Unidos Até (n)A Morte
1 Único
Notas iniciais
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Vai dar um quê a mais, acreditem!
Numa bela noite, três amigos fizeram um teste de coragem entre eles. Uma era Thalita, de quatorze anos, naturalmente cética, que raramente perdia a calma. O outro, era Rogério, de treze anos, uma pessoa teimosa, que sempre queria e achava ter a razão. O terceiro, mas não menos importante nesta história, era Marcos, também de treze anos, um questionador nato, sempre curioso acerca de tudo e todos. O trio sorriu, cúmplice um para o outro enquanto se aproximavam de seus destinos, sem a menor ideia do que os aguardava.
Mas eu estou me adiantando. Antes de mais nada, preciso lhe explicar o que os levou a fazer esse teste de coragem.
Mais cedo naquele fatídico dia, os três amigos, que se conhecem desde antes de saírem das fraudas, estavam brigados. Pelo motivo mais idiota possível, é claro.
— Você não tem vergonha, Marcos, de sempre ser protegido pela Thalita? — Provocou um de seus colegas de classe, cuja identidade pouco importa para esta história.
— Cala a boca, idiota! — Retrucou Rogério, que estava perto o bastante pra ouvir a provocação.
— Eu não preciso de você para me proteger! — Retrucou Marcos, muito irritado e envergonhado.
— Tem razão, só a Thalita é o bastante pra você, né? — Rebateu outro colega de classe, que resolveu se juntar à zona.
Marcos, que sempre foi tão quieto, que preferia resolver os problemas na base da argumentação em vez da pancadaria, foi o primeiro a dar um soco no rosto do colega. Rogério, completamente estupefato, não perdeu tempo em entrar na briga com o melhor amigo.
Thalita, que não estava muito longe dali, logo ouviu os gritos de “Briga! Briga!”. Levantou as sobrancelhas, pensando em quem estaria brigando no meio da escola quando as aulas estavam prestes a começar. Se aproximou, não muito interessada nas identidades dos baderneiros; pensava em contar a história para os seus dois melhores amigos.
Então, imagem a surpresa da garota ao ver que justo aqueles pra quem ela pensava em falar sobre a briga, estavam lá, no olho do furacão, se permitir a metáfora.
— Que diabos vocês estão fazendo?! — Ela exclamou alto o bastante para atrair a atenção de todo o pátio.
Sem se abalar, jogou os longos cabelos loiros para longe dos olhos. Os olhos castanhos faiscavam de raiva. Aqueles dois iam se meter em várias encrencas assim que os professores aparecerem, o que não ia demorar para acontecer, considerando que o sinal tinha acabado de soar.
— Vamos logo para a sala! — Ordenou, muito séria.
Marcos se levantou, lhe dirigindo um olhar gélido, muito atípico dele.
— Vá você, Thalita, você não manda em mim. — E sem dizer mais nada, deu-lhe as costas e foi em direção opostas as salas.
Rogério, revoltado, o segurou pelo pulso, puxando-o de volta. O amigo se virou, irritado e abriu a boca para pedir que lhe soltasse, mas nada disse, já que o punho de Rogério o tinha lhe acertado de uma vez. Marcos só não caiu no chão pois o amigo ainda o segurava, deixando marcas de dedos no pulso branco.
Rogério ajeitou os óculos do rosto, que escorregavam devido o suor em seu nariz e olhou feio para Marcos, que ainda o encarava perplexo.
— Peça desculpas à Thalita!
A garota em questão, que mal tinha saído do estupor de ver Marcos, sempre tão quieto e tímido, que só expressava todas as suas indagações e curiosidades para eles, olhar para ela daquela forma, ficou ainda mais chocada ao ver os dois melhores amigos começarem a trocar punhos e chutes.
Avistou um professor ao longe, se aproximando, e voltou ao controle de suas ações. Aqueles dois idiotas não podiam serem pegos!
Respirou fundo e marchou em direção os dois morenos que rolavam no chão. Os olhou desgostosa por um momento, e logo depois começou a chutá-los.
— Parem com isso, seus otários!
Pegou cada um pega orelha e começou a arrastá-los para fora dali. Apenas quando saíram do meio do círculo de alunos, que Thalita libertou suas orelhas, para os agarrar pelos pulsos e sair correndo, com os dois a reboque.
Apenas quando Thalita chegou nos fundos da escola, onde sabia que ninguém iria aparecer para os incomodar, é que finalmente os libertou.
Marcos parecia extremamente acanhado, agora que a adrenalina estava abandonando-o. Rogério ainda tinha as sobrancelhas franzidas, enquanto subia os óculos de volta para o lugar de forma impaciente.
— Agora, os dois babacas podem me explicar que diabos aconteceu ali?
Silêncio.
É claro.
— Ótimo, não me contem, eu provavelmente vou descobrir daqui dois minutos pelo whatsapp, com direito a vídeos e tudo o mais.
Os dois continuaram em silêncio. Thalita cruzou os braços sob os seios pouco desenvolvidos e continuou a revezar o olhar impaciente entre os dois.
A quietude do lugar logo foi interrompido pelo som de um aparelho vibrando. Thalita deu-lhes um sorriso arrogante ao mostrar que quinze pessoas diferentes estavam lhe mandando fotos e vídeos da briga.
Marcos empalideceu enquanto fechava as mãos em punhos firmes. Estava com medo do que Thalita poderia pensar dele. Mas, pensando bem, já estava na hora dela o olhar como homem, em vez de uma criança. Sempre foi apaixonado pela garota a sua frente, mas nunca teve coragem de confessar seus sentimentos.
Já Rogério, totalmente ignorante aos sentimentos do amigo, via Thalita como sua irmã mais velha. Ela apenas um meses mais velha, mas podia parecer uma garota de 40 anos, quando queria. Olhou desinteressado para o celular da amiga. Ele não ia pedir desculpas. Se recusava. O que havia feito de errado, pra começo de conversa? Nada! Apenas defendeu os amigos, e isso merecia reconhecimento, e não broncas!
Thalita não pode deixar de franzir o cenho ao assistir o vídeo da briga. Parecia que o assunto da discussão que se transformou em briga era ela.
— O que significa isso? Marcos, você resolveu descer de nível por provocações ridículas como essas?
Marcos não respondeu. Não ia responder que ele perdeu a calma porque eles cutucaram a ferida. Thalita sempre o protegia, nunca o deixava lutar suas próprias batalhas. Como ele poderia lhe mostrar que não era mais aquele garotinho chorão de cinco anos de idade?
— Eu não preciso de você se metendo em minhas lutas, Thalita.
Rogério o olhou irritado. Quem ele pensava que era, falando desse jeito com a melhor amiga deles?
— Cala a boca, Marcos, você só tá falando merda.
— A boca. — Alertou Thalita.
Marcos abriu a boca para retrucar quando sentiu o próprio aparelho vibrar no bolso traseiro da calça. Desbloqueando a tela, viu que um de seus colegas que estava brigando com ele mais cedo o estava chamando de “bichinha” e “medroso”. Com o sangue borbulhando, Marcos selou o destino do trio:
— Por que não fazemos um teste de coragem?
— Hein? — Os dois amigos foram pegos completamente de surpresa.
— Um teste de coragem. Não tem uma casa abandonada que todo mundo diz ser assombrada perto da rodoviária? Vamos pra lá hoje à noite.
— Que porra você tá falando? — Brigou Rogério.
— A boca! — Ralhou Thalita enquanto lhe dava um beliscão. — Mas, Marcos, sério, do que você está falando?
— De um teste de coragem. Vou provar que sou tão fodão quanto vocês dois.
— Você não precisa prova na—
— Fechado. — Disse Rogério. Quem sabe assim o amigo voltava ao normal?
— Beleza. Nos encontramos meia noite na porta da casa.
— Vocês vão mesmo fazer isso? — Horrorizou-se Thalita.
— Nós vamos fazer isso, Thalita, juntos. — disse Marcos.
Thalita não argumentou contra.
[--x--]
Eles foram para a casa abandonada na calada da noite. O trio conseguiu escapar de casa sem problemas, cada um esperando o outro chegar para começarem logo o teste.
O teste consistia em definir quem conseguia ficar dentro da casa por mais tempo, cada um levava um saco de dormir, determinados a ganhar.
Quando todos enfim chegaram, Thalita se adiantou até a porta, uma mão indo até a maçaneta enquanto a outra buscava por um grampo de cabelo, pois a casa estava trancada, segundo os relatos dos moradores locais. Porém, Thalita mal havia encostado na porta quando ela começou a abrir-se, aquele irritante som de porta antiga rangendo soou alto para os garotos, que reprimiram um arrepio.
O trio passou pela porta enquanto analisava os móveis empoeirados. O odor de mofo e poeira os atingiram em cheio, fazendo com que Marcos começasse a ter o nariz irritado. De repente, a porta bateu com força. Eles pularam, se virando para a porta que tinha acabado de passar. Thalita havia deixado a porta escancarada, não fazia sentido. Uma brisa gelada passou por eles, fazendo Thalita tremer e os pelos da nuca de Rogério se arrepiaram.
— Que clichê — resmungou Thalita —, foi o vento, vejam, a janela está aberta.
— E vento consegue trancar portas? — perguntou Marcos, enquanto tentava forçar a porta a abrir-se novamente, sem sucesso.
— Deve ter emperrado, depois a gente arromba. — sugeriu Rogério, revirando os olhos. Mas ele estava apreensivo. Começou a suar e logo teve que ajeitar os óculos de volta.
Foram interrompidos da discussão quando ouviram o barulho de água pingando, um barulho que não haviam notado até agora. Cruzaram a sala e foram em direção a cozinha, que era de onde vinha o barulho. Thalita se aproximou da pia da cozinha, onde pingava a água. O cheiro forte de ferro fez o seu estômago se embrulhar. Estendeu a mão e a tocou. A água era fria, viscosa e... vermelha.
Eles arregalaram os olhos e se iniciou outra discussão sobre o que diabos aquilo significava.
Depois de se convencerem que a água era velha e que a iluminação estava mesmo péssima – apenas a luz do luar que vinha das janelas, já que os garotos disseram que seria “mais emocionante” se fossem sem lanternas.
Continuaram a andar pela casa até Rogério apontar uma pequena trilha daquele líquido estranho que levava pela escada ao andar de cima. Ao correrem até lá, sentiram novamente aquele cheiro metálico e salgado, dessa vez, ainda mais forte. A casa era abafada, o que fazia os três garotos sentirem os estômagos embrulhados.
Ao se aproximarem, em um estouro, ouviram o som de água corrente próxima do corredor e dentro de um dos quartos. Nervosos, trocaram um olhar de puro pânico. Respiraram fundo, e com um olhar cúmplice, balançaram a cabeça em concordância, determinados a terminar o que começaram.
Continuaram seguindo a trilha, que a cada passo, ficava cada vez mais grossa e espeça, até atravessar uma porta fechada. O cheiro estava cada vez mais forte, o que fez com que o trio subisse a gola de suas camisas para tampar o nariz, sem obter grandes resultados.
Thalita, novamente, foi quem se adiantou até a porta. Queria demonstrar liderança e controle. Girou a maçaneta lentamente, com a mão tremendo, talvez pelo frio, talvez pelo enjoo, talvez pelo medo que lhe subia pela bile. Devagar, como se estivesse em câmera lenta, com o rangido sinistro de porta velha explodindo em seus ouvidos, fazendo com que eles se arrepiassem todos.
Os três arregalaram os olhos enquanto sufocavam um grito
[--x--]
É tão... asqueroso, pensou Thalita.
É tão... extraordinário, pensou Rogério
Como isso é ao menos possível?, pensou Marcos, intrigado e mortificado.
Aquilo em sua frente era muito estranho. De trás da porta havia um banheiro, completamente sujo daquele líquido vermelho, incluindo as paredes. A banheira a sua frente estava transbordando daquele líquido viscoso e repugnante. O cheiro de metal e sujeira os acertou em cheio, tão forte que fez com eles sentissem o gosto no fundo da garganta. Um gosto que lembrava quando perdíamos os dentes de leite, um gosto que lembrava quando recebiam um soco bem dado no estômago.
Sangue. Não havia mais o porquê negar.
Os três saíram correndo de lá, para o sótão. Lá, o ambiente estava repleto de móveis cobertos por lençóis encardidos, livros velhos e teias de aranha. O cheiro parecia ainda pior ali. Havia um quê de podridão junto ao odor de mofo, e ferro.
Mas algo chamou a atenção de Marcos. Uma enorme caixa de algum material desconhecido pelo garoto estava no canto oposto do aposento.
— O que é aquilo? — Perguntou ele, apontando.
— É a caixa d’água. — Respondeu Rogério, se achando o esperto.
Eles aproximaram-se da caixa d’água e olharam dentro após subir uma pequena escada que havia ali escorada. O cheiro era ainda mais insuportável que no banheiro e a imagem também. Os cérebros dos garotos se recusavam a processar o que viam.
Marcos abriu a boa, mas de lá não saiu uma pergunta, saiu vômito. Rogério também não estava muito bem. Seu estômago parecia ter entrado em pane e sua bile subia e descia pela garganta, a cabeça dava voltas.
Dentro da caixa d’água, havia três cadáveres em decomposição, afundados em sangue, com apenas a cabeça até o colo do lado de fora. Nenhum dos corpos possuía olhos e eles tinham apenas uma parte parcial do cabelo.
Rogério estava prestes a desmaiar em horror, como se sua cabeça se recusasse a aceitar o que se passava, quando ouviu um grito.
A voz era de Thalita.
Ela não estava mais no sótão com eles.
[--x--]
Thalita acordou apavorada. Ela foi jogava escada abaixo por algo que ela não viu! Sentiu como se fosse agarrada pelo tornozelo, mas sem realmente sentir alguma pressão (isso ao menos fazia sentido?!). Havia batido a cabeça na queda e perdido a consciência.
Thalita sentia-se estranhamente... Bem, em pânico. Thalita n-u-n-c-a ficava em pânico, jamais. Forçando a memória ao mesmo tempo em que tentava controlar o pavor, ela analisou onde estava. Sentia-se... Molhada?
Forçou a visão, que ainda estava borrada, e viu-se dentro da banheira, com as pernas abertas e estiradas entre as bordas. A banheira ainda transbordava em sangue. Sua cabeça girou e Thalita vomitou. O gosto de bile e lágrimas em sua boca era amargo. Seu cabelo, reparou, sempre tão limpo e de um loiro tão claro, estava até a área do queixo encharcada em vermelho.
Isso é um sonho! — Ela parecia tentar convencer a si mesma, que aquela noite toda era um terrível pesadelo, que ela ainda estava em sua casa, arrumando suas coisas para poder fugir até ali, que ela apenas cochilou no chuveiro e todo o estresse e expectativa dessa noite fazia com que ela visualiza-se tais horrores, mas fingir que tudo aquilo era ficção era impossível. Ela não podia fingir que não estava sentindo a pressão da água na sua nuca, a inundando com aquele sangue sujo e repugnante.
Thalita tentou se levantar, mas por algum motivo não conseguiu. Era como se a água puxasse ela para baixo. A sensação era a mesma que ela sentiu quando foi jogada escada abaixo do sótão. Ela nem pode ver o que tinha dentro da caixa d’água.
Abriu a boca e gritou de forma tão alta e tão estridente, que Thalita duvidava que seus pulmões não explodiriam. E então ela esperou. E esperou. E esperou. E gritou.
Depois de alguns minutos — ainda gritando — Rogério apareceu no banheiro com Marcos, ambos em um tom entre pálido doentio e esverdeado, completamente apavorados. Thalita pediu para eles a ajudarem a sair dali, e cada um segurou um braço da garota.
Antes de ao menos eles começarem a forçar os músculos para puxá-la, Thalita sentiu-se afundando, como se a banheira não possuísse fundo.
Arregalou os olhos, dirigindo seu olhar de puro terror para Marcos, e abriu a boca para gritar, enquanto afundava.
Um grito que nunca saiu.
Thalita se fora.
[--x--]
Marcos ainda chamava o nome de Thalita, mal ousando acreditar no que viu. Como — ele se perguntava — como nos metemos nessa?
— Temos que fugir! — Berrou Rogério, desistindo de grasnar o nome da amiga para o vácuo.
— O quê?! — Exclamou Marcos, lágrimas queimavam seus olhos. — Como você pode dizer isso? Nossa melhor amiga é afundada em sangue – sangue, caralho! -- na porra de uma banheira, sem deixar o corpo pra trás! E você quer abandoná-la? Ela é o amor da minha vida!
Agora Marcos chorava livremente. — E eu nunca pude dizer isso a ela! — soluçou — Eu não vou deixá-la! Thalitaaaa! Thalitaaaa!
Rogério virou-se, de costas para a maldita banheira em que seu amigo debruçava e urrava. Tampou os ouvidos, tentando abafar os gritos de Marcos. Rogério não suportava mais aquele lugar. Tudo era demais. O cheiro, o lugar, o que aquilo fazia com a mente dele. Tudo ali era pervertido e depravado, e agora sua melhor amiga – sua irmã! – acabou de desaparecer bem diante de seus olhos. Ele não podia olhar mais para este lugar sem pensar em Thalita afundando, naquelas coisas pervertidas que havia visto no sótão. Que jeito mais idiota de morrer!, pensou ele, afundada numa banheira de sangue. E o corpo dela nem estava lá.
Subitamente, Rogério parou de ouvir as suplicas de Marcos. Girou, alarmado, apenas para ver Marcos prestes a pular dentro da banheira.
— O que é isso, cara?! Sai dessa!
— Não. Sai dessa você! Eu vou trazê-la de volta. — Esganiçou Marcos, o rosto mortalmente calmo
Marcos estava prestes a pular quando ouviu um barulho estranho, como se fosse um corpo submergindo de dentro d’água. Ele vinha do sótão. Os dois garotos trocaram um olhar e correram em direção ao som.
No sótão, tudo parecia igual ao que estava antes, exceto... Bem, havia alguma coisa clara e amarelada dentro da caixa d’água, algo que não estava ali antes, mas parecia estar no mesmo lugar que a outra coisa estava. Marcos foi o primeiro a subir pela escadinha para olhar dentro da escadinha. Ele desceu dela com as mãos no rosto, completamente descrente. Rogério também não estava muito melhor, depois de olhar lá dentro.
Dentro da caixa d’água, estava Thalita, no lugar de um dos cadáveres que estava ali antes, o cadáver anterior não estava em nenhum lugar à vista. Como ela foi parar lá, eles não fazem nem ideia.
Seus cabelos loiros estavam flutuando em meio ao sangue, tingindo as madeixas nas pontas de vermelho. O moletom que ela usava antes, estava submerso e encharcado. Seus olhos castanhos, tão brilhantes, não estavam mais em seu rosto.
Rogério girou para chamar Marcos para fugir. Iria argumentar que não havia nada que eles pudessem fazer ali, que tinham que chamar por ajuda. Ia enfiar naquela cabeça dura que era inútil continuar ali. Mas no final, não pode fazer nada disso, pois assim que ele se virou, viu Marcos com as mãos na garganta, claramente tentando gritar, sufocando-se. Seus pés pareciam estar sendo absorvidos pelo chão, depois os joelhos, e assim por diante, numa velocidade impressionante.
Rogério pulou da escadinha, tentando alcançar Marcos.
Mas conseguiu apenas arrancar alguns tufos de cabelo do outro garoto.
Sua cabeça foi absorvida.
Ele também se fora.
[--x--]
Rogério sentiu os olhos arderem. Os esfregou com brutalidade, sob o óculos, o entortando. Seus dois melhores amigos se foram! Rogério pensou novamente em fugir, mas ele não iria abandonar seus amigos, não mais. Olhou para os corpos dentro da caixa d’água, e Thalita.
Eu vou queimar essa porra toda!, foi o que ele pensou.
Ele retirou um por um dos corpos desconhecidos de dentro da caixa d’água. Algo lhe dizia para deixar o corpo de Thalita quieto. Respeito, imaginou. Pegou seu isqueiro, que ganhou de presente de Marcos, e umas garrafas brancas com cheiro forte, de posto de gasolina, despejando o líquido nos corpos. Acedeu o isqueiro e o deixou cair em cima daquelas coisas.
Uma faísca se transformou em enormes labaredas que dançavam no centro da escuridão do sótão. Ele deve ter passado quase sete minutos olhando as chamas crescerem, com lágrimas saindo de seus olhos, borrando os seus óculos, tanto com as lágrimas quanto pelo vapor quente das chamas. Rogério disse pra si mesmo que era apenas o ardor do fogo que fazia com que saltasse lágrimas de seus olhos.
O que ele diria para os pais de seus amigos? Como poderia olhar na cara deles? Como poderia ir na escola no dia seguinte, sabendo que seus amigos foram mortos por coisas inexplicáveis?
Rogério se levantou para ir embora, mas deteve-se. Ele não podia abandonar o corpo de Thalita, devia isso aos pais dela. Ele olhou para a caixa d’água novamente e viu Thalita... Mas... Rogério olhou para as chamas novamente. Ele tinha pego os dois cadáveres restantes, já que o terceiro havia sumido e Thalita aparecido no lugar dele. Olhando bem, pareciam terem tido a idade deles, quando morreram. Mas, porque havia um corpo a mais, no mesmo estado dos outros cadáveres, ao lado de Thalita? Esfregou os óculos na camisa suada, tentando os limpar o melhor que podia. Forçou a vista para o novo corpo e... Não! Era o Marcos! Sem os olhos azuis e com alguns tufos a menos do cabelo castanho, morto, boiando ao lado de seu amor, como se estivessem numa banheira de hidromassagem. Só que essa era feita de sangue. O cheiro de carne queimada invadiu o nariz de Rogério, mais forte, como um soco, e o despertou para a realidade.
Ele deu um passo à frente para conferir se era realmente Marcos, mas tropeçou numa das garrafas empoeiradas, com cheiro forte de álcool, derramando o líquido mais à frente, rumo a caixa d’água. As chamas seguiram o líquidos, deixando Rogério cercado.
Desesperado, o garoto pegou sua garrafinha de água da mochila e jogou o líquidos nas chamas, no intuito de acalmar o fogo o suficiente para ele conseguir pular por cima das chamas, que cresceram ainda mais. Infelizmente, a água evaporou antes mesmo de atingir as chamas.
O fogo estava se aproximando dele cada vez mais numa velocidade extremamente perigosa. O garoto estava em pânico. Sentiu as calças molharem-se com urina, mas nem conseguiu se sentir envergonhado. Sentiu aquelas orbes vazias de seus amigos, o encarando, o esperando alcançar a morte para juntar-se a eles. De algum lugar, ouviu risadinha adolescentes, muito parecidas com as que Rogério, Marcos e Thalita davam quando estavam juntos, mas ao mesmo tempo, muito diferentes.
As chamas atingiram a barra de sua calça molhada. Ele bateu o pé várias vezes no chão, mas o fogo não parou de subir. Ele continuava a subir e a queimá-lo vivo, enquanto aos poucos, tudo que sobrou de Rogério foram cinzas, que foram sopradas por uma brisa fria para dentro da caixa d’água, ao lado dos amigos.
Ele também se fora, e junto com sua alma, as chamas.
Seu corpo apareceu na caixa d’água, junto com os amigos, como se ele não tivesse virado cinzas. Seu corpo não possuía olhos e seus cabelos estavam tostados. Algumas queimaduras em seu rosto, mas nada mais que indicava que o garoto havia evaporado. Era como se seu corpo tivesse sido reconstruído dentro da caixa d’água. Diferente dos amigos, ele era o único nu.
Havia uma mancha de queimado bem grande, que passava por quase todo o chão do ambiente, como se há muito tempo, essas manchas foram acessas.
[--x--]
A alma dos três amigos dessa história estava presa naquele lugar. Eles não podiam ir nem para o Céu, nem para o Inferno. Era como o Purgatório.
O tempo passou, e eles continuavam ali... No tédio eterno.
Numa noite qualquer, a alma de Marcos ouviu o rangido irritante da porta da frente. Thalita verificou e informou os dois amigos que eram três crianças, que pareciam ter a idade deles. Rogério sorriu para os amigos.
O trio começou arquitetar cenas macabras de matança, como aquele outro trio havia feito antes com eles mesmos, para assim, terem suas almas libertadas, e esse outro trio assumir seus lugares na caixa d’água.
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