Unkiss Me.
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Você deve achar que essa é apenas mais uma história de amor, não é? Realmente acho que sim. Você deve achar que isso não sairá daqui nunca, que é apenas mais uma história inventada por alguém.. Deixe-me lhe contar: essa é a minha história. Então, por favor, preste atenção em cada palavra escrita aqui. Não creio que o que aconteça entre uma paranoia e outra tenha alguma importância para você, mas se começou a ler peço que não pare, aprecie os dias que nos restam lendo um pouco de minha vida. Se quiser, posso trazer um vinho para que aprecie enquanto leio tudo para você. No porão que antigamente eu fazia de meu quarto existem milhares de garrafas de vinho de todos os lugares do mundo deixados por papai desde que decidiu sumir. Inclusive, posso dizer que sou um dos vinhos que ele decidiu deixar para trás.
Mas tudo bem, preciso me apresentar. Não que eu goste de apresentações, posso dizer a você o quanto apresentações são entediantes? Sempre a mesma coisa “prazer, sou fulano..” não é nada impressionante, não é? Bom, não acho, espero que você ache isso também. Chamo-me Aurora. Aliás, tenho uma pequena paixão por qualquer nome que comece com a letra A, qualquer um mesmo, sem exceção. Abbey, Amanda, Angelique.. Todos são lindos. Mas, voltando. Moro em um bairro reservado de Londres e curso fotografia desde os 17 anos, agora estou com 19. Não tenho nenhuma grande história amorosa para contar-lhe, apenas histórias de mentira. Ultimamente venho falando com um garoto do quarto período, mas nada muito entusiasmante. Nasci no Brasil, em Santa Catarina, mas mamãe era britânica e resolveu vir para cá comigo, deixando meu pai no Brasil com meu irmão mais velho, Jude. Assim que viemos para cá, mamãe se apaixonou por um homem muito mais velho do que papai, pediu o divórcio e em poucos meses estavam casados. Ele era legal, mas não era meu pai. Chamava-se Paul e tinha 45 anos na época. Paul era doente, muito doente, o que fazia com que fosse uma pessoa muito, muito doce. Eu o adorava. Foi horrível quando o encontramos morto dentro no carro em uma sexta-feira treze. Ele sempre brincava dizendo que morreria em um desses dias “mal assombrados” e nós nunca acreditávamos.. Bom, dadas as circunstâncias nos sentimos mal por nunca acreditar.
Dois meses depois da morte de Paul mamãe descobriu que estava grávida, mas a gravidez era de risco e cuidei dela durante os nove meses. Quando a criança nasceu mamãe descobriu ter uma doença muito rara e acabou nos deixando em poucos meses. Minha vida ia de mal a pior quando a juíza resolveu deixá-la ainda melhor decidindo que minha mais nova irmã, Áurea, ficaria sob meus cuidados.
Áurea tinha exatos quatro meses e eu 18 anos quando me entregaram ela e meu pai deu o ar da graça em minha vida outra vez. Mas, não ficou por muito tempo. Em uma manhã chuvosa saiu para beber e no outro dia me mandou um recado no Facebook avisando que não voltaria mais. Meu irmão já estava casado no Rio de Janeiro, então não viria para cá de forma alguma e eu tive de me virar com Áurea. Para a minha sorte a caçula era um amor de bebê e nunca deu trabalho algum. Mas claro que eu não precisava de uma criança para virar minha vida de cabeça pra baixo, certo? Eu mesma fazia isso sem problema nenhum ou ajuda de alguém.
Agora estamos aqui. Fui obrigada a mudar meu curso para a parte da manhã para poder passar o resto do dia com a caçula, uma vez que a creche perto de casa só tinha vagas para esse período mesmo sendo particular. Minha sorte foi que Paul e mamãe nos deixaram uma boa quantia em dinheiro para conseguirmos nos manter muito bem até o 15º aniversário de Áurea. Muitas vezes eu havia pensado em desistir, mas agora alguma coisa me dizia que tudo iria melhorar, ou melhor, que alguém iria aparecer.
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