Undertaker [Hiato]
7 Púrpura & Carmim
Notas iniciais
Antes de mais nada, queria desejar as boas-vindas as novas leitoras! Percebi que pelo menos umas três pessoas acharam a fic por acaso nos perfis alheios, então também agradeço a quem acompanha e a quem favoritou! #emocionada
Como não tive um retorno muito grande no último cap fica difícil... eu espero que esteja bom né.
Sem mais delongas, tenham uma ótima leitura!
Sua foto, nome completo, idade, nome dos pais, nacionalidade.... várias informações simples ocupavam aquela folha, mas Raven só conseguia olhar para o papel pequeno, um post-it, branco com um losango azul em cada canto... no meio estava escrito ‘covardezinha’ com uma letra redonda e disforme, como se fosse obra de alguma criancinha.
E feita não com tinta, mas sim sangue.
Ela reprimiu o grito que iria sair e chamar a atenção de todos no carro; sua mãe e seu irmão já conversavam sobre algum assunto e Jared estava curvado lendo o prontuário sem demonstrar reação alguma – fingindo que iria arrumar melhor sua foto anexada, ela pegou o bilhete e o analisou com cuidado. Na verdade queria cheira-lo pra ter certeza se a cor não era de outra coisa, mas o odor metálico não deixava dúvidas. Raven estremeceu.
Ainda com ele na mão, olhou para fora e teve outro choque: no seu reflexo no vidro do carro, o papel simplesmente não aparecia, como se não existisse.
-Raven, você está bem? – a voz de Jared quebrou a tensão e ela conseguiu simular um sorrisinho confiante para encara-lo.
-Estou sim, um pouco ansiosa. E cansada.
-Isso é normal filha, já já a gente chega... não contávamos com esse trânsito, ainda é hora do almoço!
-Ok. – respondeu a menina, sem querer se aprofundar em diálogo algum.
Deitando sobre suas coxas e abraçando os joelhos, manteve-se meio sentada e meio deitada, apenas sentindo o balanço do automóvel, até cair no sono como se tivesse sido ninada pelo movimento repetitivo.
“Estava no mesmo corredor do outro sonho que teve e usando o mesmíssimo vestido sensual e sóbrio; podia ver claramente a porta preta que inutilmente tentava se camuflar ao resto... deu dois passos em direção a ela e parou. Não iria ir para o mesmo lugar duas vezes, por mais que não conseguisse se lembrar do que havia lá – exatamente a sua esquerda por outro lado, tinha uma porta amarela bem chamativa. Torcendo para que não tropeçasse na barra de renda exagerada que estava usando, abriu-a e entrou.
A primeira coisa que pensou foi que era óbvio que ela não se lembrava do que havia além da porta preta, pois acordou no momento em que iria abri-la; mas não havia muito o que fazer a respeito, já que assim que ela passou pela cor de canário, a mesma sumiu magicamente na sua frente, a deixando presa em seja lá qual o lugar maluco que seu subconsciente criou.
A presença de madeira e bambu para todos os lados, além do chão de tatame denunciaram que a construção só podia ser japonesa. E das tradicionais... ou pelo menos uma réplica bem fiel. Ela ia começar a se movimentar pelo lugar quando se deu conta de um fato: suas pernas estavam mais livres. Olhou para baixo e teve vontade de atirar-se de um abismo.
Qualquer um podia chamar aquilo de quimono, mas para a menina era mesmo o sinônimo de palhaçada – não acreditava que sua própria mente trabalhando em modo alfa lutava para constrange-la ao máximo. O tecido era leve e muito confortável ao toque; o caimento em seu corpo era perfeito e o laço preso de uma forma complexa e provavelmente cerimonial mantinha sua postura elegante. Não havia problema nenhum em estar inteiramente de violeta, a não ser o simples fato de que tirando a bela amarra em sua cintura, o resto era fino ao ponto de ficar transparente (bem transparente) e rendado com umas pétalas de alguma flor não identificada por ela.
E mesmo a pessoa com os maiores graus de miopia, hipermetropia, astigmatismo e ainda por cima daltonismo pra acompanhar perceberiam que ela não usava nem uma mísera peça de roupa íntima. Era o quimono roxo transparente e mais nada.
Xingando de sua mãe até a décima geração de seus descendentes, ela tentou caminhar e percebeu com alívio que aquilo não cairia facilmente e muito menos abriria por qualquer coisa. Jamais conseguiria amarrar de volta e seria no mínimo constrangedor passar o resto do sonho tentando acordar enquanto segurava uma roupa pra não cair, mesmo que a peça em questão permita uma visão quase que total de seu corpo.
Pelo menos o laço era firme e as pétalas estavam em lugares praticamente estratégicos.
Se arrastando pelos corredores do lugar, Raven começou a entrar em pânico: ao contrário do ambiente anterior, que consistia em um corredor preto com várias portas coloridas, o atual possuía salas e mais salas completamente idênticas e vazias, fazendo com que a menina perdesse totalmente a noção de localização espacial lá. Desse modo nunca voltaria para o ponto onde começou.
Depois de bufar de frustação e ódio tantas vezes que até mesmo perdeu a conta, se jogou no centro de um entre os vários aposentos iguais, depois de vagar pelo lugar tedioso pelo que lhe pareceram horas; olhando para a direção de onde tinha entrado, ela viu um fato curioso: uma trilha de pétalas lilases, como se tivessem caído de seu traje, se espalhava pelo chão, marcando seu caminho. Se levantando num instante e desejando internamente que seu corpo continuasse escondido pelas pétalas de renda ao menos nas partes mais elementais, ela tratou de seguir o rastro, esperando assim chegar a origem e talvez rever a porta amarela.
Com a respiração falha e a ansiedade crescendo, enfim encontrou seu destino: em hipótese alguma podia dizer que o lugar era o mesmo, mas algo lhe dizia que sim. As flores terminavam num homem sentado exatamente onde a porta estava antes – mesmo com um temor que fazia seu estômago dar nós, Raven foi com passos lentos e silenciosos até o estranho.
Ele estava no chão com as pernas e braços cruzados, sua cabeça abaixada tornava difícil a sua identificação, mas os cabelos pretos esticados para trás sugeriam um oriental. Ela agachou defronte a ele e pode perceber que tinha um rosto belo e estranhamente familiar – seus olhos estavam fechados e delineados por uma pintura de um vermelho muito intenso, assim como a veste japonesa que usava. Em um momento de devaneio, Raven se perguntou se as roupas tradicionais que os homens usavam no Japão também eram chamadas de quimono.
Mas foi despertada de seus pensamentos incoerentes com a situação quando o ser subitamente despertou, empurrando-a de costas para o tatame e ficando por cima, imobilizando seus braços e pernas. Ela o fitou e entrou em choque.
Obviamente o achou familiar; os traços marcantes, a pele uniforme e clara como porcelana, o nariz reto, as sobrancelhas angulosas e os lábios finos... se algo a impossibilitou de reconhecer Keane logo de cara, foi sem dúvidas os cabelos para trás e o fato de pela primeira vez ela vê-lo usando algo que não fosse preto.
Apesar de a situação ser crítica, ela foi obrigada a admitir em pensamento que ele realmente ficaria bem com a cor que quisesse, embora a pintura em seus olhos tornasse a íris azul injetada e maligna. Talvez essa fosse a intenção.
Ficaram um bom tempo se encarando em silêncio, ao ponto em que nem a respiração um do outro eles escutavam; quebrando o gelo, ele deu um daqueles sorrisos sádicos que costumam fazer as mocinhas dos livros tremerem e suspirarem ao mesmo tempo. A menina teve ambas as reações, além do impulso de agarra-lo combatendo com o de fugir dali.
Sua vontade de dizer algo era absurda, mas a voz simplesmente não vinha e seus lábios não se moviam, por mais que focalizasse todas as suas forças na fala – mas também não negava que era complicado focar em algo de fato com ele a devorando com os olhos daquele jeito.
De repente ele se curvou e a garota sentiu arrepios se espalharem por todo o corpo; com a queda e sua posição, ele tinha acesso ilimitado à pele nua de seu colo e o a área entre seus seios pequenos, onde fazia rastros tocando de leve com o nariz. Poderia estar farejando-a ou fazendo carícias – talvez ambas as coisas.
Isso já era o suficiente para ela delirar, mas quando ele começou a subir, passando por seu pescoço, maxilar e queixo... ficou tensa, pois já imaginava o que vinha a seguir.
Para o seu mais completo desapontamento, ele foi em direção a sua orelha esquerda, onde parou com os lábios – causando-lhe cosquinhas particularmente agradáveis – e sussurrando com um quê de diversão na voz:
-Sentiu minha falta?
Ela não respondeu. Pode sentir, mais do que ver ou ouvir, o sorriso que ele esboçou para continuar com as provocações:
-Provavelmente não, deve ter passado os dias absorta com suas próprias questões.
-Não acho que a morte de um amigo seja uma questão. – disse ela, antes mesmo de se dar conta de que conseguia falar novamente.
-Raven, me referia a questões como: “o que eu e vocês somos?”.
Ela rapidamente virou o rosto em sua direção, mas ele tornou a erguer-se, fazendo-a acompanhar com a cabeça seus movimentos; seus pulsos começavam a formigar e em um acordo silencioso ele afrouxou a prensa. Mas a menina não ousou tentar escapar.
O modo como ele formulou aquilo era profundamente similar às zombarias cruéis que a menininha lhe fazia e a garota não pensou por um segundo que fosse que se tratava de uma coincidência.
Notando que o olhar dele não estava mais em seu rosto e sim direcionado para frente, ela inclinou o pescoço para trás para ver o que chamava a atenção de Keane: o que antes eram apenas entradas para outros cômodos iguais, estavam abertas para um ambiente externo.
Um cemitério oriental.”
-Filha, chegamos. – disse Julia, despertando a menina de seu conturbado sonho.
-Achei que você iria querer dar uma olhada na sua ficha – comentou John – mas cochilou mesmo hein?
-Não viu a cara dela logo no começo do prontuário – riu Jared, fazendo-a congelar em pânico – provavelmente só de ver os exames você entrou em choque não é?
-O que quer dizer? – perguntou ela com a voz fraquinha, enquanto saia do carro sem ter despertado inteiramente.
-Eu te conheço Ray – disse ele – mas tem que entender que o Exame Toxicológico em busca de drogas, nível alcóolico, metais pesados e outras coisas foi pro seu bem; todos disseram que você estava estranha e no fim deu tudo negativo mesmo.
-Eu sei. – disse ela, mesmo que não tivesse prestado atenção em nada depois de ver o bilhetinho; anotou mentalmente que esfregaria os resultados na cara de seus pais cada vez que eles quisessem proibi-la de ir a algum lugar alegando ‘o ambiente ruim’ ou ‘responsabilidades’.
De qualquer forma, ela estava em casa; longe da cama estranha, das paredes brancas, comida detestável, profissionais apressados, cheiro de material esterilizado e aparelhos que apitavam de modo ritmado.
Mas ao passar pela soleira da entrada, alguma coisa em seu interior lhe avisou que aquilo não era exatamente algo bom.
Notas finais
Mas e vocês? Gostaram?
Beijos!! (*--*)//
P.S.: Kiss, eu espero que você tenha gostado da dose de Keane nesse cap...
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