Notas iniciais
Além de ser a terceira temporada da minha saga Marinwaal, a presente one-shot também é uma pseudo-teoria minha sobre quem é (ou quem eu gostaria que fosse) -A. E digo "pseudo-teoria" porque o que eu escrevi aqui não se encaixa muito bem na série. Mas enfim, eu dei o meu melhor para que isso fizesse o mínimo de sentido :)

Hanna se dirigia nervosa e cautelosamente ao quarto de hospital onde Mona estava descansando depois de terem dado algumas dezenas de pontos em seu braço direito. Ela havia sido atingida de raspão por uma bala que saíra do revólver prateado que Bethany Young carregava.

Enquanto dava passadas em câmera lenta, Hanna, que ainda tremia bastante, repassava em sua mente tudo o que havia acontecido naquela noite em Nova York.

Para começo de conversa, Bethany Kristen Young – a filha bastarda de Jessica DiLaurentis com Carter Jay Young – era meia-irmã de Alison. Mona pesquisara incessantemente sobre a jovem junto com Hanna e suas amigas.

Hanna tinha de forma vívida na mente a memória dos dedos de Mona se movendo velozmente sobre o teclado daquele laptop. A morena de fato usara sua inteligência para o bem, afinal de contas, mesmo que todos ao redor duvidassem de sua boa vontade (isto é, todos, menos Hanna).

O caso era que, pesquisando sobre Bethany e sua história de vida completamente insana, as meninas descobriram também que Alison estava viva e se escondendo em algum lugar (provavelmente nos esgotos, como pensara Hanna). E foi então que Mona confessara.

Com Hanna, Spencer, Emily e Aria em volta dela no trailer que fora seu antigo covil (estava mais para porão abandonado sobre rodas, no momento), Mona explicara ter encontrado Alison vagando ao meio-fio de uma das ruas da cidade numa noite, pouco antes de declararem oficialmente seu desaparecimento.

Ali estava descalça, com o cabelo loiro desgranhado, as roupas sujas e um enorme corte na testa, com o sangue em volta já seco. Mona gastara um bom tempo dirigindo à marcha dos passos de Alison para poder de fato reconhecê-la. Lágrimas escorriam por seu rosto.

— Ela parecia perdida – contara Mona –, não apenas fisicamente, mas mentalmente também.

Mona estranhara aquilo à primeira vista, e oferecera à garota destruída carona e um curativo. E Alison despejara tudo sobre estar sendo perseguida por Bethany. Disse que sabia do caso extraconjugal da mãe e havia extorquido desta mais informações. A verdade era que a sra. DiLaurentis havia pagado uma exorbitante quantia de dinheiro para que Carter Young criasse a filha fora do país e nunca mais voltasse a vê-la.

Mona dissera às meninas que Alison contara-a ter deduzido que Bethany havia crescido sabendo do suborno e que, por causa de tal coisa, sentia algum tipo de ódio ou inveja mortal por ela. Era tudo o que Ali sabia. Mas era o suficiente para saber que era Bethany quem a ameaçava com mensagens assinadas apenas com a letra “A” e que fora ela quem tentara matá-la horas antes de ela começar a vagar sem rumo sob o sereno da noite.

Mona ajudara Alison a se recuperar num hotelzinho barato e isolado de Rosewood e em seguida instruíra a ela para que sumisse, pois se as pessoas pensassem que ela havia de fato morrido, –A (ou Bethany) também pensaria.

E todos, à princípio, sairiam ganhando com a proposta: –A (que pensaria ter "terminado seu trabalho"), Ali (que dali para diante poderia recomeçar a vida com uma identidade falsa e longe do perigo eminente) e Mona, que teoricamente se livraria para sempre de sua rival.

Mas Bethany nunca saíra de Rosewood, segundo o que Mona havia descoberto com as meninas. O pai da garota usara parte do dinheiro que a sra. DiLaurentis lhe dera para pagar à filha uma estadia permanente no Sanatório Radley quando ela entrara na adolescência. Aparentemente, ela teria se tornado bastante violenta, principalmente em relação a ele, por mantê-la sempre trancada em casa como se fosse a própria Rapunzel aprisionada em sua torre. Mona tivera acesso a tais informações graças a Edward Lamb, o enfermeiro que ficara responsável por ela quando ela mesma tivera que ser internada no hospital.

Segundo o enfermeiro Eddie (como era conhecido entre os pacientes), Bethany convivera com babás e professores particulares, mas um dia ela finalmente se cansara daquilo, deixando que a solidão fizesse estragos irreversíveis em sua mente; tal se convertera em depressão e, mais tarde, em esquizofrenia. Depois de interná-la, o pai desaparecera do mapa.

Pela lógica das meninas, então, o tempo que Bethany passara no hospital psiquiátrico servira apenas para ela arquitetar sua vingança e, assim que completara dezoito anos – se mostrando clinicamente estável o suficiente para dar o fora dali –, começara a colocá-la em prática.

A garota dera seu jeito de encontrar Alison e começara a brincar com a vida dela anonimamente. No fim de tudo, pensara tê-la matado e enterrado. Mas alguém encontrara-a debaixo da terra, provavelmente com o braço fracamente para fora, clamando silenciosamente por vida. E não havia como Bethany ter sabido disso. Também não havia como ela ter sabido que Mona encontrara Alison e colara quase todos os pedacinhos quebrados dela.

— Por mais que eu a odiasse – dissera Mona enquanto narrava toda a história –, eu não queria que ela morresse. Nunca quis que ninguém morresse. Por isso a ajudei. Queria apenas que ela sumisse de vez.

E tudo indicava que Bethany pensara mesmo que Ali havia morrido. Mas aparentemente isso não fora o suficiente. A insanidade era tanta que a garota começara a querer estragar a vida das amigas de Ali também. E por isso recrutara Mona.

— Eu deduzi que se tratava de Bethany pela história que Ali me contou quando a encontrei. Nunca vi o rosto dela, mas sabia, teoricamente, quem ela era – confessara Mona, com uma expressão séria e distante.

Assim que Hanna ouvira tal confissão, sentira que uma faca estava sendo cravada em seu peito novamente. Afinal, Mona havia dito a ela que não tinha nem se quer uma pista de quem fosse a garota que vestia um casaco vermelho. E isso era mentira (mais uma para a coleção de Mona). Não apenas isso, mas ela sabia, por fato comprovado, que Ali estivera viva durante todo aquele tempo e nunca dissera nada. Saber finalmente daquilo só não doera mais do que a primeira traição de Mona porque... bem, porque nada nunca se igualaria àquela dor.

— Em um primeiro momento foi legal – dissera Mona com um sorriso tênue e um tanto sombrio, igualmente distante – Ter uma parceira, digo. Poder manipular a vida de alguém exatamente como Ali manipulava todos em Rosewood. Mas depois que eu quase morri por causa dessa vingança perpétua, depois que quase perdi você, Hanna – Mona lançara um olhar doce exclusivamente para Hanna –, eu passei a querer um fim para isso tudo, tanto quanto vocês.

Supor que Ali ainda pudesse estar viva, para Hanna, Aria, Spencer e Emily, sempre fora muito fácil, pois o caixão enterrado no cemitério estava vazio. Fora um velório simbólico. Nunca nenhum corpo fora encontrado. Mas a primeira vez em que conseguiram todas fazer contato com Alison por telefone – graças a Mona – fora um verdadeiro choque. Todas choraram durante o muito breve momento, inclusive Alison, e Mona apertara firmemente a mão de Hanna enquanto usara a outra para segurar o celular no viva-voz. Hanna fora capaz de notar que a morena estivera no mínimo mexida com tudo aquilo.

Alison, por sua vez, soara diferente; sua voz definitivamente estava mais madura. Emily fora a que mais derramara lágrimas ao ouvi-la.

— Ali, por favor, volte – fora tudo o que a garota claramente ainda apaixonada conseguira pronunciar.

— Não sabe o quanto eu desejo poder, Em – respondera Alison, cuja voz trepidava – Mas agora é impossível. Se eu voltar, -A fica sabendo.

Alison ainda não sabia que as garotas já conheciam a identidade de –A.

— Logo será possível, Alison – garantira Mona, séria, com a voz parecendo a de uma autêntica mulher de negócios, para a surpresa de todas ali, inclusive de Hanna – Estamos todas trabalhando para isso.

O dia do primeiro encontro também fora bastante emotivo. As meninas haviam descoberto que Ali se escondia em um pequeno apartamento em San Diego, usando o nome de Vivian Darkbloom e, junto dele, uma peruca de cabelos escuros. Estava conseguindo levar uma vida relativamente normal e tinha apenas uma amiga, Courtney Cole – Cece – Drake, que sabia de sua verdadeira identidade.

Fora Cece quem arranjara a viagem das meninas para San Diego (o contrário não poderia, de jeito nenhum, ser feito). Hanna perguntara pacientemente a Mona se ela gostaria mesmo de ir. Mona baixara a cabeça e pensara por um tempo. Depois, olhara para a melhor amiga e sorrira, incerta e docemente.

— Acho que sim. Somos como água e açúcar agora, não somos?

Assim que a jovem loira – Cece – , que deveria ter entre seus vinte e cinco anos, e que era incrivelmente parecida com Ali, aparecera na pequena porém charmosa sala de estar, puxando esta pela mão, todas – novamente: inclusive Mona – engasgaram levemente, em surpresa. Cece parecera achar certa graça da situação toda.

— Aproveitem! – dissera ela, radiante, jogando o cabelo dourado para trás enquanto dava as costas e saía do apartamento, a fim de dar às garotas alguma privacidade.

Emily fora a primeira a ser fortemente abraçada por Ali.

— Ah, meu Deus! – exclamara ela, entre lágrimas, apertando Ali contra si – É você mesmo?

— Sou tão real quanto pareço – sorrira Ali, fazendo um carinho no rosto de Emily.

Ali partira então para abraçar Aria, depois Spencer, depois Hanna, e parara em frente a Mona. Examinara-a de cima a baixo, nervosa.

— Cece me disse que você estava vindo também, Mona – dissera Alison, vacilante – , mas eu literalmente não sei o que te dizer.

Mona também parecia desconsertada.

— Está tudo bem – ela dera seu melhor para sorrir – Você não precisa dizer nada.

Calada, então, Alison tocara as pontas dos cabelos escuros de Mona. Cabelos com os quais fizera piadas maldosas no passado. A morena não recuara a tal toque de Ali, porém.

— Eu posso? – perguntara a loira, a voz novamente trepidando.

Mona assentira quase que imperceptivelmente e Alison passara os braços em torno do corpo pequeno dela, que não soube o que fazer com seus próprios braços por alguns segundos, mas por fim se rendera e fechara os olhos, colando as palmas nas costas de Alison, como se houvesse desejado aquele gesto por muito, muito tempo. Todas se emocionaram com o aparente fim da contenda, principalmente Hanna.

Ainda naquele dia, Ali concordara em retornar a Rosewood para ficar, depois de bastante bate-boca, com uma condição: que Ali pudesse ir a delegacia e alegar que fora sequestrada e mantida refém por dois anos em San Diego.

— É a única saída, pessoal! – brandara Ali – Não há vestígios meus aqui, somente de Vivian Darkbloom. Posso dizer aos policiais que nunca tive ideia de quem fosse meu sequestrador. Se me pedirem um retrato falado, eu posso dar alguns detalhes esparsos, dizer que tive lapsos de memória na época, alegar que me drogavam ou algo assim. Eles não acharão nenhum suspeito. Eu posso simplesmente dizer que, se não acharem, não fará diferença nenhuma agora e o crime irá prescrever.

Os olhos dela brilhavam quando ela terminara de falar a última frase. Se havia uma coisa no mundo em que Ali era boa, tal era acreditar tanto na própria mentira que, em algum momento, ela se tornava verdade.

E assim se fez. Ali voltara a morar na antiga casa com a família e Rosewood foi se acostumando aos poucos a vê-la transitar pelas ruas, ainda que alguns olhassem torto para ela, como se ela fosse um cadáver ambulante. Outros olhavam-na com uma expressão extremamente piedosa, na certa pensando “que horror o que aconteceu a essa pobre menina!”, mas Ali não se incomodava com tais olhares. Sabia que seria assim por um bom tempo.

Na escola, Alison mudara completamente. Sorria docemente para as pessoas que passavam amedrontadas por ela, não tinha mais a pose de Abelha Rainha. E decidiu que era muito melhor assim. Ela já havia causado sofrimento demais aos outros simplesmente por pensar que estava acima deles.

Ela e Mona ainda não conversavam, tampouco sentavam à mesma mesa para almoçar. Mas sorriam breve e nervosamente uma para a outra nos corredores, o que era um ótimo começo.

Rosewood tinha voltado a ser o pequeno paraíso que sempre fora, até dois dias atrás, quando –A (Bethany) resolvera se manifestar novamente, mandando uma mensagem para o celular de Mona.

Quando a criatura se vira contra o criador, é melhor arrumar um jeito de pará-la antes que algum desastre aconteça, não acha?

E outra para o celular de Ali.

Achou que poderia desafiar as leis do Impossível e sair ilesa, não é, vadia? Pois espere e verá.

— Ela está deixando fácil demais para eu rastrear – alegara Mona, em frente a seu laptop, com os dois celulares ao lado. As cinco meninas a circundavam, no trailer.

— O que quer dizer? – perguntara Hanna.

— Que é provavelmente uma emboscada – respondera Spencer – Ela quer a nós a sigamos.

— Emboscada ou não – dissera Ali, um dia depois, com uma voz fria a contida, tocando o revólver que estava dentro da bolsa e que ela surrupiara (com a ajuda de Mona e de suas habilidades para abrir fechaduras) do escritório do pai, ainda naquele dia – Ela estará esperando por nós, e nós, por ela.

As mensagens de Bethany levaram as seis garotas até um teatro abandonado no Brooklyn, Nova York.

— Não faça nada estúpido – Emily segurara a mão de Ali enquanto Mona ajudava-as a entrar no local pelos fundos. Alison apenas fitara Emily com um olhar cansado que dizia claramente “farei apenas o necessário para nos manter vivas”.

— Tem certeza de que este é o lugar certo? – Aria tremia enquanto olhava as poltronas de veludo grená empoeiradas. O lugar recendia a mofo.

— Positivo – Mona olhava para a tela de seu celular.

— Pois é – Spencer cutucara Mona, de olho em uma figura vermelha que ia em direção às escadas atrás do palco – , e nossa convidada de honra acaba de chegar.

— O que fazemos agora? – sussurrara Hanna, paralisada pelo medo.

Podia-se ouvir passos se distanciando.

— O terraço – concluira Mona – Ela provavelmente quer que a sigamos até lá.

O estômago de Hanna estava embrulhado e as mãos tremiam. Ela se sentia capaz de desmaiar a qualquer momento. Elas realmente estavam na cola de –A! Mas algo dizia a Hanna que as coisas não iam terminar tão facilmente.

Mona liderava-as pelas escadas em caracol de metal enferrujado e abrira a porta corta-fogo do terraço exitante. Uma garota envolta em veludo vermelho parecia contemplar a vista dali de cima. Não se via estrelas, apenas as milhares de luzes artificiais da cidade.

— O jogo acabou, Bethany – dissera Alison, puxando o revólver que levava preso ao cós da calça jeans e apontando-o para a garota, que estava de costas. Sua voz era de uma fúria cortante.

A garota se virara, completamente muda, mas cautelosamente, como quem dizia “Ora, ora, ora, o que temos aqui?”. Ela tinha – é claro! – o que parecia ser uma máscara escura de esgrima cobrindo toda a extensão da cabeça. O capuz levantado do casaco vermelho e os cachos loiros pendendo para fora davam-na uma aparencia surreal e terrorífica, exatamente como nos desenhos de Aria, pensara Hanna.

— Tire a máscara, vadia! – gritara Alison – Agora!

— Alison, não – Mona dirigira um olhar um tanto amedrontado para ela – Abaixe a arma. Pode ser pior – e então se virara para a garota, que começava a se mover na direção delas a passos de tartaruga – Olhe, nós todas sabemos quem você é. Não há para onde você correr. A escolha é sua: ou se entrega de bom grado, ou nós chamamos a polícia e entregamos você.

Mona falava como uma apaziguadora, como se quisesse conter uma briga entre um grupo de crianças em um recreio. Realmente não havia para onde Bethany correr. As saídas de incêndio estavam bloqueadas há, talvez, muito tempo e as garotas estavam bloqueando a porta, uma ao lado da outra.

Fora então que a garota aparentemente calma e intransponível estremecera. Como que em outra personalidade, girara os tornozelos e começara a correr para o parapeito do terraço. Os prédios do Brooklyn eram estreitos e uns próximos aos outros, mas será que ela pensava conseguir mesmo efetuar um salto de tamanho porte?

Tudo o que se ouvira em seguida fora o barulho de Ali deixando a arma cair no chão para correr em direção a Bethany. Ela puxara o capuz vermelho da garota e derrubara-a por trás, partindo para cima dela em seguida, com a intenção de tirá-la do privilégio do anonimato.

Bethany lutava, tentando manter as duas mãos em volta do pescoço de Alison. Esta, porém, não desistia, até que fora puxada pela cintura por Mona e, em questão de segundos, Bethany se arrastou para longe, tirando o próprio revólver do bolso do casaco. Tudo indicava que ela queria mirar em Alison, mas acabara acertando o braço direito de Mona, que cambaleara para trás, levando Alison para o chão junto com ela.

Bethany parecia não ligar para o fato de que ninguém ali estava morto. Parecia apenas querer fugir. Estava com uma perna sobre o parapeito, pronta para saltar, quando um barulho ensurdecedor viera de trás e um pequeno pedaço de chumbo passara na velocidade da luz por cima das cabeças de Alison e Mona, atingindo em cheio o local entre as omoplatas de Bethany.

Os membros da garota envolvida em vermelho amoleceram e ela finalmente caiu. Os olhares de todas, totalmente estupefatas, estavam em Hanna, cujo braço direito estava esticado e, na ponta, estava o revólver do pai de Alison. Hanna fitava o corpo caído no chão com um olhar enojado.

— Sua filha-da-mãe! – Mona conseguira dar uma risada, ainda que estivesse segurando o braço ensanguentado com a mão esquerda – Desde quando sua pontaria é tão boa?

Hanna queria rir também, mas tudo o que conseguira fazer fora largar novamente a arma, como se tal estivesse contaminada pelo vírus da gripe suína, e ajudar Mona a se levantar.

— Estão todas bem? – perguntara ela. Alison também já estava de pé. – Deus, Mona, precisamos chamar uma ambulância.

— Não precisa – ela se contorcera um pouco – Foi de raspão.

— Aqui – Aria desenrolara a echarpe xadrez preta e cor-de-rosa que trazia no pescoço e a enrolara novamente no braço de Mona – Isso deve estancar o sangramento até que consigamos chegar a um hospital.

— Obrigada – Mona sorrira de um jeito encabulado para Aria.

Enquanto isso, Ali se afastava para ir em direção ao corpo caído junto ao parapeito. Parecia aturdida.

— Ali, deixe-a – Spencer corria até ela.

— Não, Spence – dissera Alison, quase sem voz – Eu preciso vê-la.

Os ombros da garota estavam envolvidos já em uma pequena poça de sangue e Alison, a uma distância segura, retirara cautelosamente a máscara escura que envolvia sua cabeça.

À tal altura, todas já estavam ao redor de Ali e esta deixara escapar um soluço contido ao ir de encontro ao rosto pálido e obviamente já sem vida de sua meia-irmã. Ninguém ali precisava de um exame de DNA para confirmar que eram parentes. Os lábios da garota eram claramente como os de Jessica DiLaurentis e o rosto em formato de coração era indiscutivelmente como o de Ali.

Ela não usava um único traço de maquiagem e tinha pequenas marcas de acne pelo rosto. Era bonita como qualquer outra jovem da idade dela no mundo. Era de fato três anos mais velha que Ali. Tinha vinte e um. Jason, o irmão mais velho de Ali, já existia quando Jessica traíra o marido.

— Ela era minha... – Alison ainda estava ajoelhada diante do corpo e lágrimas queimavam dentro de seus olhos – Eu... eu nunca fiz nada a ela. Passei a maior parte de minha vida sem nem saber sequer que ela existia.

— Talvez esse tenha sido realmente o problema – observara Aria em voz baixa.

— O que quer dizer? – Ali pregara seus olhos azuis úmidos em Aria, com uma irritação leve na voz.

Aria juntara as mãos uma na outra, nervosa.

— Talvez tudo o que ela quisesse desde o início fosse receber um pouco de, bem, amor. Pelo que sabemos, ela não sabia o que era isso. O pai dela não passava de um canalha e sua mãe fora bastante rude também – ela tentara fitar os olhos de Ali, mas esta estava com a cabeça baixa e chorava ainda mais – Desculpe.

— Não, você está certa – Ali enxugara as lágrimas e deixara que Emily a ajudasse a se levantar – Ainda que minha mãe só estivesse tentando proteger a imagem da família, ela não devia ter feito o que fez – ela fora de encontro aos olhos fechados de Bethany por uma última vez e abraçara Emily entre lágrimas novamente – Eu não entendo. Depois de tudo o que ela fez comigo, conosco, eu ainda me dou o direito de sentir pena dela.

— O que fazemos agora? – perguntara Hanna, alheia ao comentário de Alison – Deixamos a garota aqui?

— Bem – Spencer suspirara – , seria a coisa mais segura a se fazer, sendo que Bethany não carregava identidade consigo. Você disse que sua mãe nunca sequer a conheceu, não é? – ela olhara para Ali, que assentira fracamente – Então ela provavelmente será enterrada como indigente antes mesmo que descubram que ela costumava morar na Pensilvânia – Spencer explicava tudo com sua usual confiança inabalável, o que fazia as meninas acreditarem que tudo daria certo. Ela fitara Alison outra vez, desta, com mais cuidado – Tudo bem por você, Ali?

Por mais que as palavras enterrada como indigente soassem cruéis, Alison se obrigara a assentir. Afinal, ela havia quase sido enterrada como indigente por causa de Bethany.

Spencer checara os bolsos do casaco vermelho de Bethany, recolhera o revólver que ela carregava e, depois de tirar dele toda e qualquer digital, colocara-o em um desses latões de lixo amassados, em um beco sem saída, que ninguém se incomodava em checar.

Estavam, as seis garotas, a caminho do hospital mais próximo. Hanna com o braço direito ao redor dos ombros de Mona e as outras quatro mais atrás. Emily também tinha seu braço direito ao redor dos ombros de Ali.

— Acha que se minha mãe tivesse incluído Bethany em nossas vidas, as coisas teriam sido diferentes? – perguntara Alison a Emily, porém a questão fora ouvida por todas.

— Talvez – respondera Emily, incerta.

— Está ciente de que não pode dizer uma palavra para sua mãe a respeito disso, não é? – Mona se virara para encarar Alison – Nenhuma de nós deve falar alguma coisa se o que queremos é evitar que a imprensa e a polícia caiam em cima disso.

— Eu matei a garota – cuspira Hanna, sem demonstrar emoção, estava cansada demais para isso – A última coisa que eu quero é o assédio da imprensa.

— É claro que sim – dissera Alison, indicando que estava esgotada também – O segredo morreu com ela.

Quando uma das enfermeiras perguntara a Mona como ela havia machucado o braço, ela respondera, com a maior naturalidade do mundo, que havia reagido durante um assalto. As cinco garotas atrás dela confirmaram com acenos de cabeça.

Fazia, agora, uma hora desde que haviam todas chegado ao hospital e Mona já estava com o braço enfaixado. Ela precisaria passar a noite ali em observação, e teria alta logo pela manhã. Hanna e as amigas ficariam em um hotel até que pudessem ir para casa. Suas respectivas famílias pensavam que elas estavam todas se divertindo em uma viagem de fim-de-semana, afinal era sábado.

Os olhos de Hanna toparam com os de Alison enquanto ela caminhava lentamente em direção ao quarto de Mona. Ali havia acabado de sair de lá. Era completamente surreal pensar em Ali e Mona finalmente se falando. E Hanna estava muito feliz com aquilo.

Hanna notou também que os olhos de Alison estavam vermelhos. A garota sorriu porém, tocando o ombro de Hanna, como que para dizer “está tudo bem”. E então Hanna parou e olhou para trás, para as cadeiras azuis da sala de espera. Spencer e Aria tinham ido juntas à maquina de café e Alison se dirigia a Emily, que abriu os braços para que Ali se recostasse em seu ombro.

Parecia que Ali havia apagado da mente todas as memórias ruins de horas antes, ou até de anos antes. Na opinião de Hanna, Ali nunca aparentara estar tão tranquila. Emily tinha os braços ao redor dela e beijou-a na testa, num gesto doce, quase maternal. Estava na cara que o abraço de Emily era, agora, o porto seguro de Ali. Elas entrelaçaram as mãos e o coração de Hanna encheu-se de ternura. Será que estão finalmente juntas?, ela se perguntou, e percebeu que torcia para que a resposta fosse sim.

O rosto de Mona se iluminou quando ela viu que era Hanna quem adentrava o quarto.

— Oi! – cumprimentou ela, com a voz um tanto rouca, o que deu a Hanna a impressão de fragilidade – Estava querendo ver você.

Hanna sorriu, um tanto encabulada, caminhando cautelosamente em direção a cama. Notou o braço cuidadosamente enfaixado – do ombro até pouco acima do cotovelo – de Mona.

— Como está se sentindo? – perguntou ela, notando a doçura na própria voz.

— Bem, no momento eu sinto como se meu braço direito fosse feito de massa de modelar – as duas riram de leve – Mas acho que é a melhor dor que já senti na vida.

Hanna juntou as sobrancelhas, estranhando o uso das palavras “melhor” e “dor” na mesma frase. Mas sentou-se na beirada da cama mesmo assim, de repente olhando fundo nos olhos de Mona.

— E quanto ao que Ali veio aqui te dizer? – ela perguntava agora com uma voz calma e séria.

— Ela veio me agradecer – respondeu a morena, e tudo em suas expressões indicava pura serenidade – e me pedir perdão formalmente. Ela chorou muito. – disse como se tal fato a deixasse um tanto desconfortável – Nunca pensei que ela fosse deixar esse momento acontecer.

— E você?

Mona suspirou.

— Eu quase morri de vontade de dizer a ela a mesma coisa que disse a Spencer, na noite do baile de máscaras, enquanto estava naquele carro com ela. Que “é mais fácil perdoar um inimigo do que um amigo”. Mas o caso é que... eu não a considero mais uma inimiga— ela sorriu docemente – E não havia nada mais que eu pudesse fazer ou dizer a não ser perdoá-la. Mas eu já a havia perdoado. Acho que desde o momento em que a vimos em San Diego. Ela estava diferente, Han. Ela não era mais a mesma garota que era quando deixou Rosewood. Aliás, acho que ela estava diferente desde o dia em que eu a vi vagando pela cidade, com as roupas sujas e a testa ensanguentada. Meu palpite é que Bethany tenha enterrado a antiga Alison, e a verdadeira Alison fora resgatada de debaixo da terra – o olhar de Mona estava distante, porém ela voltou a focá-lo em Hanna – Vai levar um tempo, talvez bastante tempo, até que eu e ela possamos passar uma tarde fazendo compras juntas, por exemplo – ela ironizou – , mas nós estamos bem.

Uma lágrima já descia pelo rosto de Hanna.

— Eu estou muito orgulhosa de você.

— E eu nunca estive tão orgulhosa de você como estou agora – Mona entrelaçou suas mãos às de Hanna – Foi por sua causa que o pesadelo acabou.

Hanna ajeitou as mãos para que suas palmas ficassem coladas às de Mona. Ela sempre gostou de acariciá-las. Eram macias e se encaixavam perfeitamente às suas. E deixou que a memória voltasse à sua mente mais uma vez. Ela havia matado Bethany Young.

— Acho que eu não teria ganhado a coragem para fazer o que fiz se ela não tivesse atirado em você – admitiu Hanna em voz e cabeça baixas – A possibilidade de perder você está completamente fora de questão para mim. Sempre esteve.

O estômago de Hanna estava embrulhado mais uma vez e ela estava começando a admitir que talvez Mona estivesse saindo do ponto de interseção (nem amor, nem amizade ou mesmo um pouco dos dois) que ocupava em seu coração e ela talvez estivesse de fato se apaixonando.

Mona fez um carinho no rosto de Hanna com a mão esquerda, como se conseguisse ler seus pensamentos, entender tudo o que ela estava sentindo e ainda dizer “não há nada de errado com isso”. Ela, então, calada, se esforçou um pouco para sentar na cama sem se apoiar no braço machucado e deslizou a mão do rosto para o pescoço de Hanna, que estremeceu.

Foi a vez de Mona repetir o ritual que fora feito três vezes antes por Hanna. Ela beijou a testa da loira, a ponta do nariz e, por último, os lábios. Hanna tinha as duas mãos levemente apoiadas na cintura de Mona e não conseguia pensar em nada a não ser em que tinha gostado de sentir as duas respirando próximas uma da outra. Na verdade, aquilo fez os pêlos de sua nuca se arrepiarem e ela queria fazer de novo. Ainda assim, Hanna se controlava para não chorar e Mona parecia sentir isso.

— O que foi? – perguntou ela em uma voz doce e preocupada que fez Hanna começar a derreter.

As duas continuavam de rostos colados.

— Eu amo você – disse Hanna finalmente, com a voz embargada.

Mona demorou alguns segundos para replicar.

— E isso é uma coisa boa, não é?

Hanna assentiu de forma inocente.

— Acho que sim.

— Então por que está chorando?

— Porque eu antes achava que sabia a forma que te amava. Agora não sei mais.

— E quem liga para isso? – Mona sorriu como se Hanna tivesse dito a coisa mais idiota do mundo – É amor, não importa a forma que tenha.

— Importa para mim – rebateu Hanna – Antes eu achava que meu único dever era proteger você, cuidar para que você não se machucasse. Mas agora eu olho para você e... percebo que não quero apenas isso. O que aconteceu hoje a noite só me fez acordar para ver que seja lá o que temos, é muito forte. Não é como uma relação comum. Eu estaria mentindo se fosse a um restaurante um dia e te apresentasse às minhas amigas como minha namorada. Porque não é o que você é. É muito mais do que isso. Quer dizer, existem todas essas “versões” de você com as quais eu convivo. Há apenas alguns dias atrás você estava agindo como minha velha melhor amiga de novo; mas quando você entra naquele trailer parece que você se transforma em uma especie de guardiã, e então é a sua vez de me proteger, e eu me sinto segura; e existem momentos como esse... nos quais você se transforma na versão que mais me completa.

Mona tinha os olhos úmidos e parecia impaciente quando Hanna finalmente concluiu e decidiu olhar para ela. Com a mão esquerda repentinamente na nuca da loira, Mona puxou-a para que seus lábios se tocassem mais uma vez.

Em um primeiro momento, Hanna resistiu e pensou que aquilo definitivamente não estivesse certo. Mas então relaxou, ao sentir novamente a respiração de Mona junto da sua. E começou a fazer carícias nos lábios dela com os seus. Os beijos foram se aprofundando aos poucos, e Hanna tentou procurar pela sensação de desconforto que pensava que a dominaria se algo como tal coisa acontecesse, mas, para sua surpresa, ela não estava lá. Ao contrário, seu corpo inteiro formigava e uma sensação morna, boa, preenchia seu coração. O corpo inteiro de Mona parecia ser como os lábios dela, acariciável, abraçável, beijável.

— Uau – disse Hanna quase sem voz, assim que as duas se afastaram. Ela apreciava a sensação libertadora que aquele beijo lhe dera. Ela se sentia mais leve e via, fisicamente, as coisas ao redor com mais clareza. – Eu definitivamente não sei dizer o que isso significa.

— Por que se importa tanto com o que as coisas significam? – Mona parecia levemente indignada – Não podemos apenas viver isso do jeito que dá vontade?

Hanna não respondeu e manteve o olhar baixo. Não sabia o que dizer. Mona suspirou em rendição e tomou novamente a mão de Hanna.

— Significa que eu quero que fique comigo. Não me importo com o fato de você não conseguir me chamar de sua namorada. Eu também não quero me dar esse título. Acho que o que temos é simplesmente amplo demais para tentarmos rotular – ela colocou uma mecha do cabelo loiro claro de Hanna para trás da orelha – Apenas quero que saiba que eu também amo você. Demais. E eu prometo que o jogo de mentiras acabou. Nunca mais vou deixar você.

Agora a voz de Mona era a que trepidava. Hanna beijou o queixo da morena, provando o gosto levemente salgado de uma lágrima que pendia ali, e a abraçou. Aquele corpo pequeno ainda se encaixava perfeitamente entre seus braços.

— Seremos felizes de agora em diante, Hanna — garantiu Mona, a voz ainda carregada pelo choro – Todas nós.

Hanna apertava Mona contra si fortemente, porém um gemido abafado expirado pela morena a fez diminuir a força em torno dela.

— É o seu braço de novo? – perguntou Hanna, apreensiva, ainda levemente enganchada a ela.

— É – respondeu Mona fracamente, quase como se estivesse resfriada –, mas eu já disse. É a melhor dor da minha vida.

Notas finais
Bem, eu não sei se já disse isso alguma vez, provavelmente sim, mas irei dizer de novo: se a Mona estiver realmente viva na série, eu, sem dúvida alguma, vejo uma reconciliação Ali & Mona ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!