Unknown
2 If I Had A Heart
Notas iniciais
Minna Herz olha para a turma diante de si. Duzentos e quarenta e sete alunos. Ela respira fundo antes de escrever apenas uma frase no quadro.
"Eu quero dominar a vida e a morte"
– Alguém sabe quem disse isso?
Ela ajeita uma mecha de cabelo loiro para trás que, por ser liso demais, volta a ficar em seu rosto. Então ela o vê. Cabelos castanhos claros desarrumados de forma meticulosa, olhos grandes e atentos, grandes óculos de armação negra, dando um ar de desajeitado. Sua camisa social azul está levemente amassada, o que pode significar que ele dormiu com ela ou que mora sozinho e passa as próprias roupas.
De qualquer forma, ele parecia tão familiar, mas ao mesmo tempo tão diferente...
– Seu nome? — ela pergunta, parando diante dele.
– Noah — ela sussurra com voz rouca. Seus olhos são divertidos e ela pensava que eram escuros, mas na verdade tinham um brilho anormal esverdeado, como duas esmeraldas brutas que poderiam cortar fundo se chegasse perto demais ou até cegar com sua maestria. — Noah Wright.
– Me diga o nome do autor da fala, Sr. Wright.
Ela olha o caderno dele. Ted Bundy estava escrito nele. Ele sabia a resposta e ela tinha certeza que ele diria, mas foi surpreendida:
– Eu não sei.
Então ele a viu encarando o caderno. Soube que ela sabia que ele sabia. Porém pareceu não dar a menor importância.
– Noah...
– Srta. Herz, sinto muito — seu sobrenome caiu muito bem na voz com um carregado sotaque britânico dele. — Eu não sei.
+++
Minna vê que não há ninguém no auditório além dela e de Noah. E ele está tão próximo...
– Você sabia a resposta — ela sussurra. — Por que simplesmente não a disse?
– Porque eu tenho um segredo.
Ela arqueia as sobrancelhas.
– É mesmo?
– Sim — ele se aproxima mais, sua boca a centímetros do ouvido dela. — Eu sou igual aos seus alvos de estudo.
– Você? Um serial killer?
Tudo o que ela teve vontade naquele momento era de rir.
– Noah — ela não se aguentou. A risada saiu sem permissão dos seus lábios e ela não conseguiu fazer parar. — Isso é ridículo. Desculpe.
– Você teria medo de se envolver com um assassino, Minna?
Minna. Seu nome caia tão bem na voz dele. E a forma como ele falava... não como o garoto desajeitado dos óculos que aparentava ser. Parecia um homem sexy, prestes a conquistar uma mulher. Se a segunda alternativa fosse o plano dele, estava conseguindo.
– Eu o veria chegando — a loira sussurra. — Sou uma especialista em mentes criminosas, lembra?
– É mesmo? — ele fica frente a frente com ela, a encarando. — Eu sou fascinado por mentes criminosas. Poderíamos discutir sobre isso mais tarde?
Minna se afasta, apenas fazendo charme. Porque sabia o que queria e sabia que ele também queria. Ela queria senti-lo, entendê-lo e via nos olhos brilhantes dele que ele queria o mesmo.
Noah fica em frente a porta, a impedindo de sair. Ele a tranca e pega os livros das mãos de Minna, os colocando em cima da mesa. Sua grande mão destra toca a cintura dela por debaixo da larga blusa branca e ela arfa. Seus olhos se fecham por um breve momento e naquele instante ela se permite a esse vislumbre de desejo.
A outra mão de Noah toca o seu rosto, seu polegar passeando por seus lábios. Ele a empurra contra a mesa.
– Ou podemos pular tudo isso e irmos ao ponto. Você quem decide, Minna.
Ela vê aquela onda verde arrebatadora ali, diante dela, brilhando. Naquele momento, com o corpo tremendo daquela forma, ela não se importou com nada.
Minna dá impulso com os pés e senta na mesa, deixa as pernas levemente abertas e puxa Noah para si.
– Eu quero agora.
+++
Minna passa as mãos pelos grandes braços dele. Sorri ao sentir ele recuar levemente. Sobe em cima de Noah e o encara. Retira seus óculos com cuidado e os coloca no criado-mudo.
– Espero que você consiga ver sem eles.
Seus lábios tocam os dele com calma e um suspiro preso na garganta. Ele a vira na cama, ficando por cima. Então sorri.
– Não preciso ver — ele murmura, a puxando mais para si. — Eu posso sentir.
Os dedos dele a tocam e a queimam. É como brincar com fogo. Quando ele se afasta, ela sente como se estivesse nua na neve. O frio é indescritível e ela sente vontade da sua fogueira humana por perto.
– Eu quero que você veja — ela sussurra, grudando seus dedos nas costas dele.
– Então eu verei.
Ela sorri e deixa a sensação inundá-la. Era como ir ao céu e voltar a Terra. De repente, não era mais a gravidade que a prendia nesse mundo, mas Noah. Noah fazia a conexão entre a vida e a morte e por mais que quisesse morrer nesse momento sabendo que morreu feliz, ela queria viver muito para sentir essa sensação muitas outras vezes. A felicidade, porém, não durou muito tempo
Porque ela viu. Viu e se afastou. Era impossível que ele estivesse falando a verdade...
– Noah...
– Sinto muito, Minna — ele puxou a faca do cinto para a garganta dela. — Eu tenho que te matar.
– Noah — os olhos dela se enchem de lágrimas. — Por favor, Noah...
– Eu normalmente atraio as mulheres e elas morrem, mas dessa vez decidi brincar. Você foi uma ótima distração, Minna. Um momento de paz em meio ao meu inferno. Eu agradeço por isso, mas não posso me permitir ir mais longe.
– Ir mais longe? — seus olhos estavam cheios de lágrimas. — Como ir mais longe?
– Se você sair viva daqui essa noite, eu sairei apaixonado. E um assassino como eu não pode ter esse tipo de fraqueza.
Sua mente girou e ela entendeu. Entendeu porque sabia.
Estando por baixo dele, ela empurrou o joelho para cima com a maior força que tinha e acertou a intimidade dele. Noah urrou de dor se afastou, dando espaço suficiente para ela ficar por cima. Ela arranca a faca das mãos dele e a pressiona contra o pescoço do loiro. As lágrimas que molhavam seu rosto e o soluço que escapava dos seus lábios foi transformado por um sorriso sádico.
– Eu entendo, Noah, porque pretendia fazer o mesmo.
Ele não entende. Então ela pressiona a faca com mais força até sair um pouco de sangue do seu pescoço. Ele pragueja ao sentir o líquido.
– A mulher assassina — ela ri. — Ninguém nunca espera por isso.
– Você ia me matar essa noite? — ele questiona, surpreso.
– Depois do sexo, é claro. Ao contrário de você, eu estou acostumada a me divertir com as minhas vítimas. Faço com que elas sintam prazer antes da terrível morte que dou a elas.
– Por quê? — Noah sussurra. — Por que eu?
– Faço a você a mesma pergunta.
– Eu mato mulheres. Eu gosto disso. Não há motivo, eu simplesmente gosto da morte.
– E eu mato homens. Também gosto da morte. Nasci assim, não há justificativa. Porém mato homens. Mulheres não merecem morrer, mas sim homens, que sujaram o mundo por milênios com sangue inocente em suas ridículas guerras. Eu estou purificando o mundo desse mal aos poucos.
– Eu nunca fiz mal a nenhuma mulher na vida...
– Não fez mal? Você as mata!
– É exatamente isso. Eu não as torturo, não as estupro. Eu simplesmente as mato.
Minna balança a cabeça, rindo.
– A diferença entre nós, Noah, é que como eu estou acostumada a jogar, eu estou acostumada a descartar os jogadores. Jamais me apaixonaria.
Com a faca ainda no pescoço dele, Minna o faz terminar o que havia começado. Se nega a sair daquele apartamento sem cumprir seu ritual: sexo e morte.
Quando ela sente a onda de prazer a invadir, ela fecha os olhos.
– Você deveria fazer o mesmo — ela rosna. — Aproveite seus últimos segundos de vida.
– É difícil fazer isso com uma faca no pescoço.
Minna abre os olhos, irritada.
– Está na hora de te silenciar, Noah Wright — ela se aproxima dele, seus olhos a centímetros. — O que quer me dizer?
– Eu estava errado. Jamais poderia amar alguém como você.
Ela sorri.
This will never end
Cause I want more
More, give me more, give me more
– Obrigada.
E o beija. O beija com vontade, vorazmente. Apesar de idiota, Noah é gostoso e ela precisava fazer isso.
– Apodreça no inferno — ela sussurra em seu ouvido -, assassino de merda.
Então puxa a faca para o lado. Apenas uma vez.
Sente o sangue quente vazar e a inundar. O calor a preenche como um cobertor e ela fecha os olhos, sorrindo. Abre os braços, ainda em cima do corpo de Noah. O sangue dele percorre o seu corpo e ela fica ali, desfrutando a sensação até que pare.
If I had a heart I could love you
If I had a voice I would sing
A morte sempre é boa e bem-vinda. Já matava há dois anos. Quatrocentos e oitenta e dois homens haviam sido mortos por ela. Jamais se arrependeu da morte de nenhum deles.
Foi para o banheiro de Noah. Tomou banho. Viu o sangue dele ir embora lentamente do seu corpo e sentiu-se mal por não poder deixá-lo ali, marcando-a para sempre. Gostaria de ter o sangue de todas as suas vítimas consigo, para lembrar de todas constantemente. Infelizmente, sua memória era frágil e precisava tomar cuidado com a lei.
Estudarei mais sobre a mente de pessoas como eu, ela pensa. Noah quase me enganou.
Quase. Até porque, ela é melhor. Uma assassina melhor e mais experiente.
Depois do banho, ela vestiu a roupa que usava ontem e limpou todas as suas digitais. Roubou as fitas das câmeras de segurança. Porém aquela casa era enorme. Poderia estar deixando algo passar.
Ela vai até a cozinha e pega uma caixa de fósforos e uma garrafa de álcool. Espalha o álcool pela casa.
Sorri ao ver o corpo ensanguentado de Noah na cama. Joga álcool nele e pressiona o fósforo contra a caixa, o acendendo.
Crushed and filled with all I found
Underneath and inside
Just to come around
More, give me more, give me more
– Eu domino a vida e a morte.
Então ela ateia fogo em Noah Wright e em sua bela casa.
+++
No avião para a Suíça, ela pede champanhe. Sorri ao ver as bolhinhas dentro da bebida, como as estrelas lá de fora. Claro que lembrou de pegar o dinheiro escondido na casa de Noah. Não era estúpida de queimar aquela casa com todo aquele dinheiro lá dentro.
Faria suas próximas vítimas em solo europeu. Estava cansada de agir nos Estados Unidos. Sempre foi a professora alemã gostosa de psicologia. Precisava de um novo plano e sabia que mudando a área, mudaria a forma de agir.
Sorriu ao ver que na pequena tela da primeira classe dava para assistir Netflix e ficou ainda mais feliz ao ver que a segunda temporada de Vikings já estava disponível. A música de abertura inundou os seus ouvidos com fones e ela percebeu que combinava com sua vida.
This will never end
Cause I want more
More, give me more, give me more
Ela nunca pararia de matar. Sempre iria querer mais e mais e mais. O sangue em suas mãos era pouco, sempre seria. Não havia história, motivo ou qualquer coisa do tipo para isso, como os livros de psicologia costumavam dizer que havia. Ela simplesmente gostava de matar, de sentir o sangue quente das suas vítimas em seu corpo.
Pegou sua caderneta enquanto a série carregava e escreveu nela.
483. Noah Wright
A morte era complexa demais para ser estudada, a mente de um serial killer diferente demais para ser comparada. Estava cansada de tentar entender o porquê de ser assim. Decidiu simplesmente se aceitar como um monstro e viu que poderia aproveitar isso.
A vida era passageira, afinal, mas a morte duraria para sempre.
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