Undertaker [Hiato]
35 Observar e Aprender
Notas iniciais
Assim que a cerimônia fúnebre chegava ao fim, ela deu um perdido nas meninas e foi chamar um táxi; chegou no consultório em poucos minutos, porém mensagens de Becky e Susan perguntando seu paradeiro já pipocavam na tela de seu celular. Desligou o aparelho com uma mistura de culpa e deleite.
Entrou como um furacão na casinha charmosa, passou pela recepcionista sem dizer uma palavra e se enfiou no banheiro. Abriu a sacola e encarou as compras que fez antes de ir para o cemitério pela manhã. Pegou a tesoura afiada e passou o indicador no fio da lâmina, admirada com o poder de corte ao ver uma gotícula carmim escorrer do mesmo para logo depois ele fechar, um lembrete do quanto ela precisava daquilo – sentindo que podia desistir daquele plano idiota a qualquer momento, encostou a testa na parede de azulejos e chamou em voz baixa:
–Jansen.
–Sim querida? – respondeu a vozinha animada do lado de fora instantaneamente.
–Preciso de sua ajuda aqui.
A senhora abriu a porta, observou o conteúdo na pia e ergueu as sobrancelhas, claramente surpresa; deixa-la nesse estado foi uma pequena vitória pessoal para a menina, que finalmente teve certeza de que estava tomando a decisão certa.
–Rita querida. – disse a mais velha, virando a cabeça em direção à recepção – Pode vir aqui uns instantes, por favor? Acho que não dou conta aqui sozinha.
Algum tempo depois elas estavam reunidas novamente na mesma mesa com chá, biscoitos e bolinhos, enquanto a garota ruminava o que acabara de fazer.
–Se sentindo melhor com o que fez querida? Sabe que isso foi um tanto quanto extremo.
–Me sentindo... livre. – confessou ela.
–E durante essa semana, se sentiu livre? Afinal de contas durante anos Ramona Foster foi a única pessoa que te atormentou.
–No fundo pensei que seria assim mas... – começou ela, sem ter certeza se era seguro falar aquilo.
–Mas? – encorajou a outra.
–Mas me senti extremamente sufocada e culpada, era como se cada pessoa pela qual passava fosse uma parede me comprimindo.
–Isso é bom. – disse a outra empolgada.
–Bom??! – chiou a menina indignada.
–Sim Raven, bom. Se sentiu dessa forma com Gabe, Churchill?
–Não exatamente mas...
–Exato! Isso só prova que você está cada vez mais forte e num ritmo mais acelerado do que qualquer um apostaria.
–Eu estou matando essas pessoas? – perguntou ela, horrorizada demais.
–Você está matando, você é atraída para elas perto de suas mortes, quando elas morrem tem que grudar em você... quem sabe qual é o seu papel nisso?
–Você sabe. – retrucou.
–Bom, essa é uma verdade. – disse a idosa com um sorrisinho – Mas não posso simplesmente sair te contando não é mesmo? Ou quer pagar o preço?
–Você sabe que não.
–Então não seja tão birrenta! Tão pequenina, devia sorrir mais, encarar as coisas de uma forma positiva... quantas pessoas podem ver o mundo da forma que alguém como você vê?
–Er...
–Diga querida, diga.
–Quem ia querer ver as coisas que eu vejo? Essa semana foi terrível.
–Algo nesse aspecto mudou essa semana? – perguntou ela, quase num sussurro.
–Bom você sabe... agora eu vejo essas almas, esses fantasmas. Como o senhor naquele canto ou os dois garotinhos no granado perto da entrada. – esperava apenas receber um comentário qualquer que a fizesse pensar na questão, mas a Sra. Jansen engasgou com os biscoitos e tossiu repetidas vezes criando um som nojento que a deixou arrepiada.
–Você pode vê-los?!
–Posso, eu não poderia?
–Poderia mas... – ela começou a sussurrar diversas coisas rapidamente e tudo que a menina conseguiu capitar foi “rápido, rápido demais”. Ela tinha a impressão de que a terapeuta estava intercalando diferentes idiomas, mas antes que pudesse perguntar a outra fixou os olhos nela e disse:
–Conte-me em detalhes como foi essa sua semana terrível. – ignorando o tom dramático, ela começou.
–Depois de nossa consulta, assim que fui embora por todos os lados que eu olhasse...
–Assim que saiu mesmo? No mesmo instante ou algumas horas depois?
–Vai me deixar falhar?
–Os detalhes são importantes nesse caso minha querida. – ela não pode deixar de notar o uso mais que sarcástico do adjetivo, mas resolveu ignorar também. Se queria que Jansen a ajudasse, não seria confrontando-a que conseguiria algo.
–Sim, assim que sai daqui e entrei no carro com meus pais percebi que tinha algo errado. Demorei uns minutos para me dar conta que a maioria das pessoas que eu via bem, não deveriam estar aqui. E tem sido assim por toda a semana.
–Reparou em algo em específico? – perguntou ela, mal se dando ao trabalho de disfarçar a ansiedade na voz.
–Algumas coisas. – admitiu a menina – As mesmas pessoas costumam vagar nos meus lugares, alguns surgem por períodos determinados de horas, outros tem rituais do tipo ir de um canto a outro na mesma hora todos os dias.
–Muito bom. – elogiou a outra; era estranho receber uma congratulação por algo como aquilo, mas Raven continuou falando.
–Diferente do que eu esperava, não tem uma lógica muita grande em onde eles aparecem; há adultos na minha escola e pessoas com roupas requintadas e muito antigas na rua de minha casa, embora eu tenha certeza de que a área era vazia quando o bairro foi fundado, até fiz uma pesquisa sobre o assunto.
–Certo, de certa forma existe um padrão, mas isso você só vai aprender com o tempo. – confidenciou a senhora.
–E lugares como hospitais e delegacias no geral estão bem limpos nesse aspecto. No cemitério havia vários, mas eles pareciam enraizados a seus túmulos e não sei dizer.... mais apagados, mais translúcidos que o demais.
–Estou impressionada. – disse a Sra. Jansen com um sorriso que exibia todos os seus dentinhos muito brancos. – Se lembra de algo mais que queira pontuar? Algo sobre a aparência e as intenções deles?
–Na verdade não. Eu evitava olhar diretamente para eles, porque tenho a impressão de que eles podem perceber se a pessoa repara neles.
–De fato, é um pouco mais complexo, mas você não deixa de estar certa.
–Pois é e bem... eu já tive a experiência de ter um morto controlando o que eu fazia, não quero passar por isso novamente. – para sua surpresa, a outra riu
–Ah não minha querida! Entendo seus receios, são totalmente aceitáveis, mas tal coisa jamais aconteceria, pode ficar tranquila. Aliás, as chances de eles te evitarem também são realmente grandes.
–Sério? – aquele medo a corroeu diariamente.
–Não estou brincando. – garantiu a mulher, conseguindo de alguma forma dar um sorriso encorajador e gentil. – Mais alguma coisa a acrescentar?
–Acho que não; como disse, eu evitei ficar observando eles, tudo que disse eram coisas inevitáveis de se não reparar.
–Vou ser bem franca com você querida, está se subestimando. – disse a mulher, terminando seu chá e colocando a xícara vazia a sua frente; o movimento fez Raven perceber que além de um biscoito parcialmente mordido, não tinha tocado em mais nada e torceu para que a terapeuta não se sentisse ofendida. – Você está forte, mais do que eu esperava. Além de se desenvolver rápido, sua percepção das coisas é muito mais apurada do que o normal. De certa forma você sempre seria mais precoce que seus similares, porque eles existem, mas mesmo assim é impressionante.
–O que vai acontecer quando eu aprender tudo que preciso? – perguntou a garota receosa.
–Na verdade, acho que não tem um fim para seu aprendizado, mas entendo sua pergunta: quer saber o que vai acontecer quando essas mudanças cessarem?
–Isso. – ela estremeceu só de pensar .
–Só saberemos quando a hora chegar e o resultado na verdade só depende de você. Mas te dou uma dica: se não começar a repensar suas atitudes, pode se dar mal.
–Quer dizer as mortes? – perguntou ela com a voz sofrida; se soubesse como já teria parado aquilo logo após Gabe ter falecido.
–Não querida, não. – ela respondeu, balançando a cabeça; pegou um biscoito e o mordiscou, encarando a menor com uma expressão pensativa – O fato de me perguntar essas coisas só significa que enquanto você se desenvolve a passos largos em algumas áreas, continua lamentavelmente cega em outras.
–Ei!
–Só disse a verdade.
–E o que tenho que fazer pra não ser “cega”? – perguntou desanimada.
–Um pouco de autocrítica seria um ótimo começo. – murmurou ela mastigando.
–Mais alguma coisa?
–Sim – disse ela, endireitando a postura e apontando em direção a menina; o ato provavelmente teria mais impacto se ela não fosse uma velhinha rechonchuda de rosa e não usasse meio biscoito para apontar. – Durante essa semana, quero que repare mais atentamente no que há para ver, pode encarar sem medo, só tome cuidado para que seus colegas não a julguem como mentalmente desregulada.
–Jansen?
–Seria ótimo um pouquinho de bons modos por aqui. – isso fez Raven girar os olhos em direção ao teto antes de tentar novamente.
–Sra. Jansen. – murmurou ela.
–Vamos querida, você pode fazer melhor que isso. – a menina bufou.
–Dra. Jansen?
–Sim meu bem?
–Porque o fantasma de Ramona não está comigo? Cheguei a ouvir sua voz num sonho noite passada mas...
–Não mencionou esse sonho!
–Eu me esqueci, então, ele começou... – iniciou ela, mas foi cortada com um aceno pela idosa.
–Eu e você já temos muito o que matutar, isso sem dúvidas pode ficar para a próxima semana. – disse ela num tom definitivo – E quanto a Foster, por hora não direi nada, faça o disse e na próxima consulta retomaremos esse assunto.
Resignada, ela se despediu a saiu do consultório. Uma vez do lado de fora, parou e encarou os meninos fixamente, procurando qualquer coisa que parecesse importante. Ambos não pareciam ter mais e cinco anos e suas diferenças indicavam que provavelmente não tinham parentesco.
Com o tempo, se deu conta de que eles haviam se encolhido e que se forçavam a olhar na direção oposta a que ela estava. Se sentindo um tanto quanto culpada, ela saiu sem direção aparente, olhando tudo ao seu redor.
Vinte minutos caminhando e chegou a um centro comercial no qual os carros não entravam e diversas galerias exibiam boutiques amplas. Comprou um sorvete e começou a observar o entorno e as coisas começaram a ficar claras quase que instantaneamente – sabia para o que olhar e o que procurar.
Ficou realmente admirada com as diferenças tão evidentes entre eles e se perguntou como podia ter passado uma semana sem reparar em coisas tão óbvias.
Alguns fitavam o nada em esquinas, outros vagavam dentro de lojas com um ar saudoso ou sonhador e tinham aqueles que encaravam grandes empresas e bancos claramente ressentidos.
Havia também os que interagiam com alguém. Alguns reagiam cada vez que alguém com uma característica específica – uma ruiva, um homem gordo, menininhos de cabelo cacheado – passava por perto. Outros seguiam pessoas a menos de dois passos de distância com uma postura calma e protetora e não era incomum ela notar semelhanças físicas entre o fantasma e a pessoa nesses casos; já outros seguiam gente há alguns metros de distância delas e as observavam fixamente com um ar cruel nos olhos. Esses de longe eram os mais assustadores e que ela temia que percebessem sua presença apesar do aviso de Jansen.
Outra coisa que a surpreendeu é que não havia diferenças alguma entre eles. Uma antiga namorada protetora ou um sanguinário desejando ver a pessoa se desgraçar, todos tinham o mesmo ar pálido que permitia que ela visse em borrões o que havia através de cada um – nada de auras brilhantes ou enegrecidas.
Ficou umas duas horas ali completamente a toa, comprando pequenas guloseimas para forrar o estômago e observando tudo que podia. Quando se sentiu cansada, ligou o celular para chamar um táxi e tomou um susto.
Além das mensagens de suas amigas, havia um número bem considerável de ligações de sua mãe. Chiou um palavrão baixinho, sobressaltando o fantasma de um senhorzinho que passava ao seu lado no momento. Resistiu ao impulso de se desculpar, pois qualquer um ali a tomaria como doida, respirou fundo – sabia que elas acabariam ligando para saber se ela havia chego bem em casa e que sua mãe surtaria ao ligar para a clínica só para ser informada de que ela havia saído a horas.
Jansen podia ao menos ter aliviado pro lado dela.
Mal começar a chamar e Julia já atendeu; a mulher provavelmente estava grudada no celular e no telefone da casa, se segurando para não sair caçando-a pela cidade.
–Onde você está??! – berrou ela.
–Estou voltando pra casa mãe. – murmurou timidamente.
–Voltando da onde? – exigiu saber.
–Te explico em casa, eu sai.
–Saiu com quem?
–Sozinha mãe, sozinha.
–Onde você está, eu vou te buscar. – disse a mulher com um ar decidido.
–Não vai não porque já estou indo e nos falamos em casa, eu insisto.
–Raven Audrey...
–Mãe. – cortou ela, colocando toda a firmeza que conseguiu para a mulher se calar; funcionou – Nos últimos dias eu aceitei tudo que você pediu, fui na terapia, fui no colégio, mandei uma carta com minhas condolências para a família Foster, este último uma experiência extremamente desagradável e constrangedora. Posso ao menos decidir como vou voltar pra casa? – um silêncio se seguiu e ela temeu ter ido longe demais.
–Desculpa meu amor – disse a mãe de modo suave – Ando tão preocupada com você desde o acidente, faz tão pouco tempo e ainda assim você tem passado por tanta coisa... só queria te proteger, não percebi o quanto estava sufocando você. – era meio descarada a chantagem emocional que ela fazia com aquela atuação de mãe zelosa e sofrida, mas foi o suficiente pra menina sentir um apertinho no peito.
–Mãe... – começou a garota, se sentindo culpada.
–Não tudo bem, você está certa. – disse ela – Assim que chegar, conversamos.
O táxi demorou mais do que ela esperava para chegar – realmente precisava perder o temor de tocar num volante depois que fora atropelada, estava gastando um dinheiro à toa. Durante todo o caminho foi em silêncio, ruminando sobre o que falaria com a mãe – sem dúvidas a mulher esperava ter um diálogo aberto com a filha, mas era um tanto quanto impossível ser realmente fraca.
Quando chegaram, ela pagou e se preparou; só de lembrar do que fizera antes da consulta, começava a sentir um frio na barriga. Sem dúvidas sua mãe iria ficar alarmada com a situação. Mal girou a chave na fechadura e a maçaneta se abriu, revelando uma Julia com um ar ansioso e acanhado no batente da entrada.
Sua expressão logo se transformou em choque quando encarou a filha.
–Raven... o que é isso?
–Bem – começou ela – eu disse que dei uma saída. – se justificou, tocando com as pontas dos dedos os cabelos, agora na altura do queixo e cor de chocolate.
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