—-- Por favor, não me mata! --- Flowey implorava desesperado. Era absolutamente patético para Frisk ver como ele chorava, quase sentiu pena da pequena flor. A menina também estranhava que ele sabia do efeito que o LOVE tinha, e mesmo assim alimentava esperanças de que ela sentisse alguma piedade.

Pensando nisso, teve uma ideia, isso seria muito mais divertido do que matá-lo rápido --- Bem... --- diz cantarolando e se aproximando da pequena flor, que só se encolhia cada vez mais. A garota estica sua mão e segura o caule da planta, cortando a base com a faca vermelha como seus olhos que havia pego no castelo --- Pode começar a torcer, pois isso vai depender da sua sorte.

A careta de Flowey era indescritível, ainda mais a dor que sentia e o desespero quando uma das mãos levemente morenas segurou uma pétala e arrancou. Isso se repetiu, de novo e de novo, com Frisk murmurando baixo "poupo" e "não poupo" alternando a cada pétala que caia. Faltava apenas mais uma pétala quando ela disse --- ... não poupo. Bom, parece que não foi dessa vez, amiguinho.

E furou o centro da face redonda da flor com a ponta da faca, girando até sobrar apenas pedaços. Por algum motivo ele não virava poeira como os outros monstros, então ela precisava cortá-lo diversas vezes para que morresse, o que, sinceramente, era mais gratificante.

Enquanto pensava a barreira se quebrava, uma cena nova e muito bela, porém não se importou muito com isso, por algum motivo ela sentia que precisava ficar, nem que fossem apenas alguns minutos, com a fria e solitária escuridão que o lugar se tornava. Sentiu uma pontada nas costas, uma coisa que acontecia sempre, não conseguia entender por quê, mas parecia que haviam seres se movendo por seu corpo querendo escapar, e eles sempre escolhiam este ponto.

Antes que pudesse reclamar, dois botões contornados por linhas amarelas maiores que suas mãos apareceram à sua frente, um dizendo "continuar" e o outro "resetar".Sorriu, uma curiosidade infantil e quase inocente brilhando em seus olhos, continuar deixava claro sua função, mas e resetar? Nunca havia sequer ouvido essa palavra em toda a sua vida. Clicou em resetar, esperando que algo acontecesse, mas nada, continuou no escuro.

Não sabia exatamente o que esperava, mas não era isso, tentou fazer os botões aparecerem de novo, mas não resultou em nada.

—-- Saudações. --- uma voz se aproximou, ela causava arrepios em Frisk, além de ser estranhamente familiar, mas não devia ser possível, não devia ter mais ninguém em lugar algum! Ela tinha certeza de que vasculhou todo e qualquer canto do subsolo até que ninguém viesse, então como? Apertou o cabo da faca que segurava, pronta para um ataque --- Ah, não precisa ficar na ofensiva, eu sei todos os seus movimentos... --- o tom era calmo, mas ameaçador, e isso foi suficiente para a menina permanecer em alerta.

Ela se virou, dando de cara com uma outra garota praticamente idêntica a si, exceto pelo tom do cabelo e da pele que eram mais claros, suas bochechas mais rosadas, por sua camiseta que era verde com uma grande listra amarela e seus olhos, que eram castanhos --- Quem é você? --- Frisk perguntou, apesar do medo, sua voz soou firme --- Como está aqui?

—-- Ah, que falta de modos a minha --- a outra diz rindo --- , eu sou Chara, e eu não só estou aqui, eu sempre estive aqui, ou melhor, eu sempre estive com você!

—-- Como assim? --- dizia empunhando a faca, a voz encoberta por uma mistura de confusão, medo e até certa raiva --- Diga antes que-

—-- Antes que o que? --- em compensação, a voz de Chara era puro deboche --- Esse corpo não é real, é apenas uma ilusão. Eu divido o seu com você, se me machucar estará se machucando, e vice-versa.

—-- Não me interessa, aposto que ainda pode sentir a dor, e isso já é o bastante. Agora me explique o que está acontecendo, por que você está aqui se nunca te vi antes, para começar?! --- ela caminha até a Chara e segura a gola de sua blusa, a faca a centímetros de seu rosto.

—-- Uou, espera, por que violência? --- Chara solta uma risada nervosa --- Para começar, estamos em uma fenda, você não resetou por causa da quebra nas linhas do tempo, e segundo, --- ela deu uma pausa antes de dizer --- essa eu também não sei.

—-- E você acha que eu entendi alguma coisa do que você disse? Explica isso direito! --- Frisk quase grita antes que uma luz branca e ofuscante a cegasse.

******

Não sentia nada, era como se seu corpo estivesse flutuando no ar. Aquilo era curioso, achou melhor se levantar e ver onde, de fato, estava. O seu quarto, era isso que via, e ela estava no chão. Sua cabeça doía e seus olhos ardiam e lacrimejavam por conta daquela luz, lembrou imediatamente de Chara, olhando para os lados procurando onde ela poderia estar, até que notou um montinho na cama que subia e descia.

Se aproximou devagar, não conseguindo ter tempo de sequer tocá-lo antes que as cobertas voassem, revelando que o montinho era a menina que Frisk procurava. Ela estava assustada e ofegante, como se não respirasse a muito tempo.

—-- Nossa... --- Chara diz aliviada depois que estabiliza a respiração ---Eu tinha esquecido como é bom respirar...

—-- Que?... Tá, mas o que aconteceu?! Você ainda não me respondeu nada!

—-- Calma, você já se divertiu demais, agora é minha vez. --- Chara corre até o corredor e desce as escadas escorregando pelo corrimão. Ela tomou impulso e pulou na ponta, mas antes que chegasse ao chão um garoto alto com um chapéu enorme na cabeça a pega e a pousa de forma protetora. Ele lembrou muito Leah para Frisk, e um peso se instalou em seus ombros, as imagens dele morrendo no meio da batalha contra a caveira, primeiro acertado por uma flecha sua e depois por um dos canhões em forma de crânio.

—-- Cuidado, quantas vezes tenho que te dizer que vai se machucar? --- ele pergunta, as mãos na cintura mas um sorriso no rosto.

—-- Mas é tão divertido! --- Chara abre os braços como se pedisse um colo, o que ficou estranho já que seu tamanho era de alguém com 10 anos. Contudo o rapaz a pega, parecia gostar desse gesto. Ele passa por Frisk como se ela fosse invisível.

—-- Ei! --- ela fala indignada por ser ignorada, e ele parecia não ouvir --- Ei! O que está acontecendo?

Chara responde apenas mexendo os lábios, formando um "espere". Tudo estava muito confuso para Frisk, mas ela parecia saber exatamente o que estava ocorrendo. Alguém bate na porta e o garoto deixa a pequena no chão para ir atender.

—-- Quem é ele? ---Frisk pergunta agora que a outra poderia conversar com ela sem que quem ouvisse pensasse que tinha enlouquecido.

—-- É a última criança que caiu antes de você, só que está muito maior.

—-- Tá, e o que a gente está fazendo no tempo dele? Aliás, como você sabe quem é ele?

—-- Sou muito mais velha do que você pensa, e lembra que eu te falei da quebra nas linhas de tempo? É mais ou menos isso, parece que ele trocou de lugar com o Leah, e eu com você.

—-- O quão velha você é exatamente? E como sabe de tanta coisa?

—-- Tudo há seu tempo, Frisk.

—-- Chara, visita pra você! --- o garoto grita da porta.

—-- Quem será? --- Chara comenta com Frisk.

—-- Olá humana! --- era o mesmo esqueleto que matou na ponte enevoada, Frisk nem ao menos sabia o nome dele, apenas o tinha atacado.

—-- Oi Papyrus! Entra. --- Chara abre espaço para ele passar pela porta.

—-- Eu trouxe espaguete, e uma novidade! --- ele diz quase gritando, aparentemente não tinha controle no tom de sua voz.

—-- Sério?! E qual é?

—--Você deve se lembrar que eu estava treinando para a Guarda Real, não é mesmo?

—-- Certamente que sim! --- Chara diz em um tom animado, rindo um pouco no final.

—-- Bem, --- Papyrus diz esticando a palavra --- eu finalmente consegui, a partir de amanhã de manhã eu serei oficialmente um membro da Guarda Real!

O esqueleto parecia bastante animado, todavia a expressão da menina com quem conversava era de medo e tensão.

—-- Que bom!

Foi tudo que conseguiu dizer.

******

—-- O que aconteceu? --- Frisk pergunta impaciente, já tinha esperado demais.

—-- Fiz um juramento que não devia, e agora ele é a única forma de consertar seu erro. --- Chara resmunga baixo, frustração e contra-gosto definindo muito bem seu estado --- Vai ter que se acostumar, precisamos fazer uma rota Pacifista.