Alex já estava dirigindo bem rápido. Quase tinha atropelado um casal de velhinhos e tinha ultrapassado no sinal vermelho duas vezes. Para Isa, se aquilo não fosse completamente apavorante, seria até divertido. Mas ela não estava amedrontada. Até dava algumas risadas, mesmo quando o carro preto e reluzente de Alex estava a um ponto de bater no trânsito e causar um acidente pavoroso.

-O que foi?

-Nada não...

-Não tá assustada? Quer que eu reduza?

-Se quiser, pode reduzir. E não, não tô com medo... Passei por coisas piores...

-Verdade... -Alex reduziu a velocidade muito de repente. De quase 200km, passou para 90km- Tá melhor assim?

-Claro... Obrigada...

-Disponha...

-Sabe o que eu andei pensando?

-O quê?

-Acho que desde o começo a gente podia ver a diferença entre nós dois, mas o pior é que a gente nem se tocou disso... Tava bem no nosso nariz e a gente nem viu...

-Como assim? Pode por favor descomplicar isso pra mim?

-Já te disse o quanto você é sem graça?

-Essa é a milionésima vez que você me diz isso... -Os dois começaram a rir, mas Alex parou primeiro, esperando a descomplicação de Isa.

-Ok, então, descomplicando... A gente devia ter descoberto que nós somos diferentes por causa das nossas temperaturas...

-Ahn?

-Eu sempre reparei que quando você me tocava, ficava arrepiado. E eu sei que isso não era só por causa do momento...

-Em parte é por causa do momento... -Alex revirava os olhos- Mas em parte também era por que você era... Bom, fria... Pelo menos na sua temperatura...

-Exatamente, e você parecia quente pra mim. Em alguns momentos até quente demais... -Isa corava lembrando dos momentos a sós quando Alex \"\'perdia o controle\"- Eu tenho uma teoria pra isso...

-Ah, é? Então vamos lá, me conta...

-Bom, além das coisas óbvias, você é um demônio. E de onde você veio é quente. Sabe como é, \"as chamas do Infernooooo!!!\", essas coisas... -Isa fez um teatrinho pra tentar explicar.

-E deixa eu adivinhar, o pai de alguém mora em algum lugar no Céu com ar condicionado?

-Sabe que eu não gosto muito de me repetir, então sabe o que eu diria nessas horas...

-Sem graça... -Alex imitou a voz de Isa, mas sabia que nada se compararia a original.

-Ok, dessa vez eu achei graça, foi mal... Mas sabe, faz sentido, o que você disse antes. É mais ou menos o mesmo princípio. O Céu é, bom, mais fresquinho...

Alex deu um risinho, mas logo voltou a atenção na estrada. Depois de um tempinho em silêncio, Isa logo voltou a falar, olhando um tanto desolada o vestido cheio de marcas da mão de Alex.

-O que você acha que eu devo dizer a minha tia sobre isso aqui?

-Como é que é?

-Minha tia vai ficar um tanto assustada quando vir tantas marcas de mão no meu vestido...

-Bom, se ela souber do novo nível do nosso relacionamento...

-E eu acho que ela sabe...

-Então, eu acho que ela pode tirar as conclusões dela... -Alex continuou como se Isa não o tivesse interrompido.

-Mas ela pode achar que a gente... Transou... -Isa ficou em pânico desnecessário de repente.

-Não foi isso que acabou acontecendo?

Isa deu um risinho nervoso, mas mantinha os olhos na janela do carona, lembrando o que tinha acontecido depois daquele beijo tempestuoso. Ela sentiu algo diferente em cada toque dele, ele estava mais suave, como se tivesse sido libertado de alguma coisa. E de fato, ele estava livre, mesmo que temporariamente.

-Tem razão... -Isa falou, a voz ainda parecia distante, ainda embarcada nas lembranças.

-Bom, já chegamos. É só dar a volta no quarteirão... -Alex anunciava quando estavam a poucos metros de distância da casa de Isa.

-Eu tô aqui, imaginando a cara da minha tia quando ela vir a gente assim...