Undyne sentiu seu âmago comprimir ao contemplar a cena. Cada lágrima que escorria por seu rosto pingava no solo ensanguentado pelo antro em seu braço enfaixado, deixando a poça repleta de nuances.

Blue Hyoko estava espantada. A coelha não tinha palavras para confortar suas amigas, pois sabia que a dor alheia era tão grande quanto a sua. No momento, sabia que a proteção de todos ali tinha acabado de ser dizimada. A Guarda Real definitivamente foi obstruída pelas lanças dos homens, e a única salvação seria correr e confiar em seus instintos.

Não tiveram muito tempo para se lamentarem, pois o grito de espanto da revenant Alana acordou todos de seus devaneios tristonhos, agora substituído por medo e agonia dos cães arranhando suas unhas pontudas na rocha, mas miseravelmente falhando e caindo. Eram visíveis tripas escorrendo de seus dentes, enquanto grunhiam e rosnavam para as cinco.

— Vamos embora. — falou Hyoko, vendo a pata do animal se estender para uma superfície côncava e se manter firme para tomar impulso. — AGORA!

As monstras estugaram pelo chão, desesperadas. Kira carregava Undyne nos braços, chorando sobre a garota, ainda em visível aflição pela morte brutal de Skarlett. Já Blue, com dificuldades, havia revezado para poder carregar a grávida Mistrel nos ombros.

Agora, finalmente, era claro que aquela superfície rochosa era um ádito de ligação para a montanha ladeada do acampamento. Vendo isso, Alana, a mais racional do grupo no momento, reduziu as probabilidades de uma fuga perfeita para dez porcento.

— Alguém vai ter que ficar... — a assistente de Gaster sussurrou para si e Blue enquanto, com dificuldades, pulava sobre as pedras mínimas. — Não vão vir apenas cachorros... — virou o rosto choroso e aflito para Hyoko. — você sabe disso.

Ela não contou para as outras amigas pois sabia que ninguém queria isso. Era suicídio, e todas nutriam demasiado amor pela família e amigos para se sacrificarem. Era evidente que nenhuma permaneceria e, eventualmente, o grupo viria a morrer pelas lanças e flechas dos inimigos.

Os cães latiam ao longe, e as ordens dos homens eram audíveis, mesmo a distância. Iriam vir com potência de fogo máxima, justamente para usarem das cinco como componentes chave para encontrarem o restante do povo fugitivo.

Os latidos se intensificaram e se tornaram mais próximos, indicando que já haviam liberado os cachorros e meio caminho até as monstras já estava traçado. Não demoraria muito para alcançarem o objetivo. Hyoko cessou seus passos e endireitou Mistrel nos braços, suspirando pesadamente. Engoliu as lágrimas enquanto sua consciência se esforçava para não ceder ao medo e fugir da cena.

Alana compreendeu o que ela queria dizer com a feição tristonha. Freiou durante a corrida e sutilmente segurou Mistrel desacordada nos braços, liberando a coelha do fardo. Soluçante, se pôs a correr com dificuldades junto a Kira, que ainda segurava Undyne.

— Onde... onde está a Blue? — indagou a pequena, limpando o choro pela morte da guarda Skarlett.

— Pegou outro caminho. — Alana forçou a voz para ficar firme e confiante. — ela... ela foi chamar amigos para nos ajudar.

Então, já consideravelmente mais próximos, os enormes cães surgiram entre as pedras, aumentando o desespero das quatro restantes na corrida pelos barulhos agressivos. Aparentemente instigados pela fome, eles mastigavam o ar, desejando rasgar por completo as outras.

Porém, quando o mais próximo deles iria ter chances de alcançá-las, uma coelha saltou detrás de uma rocha e agarrou o animal sadio, enforcando-o para evitar ser dilacerada.

Arremessou o cão para longe, que tombou, ganindo. Sem habilidades notáveis de batalha, a monstra arquejou ao não conseguir desviar de uma mordida na perna, que abriu um enorme rasgo na panturrilha. A pele totalmente branca foi maculada pelo sangue aspergindo na superfície do corpo, enquanto ela evitava gritar.

— Uff... — reprimiu outro grito para que Kira e Undyne, mesmo distantes, não percebessem o que se passava e voltassem.

Blue saltou para cima de uma rocha, falseando pela ferida recém aberta. Gritou de dor, pondo mais força e finalmente subindo para se manter afastada dos animais que se aproximavam cada vez mais nos pulos gigantes.

Podia sentir cada gota de saliva esvoaçando em sua pata, e os caninos das feras quase morderem sua carne e mastigá-la sem piedade. A situação estava complicada, e nem mesmo o mais otimista conseguiria dizer que haviam chances de fuga.

Blue nem ao menos sentiu a dor de uma flecha perfurando seu braço e a fazendo cambalear, tonta, para o chão, prestes a ser comida pelas feras. Porém, um assobio ao longe obrigou os cães a recuarem, dando espaço para vários soldados de armadura.

— Então, aberração... — o líder do esquadrão que havia se dividido no acampamento vociferou. — sei que está muito ferida, e com certeza quer ser salva. — se ajoelhou diante da coelha caída. — A pouparei caso me conte para onde seus amigos estranhos estão indo.

Blue Hyoko fraquejou ao tentar articular a palavra, grunhindo de dor. Reuniu todas suas forças, e então, pesadamente, falou:

— Nun... — tossiu, cuspindo sangue. — nunca para... para... — sentiu uma lágrima lhe escapando. — criaturas imundas como... vocês.

— Foi o que eu pensei.

A espada atravessou a cintura da monstra, com a ponta de metal envergada para a diagonal para evitar a fuga. O homem levantou-se do chão e balbuciou algo como "idiota", deixando a lâmina cravada ir matando a monstra aos poucos.

— Tola. — aproximou o rosto da soluçante vítima. — Eles vão morrer de qualquer jeito. E seu sangue vai banhar tudo isso. Tudo.

O líder se ergueu, olhando com desdém para o ser sob seus pés, desacreditado sobre sua decisão.

— Nunca irei entender esse seu pensamento. — riu com deboche. — Poderia ter sido salva, aclamada no nosso lar... — balançou a cabeça negativamente. — Mas preferiu se sacrificar por um povo que não pode ser salvo. Bateu de frente ao perigo... então, diga-me o que te motiva.

A coelha soltou um gemido sofrêgo, reunindo forças para finalmente falar, entoando um verso do antigo ode da Guarda Real.

Todo herói tem de fazer uma séria escolha:

Lutar com honra e fazer seus rivais temerem sua voz

Morrer na batalha para perpetuar o seu nome

Ou fugir do perigo apenas para viver mais um dia

O líder das milícias escutou atentamente a canção, e aparentou repassar em sua cabeça tudo de malque havia feito para aquele povo, a mando de seu suposto rei. Antes que pudesse dizer alguma coisa como "desculpa", Hyoko já havia entendido sua expressão.

— Não... não tem perdão para você, homem... — tossiu. — Você já matou famílias, amigos... crianças. — os olhos da coelha começaram a contemplar o céu estrelado pela última vez. — O arrependimento pode torná-lo uma pessoa melhor... mas... mas não terá nosso perdão.

Sentindo seu corpo, aos poucos, se transformar em um vidro robusto rachado, a monstra coelha fechou seus olhos e estampou um sorriso na face ensanguentada, vendo o líder humano recuar suas milícias, observando-a de soslaio.

— Desculpa... — pediu. — desculpa, eu não... vou voltar... desculpa...

“Alana.”

—-------o--------

A evacuação estava completa. Todos os monstros haviam sido escoltados pelo rei e rainha, mas haviam muitas baixas mesmo com os salvos, já que a tristeza e pressão eram muitas para os velhos e mulheres aguentarem, levando-os ao suicídio.

Os feridos estavam sendo socorridos pela família de revenants onde, mesmo com a insistência e negação da mãe, o pequeno Sans auxiliava o pai em curar cortes e rasgos na pele. Esse fluxo de monstros estava parado no meio do mato, enquanto os que resistiam continuavam a andar e, eventualmente, se preparar para apoiar um machucado que esteja se aproximando.

Ezra estava um tanto apreensiva. Havia somente uma Guarda viva, e estava no acampamento. Como Skarlett não havia retornado ainda, entregou o pequeno Papyrus nos braços de Toriel e permaneceu ao lado do marido e do filho que, mesmo recebendo ordens explícitas para acompanhar o irmão, permaneceu como ajudante.

Eram muitos feridos. Alguns não conseguiam resistir tempo o suficiente para a família atendê-los, então, em silêncio, repousavam e morriam sem chamar atenção alheia. Gaster considerava isso um ato bondoso, já que ele mesmo não sabia como conseguiria curar algumas feridas gigantescas.

O senhor que estava sendo atendido pelos revenants possuía um rasgo na região do úmero, ejetando metade do osso para fora. Era uma cena grotesca e tensa, por isso a mãe proibiu Sans de se quer espiar.

— Calma, senhor. — o cientista tentou acalmá-lo. — Eu vou fazer o possível para endireitar isso, certo?

O monstro chorou, assentindo com fraqueza para o outro. Sentiu as mãos de W.D encostando na parte ferida, e então gritou quando o mesmo torceu o membro para tentar mantê-lo em ordem.

O cientista suspirou. Era algo horripilante, mas estava feito. Esse era o último da lista de machucados, já que muitos morreram antes mesmo de serem socorridos por Ezra ou o pequeno e horrorizado Sans.

— Terminamos. — falou, ignorando a mão de Sans em sua roupa surrada. — Vamos carregá-los até os outros, e aí seguimos até... que foi, Sans?

O diminuto revenant aparentou absorver toda a dor do pai, pois seu grito foi de quem havia levado cinco facadas. Gaster cedeu ao chão com a pancada na nuca, provavelmente advinda de alguma tora de madeira ou algo do gênero. O baque foi audível o suficiente para alertar os demais que, mancando, fugiram do invasor.

O cientista real fixou todas suas forças remanescentes para erguer o crânio esquelético, observando a cena com dificuldades. Mesmo que quisesse voltar a observar o chão depois de ver aquilo, não pôde, e então foi obrigado a contemplar juntamente a Sans.

Ezra foi apanhada pelas vestes e erguida no ar, implorando por piedade. Sua voz engrolava pela falta de ar proporcionada, enquanto o pescoço pálido se sujava de sangue por conta da espada adversária.

O soldado retirou a lâmina do lugar, abafando um riso. Virou sua face para a traseira, vendo Sans e Gaster gritarem um doloroso e choroso "não". A milícia sorriu com desdém, e então alçou a espada para o pescoço da mulher.

A nesga da cabeça de Ezra rolou pelo chão, ainda de olhos esbugalhados pelo terror que presenciou. Metade de seu rosto estava maculado de rubro pela força imposta, enquanto que alguns fios de carne interligavam seu pescoço ao nada.

Gaster não conseguiu falar nada. Implodido pelo pesar, estava debilitado no quesito de atacar ou até mesmo se levantar, então não podia vingar a vida de sua esposa. Tudo que o pobre monstro fez foi desabar no choro, pressentindo as evidentes mortes de seu filho e de si mesmo.

Já o diminuto esqueleto gritou de dor. Sua raiva foi se intensificando conforme o choro aumentava, aspergindo as minúsculas lágrimas para todos os lados. Avançou lentamente até o sorridente soldado, lacrimejando e engrolando na hora das falas.

— Você... VOCÊ MATOU MAMÃE! — vociferou, erguendo o rosto encharcado. Uma de suas orbitas ocas oscilava entre as tonalidades azul e amarelo. — EU NÃO VOU TE PERDOAR!

Os corpos dos monstros doentes começaram a apodrecer em uma velocidade imensa, expondo os ossos cobertos de sangue e carne. Tanto Gaster quanto o soldado contemplaram, horrorizados, o pequeno avançar até o inimigo e provocar esses efeitos.

— MINHA MÃE! — bradou, deixando as lágrimas se misturarem a saliva que respingava por causa dos gritos. — TRAZ ELA DE VOLTA! TRAZ!

Todos os ossos estugaram pelo ar e cravaram no corpo do homem em diferentes partes, rasgando-o pelo interior enquanto flutuavam centímetros sobre o solo. Entre os gritos de dor da milícia, várias partes distintas eram postas para dilacerar o soldado que ia, aos poucos, se transformando em um espantalho.

— MORREEEEEEE! — gritou Sans.

Um objeto semelhante a um crânio subiu aos céus, cuspindo um raio oblíquo no homem, esfarelando sua face em um pó rubro-negro pelo chão. O pequeno não aguentou e cedeu ao cansaço, repousando no chão em um desmaio.

Mamãe... volta pra mim... por favor.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.