– Tudo está sem sabor... — Foi isso que ele pensou ao dar a primeira mordida.

Ele nasceu com algo estranho dentro de si. No começo, ninguém percebeu. Mas então, conforme crescia, notaram que ele não reclamava da comida extremamente salgada, não fazia careta ao provar algo amargo ou azedo. O gosto simplesmente desapareceu. Mas ele continuava.

– Eu não sinto o cheiro... — Foi isso que ele pensou ao sentir o vento no rosto.

Com o tempo, percebeu que também não conseguia mais sentir aromas. Não importava se estava perto de flores, do mar ou da cidade barulhenta. O mundo se tornava cada vez mais distante.

– Tudo está escuro... — Foi isso que ele pensou ao abrir os olhos de manhã.

Então, a escuridão chegou. Primeiro foi um borrão, depois sombras, até que não restasse nada. Fechava os olhos, mas era o mesmo que os manter abertos. As cores, os rostos, o céu... tudo sumiu.

– Está tão silencioso... — Foi isso que ele pensou conforme o dia passava.

O som morreu. As palavras dos outros eram como vento sem força. O silêncio era absoluto. O mundo se afastava, cada vez mais.

– Não sinto mais nada... — Foi isso que ele pensou ao tocar a própria pele.

Por fim, o toque desapareceu. As texturas sumiram. O calor e o frio já não existiam. Seu corpo era uma presença distante, algo que ele sabia estar ali, mas que já não sentia. Era como se estivesse flutuando, sem forma, sem nada. Ele não queria aquilo.

E então, algo inesperado aconteceu.

Ele começou a sentir novamente. Primeiro, um gosto. Depois, um cheiro. A visão voltou em um clarão infinito. O som explodiu em sua mente. O toque percorreu sua pele como fogo vivo.

Era um milagre. Ele não conseguia conter sua felicidade.

Até que percebeu.

Estava sozinho.

O que via, ouvia e sentia não era o mundo. Não era a vida. Não era nada.

Era apenas ele.

O vazio o cercava por todos os lados. Não havia chão, céu ou horizonte. Não havia calor, nem frio. Não havia voz alguma para chamá-lo.

Tudo existia, mas não havia mais ninguém para compartilhar.

E então, ele entendeu.

Ele era tudo.

Mas tudo que ele queria era desaparecer.

Então, escolheu se perder novamente.

E assim tudo que ele conquistou, ele perdeu.

Não havia mais nada.

Não havia mais ninguém.

E, enfim, não havia mais ele.

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