Unkiss Me

15 I trust him


– Oi. — Falei pro Adam enquanto me sentava do lado dele. Ele estava sentado no banco da pracinha que tinha na frente do prédio da Omega. Estranhei ele estar aqui, já que não cancelaram a festa, que é hoje de noite, e ele é um dos que sempre organizam. Vai ver deram uma “folga” por causa do Jordan.

– Oi. Sumiu. — Sorri de canto.

– Vim ver como você tá. — Ele soltou um suspiro.

– Jordan era meu melhor amigo.

– Sinto muito por isso.

– Eu falei tantas vezes pra ele parar com isso.

– Mas, Adam, Jordan usava bastante. Não é estranho que ele tenha tido uma overdose? — Ele olhou pra mim.

– Como você sabe?

– Ouvi por aí.

– Dessa vez acho que ele usou mais do que o normal. — Pra quem usa direto, não faz tanta diferença assim. — Não falaram muito pra mim. Pode ser que ele tenha misturado, sei lá. Pelo menos dessa vez acertaram o motivo.

– Como assim?

– Você sabe que teve um outro menino que morreu antes de esse semestre começar, não sabe? — Balancei a cabeça, confirmando. — Também falaram que foi overdose. Na verdade, foi isso que deu na autópsia.

– Mas...?

– Mas há quem diga que mataram o menino. Parece que ele devia. — Adam passou uma mão pelo cabelo. — Não to muito a fim de falar disso, Sarah. Desculpa.

– Tudo bem. Bom, não vou falar nenhuma daquelas coisas bregas porque algo me diz que você não vai querer ouvir. — Ele riu baixo.

– Não mesmo. Mas obrigado. — Ele colocou a mão em cima da minha. Eu não falei nada. — Vai vir hoje?

– Vou. Você vai ficar pra festa?

– Não sei. To querendo dar uma passada na casa da mãe do Jordan. — Ficamos em silêncio. Adam ainda não tinha largado a minha mão. Eu sabia que ele queria chorar, mas sabia também que ele não queria fazer isso na minha frente. Ou na frente de qualquer outra pessoa. — Vou ver como estão as coisas lá dentro. Obrigado, Sarah.

– Se precisar de alguma coisa, você sabe onde me encontrar. — Ele me deu um beijo na bochecha e entrou no prédio. Peguei o celular pra ver as horas. 17h45.

“Gato, preciso de roupa. Passo na sua casa em quarenta minutos”

Mandei pro Ben. Sentia falta dele. E, realmente... Eu tinha que comprar roupa pra festa.

Anotei mentalmente que precisava pegar a documentação da autópsia do garoto de novo e comparar com a do Jordan. Nunca acreditei muito em coincidências mesmo.

“QUARENTA MINUTOS? Querida, eu tenho um cabelo que precisa ser arrumado. Fora que eu curto um banho antes de sair, sabia?”

“Querido, você quase nem tem cabelo. E banho em 15 minutos dá”

“Naja sem coração”

Ri, bloqueando o celular. Voltei pro meu quarto. Carly não estava lá. Desde ontem quase não a vejo. Coloquei a primeira roupa que vi, penteei o cabelo, peguei minha carteira e saí.

– Aonde vai? — Encontrei o Steves no meio do caminho pro estacionamento.

– No shopping com o Ben. Por quê?

– Ei! Eu ia usar o carro.

– Você usou na semana passada. — Retruquei e ele fez bico.

– Eu preciso muito do carro. Por favor?!

– Direitos iguais, amorzinho. Eu te dou carona, então.

– Eu vou num encontro.

– E eu preciso de roupa pra hoje a noite. O carro é meu esse fim de semana.

– Vocês parecem duas crianças. Sabem disso, né? — Isaac apareceu com duas sacolas de mercado.

– E como eu vou encontrar a menina? — Steves perguntou pra mim, ignorando o Isaac, que me deu um selinho.

– Existe uma coisa chamada metrô. — Dei um beijo na bochecha dele. — Até mais tarde, já que não quer minha carona. — Fechei a porta do carro, mas não precisei ouvir pra saber que ele tinha me xingado.

(...)

– Olá, flor do dia! — Falei entrando no apartamento do Ben.

– Você disse quarenta minutos, não trinta e cinco. — Revirei os olhos.

– Ben, são cinco minutos de diferença! — Falei me sentando no sofá.

– Sabe quantas coisas dá pra fazer em cinco minutos? Eu posso até morrer! Posso encontrar um boy e beijá-lo... Se ele tiver ereção precoce posso até ter uma rapidinha. — Dei risada.

– Para de graça e termina de se arrumar.

– Sou uma viada pontual, meu amor. Que festa é essa que você tem hoje? — Continuamos conversando no caminho até o carro e depois até o shopping.

– É uma festa naquela fraternidade que eu tenho que entrar. Já se passaram meses e os caras ainda tão fazendo a seleção. Quer dizer, parece que é hoje que vai terminar isso.

– Isaac vai também?

– Vai. A gente meio que tá junto.

– E você nem me conta! E aí? Tá gostando dele? — Soltei um suspiro.

– Não sei. Talvez eu esteja. A gente acabou transando ontem.

– Você tá há quanto tempo com ele?

– Uns dois meses. Sei lá.

– Você contou a verdade pra ele?

– Não, Ben. Ele ainda me chama de “Sarah”.

– Como você não broxou? — Ri e dei de ombros. — Achei que você confiasse no Isaac, Laura.

– Eu confio.

– Então, por que não contou pra ele?

– Eu não posso, Ben. Você sabe disso. Ninguém pode saber. Eu assinei um papel pra isso. Juro. Além do mais, se isso cair nos ouvidos de pessoas erradas, minha investigação vai pro buraco e eu vou ser demitida. E eu amo meu trabalho. Aliás, você sabe que eu to disfarçada só porque pintou meu cabelo.

– E digo que ele ficou bem melhor.

– De novo isso?

– Laura, você não tem noção do milagre que eu fiz! Fico orgulhoso cada vez que olho pra você. Mas voltando ao assunto, se você confia nele, sabe que ele não contaria pra ninguém.

– Se o Isaac souber, o Steves não pode nem sonhar disso. E eles são colegas de quarto. É quase impossível.

– Conta pra ele. O menino não vai fazer fofoca. E é um pouco cruel com você que ele te chame de “Sarah” no meio da transa.

– Sabe que eu nem liguei?

– Querida, você está louca.

– Ele tem que prometer pra mim que não vai contar pra ninguém.

– Você confia nele ou não?

– Confio, cacete. — Suspirei. — Tá, eu conto. — Ben sorriu. — Vou achar estranho ele me chamando de “Laura”.

– Estranho nada. Vai ser o normal da sua vida, pelo amor de Deus.

(...)

Me arrumei na casa do Ben. Ele queria fazer um troço cheio de frufru no meu cabelo. Mas era só uma festa da faculdade. Não precisava de tanto. Ele estava mais empolgado do que eu com essa festa. Na verdade, qualquer pessoa com certeza estava porque eu não queria ir.

– Ué? — Falei entrando no quarto dos meninos. Eu tinha acabado de chegar da casa do Ben. — Cadê o Isaac? — Perguntei pro Steves.

– Ele achou que você não ia passar aqui e foi pra festa. Já viu que horas são? — Olhei no relógio que tinha na parede.

– Não são nem dez horas! — Ele deu de ombros.

– Tá levando a arma? — Ergui minha bolsa.

– Sem álcool hoje! — Alertei. Com a morte do Jordan, qualquer coisa podia acontecer. Entre elas, de duas, uma: ou eles estariam mais cautelosos e o tráfico durante a festa diminuiria, ou, já que o Jordan tá morto, aumentariam. Eu queria muito que fosse a primeira opção. Se fosse a segunda, seria um caos!

Quando cheguei na festa, procurei o Isaac. Eu imaginava que ele estivesse na cozinha e acertei.

– Achei que você me esperaria. — Falei abraçando-o por trás.

– E eu achei que você já estaria aqui. — Isaac falou e me deu um selinho.

– Eu preciso falar com você.

– Tudo bem. Acho melhor não ficarmos muito tempo aqui.

– Por quê? O que aconteceu? — Perguntei preocupada. Ele fez uma careta.

– Não faz nem meia hora que eu to aqui e já vi muita gente se drogando. Não quero você no meio disso.

– Muita gente?

– É, Sarah. Nem parece que aquele menino morreu há menos de cinco dias. Quer falar agora? — Olhei em volta. Eu tinha que ficar ali. E tinha que achar o Steves também.

– Depois da festa. — Peguei meu celular e mandei mensagem pro meu "irmão" contando sobre o que o Isaac me disse. Já tínhamos combinado de cada um ficar de um lado da festa.

– Quer? — Ele me ofereceu uma cerveja.

– Vou ficar só na Coca hoje. — Olhei em volta. Vi uma menina passando um pacotinho pra um menino. No outro canto, vi a mesma coisa. Várias pessoas já pareciam chapadas. — Vou no banheiro. Acho melhor você voltar pra república. — Falei no ouvido do Isaac.

– E te deixar aqui sozinha? Não fode, Sarah.

– Eu vou atrás do meu irmão depois. Não vou ficar aqui.

– Não vou te deixar sozinha. — Bufei. Fomos até o banheiro no andar de cima. O debaixo não dava pra entrar e estava com uma fila enorme. Não me surpreenderia se tivesse alguém transando ali.

– Me espera aqui. — Entrei e fechei a porta. Tirei a arma da bolsa e coloquei na calça. Eu já tinha ido com uma blusa soltinha pra não aparecer. Mas mesmo assim me certifiquei disso e trouxe um casaco pra amarrar na cintura e cobrir o volume da arma. Eu trouxa a bolsa porque achei que não usaria. Foi mais por precaução. Mas acho que vai ser impossível não usá-la hoje.

Saí do banheiro e o Isaac ainda me esperava.

– Tentei ligar pro Howard. Óbvio que ele não atendeu. Mas ele sabe se virar, Sarah. — Peguei na mão dele e fomos descendo as escadas.

– Mudei de ideia. A gente precisa conversar agora. Vamos pro lado de fora? — Perguntei. Eu iria contar a verdade pra ele. Talvez o Isaac não me entendesse, talvez ficasse puto. Mas esperava que tudo voltasse ao normal em pouco tempo.

– Tudo bem. Você tá esquisita, Sarah. — Assim que ele terminou de falar ouvi um tiro no andar de baixo. Logo depois, gritos. Isaac puxou minha mão, querendo me levar de volta pro andar de cima. Soltei minha mão da dele. — Sarah, vamos voltar lá pra cima! Você tá ficando louca?!

– Você fica lá em cima. Eu já volto.

– Não escutou o que aconteceu?

– Vai lá pra cima, Isaac! — Desci o restante da escada correndo. Saquei a arma e comecei a correr, percorrendo todos os cantos do primeiro andar pra saber onde estava o atirador. Achei o Steves indo atrás de alguém, saindo pela parte de trás do prédio. Quando ia atrás também, tropecei em alguma coisa. Era o corpo. Abaixei pra ver se a menina ainda respirava. Dei graças a Deus que sim, mas ela estava inconsciente. Liguei pra ambulância. Depois, liguei pro meu chefe, já indo pro lado de fora do prédio.

– Merda! — Ouvi o Steves berrando.

– Pra onde ele foi?

– Eu não sei! — Ele quase gritou de novo, totalmente frustrado. Bufei frustrada, assim como ele.

– Eu liguei pro chefe. Ele tá mandando reforços de todos os cantos. Não vai ter como alguém sair daqui.

– Espero. Vou voltar lá pra dentro, pra ver se aconteceu mais alguma coisa. Você viu a menina?

– Ela tá respirando ainda. — Ouvi o barulho da ambulância chegando na parte da frente do prédio. Ouvi outro tiro logo atrás de mim. Virei com a arma apontada. Minhas mãos vacilaram um pouco quando vi o que tinha acontecido. Era o Scoot que apontava a arma pra mim. Mas o me incomodava não era isso.

– Larga a arma, Scoot. E coloca as mãos onde eu possa ver. — Olhei pra baixo, vendo o Isaac. Ele olhava pra mim confuso. Respirei fundo e desviei meus olhos dele, ainda tremendo um pouco.

– Você pode até atirar em mim, mas vendo seu amigo no chão, duvido que acerte.

– Último aviso. Larga a arma e coloca as mãos onde eu possa ver.

– Eu sabia que era você, loirinha. Interessada demais em tudo. — Atirei. Acertei a perna dele. Corri e tirei a arma de perto dele. Ouvi os policiais invadindo o prédio e logo não precisei mais segurar as mãos do Scoot. Assim, corri pro lado do Isaac.

– Eu te falei pra ficar lá em cima! — Falei quase desesperada. Tirei minha blusa pra tentar estancar o sangue dele.

– O que aconteceu aqui, Sarah? — Fechei os olhos.

– Não fala nada. Só fica comigo, ok?

– Ele ia atirar em você.

– Você não devia ter feito isso.

– Ele ia atirar na sua cabeça. Eu tenho certeza. — Comecei a chorar. — Você não é estudante, né? — Não falei nada. Só vi que chamaram outra ambulância quando dois enfermeiros chegaram pra levar o Isaac pro hospital.

– Eu vou com ele. — Falei.

– Não vai, não. Preciso de você aqui. — Me cortaram. Era meu chefe.

– Mas, chefe...

– Preciso de você aqui, Laura. — Olhei pro Steves. Ele veio até mim.

– Ele vai ficar bem. — Ele falou.

– Isso é minha culpa!

– É culpa do cara que tá ali sendo preso, Laura.

– Eu tenho que ir pro hospital!

– Você conhece o procedimento. Não pode sair daqui agora. — Demoraram um pouco pra começar tudo. Eu tinha que dar depoimento de como atirei no cara e tudo o que tinha acontecido. Eu e o Steves tivemos que contar pro chefe tudo o que aconteceu desde a hora que chegamos na festa. Isso levou quase a noite toda. No começo da manhã, estávamos saindo de lá. Chefe nos aconselhou a tirar tudo dos nossos quartos o quanto antes. E assim fizemos. Eu sabia que ia ser perigoso voltar ali pra buscar tudo depois. Mas assim que saí do campus, a primeira coisa que eu fiz foi ir pro hospital. Quando cheguei lá, me avisaram que o Isaac ainda estava no centro cirúrgico e eu fiquei lá na sala de espera.