Unintentionally
6 Farewells
Notas iniciais

Depois daquela desastrosa conversa, saí do estabelecimento e caminhei até a escola, onde tinha esquecido o caderno de física. Ainda tinha aquela merda de trabalho para fazer e não conseguia tirar o assunto de Jason da cabeça. Ele estava agindo de modo estranho demais e era óbvio que, seja lá o que fosse, a coisa era realmente séria.
Com aquilo na cabeça, sequer notei onde estava até ouvir berros em algum lugar próximo. Encontrava-me ao lado do campo de futebol americano da escola e os brutamontes estavam treinando. Todos corriam como loucos, mas não era na direção da bola que a maioria ia.
Era para cima de um garoto consideravelmente mais esguio com roupas de brutamonte e um capacete escondendo seu rosto e cabelo. Um novato que estava prestes a ser devorado pelos veteranos. Repentinamente, a bola caiu ao seu lado e ele ajuntou-a, e ficou parado, em pé, enquanto todos os mamutes do time corriam em sua direção. Como a cena de um filme clichê, porém mil vezes mais doloroso, os adolescentes cheios de hormônios e suor caíram com toda a força em cima do pobre coitado.
Aquilo era mil vezes mais interessante que o meu caderno de física.
Caminhei até a arquibancada e sentei numa das cadeirinhas. O jogo continuou e o carinha só se fodia. Seja lá quem fosse, não conseguiria se mexer direito pelo resto da semana, no mínimo.
Era hilário ver os mamutes do time correndo atrás do garoto, que parecia tão perdido e desesperado quanto... Bem, uma coisa perdida e desesperada. Nunca tinha me divertido tanto ao assistir um jogo de futebol americano.
A partida acabou, e todos se encaminharam para o vestiário, o novato indo por último, mancando um pouco, mas tentando parecer inteiro. Ele tirou o capacete, revelando os cabelos castanhos. Scott – pude ler seu nome na camisa – correu até ele e deu um tapinha nas suas costas, o que só fez o cara envergar para frente. Eles entraram no vestiário e eu, rindo da desgraça alheia, retomei o caminho até meu armário, onde peguei meu caderno e saí da escola. Não precisava passar ainda mais tempo naquele inferno.
~*~
Fui para casa, fiz as tarefas da escola, vegetei um pouco e então decidi – não pergunte como, nem eu entendi- que precisava limpar um pouco o apartamento. Aquele lugar estava um caos total. Comecei juntando todas as embalagens vazias do chão e dos móveis, varri, tirei pó, passei pano. Basicamente virei aquele lugar de cabeça para baixo.
Tinha acabado de terminar a cozinha quando ouvi a porta sendo fechada e os passos de Jason até onde eu estava.
— Nossa, que milagre, Alexia White fazendo faxina! Merece uma foto! – sacou o celular do bolso e, levando em consideração o barulho, tirou a maldita foto. Tirei uma mecha do cabelo do rosto e cruzei os braços.
— Acho que o senhor me deve uma explicação, não? – apesar da brincadeira idiota, ele parecia abatido. Não tinha percebido antes, mas olheiras profundas marcavam seus olhos. Os ossos pareciam mais protuberantes no rosto. Tinha algo muito errado com ele. E eu juro que se algum filho da puta nos interrompesse naquele momento, seria dolorosamente assassinado com o pano que estava na minha mão.
— Senta aqui, Alex. – ele disse enquanto sentava no sofá-cama. A voz estava carregada de cansaço. Mais preocupada do que estive em muito tempo, sentei ao seu lado. Ele tomou a minha mão, algo que não fazia havia séculos. – Você sabe que eu nasci e fui criado na Rússia até os seis anos de idade, certo? – eu assenti, sem entender nada. – Minha mãe se mudou para os estados unidos quando meu pai morreu, para tomar conta da empresa dele, mas alguns anos atrás ela voltou para a sua terra natal. Nós brigamos, e foi por isso que eu fiquei por aqui, mas agora... Agora... – ele soluçou e eu estanquei. Jason sempre foi o meu pilar de autocontrole. O mundo podia desabar, mas ele sempre estava lá. Firme e forte. Vê-lo chorando era a coisa mais surreal que eu tinha presenciado em toda a minha vida. E eu tinha experiência nesse tipo de coisa. – Ela está muito doente, Ally. E... E eu preciso ir até lá. Não posso deixar que ela parta do jeito que as coisas estão.
Fiquei sem reação por alguns segundos. Parecia que tinham injetado morfina em minhas veias. Não conseguia processar suas palavras. E então, quando a ficha realmente caiu, foram os meus olhos que começaram a ficar molhados.
— Alex... Eu não sei se vou conseguir voltar. As coisas estão complicadas em casa e eu... Eu sou o último da família anda vivo... – abracei-o com todas as minhas forças e não deixei que terminasse de falar. Aquilo era um adeus e os dois sabiam disso. Ele teria de ficar na Rússia, cuidar de todos os patrimônios da família, provavelmente herdaria toda a fortuna da família, mas, se a mãe não o aceitasse de volta, tudo o que deveria ser dele iria para instituições e coisas assim. E ele teria gastado todas as suas economias para a viagem de ida. Sem volta.
— Vo-você vai entrar em contato sempre que puder, não importa a hora, c-certo? – eu soluçava muito. As palavras não saíam direito. Ele me abraçou mais forte. – Não me esqueça. Nunca.
— Isso é impossível, Ally. – Ally. O apelido que ele usava quando ia nos visitar. Quando eu era só a irmã mais nova do melhor amigo. Quando a vida não era uma bagunça e o amanhã era garantido.
~*~
— Dois dias. Certo. Tchau. – abri os olhos, ardendo graças ao choro da noite anterior, e encarei Jason, que estava em pé na ponta do sofá.
— Só temos mais dois dias? – questionei. Aquelas palavras faziam meu coração apertar e o estômago esfriar, mas precisavam ser ditas.
— Ao que parece, sim. Eu sei que é pouco tempo, mas minha mãe está realmente muito mal e...
— Não precisa se explicar, Jason. Você precisa passar esse tempo com a sua mãe. Eu me viro por aqui.
— É sobre isso que precisamos conversar, Alex. Você só mantém esse apartamento de merda porque eu pago a metade. Quando eu for, não vou mais poder te ajudar. Você vai precisar encontrar um lugar novo pra morar. – suspirei.
— Eu dou o meu jeito. Já aprendi muitas coisas desde que botamos o pé na estrada. – dei um sorriso com a lembrança que veio à minha mente. – Ainda lembro como se fosse ontem do momento em que te convenci a vir comigo. “Nós contra o mundo”, eu disse. Está mais para “O mundo contra nós” – ele abriu um sorriso triste.
— Me ajuda a fazer as malas e depois saímos pra comer pizza? – eu assenti.
— Isso não é justo. – eu disse depois de um tempo. – Como eu vou roubar a minha camisa favorita se ela estiver na Rússia? – levantei a camisa preta do Black Sabbath que ele comprou num show. Para falar a verdade, ela já estava mais cinza escura que preta, mas continuava sendo a minha camisa favorita. E era dele.
Jason pareceu considerar alguma coisa, e então disse:
— Fica com ela. Eu pego quando voltar pra cá.
— Mas você disse que tinha chance de nunca...
— Eu vou dar um jeito, Alex. Claro, eu pretendo nunca mais pisar nessa espelunca aqui, – rimos – mas eu vou voltar pra você. Afinal, quem vai te trazer pra casa de manhã, quando você está mais bêbada que um porco?
— O mofo agradece a consideração. – respondi.- E eu provavelmente vou ter que arrumar um jeito de voltar pra casa bêbada ou não. Lembrando que primeiro eu preciso arranjar uma nova casa. – ele suspirou.
— Vai dar tudo certo, Alex. – e me abraçou de novo.
Fale com o autor