Unhas pretas

1 Capítulo único - Infecção


Era uma vez uma garota que pintou as unhas de preto. No primeiro dia, as unhas feitas lhe agradaram, e apesar do que as pessoas comentassem ou não comemtassem, ela estava satisfeita com suas unhas pretas.

No entanto, depois de um tempo, a tinta começou a descascar. Ela não tinha tempo para frequentemente cuidar da aparência, nem um removedor de esmalte ou condições para conseguir um. Só podia esperar até que o esmalte descascasse completamente.

O problema maior não era esperar, e sim as pessoas, que lhe olhavam estranho e diziam coisas. Sabe, do tipo "Você não deveria pintar suas unhas se nem tem como cuidar delas", "que horror, que coisa feia, você não sabe nem remover esmalte?", "Sem noção", "Esperar descascar? Ugh, que ridícula..."

A garota todos os dias tentava arranhar o esmalte para que ele saísse logo e as pessoas parassem de olhá-la de cima, mas lá ele continuava, qinda mais feio, ou então levava pedaços de suas unhas.

Era horrível, não era? Tão feio, não era?

Mas ela só tinha pintado as unhas para parar de roê-las. As pessoas reclamavam das unhas roídas mas agora zombavam do esmalte descascando e ninguém nunca lhe oferecia ajuda. Só sabiam julgar e reclamar.

Julgar. Reclamar. Julgar...

Era isso o que faziam o tempo todo. Fosse cuspindo sapos nos outros ou apunhalando costas já anestesiadas de tanta dor. A garota não sabia quem era mais covarde.

Ela não podia esperar a ajuda de ninguém, então o que podia fazer? Àquele ponto, mesmo que pura alucinação, o esmalte parecia que não iria sair nunca. E por alguma razão, vermelho estava se misturando ao preto arranhado...

Seria o vermelho de tanto morder e arranhar as unhas? Talvez isso fosse um sinal. Um sinal de que a melhor tinta não era tão complicada assim. Finalmente, uma resposta.

Ela arrancou cada uma das unhas com os dentes. Os mesmos que haviam roído antes, agora concluíam uma ação muito mais ousada, como um novo e último passo num relacionamento.

Por mais que a tragédia da cena possa ser descrita tão facilmente, isso é apenas porque ninguém quer saber da realidade das coisas quando escapa para a ficção. Ninguém quer saber, por exemplo, que ela gritou de dor, mas continuou juntando forças para continuar puxando uma por uma, com vermelho pingando no chão junto de suas lágrimas e escorrendo seu braço. Nem imaginar seus dedos, que pareciam estar chorando. Um choro vermelho, de gosto salgado. Nem do tempo que a tortura durou, com seu corpo tremendo.

Tampouco que ela morreu por infecção, imagino.

Um leitor se sentindo desconfortável provavelmente se perguntou aonde esta história quer chegar. Que não devemos fazer algo sem pensar em todas as consequências e lidar com elas? Ter cuidado do que fala de alguém? Ajudar o próximo?

Haha, não.

O inferno de uns pode parecer besteira pra outros?

Nem mesmo isso.

O ponto é que na boca humana existem mais de 700 tipos diferentes de bactérias, e em alguns segundos de beijo, são transferidos milhões delas.

O ponto é que a boca é cheia de perigos pra saúde. E em vez de xingar a pessoa que decidiu soprar o meu olho pra tirar um cílio, eu decidi fazer algo produtivo.

Talvez o mundo fosse um lugar melhor se mais pessoas fizessem isso. Ou se tivessem mais cuidado com o que fazem com suas bocas.

Notas finais

Era pra eu ter postado no primeiro de abril ou sexta-feira 13, mas fazer o quê?
Foi o que eu consegui escrever recentemente. Não tenho motivação pra escrever já faz um tempo...
Eu engoli uns cacos de vidro e estou sentindo dores horríveis. Que irônico, considerando o final desta história.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!