em meio a chuva. Franja colada na testa. Encharcado em questão de minutos. Entretanto nada que realmente me irrite. Apenas ando. Mente transbordando de ideias, coração leve e pronto para o que vier pela frente.
Sinto meus olhos ficarem molhados lentamente. As lágrimas desciam junto as imagens que teimavam a voltar a minha mente .E pouco a pouco mais coisas surgem em minha mente,como os meus desejos de que onde quer que eles estejam, estejam bem. Algumas vezes sinto que deveria ter feito algo mais para ajudá-los. Sinto que deveria ter conseguido salvar a todos. Mas não vou deixar nada me abater, nem mesmo meu próprio medo de não conseguir dar o meu melhor. Porque esse é o único jeito de mantê-los vivos, o único jeito de não me sentir perdido no meio disso tudo.
Me deito no banco da praça vazia e olho para os raios que caiam longe de onde estava. Sorrio e prometo aos céus que darei meu melhor amanhã. Amanhã será o meu primeiro caso. Prometo e sorrio mais ainda pensando que talvez meus amigos possam me guiar amanhã, de onde quer que estejam. Sinto um pequeno aperto no peito. Amanhã não será fácil. Outro assassino em série. Outro detetive. Mas também outra oportunidade de continuar seguindo o meu coração. Nessa mistura de felicidade e preocupação fecho os olhos caindo no sono exatamente onde estava. Sonhei com meus amigos e sorri mais uma vez. Confiante que a vida segue em frente. E que no fim tudo, tudo, acaba bem. Durmo sonhando sobre o que vou passar. E quanto a vocês ? Irão me acompanhar? Irão ver a visão de quem não é nem o herói nem o bandido? Irão acompanhar pelos olhos de quem apenas se perde em meio as outras gotas, de quem apenas quer dar o melhor de si ? Espero que sim. E pouco a pouco meus sonhos vão se dissolvendo, até que não sonho nada que seria capaz de me lembrar. Enquanto minha cabeça apenas repousa enquanto sinto inconscientemente as gotas de chuva sobre mim e esperava que o próximo dia chegasse da melhor forma possível.
Fale com o autor