Unintentionally
4 Can I Kill Doc?
Notas iniciais

Depois do incidente, fui até a mesa onde ficavam as bebidas – as de verdade, com álcool – e peguei uma garrafa de Vodka. Em pouco tempo, não havia mais líquido nela. Acho que aquele foi o meu recorde, pois, em menos de quinze minutos, eu já estava bêbada feito... Bem, algo bêbado. Não conseguia lembrar de nada depois daquilo.
~°°°~
– Jason? – disse assim que ele atendeu. Minha língua pesava e eu mal conseguia ficar em pé.
– Alex... Por favor, me diz que você não está bêbada. – ele resmungou com a voz ainda embargada pelo sono. Soltei um risinho.
– Não vou falar isso, mas tem como você vir aqui me pegar? Acho que vou me perder se tentar ir sozinha. – ouvi um barulho do outro lado da linha e, após alguns segundos, ouvi-o suspirar.
– São seis e meia da manhã de sábado. Você sabe que hoje eu tenho que descansar pra pegar o movimento da noite, Alex.
– Você prometeu que sempre estaria do meu lado quando precisasse. Isso não engloba me ajudar quando eu estou bêbada a ponto de não saber qual das minhas mãos é a esquerda? – eu tentava falar, mas tudo saía atrapalhado e estranho. Minha língua parecia feita de chumbo. Mesmo assim, tentei apelar para o lado pessoal.
– E você me prometeu que não beberia mais desse jeito. Sabe que faz mal. – ele resmungou, mas pude captar o som de suas cobertas farfalhando do outro lado da linha. Ele estava vindo, como sempre. – Me espera sentada no muro da escola. Não fale com ninguém. Se ameaçarem chegar perto, ameace-os com a primeira coisa que aparecer na sua frente. Estou chegando. – dei um risinho típico de gente bêbada.
– Você sabe que é o melhor, não? – ele riu e desligou na minha cara. Babaca.
~°°°~
Uns minutos depois, Jason apareceu na calçada, andando rapidamente. Eu estava encarando o nascer do sol.
– Odeio laranja. – falei quando ele parou ao meu lado.
– Eu sei, Alex. E você odeia amarelo. E cores alegres. Todos sabemos. – ele pegou a minha mão e passou meu braço sobre seus ombros. – Vamos. – começamos a andar. Eu mais tropeçava que andava, o sobretudo apoiado nos ombros e sapatos na mão livre.
– Você está calmo. Pensei que ficaria puto da vida quando eu ligasse. – comentei enquanto observava as casas pelas quais passávamos.
– Estou guardando a minha frustração para o momento em que você acordar morrendo de dor de cabeça e ressaca. Aí você vai me ouvir. – encolhi os ombros. Ele já havia me dado vários sermões sobre coisas como a bebida, mas eu sempre pisava na bola. E ele sempre me ajudava quando necessário.
– Jas. – chamei sua atenção. Ele olhou para mim.
– Hm.
– Você sabe que é a melhor coisa que já aconteceu pra mim, certo? – perguntei. Ele riu.
– Você fica muito dócil quando está bêbada, Alexia. Sério. Nem parece você. – rimos e fizemos o resto do caminho em silêncio.
Em casa, ele me ajudou a tirar as botas e acessórios, me levando para o minúsculo banheiro que tínhamos. Depois de uma ducha, coloquei um pijama confortável que Jason havia separado e deitei no sofá cama, amontoando-me bem perto de Jason. Ele me abraçou e pegamos no sono daquele jeito.
~°°°~
Acordei com a voz de Jason.
Minha cabeça parecia estar prestes a explodir, e meus olhos doíam. Eu tinha de maneirar mesmo na bebida.
– Ela está bem? – a voz do Whitmore tinha um tom carregado de preocupação. Ele basicamente sussurrava, como se não quisesse que a conversa chegasse aos meus ouvidos. – Certo. Tenho que desligar. Tchau. – ele tirou o telefone do ouvido e eu fechei os olhos, fingindo dormir novamente.
Jason bufou sonoramente e ouvi a porta sendo destrancada. Quando o som da fechadura ecoou pelo recinto, tirei o celular de debaixo do travesseiro e chequei as horas: meio dia e quinze. Ele nunca saía a essa hora. Muito menos sem me avisar. O que será que estava acontecendo?
Tentei voltar a dormir, mas não conseguia pegar no sono. Apenas fiquei deitada olhando para o teto.
~°°°~
Ele só voltou depois de umas duas horas. Quando ouvi a porta abrindo, sentei-me vagarosamente, amaldiçoando o céu e os Infernos por ter bebido tanto na noite passada.
– Isso não é algo que uma garota deveria estar falando. – Jason sentou ao meu lado com um copo de água na mão e uma pequena sacola de plástico na outra.
– Isso é algo que uma Alexia deveria estar falando, idiota. – respondi. Ele riu e tirou da sacola uma cartelinha com remédio para dor de cabeça. Com uma careta, coloquei aquela merda na boca e tomei a água. Odiava tomar remédios.
– Hey, eu não sabia o que você queria comer, então não comprei nada. Mas vou correr daqui a pouco. Por que você não vem comigo e nós fazemos um lanche no caminho? – perguntou. Neguei com a cabeça.
– Não estou com fome, Jason. Vou ficar em casa e fazer o trabalho de química. Odeio aquele velho de pinto pequeno. – ele não riu da piada, apenas encarou-me com preocupação.
– Eu tenho que falar com você, Alex. É sério. Mas tem que ser em outro lugar. – seu tom me deixou realmente preocupada. Levantei e caminhei até a prateleira onde estavam as minhas roupas. Peguei uma legging preta, regata com um belo “Just Fuck It” em letras prateadas, moletom e tênis e corri para o banheiro, onde me troquei e prendi o cabelo.
– Vem logo, babaca. – disse já na porta. Jason já tinha colocado um tênis de corrida e terminava de amarrar um moletom na cintura quando chamei-o.
Corremos até o centro da cidade em silêncio. A minha vontade era de jogá-lo contra uma parede e fazer aquele cabeça de batata descascada me falar o que estava acontecendo, mas ele me sobrepujava tanto na força quanto na teimosia, então seria um plano falho. Só me restou ficar ao seu lado e esperar até que ele resolvesse parar de correr.
Coisa que aconteceu uns vinte minutos depois de sairmos de casa. Estávamos em frente a uma lanchonete um tanto quanto carcomida quando seu telefone começou a tocar. Jason, com um movimento mais rápido que os do Flash, sacou o aparelho e atendeu.
– Alô? – ele ficava cada vez mais pálido à medida que a pessoa falava. Eu não conseguia distinguir nada da ligação. Jason afastou o telefone da orelha rapidamente. – Alex, eu preciso falar a sós com ela. Volto daqui a pouco. – antes que eu pudesse sequer processar suas palavras, Jason virou e saiu andando rapidamente.
Entrei na lanchonete e pedi dois sanduíches e dois sucos de laranja. Jason provavelmente me mataria se eu não colocasse alguma coisa pra dentro, mesmo estando completamente sem fome.
Comecei a morder meu lanche sem muita vontade. Minutos se passaram e nada daquela criatura infernal voltar. Quem será que estava no telefone? Quem estava deixando Jason tão preocupado e com o que? Eu não fazia a mínima ideia, e odiava isso.
Fui interrompida quando, repentinamente, um ser estacionou ao lado da mesa. Já xingando tudo e todos, levantei os olhos e dei de cara com ninguém mais, ninguém menos, que Kurt Springs. Aquilo era perseguição, só pode. Sério.
– E o que, diabos, você está fazendo aqui? — perguntei. Ele sentou na cadeira em minha frente e encarou a refeição intocada que eu havia pedido para Jason. Que ainda estava desaparecido.
– Eu moro aqui perto. — provavelmente em um ato reflexo, ele virou a cabeça e encarou rapidamente um prédio do outro lado da rua. Ele não era luxuoso, mas também não era um pedaço de concreto esquecido pelo mundo como o que eu chamava de casa. Tinha uma fachada azul celeste e detalhes em branco, além de algumas plantas na frente da porta. Um lugar decente, pra resumir. — E eu só... Só quero fazer uma pergunta. — era visível que ele estava desconfortável. Sua fala era apressada e enrolada. Tive vontade de rir, mas não o fiz. O que aquela criaturinha queria perguntar a mim?
– Desembucha. Estou em um momento de misericórdia. — ele arregalou os olhos. Como todo o resto do mundo, devia estar pensando que eu cortaria seu papo antes mesmo de começar.
Bem, acho que ele acabou de descobrir que eu não sou uma pessoa previsível.
– V- você, por acaso, viu uma garota na festa? — dessa vez, eu ri. Com gosto.
– Eu posso não me lembrar de metade do que aconteceu, mas se eu estava lá, provavelmente vi uma garota. E a sua priminha também foi à festa, não? Duvido que ela resistiria a uma sessão de pegação daquelas. — ele ficou avermelhado e fez uma careta, como se estivesse lembrando algo desagradável. Se eu fosse prima de Lissa Springs, provavelmente passaria por isso o tempo todo.
– Não... Ela estava com um vestido vermelho bem curto e colado. Botas vermelhas também. Não consegui ver a máscara direito, nem o cabelo. Só sei disso. Era bem magra. Você viu alguém assim por lá? — Claro. Eu mesma.
Não respondi a verdade. Sabia que aquele maldito beijo-não-beijo havia mexido com ele. Afinal eu devia ser a primeira garota a chegar tão perto dele em toda a sua vida. E aquilo não foi proposital.
– Metade das meninas daquela merda estava vestida assim. Acho que para diferenciá-la você precisa de mais detalhes, pequeno gafanhoto.
– Desculpe. Você ficou ao lado daquela mesa sozinha bebendo a festa inteira. Pensei que talvez tivesse visto a garota por aí. – ele hesitou por alguns segundos e encarou a refeição de Jason em cima da mesa, intocada. – Deve ser uma pessoa solitária. – ele disse e corou instantaneamente. Estava claro que tinha acabado de pensar alto.
– Suma da minha frente agora ou eu juro que te mato com o meu canudinho. – ele deve ter percebido que eu seria capaz disso, porque levantou e saiu como um raio, a cabeça baixa.
Jason voltou logo em seguida e sentou na minha frente.
– Desculpa, Alex... O meu... – ele parou de falar, pois o telefone tocou novamente. Bufei sonoramente quando ele atendeu. – O que foi, Doc? – Doc, o velho idiota e mandão também conhecido como patrão do Jason. Se ele estava ligando, era porque nossa conversa seria deixada para mais tarde. De novo. – O que? Como? Ah, merda. Certo. Estou indo. – eu disse. – Alex, um bando de retardados roubou a televisão da lanchonete e fizeram o caralho a quatro no lugar todo. Tenho que ir se quiserem abrir hoje e se quiser manter o meu emprego. – ele pegou o lanche e pediu para que um funcionário embalasse, além de pagar a conta.
E foi embora, deixando-me morrendo de curiosidade.
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