Unkiss Me
3 You are a little crazy
Notas iniciais
Depois de horas fazendo boletim de ocorrência, ainda tendo que explicar em voz baixa que eu estava em disfarce, falar com Deus o mundo pra não confiscarem meu celular, me liberaram.
– Você é um pouco louca, acho. — Brian, o tal nerd da lanchonete, falou quando me aproximei do grupo.
– É novo. — Ergui o celular e dei um sorrisinho falso.
– Pelo menos todo mundo já sabe que você pode cuidar de si mesma. — Isaac falou. Ergui a sobrancelha.
– Você de novo? — Perguntei.
– Alguém tinha que guiar seu irmão. — Ele falou torcendo um pouco o nariz.
– A conversa tá muito boa, mas eu realmente to com fome. Então, vamos pra casa. — Steves e o Isaac foram indo, mas o primeiro parou e olhou pra mim. — Você não vem?
– Eu vou na lanchonete com eles. — Apontei pra Carly e pro Brian.
– Ah... Eu tava com a ideia de a gente tomar um lanche. Gosto do seu hamburguer. — Fiz cara de tipo "tá falando sério?".
– Poderíamos todos comer juntos. — E assim lá fomos cinco pro quarto do "Howard" e do Isaac. Olhei pro poster O Ultimo Olimpiano e outro da Emma Watson.
– Você é mesmo de exatas? — Perguntei pro Isaac ainda olhando os posters.
– Eu gosto de ler. — Olhei pro lado e vi Os Contos de Beadle, O Bardo na mesinha do lado da cama dele. Peguei o exemplar nas mãos. Esse menino tá começando a subir no meu conceito. Pela primeira vez eu gostei de estar ali, aos vinte e cinco anos na faculdade e com o colega de trabalho mais insuportável que eu poderia arranjar. Eu realmente gostei daquilo. E realmente achei que alguém ali valia a pena.
– Sempre achei Dumbledore mais real depois de ler esse livro. — Ele assentiu.
– Me sinto dentro de Hogwarts lendo. E você é mesmo de exatas? — Ele perguntou me imitando. Continuei olhando as coisas, mas dessa vez pra prateleira grande que ficava em cima da cama dele. — Não costumo gostar de livros pra adolescentes, com exceção de sagas, mas gosto bastante desse. — Ele se inclinou e pegou um exemplar de Cidades de Papel.
– Já li. Gostei também. Mas o que tem de tão interessante nele pra você?
– "Luz, o lembrete visível da luz invisível". — Ele recitou e eu lembrei da passagem do livro. — Essa frase nem é do John, mas faz pensar. Fora que acho legal a linha de raciocínio da Margo, sobre a superficialidade.
– É legal, sim. "Uma cidade de papel para uma menina de papel". — Isaac sorriu de canto.
– Os livros podem até ser interessantes, mas eu ainda to com fome. — Por um momento eu tinha esquecido de que tinham outras três pessoas conosco. Isaac devolveu o livro à prateleira.
Não sei se o Steves pensou que eu aceitaria virar a cozinheira do dia ou algo do tipo, mas o fiz pagar por uma pizza pra todos nós. Justo, já que tirou três de nós de uma lanchonete.
Enquanto a pizza chegava fiquei pensando sobre o livro. Eu era praticamente uma Margo. New York é superficial. Se você perguntar, qualquer turista ama andar pela Times Square ou ir ao Central Park. Mas ninguém conhece o caos que eu conheço, de encontrar um maníaco quase todo dia em um lugar vazio, feio e com pessoas vazias. Fora que eu me sentia uma menina de papel. Eu, com toda a certeza do mundo, não pertencia àquele lugar. Eu estava ali a trabalho, mentindo pras pessoas que seriam meus amigos, que escolheram isso. E eu odiava ter que fazer isso. Odiava ainda mais a sensação de mentir ser alguém. E isso era só o primeiro dia.
(...)
Senti alguém me cutucando. Levantei a cabeça e passei uma mão no cabelo, tentando ajeitar. Eu tinha dormido na aula. Estalei as costas e olhei pro lado.
– Eu te passo a matérias depois, se você quiser. — Isaac falou.
– Ah, obrigada. Vou querer sim. Só... Você podia ter me acordado no final da aula. — Aí olhei pros lados. Isaac levantei.
– Na verdade, eu fiz isso, Sarah. — Ele falou sorrindo.
– Bom... Obrigada de novo, então. — Peguei minhas coisas e levantei. — Eu dormi todas as aulas até o intervalo? — Ele assentiu. — Comecei bem. — Isaac só riu. Fomos até a lanchonete do campus. Depois de pegarmos um lanche, escolhemos uma mesa qualquer.
"Ainda arrasando no look?"
Franzi a testa. Só tinha uma pessoa que me mandaria esse tipo de mensagem. Era um homem, ama moda e me deixou loira. Ben.
"To fazendo tudo certinho. Uma menina no campus já disse que amou minha roupa. Não estou desapontando você"
"Ótimo. Não esquece que sábado eu to aí"
"Então, tem um problema. Tenho um encontro sexta"
"Sexta de tarde to aí"
Bloqueei o celular de novo.
– Você e seu irmão não se dão muito bem, né? — Isaac perguntou, chamando a minha atenção.
– Não muito.
– Ele fala bem de você, apesar de vocês viverem aos tapas quando se veem. — Olhei pra ele.
– Ste... Howard fala bem de mim? Tipo...?
– Ele fala que você é uma boa irmã, que ajuda ele em várias coisas...
– Ele podia falar isso pra mim. Na minha frente ele é um porre. — Fiz careta.
– Seu pretendente tá vindo aí. — Olhei na mesma direção que a dele. O menino (que eu ainda não sabia o nome) que eu sairia sexta estava vindo até mim.
– Tá afim de sentar na mesa dos veteranos? — Ele perguntou assim que chegou. Olhei pro Isaac.
– Ele vai ficar sozinho. — Falei fazendo uma cara de anjinho. Eu realmente esperava que o veterano caísse na minha sempre que eu fazia esse cara. Quem sabe até soltasse o que não devia?
– É que... — Ele olhou pra mesa onde estavam os amigos dele e depois voltou a olhar pra mim. — Tá. Ele pode vir. — Levantei sorrindo. Isaac levantou também.
– Sabe... Eu ainda não sei seu nome. — Falei pro veterano. Ele passou um braços pelos meus ombros.
– Adam. Também não sei o seu.
– Sarah. Você tá em que ano?
– Último. Nossa convivência vai ser pouca, novata. — Ele aproximou o rosto do meu e eu fiquei tensa, mas tentei disfarçar. — Mas pode ser intensa. — Controlei a vontade de torcer o nariz e ri baixo. Assim que chegamos, todo mundo olhou pra mim.
– Ele é o brinde? — Um deles perguntou apontando pro Isaac.
– Ele tá comigo. — Respondi e o garoto cruzou os braços segurando uma risada. — E... Eu to com ele. — Falei baixo apontando pro Adam e me sentei.
– Relaxa, Aiden. Eles são legais. — Adam passou o braço pelos meus ombros de novo. Ele vai fazer isso toda vez que a gente se ver?
– Eles vão na festa?
– Vão. — Continuei comendo meu lanche. Eles só falavam sobre festas, quem pegou quem, festas, em que site achavam tal livro, festas, onde a impressão é mais barata e mais festas.
– Vocês só falam de festas? — Perguntei não controlando a minha careta. Isaac quieto estava, quieto ficou. Só olhou de canto pra mim.
– É que tá no começo do ano ainda. Daqui a pouco tudo piora. Começam os trabalhos, provas e mais um monte de coisas. Queremos aproveitar enquanto dá.
– Moço, você só tem 22, 24 anos. Vocês vão ter muito tempo depois. — Adam achou graça, mas deu de ombros.
– Sabe como é a juventude né. — Ele falou imitando alguém mais velho. Ri.
– Onde vai me levar na sexta?
– No cinema. — Quis torcer o nariz. No primeiro encontro as pessoas gostam de conversar, se conhecer. No cinema não dá pra fazer isso. Será possível que a "tia" aqui vai ter que ensinar até isso pra essas crianças? Ou... É... Ele vai querer me pegar e depois "adeus, Sarah". Mas sorri. Adoro quando a outra pessoa se faz de esperta, sendo que eu sou bem mais.
– Espero que você acerte meu gosto pra filmes.
– Não deve ser tão difícil. Você é uma garota nova.
– Hm... Isso não quer dizer muita coisa. E você? Seria fácil eu adivinhar qual filme em cartaz você iria gostar?
– Tenta. — Ele falou sorrindo de canto e dando de ombros.
– Birdman? — Adam torceu um pouco o nariz.
– Mais ou menos. Não tá na minha lista de "necessito ver", mas dá pro gasto. — Olhei pro lado. Isaac estava mais perdido que cego em tiroteio.
– E você? Não gosta de filmes? — Perguntei pra ele, que me olhou como se eu fosse estranha.
– Gosto. — Respondeu com cautela. — Prefiro adaptações.
– Tipo de nerd? — Adam perguntou com deboche. Olhei pra ele brava. Depois olhei de novo pro Isaac.
– Eu gosto de adaptações também.
– O último de Harry Potter. Foi o melhor.
– Sem dúvidas! Em Chamas foi muito bom também. Mas nada comparado a Harry Potter.
– Tem uma adaptação nova em cartaz. — Adam falou. Olhamos pra ele.
– Não me diga que tá falando daquela cultura inútil. — Isaac resmungou.
– Eu espero que não. — Falei pra ele. Adam deu um sorrisinho sem graça. Não demorou muito pras pessoas começarem a se dispersar.
Decidi passar em casa e ver se conseguia pegar mais alguma coisa e passar na delegacia pra entregar um relatório ao chefe. Nada legal ele me encher o saco por "não achar nada ainda". Primeiro dia e o cara quer reclamar, como se eu pudesse chegar nos alunos e perguntar "olha, sou policial. Você rouba ou vende erva ou sei lá mais que droga?". Quero só ver se isso chegar a durar um mês.
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