Unkiss Me
11 You always say that
– “Ôw”! Aonde você vai? Não é só porque eu te beijei/você me beijou que eu vou fazer o trabalho pra você. — Isaac me barrou enquanto eu tentava passar pela porta da sala.
– É rapidinho. — Fiz bico.
– A gente tem que entregar hoje. Vai depois. Por favor. — Eu odiava quando ele fazia carinha de cachorro abandonado.
– Prometo que não vou demorar. Se eu demorar, você pode brigar comigo. Compenso no próximo trabalho. — Dei um selinho nele e já fui saindo da sala.
– Isso é o que você sempre diz. — Ele disse rindo.
– Uma hora eu compenso. — Fui andando como quem não quer nada até o prédio de humanas. Chegando lá, fiz o mesmo caminho do outro dia, quando eu estava com o Jordan. Aparentava estar vazio. — Scoot? — Chamei.
– Mas olha só. Pensei que a loirinha não ia voltar.
– Por que achou que eu não voltaria? — Ele deu de ombros.
– Vai querer quantos? Tenho cinco só.
– Hm… Dois pacotes hoje. — Ele me entregou e eu dei o dinheiro pra ele. Era o único que eu tinha. — Você vende sozinho? — Ele cruzou os braços. — Corre o risco de eu não encontrar você algum dia.
– Trabalho sozinho.
– Mas você é tipo… Um revendedor, certo? Você não faz o trabalho todo sozinho.
– Alguém me pede pra vender. — Ele começou a me analisar. — Eu vendo a diversão, garota. — Ele começou a voltar pra sei lá onde.
– Espera aí, Scoot. — Peguei no braço dele. — É só uma curiosidade. Questão de necessidade pra mais tarde. Sabe como é… — Fui chegando mais perto ainda segurando o braço dele.
– Não aguentaria me esperar algumas horas pra comprar? — Dei de ombros com cara de quem diz “hm… Não!”. Ele riu. — Você é viciada pra porra!
– Vai me falar quem é ou não? Não custa nada.
– Ah, custa sim! — Scoot pegou um pacotinho da minha mão e anotou um numero. — Ele não vai aparecer, mas vai dar um jeito de te entregar. Não diz que foi comigo. — Então, quer dizer que tem outros traficantes?
– Hm… Valeu. Quer sair qualquer dia? Sabe… Com outra pessoa é mais legal. — Balancei o pacote e ele deu uma risada fraca.
– Só vendo, gata. — Aí sim ele me deixou sozinha.
(…)
“Vou ser bonzinho e não vou brigar com você. Mas o próximo trabalho é todo seu, loirinha.
Isaac ;)”
Ri baixo enquanto ia pro refeitório. Quando voltei pra sala, a aula já tinha acabado e ele deixou esse bilhete na minha mesa, junto com as minhas coisas. Assim que cheguei lá, o vi sentado junto com o pessoal do nosso grupo do trabalho.
– Ela finalmente apareceu! — A garota que eu não lembrava o nome falou irritada. Isaac me entregou um papel. Era da matéria.
– Eu faço a parte do resumo. — Falei.
– A parte mais fácil. — A criatura falou irritada de novo.
– Entre aspas, querida. Tenho que saber o tema inteiro. — Peguei as batatinhas do Isaac e comecei a comer. David limpou a garganta.
– Terminei minha parte da maquete. — Ele disse. — Quem é o próximo?
– Eu. — Falei. Continuamos conversando, mas não mais sobre o trabalho. Aos poucos, as pessoas começaram a levantar. No fim, só sobramos eu e o Isaac. — Obrigada por me dar cobertura. — Ele suspirou.
– Não posso te cobrir pra sempre.
– Eu sei.
– Todo mundo já está puto com você.
– Ei! Eu posso até enrolar, mas faço as coisas no final.
– Tá demorando.
– O que?
– Pra você me pedir ajuda. — Revirei os olhos.
– Vou saber me virar sozinha.
– Onde foi hoje quando saiu da aula? — Olhei pra ele. — Sei que você não estava com o seu irmão.
– Estava resolvendo umas coisas. Tive que ir na secretaria.
– Hm… Mudando de assunto — Graças a Deus! -, e aquele encontro que você tá me devendo? Encontro esse que você vai pagar, só relembrando. — Fiz cara de esquecida.
– Encontro? Não lembro de marcar encontro nenhum.
– Enrolona. — Fiz bico.
– Vou preparar alguma coisa. Não me apresse.
– Quem disse que vou fazer isso? — Olhei séria pra ele.
– Sei…
(…)
– Laura, eu ouvi dizer que reconheceram você. — Foi a primeira coisa que o chefe falou quando eu e o Stevens entramos na sala dele na sexta de tarde. Olhei pro meu “irmão”.
– Não falei nada. Nem me olha desse jeito! — Ele se defendeu.
– A funcionária da biblioteca avisou o reitor. Dos funcionários, só os professores não sabem sobre vocês.
– Olha, chefe, eles pensaram que me reconheceram. Não falaram nome nem nada. E eles até se desculparam por terem confundido…
– Eu sei que você não quer sair da investigação. — O chefe falou me interrompendo. Stevens olhou pra mim.
– Mas…? — Perguntei receosa.
– Mas isso é uma coisa que não pode acontecer.
– Olha só, chefinho, a Laura tá sendo essencial pra investigação. Ela que tá em contato com o traficante.
– Ele até me deu o número do fornecedor! E, pelo o que o vendedor disse, é homem. — Deixei o papel em cima da mesa.
– Como conseguiu isso? — Stevens perguntou. — Você deu pro cara?! — Olhei assustada pra ele.
– Tá louco?! Lógico que não, idiota!
– Sem detalhes, pelo amor de Deus. — O chefe pediu. — Nós vamos grampear o número. E, Stevens, aquelas caixas com as drogas que você entregou no começo da semana já foram verificadas. Sem marcas das digitais. Só foi um prejuízo pra eles. — Eu e meu parceiro nos olhamos de novo. — O que foi agora?
– Nenhum traficante é burro. Ele não deixaria a caixa dando sopa. — Falei.
– Se cuidem. Quero um relatório pra amanhã. — Saímos da sala dele e voltamos pro campus.
(…)
– Que dia você virá pra cá? — Minha mãe perguntou no telefone. Eu estava indo pra sala. Certeza que ela se arrumava pra ir pro trabalho.
– Não sei. Acho que um dia antes do feriado. Eu to querendo faltar um dia aqui. Aí não sei se vou dois dias antes.
– Faltar? — Isaac perguntou em um tom baixo.
– Nao esqueça de me avisar! Vamos pra casa da sua tia esse ano. — Ela disse.
– Que tia? Tia Beth?
– Essa mesma. — Revirei os olhos. Não me entendam mal. Eu adoro minha tia. Mas meu primo é um problema. Na verdade, eu esperava que ele fosse um problema só no passado. Nós meio que ficamos. Mas faz muito tempo. Foi meu primeiro beijo! Ou seja, faz um bom tempo mesmo. Espero que ele não comece com gracinhas. Se minha mãe descobrir, ela mata nós dois, junto com a minha tia.
– Te ligo antes de sair daqui. Prometo! — Nos despedimos e eu desliguei.
– Vai faltar? — Isaac perguntou de novo.
– Não sei ainda. É dia de Ação de Graças. Quem vai vir na aula na quarta?
– Eu.
– Você não conta. Você é nerd.
– Eu não sou nerd.
– Tá quase lá. — Ele revirou os olhos. Beijei sua bochecha. — Não vai pra casa no fim de semana do feriado?
– Vou. Seu irmão vai também?
– Hm… Não sei ainda. Provavelmente sim.
– Ainda mais porque sua família parece ser bastante ligada.
– O que tem eu? — Stevens apareceu.
– O que tá fazendo no prédio de exatas?
– Isso aqui é seu. — Ele me entregou um envelope. Pelo volume, eram relatórios. — O que falavam da família?
– Mamãe me ligou. Perguntou que dia vou pra casa.
– Hm… Acho que vou ficar por aqui mesmo. Vou pra minha aula. Até mais tarde.
– Vai pra casa também? — Perguntei pro Isaac quando nos sentamos.
– Vou ver minha mãe. Mas não é tão longe. No seu caso também não. Podíamos ir juntos. O que acha?
– Eu tenho que ver. Acho que vou direto pra casa da minha tia. — Ele murmurou um “hm”. Não que ele tenha achado ruim, só que não tinha o que falar. Logo após, o professor entrou na sala.
(…)
– O que acha de passar o feriado comigo? — Perguntei pro Stevens. Isaac tinha ido comprar salgadinho. Aproveitei pra conversar com ele.
– Tá levando muito a sério isso de irmãos.
– É que você disse que vai ficar aqui. E é Ação de Graças.
– Exatamente. Feriado pra passar com a família. Não sou seu irmão, Laurinha. — Fiz uma careta.
– Não me chama de “Laurinha”. E meus pais não veriam problema em você ir. Não é legal passar sozinho. — Ele deu de ombros. — Para de cu doce!
– Hm… Talvez eu vá sim. — Sorri. Ficamos em silêncio por um tempo. Mas eu sou curiosa demais. Nunca que eu deixaria aquela pergunta passar.
– E seus pais? — Ele revirou os olhos.
– Começou a “sessão pergunta”.
– Eu fiquei curiosa. — Ele me olhou como se dissesse “jura?” ironicamente. — Fala logo.
– Além da minha mãe morar longe, não tenho muito contato com ela. E meu pai já faleceu.
– Ah… Sinto muito pelo seu pai. — Ele deu de ombros. Sou parceira do Stevens já faz quase três anos. Durante esse tempo, ele descobriu minha vida inteira. Mas também… Eu sempre falei pra ele. Já ele não me falou quase nada. O máximo que eu sei é que ele é filho único. Espero fazer com que ele se sinta em casa e em família durante esse Ação de Graças.
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