Unsaid.

1 Capítulo único.


Unsaid.

Eles sabiam que aquela seria a ultima vez que iriam se encontrar. Saber disso não diminuia nem um pouco a sensação de frustração da despedida e de maneira alguma ajudava a decidir o que queriam dizer para o outro.

Quando se está conversando com alguém pela ultima vez, o que se diz? O que vale a pena dizer e o que vale a pena guardar só para si? Não era falta do que falar, de forma alguma. Aquela era uma relação construida em coisas não ditas e guardadas e escondidas e disfarçadas. O que pesava neste dia especifico — nesta ultima conversa — era saber que de nada adiantaria falar ou não falar qualquer coisa. Aquela continuaria sendo a ultima conversa que os dois teriam, e aquela continuaria sendo a ultima vez que os dois se encontrariam.

Passaram a tarde juntos, os dois fingindo que aquela era uma tarde comum, os dois sabendo que não era. Evitaram o assunto "ir embora" ou "despedida" como se isso fosse impedir o futuro. Falaram sobre o passado, relembraram historias, riram de novo das mesmas coisas que ja tinham rido antes. Não havia necessidade de falar das coisas ruins, das confusões mentais em que aqueles dois se envolviam simplesmente pelo fato de nunca conversarem sobre o que eram ou deixavam de ser, dos dias em que se odiavam. Falaram apenas das coisas boas, dos bons momentos, do que gostariam de guardar. Falaram do futuro também, de uma forma estranha em que um não envolvia o outro, como num acordo silencioso em que ambos compreendiam que aquela era a ultima vez.

A hora da despedida se aproximava com uma velocidade maior do que a desejada. Se alguem pudesse parar o relogio um pouquinho, segurar o tempo para que aquela tarde durasse um pouco mais, quem sabe ficaria mais facil. Nunca relutaram tanto em entrar em um carro para voltar para casa.

Foi um caminho silencioso, possivelmente porque os dois sabiam que aqueles eram os ultimos minutos, agora. Não havia mais muito o que fazer. Ainda tentavam decidir o que falar. Ele estacionou o carro em frente ao prédio dela, desligando o motor e soltando o cinto de segurança. Virou-se para olhar pra ela e não conseguir conter a risada ao ve-la, olhos marejados e queixo tremendo, como uma criança que não quer mostrar que não gostou da forma como a brincadeira terminou.
- Cala a boca. — ela falou antes que ele pudesse falar qualquer coisa, abrindo a porta para sair do carro. Ele, ainda rindo, a acompanhou.
- Não precisa chorar. — falou, aproximando-se para abraça-la.
- Eu sei. — ela deixou uma risadinha escapar, secando os olhos antes das lágrimas se formarem de fato. — Desculpa. Eu não tenho o menor auto controle.
- Sempre soube.

Por alguns segundos, eles ficaram em silencio, apenas se abraçando. Ela torcia para que ele pudesse ler os pensamentos dela, assim ele saberia exatamente o que ela estava sentindo sem que ela precisasse explicar.
- Eu queria poder ler teus pensamentos agora, pra saber o que você ta sentindo. — ele falou, pegando-a de surpresa.
- Eu to pensando em tudo o que eu não te disse em todo esse tempo. — ela respondeu. — To pensando se vale a pena te falar agora.
Ele não respondeu de imediato, mas se afastou para poder olhar para o rosto dela.
- Eu vou querer ouvir? — perguntou receoso.
- Provavelmente não. — os dois riram.
- Posso falar primeiro? — ele pediu, novamente pegando ela desarmada.
- P-pode. — deu ombros.
Ele respirou fundo e ajeitou os ombros, molhando os labios antes de começar a falar.
- Eu... Hm... Quando você chegou, eu achei que tudo o que tinha pra acontecer comigo ja tinha acontecido. E aí você veio. E eu nunca soube lidar com meninas, então eu não sabia lidar com você. E eu nunca tinha me sentido daquela forma, então eu, obviamente, não sabia como lidar com isso também. Eu fiquei confuso, eu fiquei perdido, eu... Eu sempre fui uma bagunça, e eu não queria bagunçar você também. Me desculpa se eu fiz você pensar que eu não me importava com você, mas você precisa saber que eu me importava sim, e muito. E que eu nunca quis te fazer mal nenhum, de forma alguma, você precisa saber disso também. Você é... incrível. E eu jamais vou encontrar ninguém como você no mundo, e eu provavelmente nunca vou me perdoar por não ter aproveitado melhor o tempo que eu tive você por perto.
Ela sorria enquanto ouvia ele falando dela daquela forma. Queria poder ter um gravador, para repetir aquele momento mais vezes.
- Você é uma bagunça. — concordou.
- E você não tem auto controle. — ele riu, passando a mão pelo seu rosto e recolhendo uma lagrima teimosa. — Quer falar alguma coisa?
- Você nunca vai entender o quanto eu gosto de você. — falou. — E eu costumava dizer que nunca entenderia porque a gente nunca deu certo, mas agora eu vejo que a gente deu sim. A gente deu bem mais certo do que eu achei que jamais daria. O que a gente tem é melhor do que qualquer outra coisa com qualquer outra pessoa: a gente é amigo, antes de qualquer outra coisa. Um tipo estranho de amizade, que não conversa sobre o que sente e se finge de indiferente, mas eu sei bem que o que eu tenho contigo não encontro em outro lugar.
O celular dele apitou dentro do bolso, provavelmente algum dos meninos procurando por ele, porque estava quase a hora de viajarem.
- Camille, escuta... — ele falou. — Nova York não é tão longe, a gente pode...- começou, mas ela rolou os olhos.
- Cala a boca, Logan. Você sabe muito bem que a gente não vai se visitar. — riu.
- Ta. — ele concordou também. — Mas sei la, a gente ainda pode se falar, tem telefone e internet e...
- Claro. — concordou. — A gente pode se falar.
- Cam, eu...
- Eu sei. Eu também vou sentir a sua falta.
Os dois ficaram em silencio, sem saber o que mais dizer. O celular de Logan voltou a apitar.
- Você tem que ir. — Camille falou.
- Tenho.
- Ta.
Eles se abraçaram. Um abraço longo e dolorido, cheio dos significados escondidos, mais cheio ainda de carinho e saudades antecipadas. Camille tentou se afastar, mas ele não deixou. Sem que nenhum dos dois soubesse como isso aconteceu, estavam trocando beijos apoiados na lateral do carro, tentando fazer aqueles poucos segundos durarem um pouquinho mais.
- Logan. — Camille o empurrou. — Você tem que ir.
- Ta.
Um ultimo beijo. Toda e qualquer outra coisa que houvesse para ser dita naquele momento não seria melhor que isso.
- Se cuida. — ela pediu.
- Você também. — Logan concordou.
- Agora vai. — Camille mandou, rindo da relutancia do menino em entrar no carro.
- Taaaaaa.

E ele entrou no carro. E do carro, entrou no avião e do avião entrou em Nova York e entrou na nova vida que iria levar daquele dia em diante. Eles, de fato, se falaram por um tempo, trocavam mensagens e ligações, mas aos poucos aquilo foi se perdendo, eles foram conhecendo novas pessoas e algum tempo depois, aquele dia era apenas mais uma boa lembrança.

Daquele relacionamento conturbado, porém tão bom quanto podia ser, ambos lembravam eventualmente, com pequenos arrepios de saudades.

Quando alguém dizia para Camille "Faça um pedido", ela pedia para que ele voltasse. Eles lidariam com o que quer que fosse, ela só queria poder te-lo em sua vida novamente. E Logan, se perguntavam se ele tinha algum arrependimento na vida, imediatamente pensava nela e em todas as coisas que não teve coragem de dizer. Hoje ele diria, todas elas, com todas as silabas.

Notas finais
Tenho que confessar que esse texto é um pouco auto biografico. Escrevi com o coração na mão. hahaha Sério gente, nunca deixem ninguem ir embora sem falar tudo o que vocês tem pra falar antes!!!!! Beijo e obrigada por lerem.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!