Notas iniciais
EU.TÔ.MORTA.
E não, não foram as ameaças de morte nos últimos caps pra revelar alguma coisa e sim minha agenda. Acreditam que sexta eu fiquei das 7h30 as 21h30 na facul? Mais de doze anos ali!! E fica bem aterrorizante de noite sabe?
Bom... partindo pra um novo tópico: tem gente que lê e ponto, tem gente que lê, fala o que achou e... tem gente como eu, que lê, fala o que achou e faz questão de dar um pitaco até no sabor de sorvete favorito do personagem x. Não reclamo, pelo contrário, acho mega digno, mas tem uma coisinha que preciso explicar.... tipo, quando digo que não sei onde Under vai dar, não é bem assim.
Quero dizer, os fatos do meio ficam meio perdidos, mas si quem é o que, quem fica com quem, quem vai surgir e.... quem vai morrer. E já digo de antemão: não me matem, porque tudo tem um motivo ok?
Boa leitura amores.

No silencioso cômodo, um suspiro se seguiu; ele a olhava a consideráveis horas, mas nem sinal de que a menina acordaria. Em algum momento, ele simplesmente não aguentou mais.

Se aproximando a passos lentos e arrastados, sentou-se na borda da cama para fita-la de perto. Conhecia melhor que qualquer um cada curva, canto, pinta ou fio de cabelo de cor, mas mesmo assim seria capaz de passar horas simplesmente olhando esses detalhes. Podia recitar quantas vezes ela cortou o cabelo, os machucados que já teve, as vezes que riu, que chorou, as pessoas que abraçou e, com uma pontada de ódio mesclado ao ciúme e sua personalidade possessiva, quem já tocou seus lábios pequenos e perfeitos como os de uma boneca.

Hesitante, tocou na ponta de um dos seus cachos que ela desprezava, mas que na verdade eram naturalmente modelados e causavam inveja nas mais vaidosas mulheres. Muita coisa nela era admirável aos outros, mas ele a via de outra forma.

Cada aspecto da garota era admirável aos seus olhos.

Ela estava longe da perfeição, isso era um fato: encanava muito facilmente com o que os outros diziam, ignorava coisas importantes por pura teimosia, era emotiva além da conta, tinha uma tendência a fazer as coisas por baixo dos panos e era centrada ao ponto de nunca fazer loucuras e viver mais intensamente. Lidar com ela, era sempre um desafio.

Como se incomodada com a linha de pensamentos dele, a menina girou para o lado, virando a cabeça para a direção oposta a dele e deitando de bruços — agora, tudo que ele conseguia ver era seus cabelos contrastando com a fronha escura e ouvia a respiração pausada e abafada dela, quase uma tortura a julgar pela proximidade de ambos.

E por algum tempo ele ficou ali, encarando suas costas e se prendendo ao fio de voz na forma de suspiros.

Com a certeza de que estava fazendo uma besteira e que ficaria na mais completa agonia mais tarde, ele levantou a coberta e entrou debaixo dela, grudando seus corpos com a proximidade que ansiava por muitos anos.

Deslizou seu rosto pelo braço dela, gravando o toque macio de sua pele e o seu cheiro tão doce que chegava a ser enjoativo ao seu nariz sensível. Mas ele não se importava, nunca algo vindo dela seria de seu desagrado.

Pensou com pesar, ao analisar seu corpinho encolhido e entregue a um sono tranquilo, que ela poderia sim ser mais alta ou mais encorpada. No fundo a culpa era totalmente sua e por isso amava aquelas formas quase infantis com o mesmo fervor que amaria uma mulher feita, ou até mais. Ele travou seu crescimento, entre outras tantas coisas, com seu ego destrutivo.

E se havia alguma certeza em sua vida cinzenta, era de que sempre a amaria e nunca sairia de seu lado, quer ela gostasse disso ou não.

Não aguentando mais ficar ao seu lado com aqueles contatos singelos e muito mais simples e puros do que ele desejava, se contorceu para conseguir dar um beijo na sua testa e se foi do quarto, deixando ela imersa em seus próprios sonhos.

Que ele sabia muito bem serem sombrios para a garota.

...

Estava estirada no chão quando abriu os olhos. Primeiro sentiu um certo desapontamento; estava em um hospital afinal de contas, e era no mínimo ridículo que ninguém a tivesse visto desmaiada ali. Mas depois, se deu conta de onde estava exatamente.

A pose era a mesma da última vez, mas para o seu completo alívio não haviam penas com pontas afiadas ou sangue sobre si e ao seu redor. Chegou até cutucar o vestido a procura de buracos ou manchas de sangue, mas estava tudo na mais completa ordem, como se o sonho anterior não tivesse existido.

Quando sua respiração estabilizou e ela arranjou forças para começar a se erguer, reparou que a música continuava do lado de dentro do quarto de portas negras, exatamente como da última vez.

Na primeira vez que tentou o sonho acabou e na segunda ela foi literalmente perfurada por enormes e grotescas penas. Era como se algo a impedisse de seguir adiante e isso estava a irritando profundamente.

Com passos decididos, ela seguiu o mais determinada que conseguia com aquela roupa justa e pouco prática – os babados em camadas nas panturrilhas se enroscavam nos pés e o movimento das pernas era comprometido pelo tecido rente ao corpo.

Parou na porta com a mão na maçaneta, e se pegou maravilhada com o contraste gritante que as paredes, a madeira, o metal e o tecido em si mais escuros que a noite faziam com sua pele; não que fosse tão branca assim, mas eles elevavam o preto a outro nível mais sombrio.

Então uma mão, esta sim realmente branca como cal, se colocou acima da sua num toque suave e ela olhou para o lado.

Se não fosse o cabelo Chanel, e o azul nos fios, íris e maquiagem, talvez não reconhecesse tão facilmente a palhacinha. Na verdade, não podia mais chama-la dessa forma: a meia havia sumido e o sapato similar ao de um bobo da corte deu lugar a uma sapatilha simples e azul; o vestido bufante e cheio de pompons e losangos se tornou um mais simples e delicado, azul com bolinhas brancas e com detalhes em renda. Na sua cabeça uma flor branca de pano e no rosto o sorriso zombeteiro de sempre.

Mas não era a mudança de traje que confundiu Raven completamente. A menina havia simplesmente... crescido. Agora aparentava ter uns onze ou doze anos, pois os sinais mais primários da puberdade se faziam presentes em sua silhueta.

–Você cresceu? – perguntou ela, com a consciência de que era uma pergunta idiota e desnecessária.

A menininha meramente anuiu com a cabeça, sem sorriso cruel, comentário sarcástico ou exibição de suas macabras lâminas.

–Porquê? – quis saber ela, já que ficar encarando a outra em silêncio defronte aquela porta a incomodava.

–Não tive outra escolha. – ela estava triste.

–Quem a forçou? Dr.Robets? – era quase um milagre que a pequena não se recusasse a dar respostas logo de cara, fato que Raven não deixou passar despercebido e tratou de aproveitar.

–Não sei, talvez. – ela parecia abalada – Eu... sempre sei das coisas, menos agora. Me sinto como uma marionete após um espetáculo, deixada no escuro e sem consciência de que outros seguram as cordas que me movem.

–E o que você sabe? – ela queria parecer o mais carinhosa e compreensível possível.

–Eu... não posso dizer. Me desculpa; mais do que qualquer um, eu gostaria de te contar toda a verdade, mas não posso.

–Mais alguém sabe dessa verdade?

–Sim.

–Alguém que eu conheço?

–Sim.

–Isso é uma droga!

–Eu sei.

Raven nunca achou que sentiria falta da palhacinha, mas aquela menina desesperançosa e até mesmo submissa estava lhe dando nos nervos. Queria alguém com quem conseguisse dialogar de verdade, pois preferia viver na constante dúvida do que na certeza de que estava se envolvendo em coisas maiores do que era capaz de controlar.

Continuaram se encarando em silêncio por alguns minutos, tempo suficiente para ela notar que o repertório do violoncelista (ou da violoncelista) mudava frequentemente e, entre tantas melodias, apenas a mesma lhe saltava aos ouvidos.

–Eu vou entrar e acabar de vez com isso. – murmurou de repente.

–Vai em frente, mas já adianto que não vai ver muita coisa. Me desculpe por isso.

–Não vejo por sua culpa? – a garota estava indignada.

–Não vê por sua culpa e não minha. – a menor se encolheu, deixando uma visão de sua franja azul onde deveria estar seu rosto.

–Então porque pediu desculpas?

–Não posso dizer. Me des...

–Tá, te desculpo. Me deixa em paz. – rosnou ela, e abriu a porta.

O cômodo era na verdade um grande quarto em estilo rococó (ou seria barroco? Raven nunca soube diferenciar ambos), no qual ela se surpreendia por conseguir distinguir algo de fato, pois tudo nele era preto, sem janela ou fonte de luz que criasse um pouco de claridade para aquele lugar mergulhado em sombras.

Ficou um tempo mergulhada em sua própria confusão, quando resolveu procurar de uma vez a origem do som; encontrou-a no canto extremo oposto a porta pela qual entrou, uma pessoa vestida num manto negro e tocando um violino igualmente escuro – até os detalhes em metal eram da cor de ônix. Como a figura estava curvada, era difícil definir sua altura e por consequência seu gênero.

Ela tentou dar mais alguns passos em sua direção, mas ela caiu. Porém, ao invés de se esborrachar no chão, como seria o esperado, ela foi tragada pela escuridão do lugar, caindo, caindo, caindo indefinidamente rumo a um lugar completamente desconhecido.

Acordo com o coração na mão, a respiração completamente descompassada, suando frio e com mais temor do que achou que sentiria na vida; ela tremeu as pálpebras, mas não abriu os olhos com medo do que encontraria ao fazê-lo.

Como ainda se sentia covarde demais depois de uma pausa esperando seus batimentos se regularizarem, ela tratou de usar o tato; estava deitada num travesseiro fofo e havia outros deles perto de sua cabeça – os lençóis eram confortáveis e provavelmente de tecido fino e caro, a única coberta acima deles era felpuda, com cerdas longas que podiam facilmente pertencer a um animal.

Angustiada por maiores informações, ela deixou de ser molenga e abriu os olhos.

As fronhas e lençóis eram de um cinza bem escuro e com um quê de metalizado, e a coberta era de fato uma pelagem espessa e negra, da forma como ela imaginava que animais como os ursos deveriam ser. A cama era grande o suficiente para mais de uma pessoa, mas o tamanho não lhe era normal.

Virando o rosto para todos os lados, fitou com interesse os móveis simples e pretos, com puxadores em formato de asas prateadas (nesse momento, ela inevitavelmente se lembrou das corujas e sentiu um frio na espinha). O papel de parede continha letras – ou no caso, runas – que ela desconhecia totalmente, mas formavam um padrão cinza claro hipnotizante sob o branco do fundo; não havia tapetes ou carpete no chão, apenas um piso de madeira clara e muito reluzente.

Apesar do ar de sofisticação do lugar, não havia qualquer sinal de tecnologia, como computadores ou televisões e nem mesmo um espelho, quadro ou foto nas paredes; o lustre era composto por vários cristais negros que pareciam belos e brilhantes demais para ser meramente algo comprado em uma loja de decoração e além de uma janela gigante na parede onde a cama estava encostada, o cômodo possuía duas portas.

Depois de debater mentalmente se deveria explorar o lugar ou permanecer ali – já que se havia algo em que ela e sua consciência concordavam, era que ali não era o hospital ou qualquer outro lugar conhecido – ela decidiu se arriscar e jogou as cobertas para o lado.

Estava com a mesma saia e a mesma camiseta com as quais saiu de casa, o que era um forte indicativo de que não estava em um sonho bizarro – seu tênis não estava à vista.

Foi direto para a porta mais a direita e a abriu: nela estava várias roupas em cabides e gavetas cheios de roupas... pretas; e com outra porta no final, provavelmente o banheiro. Além de pretas eram roupas masculinas, de alguém alto e com um perfume que ela já tinha sentido antes.... aquilo só podia ser uma piada. Então ouviu o som inconfundível da outra porta se abrindo, mas nenhum passo se seguiu.

–Raven? Você está aí. – a voz dele surgiu em algum ponto dentro do quarto.

–Onde estamos? – perguntou ela.

Ele abriu a porta do closet e a encarou por alguns instantes.

–Na minha casa. – respondeu – Mais precisamente, no meio das minhas roupas. – segurando o impulso de corar violentamente, ela fez a próxima pergunta na sua lista:

–E como eu vim parar aqui... Keane?


Notas finais
É tão legal já saber o que vai rolar a seguir sabe.... ok, vou parar de provocar. (ou não)
Enfim, disse pra vocês que ia ter uma novidade a partir deste cap certo? Se não sabia, é porque não deixa reviews ou eu me esqueci - se foi a última opção, sorry.... voltando ao assunto, no finzinho de cada um vou deixar uma pequena informação, que chega a ser quase um spoiler, mas nada que atrapalhe o andamento das coisas de forma brutal; lembrando que, se for sobre um personagem que ainda não apareceu, eu não vou avisar.
Primeira informação: existe mais alguém da mesma "espécie" da menininha de azul em Under.
Espero que tenham curtido!
Beijos!! (*--*)//