Unforgivable
13 Reborn
Notas iniciais
Carrick pede a Valentina para chamar a Dra. Jocelyn. Quando a senhora chega, ele a coloca para trabalhar.
– Eu não acompanhei o caso de Katerina. Gostaria de saber os sintomas da doença.
Carrick se olha rapidamente no espelho. Os hematomas haviam sumido e havia apenas um corte pequeno no seu lábio inferior.
As verdadeiras marcas são as internas, ele diz a si mesmo.
O médico caminha até uma das mesas do laboratório e começa a espalhar frascos sobre ela e outras coisas que podem ajudar que ele encontra por lá.
– Febre, vômitos, perda de sangue, cansaço — ele cita enquanto caminha até o armário de vidro perto da parede do local. Lá dentro, ele pega várias soluções, a maioria incolores, porém algumas tem colocação meio morta, o que dá arrepios, já que deveria ser um antídoto. Renascendo a partir da escuridão -, perda dos movimentos e dos sentimentos, delírios, falência dos órgãos...
Jocelyn pensa em todos esses sintomas. Ela havia conhecido pessoas com essa doença. Pessoas que haviam morrido.
– E como ela adquiriu o vírus?
– Envenenamento. É difícil de se achar o tipo de erva. Há algumas em Hahle e outras em Altulle. É complicado para que ninguém consiga.
Ele suspira, vendo que Jocelyn busca mais informações.
– Cada erva causa um sintoma e juntas, elas causam doenças crônicas. O caso de Katerina foi uma mistura de ervas perigosas, causadores de alguns desses sintomas.
Então no armário de vidro ele vê. Um pequeno frasco amarelado com um líquido denso verde musgo dentro dele. A insígnia da capital colada na frente do vidro colorido. O imponente leão de juba avermelhada rugindo, os olhos claros cerrados, as presas expostas, pronto para atacar os inimigos. Uma escrita em uma fonte levemente medieval está gravada embaixo do leão: Reino de Frömming.
Carrick abre a tampa e cheira o líquido. Madressilva. Ele projetou aquilo para ser agradável. A sensação de uma nova vida, um recomeço. Uma segunda chance.
A Cura.
Ele olha para o que estava pegando. Iria usar apenas para minimizar os sintomas do veneno, mas aquilo... aquilo era um verdadeiro milagre.
Mesmo assim, poderia não funcionar. Katerina foi envenenada, não adquiriu o vírus em si. Apenas os sintomas. Ela não está definhando em uma cama, como todos os outros, ou em coma. Ela está morta.
Se ela havia se matado pelos delírios causados pela doença, assim que a trouxesse de volta poderia curá-la.
– Como você sabe de tudo isso?
Ele percebe que deve ter dito algo alto, porque Jocelyn parece curiosa.
– Eu li em algum lugar.
– Eu duvido que o Senhor de Meurer deixaria alguém publicar algo assim — ela caminha até a bancada, até ele.
Trazer Joffrey de volta havia sido diferente. Ele estava em coma, ainda estava vivo, apenas... de uma forma diferente. Katerina estava morta há pelo menos meia hora. Em breve o sangue coagularia, se isso já não tivesse começado a acontecer e...
– Eu não tenho certeza se posso curá-la.
Ele olha para Jocelyn. Ela poderia ser sua mãe. De certa forma, ela costumava ser.
– Nós vamos conseguir — ela sorri com afeição. — O que eu preciso fazer?
– Eu criei uma droga que tem a capacidade de... bom, não acho que poderia revelar o que ela pode fazer. É sigiloso e eu assinei um contrato de silêncio. De qualquer forma, Joffrey sabe da existência dela e ele acha que pode funcionar em Katerina.
Ele olha para Jocelyn.
– Eu preciso que você termine a cirurgia.
– Você quer que eu costure a morta?
– Quando seu coração voltar a bombear seu sangue, ela não pode estar aberta em uma mesa de cirurgia. Leve com você o desfibrilador e drogas tranquilizantes. Funciona diferente em cada pessoa. Katerina pode voltar com os batimentos super acelerados ou tão fracos a ponto de parar. Precisamos estar prontos.
– Esse envenenamento de Katerina, esses sintomas... parecem com a Infecção de Carrick...
Ela o encara. Tudo o que Valentina havia lhe contado fazia sentido.
– A Praga... foi você, não é?
Ela se afasta dele.
– Jocelyn...
– Foi você que criou A Praga? Você envenenou Derek assim como tantas outras pessoas?
– Eu não...
– A verdade, Callum. Apenas a verdade.
Ouvir seu nome verdadeiro depois de, provavelmente, mais de dez anos, era uma sensação estranha. Familiar, porém desconfortável. Intimidadora.
– Vincent me mandou criar um vírus para exterminar aqueles que sonegavam impostos. Estávamos em crise e ele matou tanto ricos quanto pobres. Mas... eu nunca pensei que ele fosse tentar matar Derek ou Valentina ou qualquer um de vocês... eu nunca permitiria.
– Uma doença é algo incontrolável. Nem Vincent pode detê-la. É tão poderosa que não se segura, simplesmente a espalha.
– A falta de dinheiro causou isso. Eu sempre disse a Valentina para pagar os impostos em dia. Quando estávamos juntos, eu sempre paguei tudo... não é nosso para ficarmos com ele. Cinquenta porcento de tudo o que temos é de Vincent.
Jocelyn está indignada.
– Ele tinha que dar uma ajuda mensal a todos os pobres. Não havia dinheiro suficiente. Meurer e outas cidades da região estavam completamente falidas. Eles fizeram um empréstimo milionário com Hahle, por isso que agora ele é aliado dos Hallaya. Vincent deve a eles.
– Acabar com o prejuízo é a nossa solução — Vincent havia lhe dito na ocasião. — Caso contrário, todos morreremos.
– E você não hesitou em matar milhares...
– Matar milhares para salvar milhões? Sim, Jocelyn. Eu o fiz. Eu agi por um bem maior. Acontece que quando eu descobri que Derek estava doente, eu não hesitei em curá-lo.
– Bom, agora ele está doente de novo e dessa vez sobre posse de Vincent. Quem garante que ele ainda esteja vivo?
– Vincent precisa dele. Não iria matá-lo.
– E por quê?
– Porque ele é o motivo pelo qual os rebeldes ainda não bombardearam Meurer. É a única fonte de poder que Vincent tem sobre mim e Valentina.
Ela suspira.
– Depois de tantos anos, eu me surpreendo que você se importe com alguém além de si mesmo.
– É claro que eu me importo. Derek é meu filho.
+++
Melanie observa Vincent em Cérebro. Ele falava com Fleur pelo monitor do seu escritório.
– Não é você que tem câmera até no cu do diabo? — a loira está furiosa. — Por que não me avisou que Heron estava voltando?
– Mantiveram em segredo. Como eu poderia saber?
– Pra isso que você tem câmeras e informantes!
– Eu sabia que Heron havia acordado, mas ele mal abria os olhos. Como eu iria adivinhar?
– Você sempre se pagou de inteligente. É inadmissível que sua equipe tenha falhado agora.
– Então vamos falar de falhas? Deixe-me citar as suas, por favor. Porque nem pra amarrar macho você serviu.
– Erik permaneceu comigo durante muito tempo e agora eu estou casada com Andrew.
Andrew. Só podia ser coincidência. De qualquer forma, ela olhou para trás, para Josh, que observava Matthew e Hillary discutindo no alojamento deles.
– J, vem aqui ver isso.
Josh fica ao seu lado rapidamente.
– O que está acontecendo?
– Escute.
– Pelo menos isso você conseguiu — Vincent passa as mãos pelos cabelos. — Quando você quer dar o golpe?
– Rebekah tem que morrer primeiro.
– Talvez não seja necessário.
– Um nortista recusando derramamento de sangue? Essa é nova.
– Rebekah é filha de Joffrey. Odiaria matar duas filhas de um cara que me foi útil por muitos anos. É ingrato. Deus castiga quem maltrata seus benfeitores.
– E desde quando você se importa com Joffrey ou acredita em Deus?
– É claro que eu acredito, querida Fleur. Devemos temê-lo. De qualquer forma, o apoio de Joffrey é crucial. Ele e Ivna agora comandam a Rússia.
– E qual é a sua proposta?
– Rebekah está tomada pela sede de poder. Não tem como reinar. Está louca. Quando o povo ver que há outra possibilidade de rei, um homem com aparência serena e uma esposa bonita, e que é princesa de uma nação que eles estão em guerra, verão uma chance de mudança, prosperidade, acordos de paz e todas as outras coisas que esses pobres ridículos se importam.
– Você quer que Rebekah seja deposta.
– Claro que não. Quero que o povo a apedreje por nós.
Melanie olha de relance para Josh.
– Temos que avisar Ivna — ela diz. — Ela nos ajudou em momentos de necessidade. Não podemos deixar sua única filha morrer sem ter feito nada.
Ele concorda.
– Vamos chamá-la mais tarde pelo comunicador.
– Bom, pelo menos não ser Regente de Hahle veio a calhar — Fleur continua. — Não posso me prender aqui. E agora tem essa vadia do meu irmão rondando meu palácio... — ela suspira. — Quando que eu e Andrew partimos?
– Imediatamente.
– Mas Alek não chegou.
– E nem chegará — ele sorri macabramente. — Rebekah mandou executar o próprio marido.
Fleur respira fundo. Não aguentaria ver aquilo.
– Mas eu...
– Veja só como as coisas são. Se o Duninghan mais velho fosse o herdeiro, você não poderia amarrá-lo, não é mesmo? Seria incesto.
Melanie olha de lampejo para Josh, que está tão confuso quanto ela.
– O destino se encarrega da minha sorte — Fleur responde. — Andrew está apaixonado. Foi fácil depois que aquela selvagem vagabunda quebrou o coração dele.
– Não é possível... — Josh susssurra.
– Melanie está perdida por enquanto. O garoto botou o seu topete de herói e veio resgatá-la do castelo do cara mau. De qualquer forma, nós temos assuntos inacabados. O destino irá nos reunir.
– É mesmo? — Fleur debocha.
– Eu e Melanie estamos ligador por uma força divina maior. Ela voltará para mim.
Josh toca o ombro de Melanie, que treme de nervoso.
– Ele é um lunático — ela sussurra. — Um lunático completamente obsessivo. Um sociopata.
Ela vira-se para o namorado.
– Ele não vai parar enquanto não me matar.
– Não — Josh a puxa para um abraço. — Eu não vou deixar isso acontecer. Prometo.
Ela olha de relance para ele.
– Quantas vezes eu já lhe disse para não prometer coisas que não pode cumprir? A morte é irreversível e incontrolável. Uma força da natureza completamente indomável pelos mortais, que devasta por onde anda com o seu manto de escuridão.
– É bom saber que você andou lendo os livros que eu recomendei — ele sorri, tentando mudar de assunto. — Porém essas palavras soam sombrias nos seus lábios.
Melanie não consegue sorrir de volta ou ignorar as próximas palavras de Fleur e Vincent.
– Ela já fugiu tantas vezes, Vincent. Ela sempre dá um jeito. Por que agora seria diferente?
– Não será, mas ela vai aprender que fugir de mim não adiantará. Nós estamos ligados.
– E o que você fará se Melanie tentar romper essa "ligação"? — ela faz aspas com os dedos.
– Oras, não é óbvio? — ele sorri. — Eu irei matá-la e todos aqueles que algum dia ela amou.
+++
Rebekah está observando pelo monitor Alek gritar em sua cela e socar as grades de ferro quando um barulho atinge seus ouvidos e faz o solo tremer. Ela cai no chão e o monitor desprega da parede e se parte em dois.
– Maldição! — ela rosna.
Os seguranças entram correndo no escritório e a ajudam a levantar.
– Que diabos foi isso? — ela balbucia. — Matem os responsáveis.
– Provavelmente um terremoto, Majestade.
– Terremoto? Pelo amor de Deus. Estamos no centro de uma placa tectônica. Não há terremotos em Frömming.
Ela vira-se furiosa para eles.
– Isso está com cara de bomba, invasão — ela suspira e joga as mãos para os céus. — Descubram quem foi e me tragam sua cabeça. Quero empalá-la e deixá-la ao lado da de Alek.
Ela olha para os seguranças.
– Falando nisso, a execução dele deve ser adiantada para amanhã. Nada pode dar errado.
+++
Eu não sou Jesus, eu não sei curar pessoas, Carrick diz a si mesmo. Não vai dar certo. Não vai dar certo. Não vai d...
Jocelyn sai do centro cirúrgico.
– Está tudo certo. Os tecidos demorarão para se regenerar. Diria para esperarmos alguns dias, mas...
– Não temos tempo — ele concorda. — Raspe o estoque de Kalxifor.
Enquanto isso, ele prepara a injeção. Um anestesiante para que quando Katerina voltasse, ela não sentisse tanta dor. Ele pede para ligarem os aparelhos respiratórios e liga várias coisas em suas veias, para medir sua frequência cardíaca quando voltar.
Ele olha para a equipe.
– Tudo o que acontecer aqui deve ser mantido aqui. A Alta Cúpula me deu autonomia para eliminar quem quer que espalhe os segredos aqui revelados para quem quer que seja — ele olha para seu time. — Todos assinaram um contrato e sabem que suas memórias serão apagadas depois da cirurgia. Ninguém, nem mesmo vocês, podem saber disso. Todos estão de acordo. Não há como voltar atrás.
Ele dá um peteleco na segunda injeção. Gotas do líquido azulado começam a vazar da agulha e ele a pressiona contra a barriga de Katerina, perto dos pontos.
– A droga ressuscitante foi aplicada — ele diz. — Demorará de três a oito minutos para fazer efeito. Estejam preparados para quando ela acordar.
Deus, ele pede. Não me deixe falhar. Tenho consciência dos meus atos e do que isso poderá causar em Katerina. A loucura absoluta, demência, os remédios psiquiátricos que a acompanharão para o resto da vida, os delírios e dores constantes... graves consequências, eu sei. Estou apar de todas elas.
– As pessoas precisam de uma rainha. Me ajude a trazer Katerina de volta.
+++
Francis ainda está na sala de espera, como se tudo fosse mudar de repente. Katerina não ia voltar à vida, ele sabia que não havia como, mas gostaria que houvesse.
Sentado no chão, encostado na parede, com os cabelos bagunçados e a cara cheia de olheiras, ele se sente um lixo. Ele não sabia para onde ir, mas sabia que não voltaria para o alojamento de jeito nenhum.
Ele tem vontade de rir, mas o riso sai esganiçado, como um choro preso. Decidiu que ficar naquela fossa já era o bastante, não precisava continuar a chorar.
Acontece que lembranças passam pela sua cabeça. Quando viu a foto de Katerina pela primeira vez, seu pai contando a ele seu plano de infiltrá-lo em Frömming, o ataque que veio a calhar, ele como guarda-costas. Quando eles se conheceram, a forma como ela odiou-o primeiro e como ele se sentiu culpado ao vê-la sangrar diante dele. O seu sofrimento visível. Naquele momento, ele sabia que se importava. As várias vezes que a provocou passam diante dos seus olhos como um filme, até que ele a beijou.
Ela havia atirado em um homem que tentou feri-lo. Ela havia matado um selvagem por ele e então ele simplesmente a beijou. Ele não se lembra de ter sentido lábios tão doce durante toda a sua vida. A forma como ela o rejeitou durante meses só o fizeram ficar ainda mais fascinado. Nunca, durante toda a sua vida, uma mulher havia esperado meses para dormir com ele. Essa diferença de personalidade, o jeito arisco, porém sensível e generoso de Katerina havia o cativado. Ela havia compartilhado sua história com ele e ele havia traído sua confiança.
Meses separados. Depois de tanto tempo, ela havia o perdoado. Ela havia confiado nele e se entregado novamente e mais uma vez, ele traiu a sua confiança, não deixando claro para Heather que eles não poderiam ter mais nada. Ele foi estúpido. Não quis magoar uma desconhecida e acabou magoando o amor da sua vida.
E agora ela estava morta.
Katerina morreu o odiando e ele nunca se perdoaria por isso. Nunca dormiria em paz, nem sequer por um instante, sabendo que ela o odiou até o seu último instante e ele sabia, que não importa se ele durasse dias, meses ou anos, também se odiaria até o seu último minuto por isso. Por tê-la magoado de tantas formas, tantas vezes...
E então havia a deixado morrer.
Heather havia a envenenado no dia do seu aniversário, um dia que deveria ser especial para Katerina, para os dois, já que eles haviam se reconciliado no dia anterior, mas não. Ele foi um babaca.
Pensar que a mulher da sua vida havia morrido por sua causa o fazia ter vontade de sumir.
Sim, ele a ama. Ele sabia que nunca havia dito aquelas palavras de forma vazia, mas quando se perde alguém que se ama, tudo parece tão mais real, mas não pode ser. Não é.
Ele queria se jogar em uma cama e nunca mais acordar.
Então Heather aparece. Francis pensa em como foi otário de acreditar que ela só queria ficar longe do pai e que eles encontrariam uma cura para Katerina em troca do asilo dela em Altulle. Tudo deu errado por causa dele.
Não. Por causa dela. Se não fosse por Heather, Katerina não estaria morta.
A raiva o invade e ele corre até ela. Suas mãos se fecham facilmente contra o pescoço pálido dela e dão impulso para ele jogá-la na parede quando o ar já lhe falta.
– O que aconteceu? — ela pergunta enquanto massageia seu pescoço.
– O que aconteceu? — ele repete, com a ira escorrendo dos seus lábios. — O que aconteceu foi que Katerina está morta e você está viva. Esse erro do Universo, de Deus... eu não sei, mas eu sei que você causou isso.
Heather tenta esconder o sorriso, mas Francis percebe. Não é mais necessário ela fingir. Ele sabe de tudo e está para vingar a ruiva.
– Eu? — ela pergunta com deboche. — Eu seria incapaz de fazer algo assim com uma rainha.
Seu sorriso só aumenta.
– Uma rainha não, não é mesmo? Uma ladra. A Usurpadora.
Heather não merece nada além do seu desprezo e do seu ódio e nesse momento, Francis está cheio dele.
– Eu vou matar você — ele rosna, a atacando novamente. Dessa vez ela está preparada e recua, dando um chute nas canelas dele. O erro de Heather é ter cabelo grande, porque ele o puxa e bate a cabeça da morena com força contra a parede.
– Você a matou e irá pagar por isso, sua desgraçada — ele diz com um asco incomum, pressionando a barriga dela contra a parede e sussurrando ameaçadoramente no seu ouvido. — Eu vou te entregar para Valentina e vou pedir para torturá-la. Quero arrancar unha por unha e dente por dente seu. Quero envenená-la e ter o prazer de vê-la definhar, apodrecer em vida. Quero vê-la acorrentada e com a execução marcada. Quero celebrá-la para o dia do aniversário de Katerina, em forma de honra e glória. Quero que você delire com o seu maldito e abusivo pai e com a sua omissa mãe. Quero que seus irmãos riam quando você estiver caminhando pelas calçadas de pedra até a morte e quero ser o cara que irá descer o machado no seu pescoço. Quero empalar sua cabeça assustada e guardar na minha sala de estar para olhá-la a cada dia, a cada instante e lembrar que eu tive o prazer de matá-la. Quero ser o maníaco que irá rir quando os corvos comerem seus restos mortais — Francis sorri morbidamente. — Eu quero te matar e quero que você renasça, para que eu possa matá-la de novo e de novo e de novo.
– Quem mata aqui sou eu — Heather fala, se soltando das mãos dele e vira-se para debochar. — Eu matei Katerina — ela cantarola. — Sim, eu a matei.
– Eu acho que você está enganada — uma voz suave e incrivelmente macia soa.
Não, Francis diz a si mesmo. Impossível. Completamente impensável e impossível.
Ele se vira. Atrás dele, está ela. Com seus cachos cor de fogo queimando como nunca, sua camisola branca completamente tomada pelo sangue, já seco. O furo no centro do seu estômago, onde a faca foi enterrada mais cedo.
Ele só podia estar alucinando.
– Isso só pode ser uma brincadeira de mau gosto — a morena rosna.
– Ah, cala a boca — a ruiva sussurra e levanta a arma que estava sem suas mãos. Sem nem mirar, ela atira, acertando o estômago de Heather.
Não sai sangue da morena, mas ela cai imediatamente e não se mexe mais.
– Paralisantes — ela levanta a arma e depois a joga no chão.
– Você... você estava morta.
– Espero que você não esteja chateado com o contrário.
Francis não segura a risada e não contém as lágrimas. Ele corre até ela e a abraça com força. Ele sente que pode ficar daquele jeito por anos e não se importaria.
– Quando me contaram que você havia morrido, eu enlouqueci completamente.
O polegar de Katerina limpa as lágrimas dele.
– Carrick me curou — ela conta. — Depois que me trouxe de volta, ele usou A Cura.
Francis sorri.
– Eu tenho que agradecê-lo por trazê-la de volta para mim.
Ela sorri, ficando na ponta dos pés. Os dedos de Francis se enrolam ao redor da sua cintura. Como ele sentiu falta daqueles lábios doces.
– Você pode fazer isso mais tarde.
+++
– Katerina será nossa arma secreta — Valentina diz. — Apenas nós podemos saber.
– Heather está na prisão — Francis diz. — As imagens foram apagadas. Ninguém descobrirá.
– E como será com Joffrey? — Carrick pergunta. — Ele ameaçou bombardear o esconderijo.
– Estamos preparados — Valentina fala. — Ninguém além de nós pode saber. Está decidido.
– Eu gostaria de contar a ele — Katerina se manifesta.
– Na hora certa, querida — Jocelyn fala com serenidade.
– Vocês não estão entendendo... — ela retorna a falar. — Ele pode não se importar com o povo, mas ele se importa comigo. Joffrey é meu pai — sua voz sai meio embargada. — Ele merece saber.
– Katerina, se você insistir muito, teremos que trancá-la em seu alojamento por motivos de segurança interna — Valentina tenta manter a voz estável. — Joffrey é seu pai, sim, mas ele é aliado de Vincent. Não podemos nos dar ao luxo de vazar essa informação.
– A memória dos médicos foi alterada exatamente por isso — Carrick intervem. — Pode ter mais um espião além de Heather entre nós.
– Exato. E por que esse espião não seria você?
– Eu a trouxe do mundo dos mortos para o dos vivos. Por que eu faria isso se fosse um espião?
– Para conquistar confiança.
Carrick se zanga.
– Você é uma garota bem da ingrata. Deveria me agradecer dia e noite pelo que eu fiz. Eu arrisquei minha carreira como médico, a sanidade dos meus colegas e até o meu pescoço, mudando o resultado do plano de quem sabe-se lá que seja o benfeitor de Heather. É isso que eu recebo em troca? Desconfiança?
– Desculpe — ela parece sincera. — Eu não... eu estou com essa sensação de perseguição e ele não desaparece. É como se alguém fosse me matar a qualquer momento.
Ele respira fundo.
– É a consequência de se estar viva novamente.
Jocelyn e Valentina o olham de soslaio. Carrick confirma com a cabeça.
Os sintomas começaram.
+++
Heron sorri para a loira. Quando ele soube que sua irmã estava reinando em Hahle, viu que não tinha como escapar do seu destino. Fleur afundaria seu país e ele não podia deixar isso acontecer. Por esse motivo retornou o mais rápido possível e convidou Anne Dummer para ir com ele.
Enquanto tomavam café da tarde em um dos jardins gélidos do Palácio Hallaya, Anne lhe contou sobre a sua vida em Frömming.
– Eu era uma das aias pessoais da rainha Katerina — ela diz. — Acontece que, bom... ela desapareceu. Então eu pedi para ir para um setor onde fosse útil. Como aconteceu o ataque no casamento da rainha Rebekah, decidiram me colocar na enfermaria. Eu nasci no Palácio Archiberz e antes de mim, minha mãe. Eu servi àquela família por anos a fio... acho que mereço umas férias.
Heron sorri. A forma como Anne é culta, como o som das palavras sai dos seus lábios em um tom harmonioso e cativante que o encanta, o jeito como ela age, como se soubesse a função de cada talher e que bebida deve ser servida em cada taça, a forma como caminha, com uma graciosidade extrema, a mania de sorrir não só com os grandes lábios sempre pintados de vermelho, mas também com os grandes olhos esverdeados... o seu rosto é tão sereno que é como se ela tivesse nascido para ser da nobreza.
– Eu perdi minha esposa no ataque do casamento de Alek e Rebekah — ele conta — e Katerina matou o meu pai a sangue frio. Ela diz que ele matou Erik, mas não há provas, apenas a palavra desses rebeldes selvagens do norte. Uma rainha matou o pai de outro rei porque acha que ele matou seu marido...
Ele se lembra de sua esposa. Giuliana Bortolini. Única herdeira da Itália, infértil, porém linda como uma boneca de porcelana. Os cabelos loiros tão claros que chegavam a ser brancos e os olhos de um azul tão profundo e claro que se confundia com lilás meio cinzento.
– Eu convivi com eles — Anne faz uma ligeira careta. — Não possuem classe alguma. Até sua nobreza é precária. Mexem com armas e lutam diretamente contra pessoas, atacam qualquer um que considerem uma ameaça... são totalmente brutais.
– Eu imagino que você deve ter muitas histórias, Lady Anne.
Ela sorri.
– Por favor, já passamos há muito dessas formalidades.
Depois do café, Heron a convida para caminhar pelo jardim. Ele estende o braço e oferece a ela, que aceita.
Enquanto caminha pelos arbustos, as grandes árvores antigas e sagradas, as esculturas já um tanto corroídas pela chuva ácida e as gramíneas tocando seus pés, Heron pensa em dizer a verdade a Anne.
Está na hora.
Ele para diante de uma árvore com uma grande raiz que se estende por grane parte do bosque.
– Minha mãe trazia a mim e a minha irmã aqui quando éramos pequenos — ele conta. — No país dela, um bem distante daqui, eles eram politeístas. Ela me contou que quando veio para cá, se sentia muito só. Um país com costumes que desprezavam os dela... quando encontrou esse bosque, se sentiu aliviada. Ela me dizia que quando o Deus do meu pai não me atendesse, eu poderia rezar para os deuses antigos dela que eles viriam ao meu chamado.
Anne toca a árvore com a ponta dos dedos.
– Há um rosto aqui ou foi talhado?
– Minha mãe diz que é uma prova de que os deuses estão nos observando o tempo todo.
Anne sorri.
– Florence é admirável. Mesmo estando em outro país, não abandonou a sua cultura.
Heron pigarreia de leve.
– A questão é que quando eu estava em coma, não pensei em Deus e nem em deuses. Mal pensei na minha família e no meu reinado. Tudo estava parado, extremamente vazio... perdi o meu pai e a minha esposa em uma noite e lá estava eu, vegetando em uma cama... — ele se solta do braço dela e segura suas mãos com cuidado. — Até que você apareceu.
Heron sabe que não há como voltar atrás. Ele começou a dizer e precisava terminar. Ele já casou por interesse, estava na hora de correr atrás do amor.
– Eu focava na sua voz dia e noite, imaginando como você seria. Eu ouvia cada palavra sua, cada lamento sobre as mortes e sua alegria quando conseguia salvar a vida de alguém. Ouvi cada novidade durante esses meses e eu comecei a ficar curioso — ele a olha nos olhos e vê que lágrimas se acumulam nas suas grandes esmeraldas. — Você foi a minha razão para voltar à vida e eu nem a conhecia.
Ele sorri.
– Então eu a conheci. Eu nunca imaginei que a mulher que falava comigo pudesse ser tão incrível, bondosa e ter uma beleza tão avassaladora... — ele enlaça seus dedos nos dela. Quando vê que ela retribui o toque, a puxa aos poucos pela cintura para ele. — Você não me deixou alternativa, Anne. Você me devastou completamente e eu sabia de uma coisa: me arrependeria a vida inteira se não tentasse.
– Heron...
Ele pressiona o dedo indicador nos lábios carnudos dela.
– Se você disser que sim, nós teremos que enfrentar muita gente, mas eu não ligo de fazer o que quer que seja para te defender — os olhos de Anne se fecham conforme o polegar dele passeia pelos seus grandes lábios. Uma lágrima escorre dos seus olhos verdes e um sorriso floresce. — Você foi a luz em meio a minha escuridão, Anne. Eu adoraria que você continuasse iluminando o meu caminho por um bom tempo.
Ela abre os olhos e o vê ali, com seus olhos esverdeados brilhando para ela, completamente apaixonado e entrega ao amor. Ela sentia algo de diferente por ele desde o momento em que o viu na enfermaria, em coma. Anne nunca imaginaria que sequer houvesse a chance da paixão para ela, mas aquilo era completamente diferente... ela sentia, pela primeira vez na sua vida, que podia ser amor. Ela não sabia o que era tal sentimento, mas se pudesse descrevê-lo, diria que ele é exatamente o que ela está sentindo agora.
Anne concorda com a cabeça e fica na ponta dos pés para poder alcançar Heron. E, assim, ele a beija.
+++
Anne enrola o lençol branco ao redor do corpo e sai da cama, antes disso depositando um beijo em um adormecido Heron. Ela caminha até o monitor que fica na sala ao lado e chama por Joffrey.
– Oh, querida — ele sorri. — Estava na hora. Preciso de boas notícias, porque o meu dia está péssimo.
– O que aconteceu?
– Nada que eu queira compartilhar.
Pela primeira vez em dez anos, Anne vê uma sombra de tristeza no olhar de Joffrey e... olheiras? Nariz vermelho? Ele...
Não é possível.
Suas suspeitas se confirmam quando ele funga.
Joffrey Archiberz andou chorando.
Chorando...
Ela prefere não dizer nada. Apenas respira fundo para soltar a bomba.
– Eu não posso mais ser a sua espiã.
– Como é?
– Heron não merece isso. Ele é bom comigo. Não posso mais te passar informações.
– Então é assim? O primeiro cara que aparece te elogia e você já vai abrindo as pernas?
– Heron me ama, ao contrário de você que desde o princípio me usou. Arranquei informações de Katerina, de Ivna, Rebekah e agora de Heron. Eu estou cansada de ser manipulada por você, Joffrey.
– Anne, não se atreva...
– Arranje outra pessoa para bancar a idiota pra você.
E assim ela cortou a ligação.
+++
Hana se assusta ao chegar ao Salão de Pedra e ver Michael ali, sentado em uma das cadeiras de veludo bordô, próxima ao trono avermelhado.
– O que aconteceu para você estar aqui?
– Eu preciso da sua ajuda. Eu não tenho mais para quem recorrer...
– Leona?
– Ela está ocupada demais cuidando desse país, não quero preocupá-la com isso. Disse que faria uma visita ao meu sobrinho e eu preciso que você me dê cobertura por algumas semanas caso ela venha atrás de mim.
– Tudo bem, mas... para onde você vai?
– Para o norte de Frömming.
Hana quase se desequilibra do salto.
– Você enlouqueceu? A Praga infestou o norte...
– Eu tenho a vacina — Michael parece relaxado por um instante, mas Hana percebe o nervosismo tentando transparecer. — Não se preocupe. Eu volto daqui umas duas semanas.
– E por que você decidiu ir para o norte agora? — ela pergunta. — Você sabe que Katerina é inalcançável nesse momento.
Ele balança a cabeça.
– Eu não estou atrás de Katerina. Eu quero impedir o Senhor de Meurer de dizimar o nosso povo.
– Como é? Michael, ele é sombrio e um mentiroso. Um sociopata sem remorso algum... ele não hesitaria em te matar.
– Pode ter certeza que ele não irá fazer nada contra o único e verdadeiro herdeiro dele.
– Me desculpe, mas... o quê?
– Eu sou o único filho biológico de Vincent. O que quer dizer que, por mais que eu seja obra de uma aventura fora do casamento, ele não tem ninguém além de mim — ele sorri de leve. — Eu posso acabar com a guerra antes mesmo dela ter começado.
Hana balança a cabeça.
– Isso vai muito além do norte. Hahle começou a bombardear Frömming e bem sabemos que Rebekah não é nada estável.
– Minha mãe está cuidando do futuro de Rebekah. Está na hora de eu fazer algo por mim.
+++
Melanie desperta quando Fleur chama Vincent para conversar.
– Nossa espiã foi pega — Fleur diz. — O nosso outro espião avisou que ela está na prisão subterrânea do esconderijo dos Apátridas.
Melanie chama Josh, que chega até ela rapidamente.
– Quer dizer que caímos?
– Quase. Heather Duninghan conseguiu me avisar minutos antes de ser presa que Katerina está morta.
Heather Duninghan...
Josh sente que seu mundo simplesmente desmoronou. Aos poucos, em câmera lenta. É como se uma parde de tijolos tivesse sido construído na sua frente e ele começou a ser destruído aos poucos e de repente uma marretada o desmantelou por completo.
Sua irmã... não, não podia ser.
Melanie toca o ombro dele, também chocada.
– Josh, fale comigo.
– Heather, ela... — ele não sabe o que dizer. Ele simplesmente olha para a namorada, que o abraça. — Eu... eu quero falar com ela.
– J, não acho que seja um bom momento...
– Você não está entendendo — ele está decidido. — Pelas últimas conversas que ouvimos de Fleur e Vincent, eles tem muito mais segredos do que todos nós podemos imaginar. Se eles encarregaram essa espionagem — ele engole em seco — a Heather, significa que eles confiam nela.
Ele se levanta.
– Se alguém pode me revelar todas as verdades, esse alguém é a minha irmãzinha traidora.
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