Undertale - True Reset
24 Lembranças Parte 6 – Cinzas
Notas iniciais
Sans nos conduziu para frente, chegando lá ele disse:
— Rápido, atrás daquela lâmpada convenientemente modelada. — Chara não se moveu, ficou lá olhando para a direção de onde viria Papyrus. — Oh, okay, acho que você não quer ir.
Sans parecia desconfiado de alguma coisa, eu esperava de todo o coração que ele se lembrasse do que aconteceu na outra timeline, que ele percebesse que não era eu, mas se nenhum monstro lembrou de mim, aposto que ele também não lembraria, minha sorte seria se ele percebesse que algo estava muito errado e me impedisse, impedisse Chara.
Papyrus chegou, barulhento e escandaloso como sempre, não pude deixar de sorrir ao revê-lo.
— Sans! Você conseguiu capturar um humano?
— Sim. — Sans respondeu.
— Sério? Então acho que está resolvido.
Papyrus se virou e foi embora, isso foi muito estranho, não foi nada como eu me lembrava, as ações da Chara estavam indo todas contra as minhas lembranças, eu me sentia perdida nesse mundo novo.
Depois de Papyrus foi embora, nos deixando sozinhas com Sans, ele nos olhava, como se estivesse procurando algo.
— Bem, acho que deu certo. — Chara não se moveu, ficou encarando Sans, eu senti o desejo dela de matá-lo crescer. — Você vai ficar só aí me encarando ou vai dizer algo? — Ele definitivamente parecia incomodado com o jeito que Chara agia.
“Hum... acho que vou gostar de te matar por último.”
“Chara... por favor não...”
Chara saiu andando, mas antes que saíssemos da vista de Sans ele nos interrompeu dizendo:
— Bem, estarei logo mais à frente... e meu irmão realmente gostaria de ver um humano, então me ajudaria muito que você continuasse fingindo ser um.
O que? Sans estava dizendo que eu não era humana? O que será que ele percebeu.
“Esse comediante... tão perceptivo... tão cruel com as palavras... entendo o porquê você se apaixonou por ele.”
“Eu não me apaixonei por ele por ele ser cruel, talvez por ser perceptível, mas ele sempre foi divertido, gentil e muito atencioso comigo, ele realmente se preocupava comigo.”
“Agora ele não aprece mais se preocupar, acho que ele não lembra de você... tadinha... deve doer ser a única que lembra de tudo o que aconteceu.”
Apesar dela dizer o que estava dizendo para me atingir, eu tinha que admitir que ela dizia a verdade.
Seguimos adiante, Sans sabia que algo estava errado, Chara não tentou nenhum dos quebra-cabeças de Papyrus, Sans tentava incentivá-la a participar, mas ela não lhe dirigia a palavra. Alguns quebra-cabeças estavam estranhamente resolvidos, antes mesmo de chegarmos e os que não estavam resolvidos, Chara simplesmente os ignorava.
“Pelo menos pra isso aquele verme serve.”
Eu não entendia o que ela queria dizer com isso, mas de certa forma isso me deixava triste, pois toda vez que Papyrus via Chara ignorar um de seus quebra-cabeças, eu via a decepção crescer em seu olhar, e isso partia o meu coração.
Chara fez o mesmo na floresta, assim como nas ruínas, eu meio que desisti de tentar impedí-la, eu era fraca, incapaz de retomar o controle do meu próprio corpo. Chara matava todos os monstros que encontrava e caçava os que tentavam fugir ou se esconder, a neve começou a ficar suja de cinzas, era horrível de se ver. Chara finalmente me deixou parar de ver tudo isso, eu me fechei em minha consciência, eu não queria mais ver ninguém morrer.
Não consegui ficar muito tempo sem ver o que ela estava fazendo, de certa forma eu queria que alguém a parasse, ou que ela tivesse alguma ação de misericórdia, mas eu me enganava a cada nova morte. Eu me sentia constantemente observada, e sabia que Chara estava ciente disso, o pensamento que veio em nossas mentes foi Sans, Chara queria mostrar para ele o quanto ela podia ser cruel, enquanto eu implorava para que se fosse ele, arrumasse um jeito de pará-la.
Cada nova morte eu sentia minha alma se manchando, ela estava perdendo a luz vermelha que tinha, ficando com machas negras, como raízes tomando conta dela, depois de um certo ponto, cada morte parecia me machucar também, eu ia me sentindo ficar mais fraca e mais fraca, eu sentia que quando ela chegasse em seu objetivo, eu estaria tão fraca que talvez deixasse de existir, eu não podia deixar isso acontecer, eu tentava me manter determinada a não desaparecer, e isso me fava um pouco de forças.
Ela matou todos que estavam na floresta, até o boneco de neve, pegando pedaços e mais pedaços dele, até não sobrar nada. Chegando na entrada de Snowdin fomos paradas novamente por Sans e Papyrus, mas ele não parecia mais empolgado em nos mostrar quebra-cabeças, alegando que passaríamos direto e não aproveitaríamos a diversão, aquilo me doeu mais do que todos os golpes que tomei até agora. Depois que ele foi embora Sans chegou perto de mim e falou:
— Pois é criança... você está seguindo por um caminho perigoso, prevejo que logo você enfrentará meu irmão, eu espero de todo coração que você não o machuque, pois vou te dar um conselho de amigo: — As luzes de seus olhos se apagaram deixando suas órbitas negras, um arrepio de medo passou por mim, Chara riu internamente, fazendo crescer sua vontade de mata-lo. — Se o machucar, você vai passar por uns maus bocados.
A ameaça de Sans era clara, mas eu esperava desesperadamente que ele fizesse algo, da mesma forma que Chara queria muito que ele a atacasse, pois ela realizaria seu desejo de destruí-lo, mas seu plano foi ficando mais sombrio, ela sabia que Sans tem nos seguido todo esse tempo, nos observado, ela o faria sofrer, vendo ela matar todos com os quais ele se importasse, mas como ela não sabia com quem ele se importava além de seu irmão, ela planejava matar tudo ao seu redor, até que ele viesse impedí-la.
Depois de sua ameaça confirmada, Sans desapareceu diante de nossos olhos.
“Esse comediante... é mais poderoso do que demonstra... ele é tão cruel com suas palavras... Será que ele vai intervir quando eu golpear seu querido irmão? Ou ele vai ser covarde de ficar só observando?”
“Eu espero que ele consiga te impedir.”
“Você sabe que se ele me atacar, você também sentirá a dor?”
“Eu não me importo, só não quero mais ver ninguém morrendo.”
Chegamos em Snowdin, a pequena e antes acolhedora cidade parecia deserta, Chara procurou em todas as casas, revirou tudo, pegou todo dinheiro que achou, suprimentos e roupas, ela revirou a loja da Bonnie, pegou todos os coelhinhos de canela que ela conseguiu, revirou tudo, a única casa que ela não conseguiu entrar de jeito nenhum, era a casa que eu me lembrava ser de Sans e Papyrus. Ela achava estranho que todo mundo tivesse fugido, como ela não deixou sobreviventes na floresta, ela acreditava que quem avisou e evacuou a cidade foi Sans e Papyrus. Eu fiquei feliz por eles estarem pelo menos conseguindo salvar algumas vidas.
“Aquele comediante...”
O ódio nos pensamentos de Chara só crescia.
Depois de revirar a cidade inteira, pegar tudo o que lhe interessava, Chara já queria deixar Snowdin, quando ela percebeu que eu estava inquieta.
“O que foi agora?”
“Será que poderíamos descansar? Estamos sujas, cansadas...”
“Bem, acho que podemos, afinal, eu não conseguiria tirar o melhor proveito deste corpo sem ele estar descansado, e acredito que aqueles esqueletos não nos deixarão sair fácil da cidade.”
Fomos para o Snowed Inn e entramos em qualquer quarto, Chara colocou a mochila perto da cama, e foi tomar um banho, agradeci mentalmente por ela pelo menos me dar esses pequenos prazeres de me sentir limpa, sem todas aquelas cinzas. Deitamos na cama, e logo nosso corpo adormeceu. Fiquei feliz que consegui adiar um pouco o confronto dela com os irmãos esqueleto, e eu ia tentar algo novamente amanhã, como eu teoricamente não conseguia dormir, só ficava vagando em minha mente, eu fiquei revivendo as boas memórias que eu tive com Sans, com Papyrus na outra timeline, Chara deve ter apagado, ou está em suas próprias memórias, as quais ela nunca me deixava chegar perto, mas o que importava era que ela tinha me deixado em paz, em paz com minhas memórias.
Acordamos no dia seguinte e sem nem esperar saímos enquanto ela comia um coelhinho de canela. Logo a frente vimos a neblina e eu sabia que ali provavelmente encontraríamos um dos irmãos, o que de fato ocorreu, encontramos Papyrus, mas ele não queria lutar, ele nos olhava com olhos gentis, e meu coração doeu quando eu via a esperança de que ficasse tudo bem em seus olhos. Paramos um pouco distante dele e ele nos disse:
— Parada humana! — Chara continuou andando. — Ei, pare de se mover enquanto eu estiver falando com você! Eu, o Grande Papyrus, tenho algumas coisas para dizer. — Chara deu mais um passo. — Primeiro, você é muito esquisita! Não só não gosta de quebra cabeças, mas da maneira que você vai de lugar para lugar... A maneira em que suas mãos sempre estão cobertas de cinzas. Sinto que sua vida está seguindo um caminho perigoso. Entretanto, eu, o Grande Papyrus, vejo grande potencial em você.
“Não, Papyrus, fuja!”
Eu gritava, mas tudo que saia de meus lábios era uma risadinha doente e distorcida, eu lutava para controlar o meu corpo, mas era inútil.
“Ainda não desistiu? Tolinha...”
Eu tentei me fechar para não ter que ver aquilo, mas Chara me obrigou a ver tudo, eu me sentia amarrada.
“Chara, por favor... por favor... não o mate, eu te imploro...”
“Ora, quer mostrar misericórdia para esse monstro? ”
“Chara... por favor... ele nem está querendo te atacar...”
“Pode ser uma estratégia do outro irmão, abaixar nossa guarda e nos derrotar.”
“Eles não seriam tão baixos assim, eles não atacariam pelas costas, já você... eu não duvido...”
“Que insulto! Eu nunca ataquei nenhum monstro pelas costas! Você até me ofende desta maneira, gosto de atacá-los pela frente, assim meu olhar será a última coisa que verão antes de morrerem.”
— Todo mundo pode ser uma boa pessoa, se tentar! E eu tento, eu tenho que tentar! — Chara deu mais um passo, a senti pegar a faca que estava em nossos shorts. — Já disse, pare de se mexer! É exatamente sobre isso que estou falando. Humana, eu acho que você precisa de orientação, alguém que te ensine a se manter no caminho certo, mas não se preocupe, eu, Papyrus... serei seu amigo e tutor. Eu transformarei a sua vida! — Eu chorava com aquele discurso, eu amava tanto o Papyrus, ele era um dos meus mais preciosos amigos, e agora ele era alvo dessa sanguinária. Eu assistia ela se aproximar cada vez mais, eu sentia o instinto assassino dela. Eu queria impedir, mas eu não tinha forças.
— Vejo que você continua se aproximando. Você está oferecendo um abraço de trégua? — “NÃO! PAPYRUS NÃO! NÃO CHEGUE PERTO DELA!” — Meus ensinamentos estão funcionando? — Eu a sentia sorrir, ele provavelmente estaria interpretando errado esse sorriso, ele era ingênuo demais. — Eu, Papyrus, te recebo de braços abertos!
“NÃO!”
Eu nunca lutei tanto para obter o controle de volta, não sei de onde tirei tantas forças, mas por um milésimo de segundo eu senti o controle dela escorregar, eu só tinha que tentar mais e mais. Continuei tentando enquanto ela avançava para ele, eu mal pude ver quando ela desferiu a facada, mas me senti derrotada.
“SIM!”
E com um só golpe, ela o acertou. Eu vi a decepção em seus olhos, eu chorava em ver sua vida terminar assim, eu queria fazer tudo diferente.
Vi sua cabeça sair de seu corpo de esqueleto, enquanto ele dizia:
— B-Bem, isso não era o que eu esperava... Mas... eu ainda acredito em você... Você pode ser melhor do que isso, mesmo que não ache. Eu... Eu prometo...
“PAPYRUS NÃO! PAPYRUS! ME PERDOA PAPYRUS... eu... eu não fui forte o suficiente para te salvar...”
Chara colocou o pé em cima do crânio de Papyrus pisando nele enquanto ele se tornava cinzas, eu nunca gritei e me debati tanto na vida. Nunca fui tão dominada pelo desespero.
Ela continuou em frente, sem olhar para trás, rindo o tempo todo de seus feitos, ela sabia que a morte de Papyrus atingiria Sans, e isso era o que ela queria, ela ria enquanto eu chorava e gritava, a dor da perda de Papyrus cortava a minha alma, a dor da perda me destruía e eu sentia como se todo o meu corpo doesse, não o meu corpo, mas o corpo que minha consciência tinha formado dentro da minha mente, esse doía, como nunca doeu antes, doía mais do que a morte.
[Sans]
Eu não saí do lado dela nem por um minuto, eu cochilava na cadeira, Papyrus estava ficando preocupado com nós dois, acho que ele não entenderia o que estava acontecendo.
Eu tive alguns relances, quando eu estava forçando a minha memória, me vi ameaçando Frisk, mas eu sentia que ela não era a humana pela qual eu tinha me apaixonado, lembrei como o meu coração caiu nas trevas, quando eu a vi matando Papyrus, as duas pessoas que eu mais amava perdidas, eu me sentia sem chão, eu não pertencia àquele lugar, mas tinha me apegado a ele de qualquer forma, eu só tinha meu irmão, me apeguei à humana, para vê-la matar o que eu tinha de mais precioso.
Depois de muito forçar eu consegui lembrar com clareza o que aconteceu.
Depois que Papyrus desistiu daquela armadilha mortal, ele simplesmente me disse baixinho que tinha terminado de evacuar Snowdin e que todos estavam na entrada de Waterfall, que era para eu levá-los para um lugar seguro.
Depois que eu ameacei a humana, eu não via mais a humana que conheci na outra timeline em seus olhos, eles tinham perdido o verde, eles brilhavam em um vermelho vivo e doentio, então não me sentia totalmente mal pelas memórias destruídas.
— Ufa, conseguimos, toda a cidade foi evacuada, pelo menos aqui, ela não matará ninguém. Sans eu tenho um plano.
— Qual o plano Papyrus? — Respondi meio sem esperanças.
— Eu ficarei aqui na entrada de Waterfall, enquanto você transporta todos para um lugar realmente seguro.
— Eu não tenho magia o suficiente para transportar todos de uma vez.
— Então os transporte em pequenos grupos.
Eu não me sentia bem em deixar Papyrus com um escudo para que eu salvasse a cidade, afinal eu me importava mais com ele do que com a cidade, relutante eu concordei. Peguei um pequeno grupo e levei para Hotland, para a frente do laboratório de uma amiga de muito tempo. Ela abriu a porta e ficou surpresa em me ver acompanhado.
— Sans, o que está acontecendo?
— Alphys, preciso de sua ajuda, sei que você tem um lugar seguro que cabe uma quantidade razoável de pessoas né?
— Sim, eu acho... Por que?
— Temos um problema em Snowdin, não posso dar detalhes agora.
— Ah, a humana de olhos vermelhos.
— Como diabos?
— Esqueceu que tenho câmeras espalhadas por todo o subterrâneo? Você até uma umas delas na saída das ruínas.
— Estou tão habituado a elas que me esqueço que elas existem.
— Bem, mas não temos tempo. — Ela abriu passagem, indicando para todos entrarem. — Não se preocupem, o lugar onde esconderei vocês, será climatizado.
— Obrigada Alphys, te devo uma.
— Não deve não, eu lembro de como você nos salvou. Isso é o mínimo que posso fazer, além de ser minha obrigação como Cientista Real.
Eu fiz várias viagens, a noite toda, mas consegui levar todos ao laboratório de Alphys, eu voltei para a entrada de Waterfall, exausto, quase sem forças nem magia, quando vi a pior cena da minha vida. Eu vi Papyrus, de braços abertos, provavelmente oferecendo um ombro amigo, o que era a cara dele fazer, eu a vi parar, como se avaliasse a situação, e por um segundo achei que ela cederia, mas não, para o meu horror, ela correu e desferiu um único golpe, cortando-lhe a cabeça, seu corpo imediatamente se tornou cinzas, enquanto ela pisava em seu crânio, também o transformando em cinzas.
Eu enfureci, eu queria matá-la, das formas mais cruéis que fossem possíveis de se imaginar, mas eu estava fraco, sem energia, sem magia, eu seria somente mais um saco de pancadas para ela, e eu não vingaria Papyrus, então me escondi, enquanto a vi passar rindo, mas algo chamou a minha atenção, um de seus olhos, estava chorando, e esse olho não brilhava em vermelho, ele estava verde, verde como os olhos da Frisk que conheci.
Acordei do leve cochilo com lágrimas nos olhos, com Frisk apertando a minha mão, seu rosto parecia estar em agonia, apesar dela aparentemente não estar mais com febre.
— Pequena... o que você fez?
Saber aquilo tudo estava me deixando abalado, eu me sentia traído, mas algo dentro de mim não queria deixar aquele sentimento, aquele amor ir embora, essa parte de mim, me pedia para esperar, que tudo ia se esclarecer, que um dia eu iria entender tudo.
Eu fiquei mais apegado ao Papyrus depois disso, eu queria manter os 2 dentro do meu campo de visão, apesar de isso ser impossível, mas um instinto protetor crescia dentro de mim.
Fale com o autor