Undertaker [Hiato]

10 Banho Químico


Notas iniciais
Oie gente!
Não, não morri! XD
Desculpe a demora para todas que piraram, morreram e desejam o corpo do Keane loucamente - foi uma experiência a parte ler os reviews, sério.
Acontece que amanhã volta as aulas - daora a vida - e foi uma correria incrível essa semana porque deixei pra última hora pra comprar uns materiais e pegar uns documentos. Não façam isso, é horrível.
Enfim, já aviso que basicamente não tem diálogos nesse cap, apenas uma fala nele todinho! Não me odeiem, ele é necessário para vocês notarem a diferença de comportamento entre a Raven antes do acidente e a depois.
Boa Leitura!!

Respirando fundo antes de voltar ao banheiro, ela analisou o estrago antes que moscas ou similares surgissem – o sangue na pia não era exatamente um problema, mas ele escorria e também pingava das asas.

Não fazia ideia de como limparia o espelho, e não queria nem pensar na possibilidade de algo ali ficar manchado pra sempre.

Desceu tomando o cuidado de ver se sua mãe estava no caminho: ela estava na sala, concentrada no que via na televisão e comendo algo, comida de micro-ondas a julgar pelo aspecto. Indo com delicadeza, ela atravessou a cozinha em direção à área de serviço.

Sem noção do que usar ou tempo para pensar no assunto, pegou um balde e colocou dentro quatro, cinco, seis produtos diferentes, esfregões e panos – a água poderia ser facilmente arranjada no banheiro de John ou no de seus pais.

Voltou o caminho em estado de alerta, mas o programa devia estar interessante, pois a mulher mal piscava o olho; subindo as escadas tropegamente por conta do peso, com a mão perfurada pela palhacinha exigindo que ela largasse-o a todo instante, enfim voltou ao quarto e parou na porta horrorizada.

O bicho estaria morto a menos de duas horas e ela estivera ali instantes antes, mas o cheiro de carniça agora era tão forte que se não tivesse visto a coruja em sua cadeira ou o sangue fresco em suas feridas, poderia acreditar que a ave foi parar ali no dia em que foi atropelada.

Torcendo as feições com a náusea que ameaçava a abater, ela entrou no quarto do irmão e pegou a primeira camiseta de algodão que achou – Jonathan e sua mania de usar tecidos sintéticos – a encharcou na pia dele e amarrou no rosto como uma bandana. Encheu o balde e voltou para a bagunça.

Era realmente no mínimo inexplicável – como em questão de minutos a carne do animal havia alcançado tal estado de putrefação? Raven se sentia tão enojada que não conseguia nem mesmo adentrar o banheiro de quarto. Aquilo não era normal.

Quando chegou a esta conclusão, se permitiu um riso rápido e amargo: nada na sua vida andava normal. Nadinha.

Largando a água na entrada do banheiro, ela foi em direção à biblioteca do pai (uma extravagância incompreensível na opinião dela: perder tempo e dinheiro para montar um paraíso literário daqueles se ele vivia em plantões, escalas e as vezes em estudos clínicos).

No canto esquerdo próximo a janela ficavam os jornais da semana. Foi atropelada no sábado, ficou inconsciente até à tarde de domingo, com os sedativos acordou no meio da madrugada com a mão sangrando, segunda durante o anoitecer ela recebeu as visitas e o elevador despencou; depois disso ficou lá mais três dias, terça, quarta e a manhã de quinta. Olhando os exemplares que se acumulavam com os dias, ela sentiu seu peito apertar e os olhos marejarem – parecia que meses atrás havia se acidentado, mas ao mesmo tempo era como se tivesse acabado de ouvir o impacto e as explosões nas quais ele morreu.

Ignorando os pensamentos tristes e a dor que lhe tirava o fôlego, ela pegou as folhas cinzentas e voltou ao próprio quarto.

Nojento. Asqueroso. Torturante. Nauseante. Adjetivos múltiplos resumiam a tarefa de enrolar o corpo – no qual já brotavam larvas vindas sabe-se lá da onde – nos papéis e coloca-lo no saco de lixo. Depois de terminar essa parte da tarefa, ela precisou refazer a barreira molhada contra os odores mais fortes e se lançou a uma medida extrema.

Ajoelhada diante da cômoda de seu irmão, ela abriu a terceira e penúltima gaveta, tirou os abrigos esportivos e checou o depósito de guloseimas dele; no geral nunca mexia nas besteirinhas que ele estocava, mas ela tinha passado por muito para se permitir algo como escrúpulos fraternais. Tirando um chocolate de dentro, abriu com pressa e o olhou por uns segundos. Ao invés de destacar um tablete, fincou os dentes com ferocidade e pôs-se a mastigar feliz a delícia meio amarga com creme de avelã no meio.

Sem dúvida alguma, ela merecia.

Comeu a barra inteira, levantando-se do chão do quarto dele antes que começasse a se arrepender e voltou para o banho de sangue na pia que precisava limpar. Na verdade, comparada à experiência de tirar o bicho do caminho, limpar era fácil e até mesmo terapêutico.

Tomando o cuidado para não fazer algum barulho exagerado e fechando a porta do quarto para comprovar que estava tirando uma soneca e ao mesmo tempo impedindo que o cheiro forte vindo das combinações de vários produtos impregnasse o resto da casa, ela tentou molhar o máximo possível em volta da pia sem deixar a coisa fugir de seu controle – afinal de contas, esqueceu-se completamente de pegar um rodo para arrastar a água.

Com o esfregão e o banho químico praticamente letal criado ali, ela começou a limpar a pia, o espelho e os azulejos, tentando não raciocinar muito enquanto executava a árdua tarefa.

Quando terminou, despejou o conteúdo do balde ralo abaixo e arrumou tudo para guardar na área de serviço – se segurando pra não vomitar, ela pegou a sacola com o lixo, vulgo coruja estripada e em estado avançado de decomposição, e abriu a porta cautelosamente.

Antes que o cheiro horrível denunciasse que carregava algo podre pela casa, andou o mais rápido que podia sem cada passo seu ecoar como uma manada pelo piso de madeira; desceu as escadas com a apreensão ao máximo, degrau por degrau, mal suportando o cheiro que provavelmente iria ficar nas suas roupas. Pelo som, sua mãe continuava na sala vendo televisão, mas também era possível que a mulher estivesse preparando um outro lanchinho na cozinha ou algo do gênero, e se tinha uma coisa que Raven queria evitar mais que tudo, era ter de responder a todo e qualquer tipo de pergunta – para todos os efeitos, ela estava tirando uma soneca e ponto final.

Na entrada da cozinha, ficou na ponta dos pés (sem nenhum motivo aparente) e esticou a cabeça lentamente, constatando que não havia obstáculos ou empecilhos. Sua vontade era a de tacar o bicho morto com tudo e correr pro quarto, mas tão perto assim da sala não podia se dar ao luxo de chamar a atenção – razão pela qual continuou no passinha manso até seu destino.

Colocou o balde num canto e nem se deu ao trabalho de tirar a coleção tóxica dos produtos mais fortes da casa de dentro dele; colocou o saco de lixo junto com os outros cuidadosamente, não escondendo sua repulsa – Julia provavelmente iria achar que deixaram comida estragar novamente ou algo assim, e apesar de ser médica era nojenta demais para certos assuntos, de modo que confiava que o animal continuaria intacto dentro da sacola. Ou tão intacto quanto ficou depois de ser retalhado.

Voltou para o quarto no mesmo estilo “espiã”, embora mais aliviada por ter se livrado de qualquer resquício daquela cena horrenda e macabra no seu banheiro; fechando a porta novamente, não hesitou um segundo antes de se despir e correr para um banho relaxante e com a maior quantidade de óleos perfumados e espuma possíveis – a menina tinha a impressão de que iria sentir cheiro de carniça e ferrugem por semanas.

Apesar de já ter passado dias do acidente, seus esfolados tinham apenas casquinhas sensíveis que partiam e sangravam por qualquer motivo, além de grudarem no tecido. O esforço de esfregar o sangue fez com que muitas rompessem e as feridinhas eram pontadas consideráveis, mas não o suficiente para tira-la da linha de pensamentos em que se encontrava.

Nos últimos tempos, mais precisamente desde que Keane lhe dirigiu a palavra pela primeira vez, as coisas andavam estranhas, macabras, inexplicáveis; podia ser tudo coincidência, paranoia ou uma esquizofrenia se manifestando, mas ela tinha certeza de que não estava bem; se chegava ao ponto de ser chamada de louca era uma incógnita, porém sabia que precisava de ajuda – já quem a ajudaria era outra questão em aberto.

Se ao menos a estranha menininha azul fosse mais solidária e abrisse de uma vez o bico, seria tudo ridiculamente mais fácil de lidar nessa fase sobrenatural de sua vida (porque a esta altura dos acontecimentos, duvidava que a estranha aparição não soubesse de algo). No entanto, tinha que permanecer no escuro, lidando com cada charada, cada sonho, cada risada cruel dela, cada susto horrendo que tomava...

Tudo tão ruim que ela até esquecia das horas incomuns e ao mesmo tempo lindamente sublimes que teve ao lado de Keane mais cedo.

Bom, pelo menos por alguns segundos.

O mais estranho era que não fazia o menos sentido: havia tantas garotas, mais céticas, atléticas, inteligentes, bonitas, talentosas, bem relacionadas... tudo que ela fez foi tentar descobrir o que o garoto pelo qual ela pode ou não ter uma queda faz durante suas tardes.

E agora seu cotidiano continha uma quantidade de sangue maior do que ela gostaria.

Bufou impaciente e olhou para si mesma, um corpo escondido sob uma extensa camada de espuma branca, fofa e tão cheirosa que chegava a causar irritação no nariz. Se enxaguando – o que era basicamente um misto de “ah, como água quentinha é uma delícia” e “argh, odeio tirar sabonete de machucados, isso dói pra...” – ela desligou e se enrolou na toalha, deixando a mesma frouxa o suficiente para os fiapos não grudarem nas casquinhas de suas costas.

Olhou pela janela e viu que o céu já estava escuro, voltou seus olhos para o relógio e, realmente surpresa, constatou que já passava das sete e meia da noite. Mas no fundo foi um dia tão corrido que nem parecia que havia saído do hospital pela manhã.

Achando prudente descansar de modo decente, pegou uma camisola – na verdade, uma regata gigante de John que ele não usava e ela roubou para si – e foi fechar a janela; nos galhos perto de seu quarto, pelo menos umas seis ou setes corujas estavam empoleiradas soltando ocasionais pios baixos, todas de porte corpulento e olhar penetrante como a que invadiu seu quarto e morreu sabe-se lá como.

Sim, ela evitava pensar em quem teria deixado o bicho naquele estado.

Ignorando propositalmente de as aves estarem todas ali e não nos galhos mais distantes ou nas árvores vizinhas, ela fechou a janelas com os olhos cravados em qualquer movimento suspeito delas – lembrando que eram mais de meia dúzia de aves de rapina que poderiam cega-la ou arrancar seus dedos – e passou o trinco com vontade, se certificando que por ali nada entraria.

Com o cômodo mergulhado na escuridão, ela se enfiou nas cobertas e fechou os olhos, relaxando músculo por músculo e curtindo aquele casulo quentinho que havia feito enquanto esperava o sono vir; talvez apenas para estragar a sua felicidade, a maldita palhacinha surgiu ao seu lado, sentada no ar de pernas cruzadas como um índio, exatamente do mesmo modo que no hospital. Raven a encarou furiosa.

-Vou ter sonhos bizarros? – a outra nada disse, apenas meneou a cabeça em negativa.

A menina bufou e ignorou a outra; pouco a pouco, suas pálpebras começaram a pesar, e sua vista ficou cada vez mais embaçada. Os pios dos animais do lado de fora se intensificavam, embalando-a como numa canção de ninar. E sob os atentos olhos azuis da menina, ela dormiu.

Com a certeza de que se ela estava ali, seu amanhã seria péssimo.

Notas finais
Raven ficou paranoica: sim ou sem dúvidas?!
Coitada, a bichinha ainda vai sofrer viu...
Beijos!! (*--*)//