Unilateral
2 Diferente do dia em que você partiu

Diferente do dia em que você partiu, hoje neva muito. O sol está perdido em algum lugar entre as nuvens conectadas e cinzentas. O casaco grosso me mantém aquecida, porém ainda sinto frio.
Diferente do dia em que você partiu, hoje o parque está vazio. Óbvio que o tempo fechado espantou os amantes de caminhada e piquenique. Sinto-me ainda mais patética no meio da imensidão de flocos brancos.
Diferente do dia em que você partiu, hoje eu preciso de alguém para ficar do meu lado sem querer nada em troca. Naquele dia eu mal me importei com a sua partida e o nosso término, mas agora me pego pensando se devia ter desistido de tudo tão facilmente.
Tantas diferenças, contudo você é a única semelhança. Hoje faz 100 dias que não nos vemos. Ou faria, porque em alguns minutos você vai chegar. Eu fiz questão de empacotar o restante das suas roupas e entregar pessoalmente no lugar de sempre.
O Parque Hangang não foi mais o mesmo desde que te conheci. Tudo começou aqui e tudo acabou aqui.
— Hyerin. — A figura curvada embaixo de um guarda-chuva, abraçando inutilmente o próprio corpo, apareceu em meu campo de visão. Tentei sorrir amigável, porém você não retribuiu. — Trouxe as coisas?
— Kwangryul, eu...
— Trouxe as coisas? — Repetiu, cortando-me secamente, ao mesmo tempo em que esticava a mão aberta em minha direção; o nosso anel de casal não mais enfeitando o seu dedo anelar.
— Podemos conversar antes? — Foi um pedido sôfrego e minha voz saiu tão falha quanto imaginei que sairia. O guarda-chuva levantou minimamente e os seus olhos viajaram até os meus, encarando-me pela primeira vez desde que havia chegado. Pude ver o seu par de olhos castanhos, belos e machucados.
De algum modo isso me satisfez. Eu não quero que me esqueça com facilidade. Não quero ser a única presa na corda bamba sem saber para onde ir.
— Não, não podemos. — Você suspirou fundo e franziu as sobrancelhas; a raiva, a dor e a incredulidade misturam-se em seu semblante abatido. Contorci o rosto para que demonstrasse o quão frágil me sentia também, para que percebesse que eu sofria também. — Peça para alguém entregar as minhas coisas no escritório. Você não precisava fazer isso e eu não precisava te ver.
— Você precisa me escutar! — Sua mão sumiu dentro do bolso antes que eu pudesse segurá-la entre as minhas. Engoli em seco e olhei para as malas no banco atrás de mim, completamente cobertas pelos flocos de neve. Eu não posso te deixar ir sem tentar mais uma vez; ainda mexo com os seus sentimentos. — Por favor, não me deixe de novo. Eu não aguento mais ficar sozinha, Kwangryul...
A sua risada seca me incomodou; eu queria que ficasse quieto e me escutasse, dentro de mim sabia que não aguentaria muito tempo longe de mim. Você sempre me amou muito, não é?
Sentir os seus braços compridos me rodeando, seu perfume amadeirado embalando o meu sono e sua voz rouca sussurrando doces palavras para que me sentisse segura. Não era mais a mesma coisa sair e me encontrar com outros homens, sendo que eu só conseguia pensar e me satisfazer com você.
— Onde estão os outros homens com quem saía? Cansou de brincar com eles também?
— Você sempre foi o único. — A mentira pulou para fora ecoando na neve de forma zombeteira e maliciosa. Não era para ser assim, não era isso que eu queria dizer. Por que nada sai como eu quero? Por que você não pode esquecer o que aconteceu?
— Claro, as fotos e mensagens com eles foram invenção minha!
— Foi um mal entendido, amor. Eu nunca olharia para outro homem da mesma forma que olho para você.
— Eu vi, Hyerin. Depois que terminamos mais e mais pessoas vieram me contar sobre os seus casos nada discretos.
Desesperei-me, dando alguns passos em sua direção e tentando grudar em qualquer pedaço seu. Mas você se afastou com passadas largas e a mão em riste, como se eu fosse um animal que pudesse te atacar a qualquer momento.
Se eu te abraçasse agora, você cederia?
— Deixa de ser teimoso, Kwangryul. O amor... O amor não era o mesmo. O que eu sentia por você não se comparava em nada ao que acontecia com eles. Eu não os amava.
— Cala a boca! — Você gritou furioso, finalmente. Trinquei o maxilar e cruzei os braços, começando a me irritar um pouco mais. Eu jurava que seria mais fácil te ter de volta. Se você demonstra estar sofrendo sem mim e eu preciso de você, por que não podemos nos acertar de vez? O que eu preciso fazer para que você entenda que eles não eram nada para mim? — Não se faça mais de boazinha. Não venha com esse discurso absurdo para cima de mim. Você não passa de uma criança mimada. É capaz de ouvir e entender o que está me falando?
— Você é um grande imbecil mesmo, Choi Kwangryul.
— Eu fui um grande imbecil, afinal fingi não ver as traições e fiquei com você por 800 dias.
— Foi um péssimo namorado. E continua sendo! — Berrei descontrolada, sentindo todo o calor queimar o meu corpo. Eu não sentia mais frio nenhum. Puxei a touca de lã da cabeça e joguei longe; por que é tão difícil te ter de volta?
— Aí está a sua verdadeira face, o teatro fajuto já estava cansando. Passar bem, Oh Hyerin.
Solitária e coberta de flocos brancos, como um detestável boneco de neve no jardim, pude perceber com mais clareza a batalha que o meu cérebro e o meu coração travam há anos, afinal eu nunca precisei de ninguém e você sempre esteve comigo.
Afinal eu não preciso dar satisfação à ninguém.
Porque você sempre cuidou de mim.
Afinal eu não preciso de ninguém para me dar apoio.
Porque você sempre torceu por mim.
Afinal eu não preciso de você.
Porque você sempre me amou.
Hoje faz frio e tudo está diferente do dia em que você partiu, Choi Kwangryul.
Principalmente eu mesma.
Fale com o autor