Unraveled
21 Less
Capítulo 21: Less
“I'm missing you less, I'm stressin' you less / I'm feelin' the weight off my chest / Yeah, I think I'm startin' to care a little less…” — Olivia Rodrigo, Less
Trinta e cinco dias se passaram desde a nossa volta da Europa. Aquele nó sufocante que costumava apertar o meu peito antes da viagem parecia ter se desfeito por completo. Com a data da minha cirurgia cardíaca devidamente agendada para logo após o nosso casamento, que aconteceria em exatos três meses , o peso da ansiedade simplesmente evaporou. Eu estava vivendo o momento presente, focada no amor, na paz e na rotina gostosa de construir um lar.
A nossa nova casa estava uma verdadeira e deliciosa bagunça.
Caixas de papelão ocupavam quase todos os cantos da sala, pilhas de livros ainda esperavam por espaço nas prateleiras e o cheiro de tinta fresca e madeira polida tomava conta do ar. Para nossa sorte, a família inteira havia se mobilizado no sabadão para nos ajudar com a mudança.
Na sala de estar, a cena era digna de uma comédia. Emmett e Jasper tentavam desesperadamente montar um sofá retrátil de três lugares seguindo um manual de instruções que Emmett insiste em ler de cabeça para baixo.
— Cara, eu estou te dizendo, essa peça em formato de 'L' vai na parte de trás! — Emmett protestava, segurando uma chave Allen gigante com uma cara de profunda concentração.
— Emmett, se você colocar essa peça aí, o sofá vai tombar para a esquerda toda vez que alguém sentar — Jasper rebateu, com aquela calma analítica impecável, ajustando os óculos no nariz. — Carlisle, por favor, diz para o seu filho que ele está tentando encaixar o braço do sofá onde deveria ser o pé.
Carlisle, que estava em cima de uma escada dobrável ajustando o lustre principal da sala, apenas balançou a cabeça com um sorriso divertido.
— Eu me recuso a clinicar ou fazer suturas em ferimentos causados por montagem incorreta de móveis hoje, rapazes — avisou Carlisle, fazendo todos rrirem.
Na cozinha, Renée e Esme organizavam as louças e xícaras nos armários planejados, enquanto Rosalie e Alice limpavam a bancada de granito entre risadinhas e fofocas. Charlie, por sua vez, estava no quintal dos fundos com uma caixa de ferramentas imensa, fingindo inspecionar a fiação externa só para supervisionar se o Edward estava cuidando direito da casa da filha dele.
Edward e eu estávamos no andar de cima, no nosso quarto, descarregando as últimas caixas de roupas.
Ele estava com as mangas da camisa dobradas até os cotovelos, um tiquinho de poeira na bochecha e os cabelos bronze bagunçados de um jeito que o deixava ainda mais charmoso. Peguei uma caixa pesada e, antes que eu pudesse dar dois passos, Edward surgiu na minha frente, tirando o peso das minhas mãos com facilidade e me encarando com uma falsa severidade médica.
— O que a minha noiva pensa que está fazendo carregando peso? — ele perguntou, depositando a caixa no chão e puxando-me pela cintura.
— Eu só estou ajudando, Doutor Cullen — respondi, rindo e passando os braços ao redor do pescoço dele. — Minha saúde está ótima, sabia?
— Eu sei... mas cuidar de você continua sendo a minha prioridade número um — Edward sussurrou, ajeitando uma mecha do meu cabelo para trás da orelha e colando a testa na minha. — Sabe, olhar essa casa ganhando a nossa cara... ver as nossas famílias aqui reunidas... faz tudo valer a pena.
— Eu amo a nossa vida — murmurei, selando nossos lábios em um beijo calmo e doce, interrompido apenas pela voz do Emmett gritando lá de baixo que "o sofá finalmente tinha virado um sofá".
Apesar de a casa já estar praticamente pronta, não dormiríamos lá naquela noite.
Edward, Carlisle e Emmett teriam um plantão noturno intenso no hospital de Forks para cobrir uma emergência da região. Por isso, me despedi do meu noivo com um beijo demorado na varanda, sob a luz dos postes da entrada, e segui com os meus pais para passar a noite na casa deles.
Assim que cruzamos a porta da frente da casa dos Swan, senti o clima nostálgico no ar. Renée suspirava a cada três passos e Charlie parecia um tanto trágico, tirando o casaco com uma lentidão dramática.
— Nem acredito... — Renée começou, secando o canto do olho com o pano de prato enquanto entrava na cozinha. — A última noite da nossa garotinha morando sob o nosso teto antes da mudança oficial...
— Pois é — Charlie resmungou, sentando-se na sua poltrona reclinável da sala e cruzando os braços com a cara fechada. — Sabe, Bella... eu estive pensando. Aquela casa nova é muito grande. Você podia ficar morando aqui com a gente por mais um tempo. E aí você se muda só depois do casamento! Ou melhor, vocês podiam morar aqui no primeiro ano de casados...
Olhei para a minha mãe, que vinha da cozinha com uma jarra de suco. Nós duas trocamos um olhar cúmplice e caímos na gargalhada.
— Ah, meu amorzinho, pode parar com isso! — Renée interrompeu na hora, colocando as mãos nas cadeiras. — A garota já está com a casa linda, prontinha, e você querendo segurar a Bella no ninho até ela ter cinquenta anos! Deixa nossa menina voarem!
— É, pai — brinquei, sentando no braço da poltrona dele e dando um beijo no seu topo de cabeça. — Nós vamos morar a dez minutos daqui. Você ainda vai ter que me aguentar tomando café aqui quase todo dia.
Charlie resmungou mais um pouco, mas acabou cedendo, segurando a minha mão com um carinho paternal imenso.
Passamos o resto da noite jogados no sofá da sala, comendo pipoca e assistindo a programas de auditório americanos antigos na TV. Ríamos das pegadinhas bobas e dos competidores desastrados, exatamente como fazíamos quando eu era criança.
Por volta das dez da noite, o cansaço do dia de mudança finalmente me pegou. Me despedi dos meus pais com abraços apertados e subi para o meu antigo quarto.
Deitei na minha cama de solteiro, sentindo o corpo relaxar profundamente. Peguei o celular na mesa de cabeceira e vi uma mensagem do Edward enviada há poucos minutos do hospital:
"O plantão está calmo por enquanto, mas o meu pensamento não sai de você e da nossa casa. Durma bem, meu amor. Te amo. — E."
Sorri, encostando o telefone no peito. Fechei os olhos ao som da garoa caindo no telhado de Forks, em paz, sem estresse e sem pesos. Eu estava pronta para o amanhã.
A madrugada ainda cobria Forks quando despertei abruptamente, sufocada por um peso insuportável no meio do peito.
O ar não entrava nos meus pulmões. Tentei puxar uma respiração profunda, mas meu peito parecia preso por garras de ferro. Meu coração não estava apenas acelerado; ele batia em um ritmo completamente desordenado, frenético e descompassado, um galope descontrolado que fazia minha visão oscilar em pontinhos pretos. Uma dor aguda e lancinante irrompeu pelo meu tórax, irradiando para o pescoço e braço esquerdo.
Tentei me levantar, mas minhas pernas não responderam. Caí da cama, atingindo o chão de madeira, e consegui apenas emitir um gemido fraco, sufocado.
— Pai... Mãe... — minha voz mal saía.
Felizmente, o som do meu corpo caindo foi suficiente para despertar Charlie. Em questão de segundos, a porta do quarto se escancarou.
— Bella! — o grito de Charlie ecoou pela casa.
Renée apareceu logo atrás, levando as mãos à boca em pânico ao me ver caída, pálida, suando frio e lutando desesperadamente por ar.
— Charlie, meu Deus! Ela não tá conseguindo respirar! — Renée entrou em desespero, ajoelhando-se ao meu lado enquanto Charlie me pegava nos braços sem pensar duas vezes.
— Vamos pro hospital agora! Segura a cabeça dela, Renée! — Charlie gritava, descendo as escadas correndo comigo no colo.
A viagem até o hospital de Forks foi um borro de sirenes, chuva no para-brisa e os soluços da minha mãe no banco de trás, segurando a minha mão gélida. A cada solavanco da viatura, a arritmia no meu peito parecia piorar, me afundando numa fraqueza avassaladora.
Ao cruzarmos as portas da emergência, Carlisle já nos esperava na entrada com uma equipe de paramédicos, alertado pela ligação de emergência do meu pai.
— Tragam a maca! Rápido! — a voz de Carlisle era firme, embora a preocupação estivesse estampada em seu rosto. — Coloquem ela no monitor! Oxigênio em fluxo alto!
A partir dali, o mundo virou um turbilhão de luzes e vozes sobrepostas. A dor no meu peito era tão intensa que eu mal conseguia manter os olhos abertos. O monitor cardíaco ao lado da minha cabeça apitava em um tom agudo e frenético, denunciando a gravidade da crise.
Corredor adentro, vi a figura de Edward surgindo de uma das salas do plantão. Ele vestia o jaleco, mas ao ver a minha maca passando e o som ensurdecedor do monitor, a cor sumiu completamente do seu rosto.
— BELLA! — o grito dele falhou. Edward correu até a maca, segurando o meu rosto com as duas mãos trêmulas. — Meu Deus, Bella, olha pra mim! Eu tô aqui!
— Ed... ward... dói... — consegui sussurrar, a voz sumindo enquanto minhas pálpebras pesavam.
Carlisle analisou o traçado do eletrocardiograma e olhou fixamente para Edward. A decisão não precisou de palavras longas.
— É um bloqueio grave com taquicardia ventricular. Os medicamentos não estão estabilizando. Não temos como esperar três meses, Edward — Carlisle decretou com autoridade absoluta. — Precisamos operar agora.
— Preparem a Sala 3! Chame a equipe de cirurgia cardíaca imediatamente! — Edward ordenou, a voz oscilando entre o cirurgião experiente e o noivo desesperado. Ele se virou para o corredor: — Chamem o Emmett! Preciso do melhor anestesista que temos aqui agora!
Em minutos, fui transferida para o bloco cirúrgico. A luz fria do teto brilhava sobre mim enquanto eu tremia incontrolavelmente pela dor e pelo choque.
A porta automática se abriu e Emmett entrou apressado, já trajando a roupa cirúrgica verde e ajustando as luvas. O tom brincalhão do meu cunhado havia sumido por completo, substituído por um focado profissionalismo e um olhar profundo de cuidado.
— Estou aqui, Bella. Vou cuidar de você — Emmett disse suavemente, posicionando-se na cabeceira da minha cama e ajustando os acessos venosos com uma precisão impecável.
Edward não saiu do meu lado por um único segundo. Ele segurava a minha mão esquerda com tanta força e devoção que parecia me manter ancorada à vida pelo seu próprio toque. Suas lágrimas caíam sobre a minha pele fria.
—Fica comigo, meu amor... Por favor, fica comigo — Edward sussurrava sem parar, beijando a minha testa enquanto a equipe se movimentava ao nosso redor.
Emmett aproximou a máscara de anestesia do meu rosto e começou a injetar o sedativo pela linha intravenosa.
— Vamos lá, baixinha... — Emmett falou com uma doçura calorosa, colocando a mão espalmada no meu ombro para me acalmar. — Respira fundo pra mim. Pense na casa nova, no sofá que eu montei direitinho... Tenta relaxar, a dor vai passar agora. O Edward tá aqui segurando a sua mão e não vai soltar por nada.
— Eu tô aqui, Bella. Eu nunca vou te soltar — Edward prometeu, a voz embargada ressoando bem ao lado do meu ouvido. — Quando você acordar, essa dor vai ter sumido para sempre. Eu te amo tanto...
Olhei para os olhos verdes do meu noivo uma última vez através da névoa do remédio. O ritmo frenético do monitor começou a desacelerar à medida que a anestesia de Emmett fazia efeito, e o calor da mão do Edward foi a última certeza de que eu estava segura antes que a escuridão finalmente me acolhesse.
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