Underneath the Tree

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Essa fanfic não tem a intenção de ser a melhor fanfic de natal do universo, pelo contrário, é apenas o fruto de uma vontade da autora que vos fala e que quis apenas aproveitar a história sem uma grande pressão ou expectativas.
As músicas mencionadas são muito queridas por mim e as deixarei abaixo (em ordem de aparição) para que possam escutá-las durante a leitura caso sintam vontade!
Desde já, obrigada por estar dedicando um pouquinho do seu tempo com a minha história e um feliz natal!

❆ Jingle Jingle (4minute ft. Mario e Amen) - https://youtu.be/DI3P0ATq97U
❆ Underneath the Tree (Kelly Clarkson) - https://youtu.be/EM2Fnp_qnE8

Um impulso e de repente era como estar em casa. Era calmo, silencioso e profundo. Não havia com o que se preocupar ali. O azul cobria a vista, tranquilizando-o, e a água ao redor envolvia o corpo confortavelmente como uma roupa quente durante o inverno. Mergulhar era como atravessar um portal: num segundo estava no mundo caótico que todos compartilhavam e no outro estava ultrapassando a linha tênue que o levava a seu próprio universo.

Por longos segundos o corpo deslizou completamente coberto pela água. Não estava fundo suficiente para que a pressão surgisse no ouvido, mas mesmo assim não escutava quase nada que pudesse acontecer do lado de fora. Havia se desconectado da superfície. Quando subiu, no entanto, os estímulos visuais ao redor continuaram insignificantes; tudo o que lhe importava era a água. Shownu subiu o braço direito e rodou o ombro até que a mão entrasse novamente na piscina, cavando a água de modo a se impulsionar para frente. Quando uma mão descia, a outra subia, transformando as batidas dos braços em remos sincronizados. A cada sequência o rosto girava o suficiente para que a boca inspirasse o oxigênio. Era simples, mas ao mesmo tempo exigia de si tudo o que tinha.

Não contou as braçadas ou as respirações enquanto atravessava os primeiros vinte e cinco metros da piscina porque achava irrelevante; estava ali para limpar a mente das obrigações, ter o seu tempo em uma das coisas que mais amava e que, por vezes, deixava de lado devido aos horários cheios, todos ocupados com os compromissos de carreira. Quando se aproximou da parede, abaixou o queixo na direção do peito e empurrou o corpo para baixo, realizando uma cambalhota na água que tinha a medida perfeita para bater os pés no ladrilho gelado da piscina. O impulso gerou velocidade e enquanto deslizava pela água Shownu apreciou o descanso até o momento em que precisou usar os músculos novamente.

Entre o interior e o exterior da água, o garoto de cabelos escuros movia mãos e pernas em um ritmo constante, a cabeça ainda virando em intervalos regulares para que o ar soprasse aos pulmões. Foi em uma dessas vezes em que o rosto saiu da água que Shownu percebeu não estar mais sozinho no clube. Um par de tênis branco com chamativos bordados de vermelho e verde se movia pela borda da piscina, os passos mantendo a mesma velocidade que ele usava para avançar pela água. Sem perder o sapato de seu campo de visão, o rapaz colocou mais força nos membros e aumentou o ritmo. Era cansativo, mas a sensação de ser observado por um suposto estranho pesava na balança, fazendo com que quisesse chegar logo ao fim do trajeto que estava determinado a cumprir.

À medida que o final da piscina se aproximava, o dono dos sapatos apressava o passo até que Shownu o perdesse de vista. A sensação de desconforto cresceu durante as últimas braçadas, mas enquanto as realizava, de algum ponto já na parte mais estreita da piscina, um som encheu os ouvidos do nadador.

— E Son Hyunwoo termina a prova em primeiro lugar! Tragam a medalha de ouro! — A voz berrou na extremidade da piscina e ecoou pelas paredes frias e azulejadas, acabando por completo com a paz do ambiente.

Shownu apoiou os braços na beirada da piscina e limpou o rosto antes de olhar para cima e ver finalmente o dono dos tênis que o seguiu de longe durante os últimos vinte e cinco metros da piscina. Era Minhyuk.

— O que faz aqui? — Perguntou com a curiosidade estampada no rosto.

— Vim me despedir, é claro. — O mais novo respondeu como se fosse óbvio. — Não está gelada? — Ele apontou para a imensidão azul na qual mais da metade do corpo do líder ainda estava mergulhado.

— Não, é climatizada. — Shownu respondeu mesmo que achasse aquilo lógico demais e em seguida apoiou o corpo na borda da piscina e se impulsionou para cima. De pé, a mudança de temperatura começou a ficar cada vez mais evidente.

— Quando acordei achei que você já tinha ido pra casa dos seus pais, mas o Kihyun disse que tinha vindo nadar. — Minhyuk disse à medida que o mais velho caminhava até alguns bancos e pegava uma toalha para secar o rosto. Parecia uma ideia louca nadar no meio do inverno mesmo que a água em questão fosse – como o próprio líder disse – climatizada.

— Se acordasse mais cedo não precisaria vir até aqui se despedir. — Shownu disse, mas seu comentário passava longe de ser uma repreensão. Sabia mais do que qualquer um o quanto todos mereciam mais momentos de descanso.

— Não faz mal! — Deu de ombros. — É no meu caminho pra casa. Além disso, eu não iria trocar meus minutos de sono por uma despedida. — Minhyuk tinha um sorriso divertido no rosto, mas Shownu estava de costas para conseguir enxergar.

O líder passou a toalha no corpo e seguiu para o vestiário com o visitante o seguindo de perto. Uma vez dentro de uma das cabines, o cantor trocou a bermuda de natação por grossas camadas de roupas típicas do último mês do ano.

— Jooheon saiu enquanto eu ainda tomava o café. E Changkyun e Hyungwon estavam pegando as bolsas para ir embora quando eu vim para cá. — Minhyuk noticiou enquanto esperava do lado de fora da cabine, acrescentando os detalhes de que Hyungwon e IM haviam ido juntos para a província de Kwangju, mais ao sul do país. — Acho que os managers combinaram, já que são do mesmo lugar. Hwang hyung não ia poder levar o Changkyun. — Acrescentou os detalhes enquanto a porta da cabine se abria e Hyunwoo saía bem mais vestido do que havia entrado; não havia mais nenhum centímetro de músculo à vista.

— E Kihyun? — Shownu perguntou sobre o único membro do grupo cujo destino não havia ainda sido narrado por Minhyuk.

— No dormitório.

— No dormitório? — Shownu perguntou retoricamente, o rosto parcialmente coberto pela toalha que esfregava nos fios curtos do cabelo. — Ele não deveria estar indo para Goyang?

— O manager teve um imprevisto.

— Também? — A sobrancelha do líder estava arqueada de curiosidade.

— É. — Minhyuk moveu os ombros. — Você sabe, hyung, é véspera de natal. Todo mundo fica ocupado.

— E ele não vai para Goyang? — Shownu perguntou, a toalha deixando os cabelos e sendo empurrada para dentro de um saco plástico que em questão de segundos estava sendo enfiada dentro da mochila.

— Vai, só vai sair um pouco mais tarde. — Minhyuk respondeu enquanto ouvia o barulho do zíper se fechando. — Eu até chamei ele para ir para minha casa no caso de o manager não o conseguir levar, mas aparentemente eles só vão se atrasar mesmo.

— Pelo menos a viagem não dura mais do que uma hora. — O líder puxou a mochila para um dos ombros e ajeitou os braços nas alças de tecido escuro.

— É, ele chega a tempo. — O mais novo concordou, seguindo novamente Hyunwoo pelo clube de natação enquanto este saía do vestiário e desaguava no espaço da piscina.

Enquanto andavam, uma sequência de sons agudos surgiu abafada de algum ponto próximo à Minhyuk. Ele enfiou a mão no bolso do grande casaco verde musgo e tirou o celular, cuja tela brilhava a cada nova notificação.

— O manager. — Explicou enquanto apertava o botão de bloqueio na lateral do aparelho e fazia um comentário aleatório sobre os minutos terem passado rápido demais. — Se eu demorar muito mais ele me deixa para trás!

— Ele está aí?

— Urrun! — Minhyuk balançou a cabeça mais vezes do que o necessário. — Ali fora, no carro.

— Então você deveria ir logo.

— É, eu ‘tô indo! — O mais novo falou enquanto se aproximava das cadeiras mais próximas da saída da área da piscina. De cima de uma delas, sacou um copo cilíndrico de uma caixa, deixando um circulo vazio no apoio de papelão. — Eu comprei enquanto vinha pra cá, achei que se o hyung estava na água então seria bom ter algo para aquecer quando saísse, mas acho que a essa altura já esfriou. — Minhyuk estendeu o café na direção do líder, fazendo com que o aroma doce se espalhasse no ar por um breve instante.

Shownu agradeceu à bebida com um sorriso no rosto, mas não teve tempo de tomar um gole sequer antes que um Minhyuk eufórico estivesse passando os braços ao redor de seu corpo para um abraço inesperado.

— Feliz natal, hyung! — O mais novo disse, a animação voltando à voz.

— Feliz natal, Minhyukie! — Shownu devolveu, retribuindo ao abraço de uma forma meio torta, uma vez que a surpresa o deixava numa posição estranha.

— Você vai direto para casa? — Perguntou tão logo quanto se separaram. Em seu bolso o celular voltava a fazer barulho.

— Não, minha bolsa está no dormitório. Tenho que passar lá primeiro. — Shownu disse, os olhos naturalmente estreitos se voltando para o casaco barulhento de seu dongsaeng.

— Ah! — Minhyuk exclamou parecendo decepcionado em não poder conversar um pouco mais. — Bom, eu tenho que ir ou...

— Vai ser deixado para trás. — Shownu completou.

— É... — Minhyuk rolou os olhos. Não era do tipo que ficava feliz com socializações frustradas. — Bom, até mais! — Disse, a palma erguida em um último adeus enquanto se aproximava da saída e cruzava o portal de concreto para fora da área de piscina.

Shownu o olhou ir embora de onde estava, o café ainda em uma das mãos esquentando um pouco a palma. Ele experimentou um gole e sentiu o gosto morno preencher o paladar com sutileza. Certamente a bebida não o aqueceria, mas era uma ótima opção para colocar algo no estômago enquanto voltava ao dormitório.

❆❆❆

Havia uma sensação de paz nas ruas cheias de neve. O tapete branco que cobria calçadas e parte da rua não tornava o cenário frio e sem vida, pelo contrário, proporcionava um aspecto alegre à cidade, talvez porque era acompanhada das decorações nas vitrines de lojas e as luzinhas piscantes enroladas em árvores e postes.

Shownu jogou o copo de café em uma lixeira e virou uma esquina, saindo da avenida principal de Seoul e recebendo um silêncio maior à medida que avançava pelas ruas secundárias da capital. A decoração parecia menos vibrante a cada novo passo, embora festões vermelhos ainda se prendessem acima de algumas portas e meias vermelhas flutuassem por trás dos vidros de algumas janelas.

Particularmente ele achava que a cidade ficava mais bonita no natal, mas talvez um amante daquela época do ano fosse suspeito demais para opinar.

O rapaz andou pelas ruas apendiculares a passos constantes, as mãos nos bolsos do grosso casaco sendo uma forma de aquecer a ponta dos dedos na falta de uma luva. Quando chegou ao dormitório e entrou no elevador, levou as mãos à boca e soprou um pouco de ar quente para aquecer a região.

À porta, Shownu pressionou a senha duas vezes antes de conseguir entrar. Não sabia o que tinha feito de errado na primeira tentativa, mas estava quase acostumado a nunca conseguir entrar de imediato.

Quando destravou a entrada e desaguou no hall, o rapaz deixou a mochila no chão e trocou os tênis por pantufas. O casaco de inverno foi pendurado em um dos ganchos na parede e, sentindo-se mais leve, seguiu do pequeno corredor em direção à sala.

— Você está aqui. — Shownu disse um segundo antes de Kihyun se virar em sua direção e produzir um som de concordância com a garganta. — Minhyuk disse que você ia sair mais tarde hoje.

— É, o manager teve alguns problemas então vamos nos atrasar. — Kihyun respondeu enquanto se voltava para a grande árvore em sua frente.

— Onde conseguiu isso? — O mais velho perguntou, os olhos mais estreitos do que o normal.

Ele avançou alguns passos pela sala e se sentou no único sofá livre de decorações espalhadas. Era estranho que para alguém como Kihyun, a bagunça tenha sido estabelecida – mesmo que temporariamente – na casa.

— Estava no armário da entrada. Fechada parece quase uma enorme sombrinha verde. — Kihyun ergueu a mão que segurava um anjo dourado e prendeu a cordinha em um dos muitos galhos livres.

— Isso explica porque eu nunca vi. — Shownu deu de ombros. Nada com a aparência de uma vareta grande no canto de um armário seria algo a chamar sua atenção.

— Eu estava sem nada pra fazer e pensei que deveríamos decorar a casa... Ou eu deveria. — A correção veio automaticamente após uma breve reflexão sobre ser o único no dormitório pelas últimas horas.

— E uma meia ou um pisca-pisca na janela não é o suficiente?

— A árvore é o maior símbolo do natal, hyung. — O mais novo explicou. — E ainda tem espaço para os pisca-pisca na janela. Já que está aqui, deveria ajudar.

— Faltam algumas horas para o natal e...

— Exatamente. — Kihyun interrompeu porque imaginava o que viria a seguir. — Faltam algumas horas, isso quer dizer que ainda temos tempo para decorar.

Shownu pensou em debater por um instante, mas não era o tipo de “irmão mais velho” que estragava os planos de seus dongsaengs. Levantou-se do sofá com um suspiro ao sentir os músculos reclamarem um pouco de cansaço depois do esforço contínuo na piscina e pegou um ninho de fios com pequenas lâmpadas coloridas de dentro de uma caixa sobre o outro sofá.

— Minhyukie foi ao clube? — Perguntou Kihyun com parte da atenção voltada ao mais velho.

— É, ele disse que queria se despedir. — O líder respondeu enquanto desenrolava os fios.

— Ah... — Os olhos do rapaz desviaram das costas do mais velho e voltaram para os galhos verdes da árvore de natal. Aquilo o incomodava. Não a proximidade e a visita de Minhyuk ao clube para ver Shownu antes de partir, mas talvez sua naturalidade em o fazer. Em seu caso, por exemplo, teria engolido o desejo por uma despedida e fingido que aquilo não era importante para si.

O silêncio os envolveu pouco depois, embora não tenha sido desconfortável pelos primeiros segundos enquanto ainda não haviam percebido a “morte” do assunto. Seria muito mais fácil manter uma conversa se algum outro membro estivesse ali, afinal Shownu estava distraído demais em pendurar o enfeite na janela e isso o deixava mais calado do que o habitual.

Seguiram os dois então no mesmo cômodo, no mesmo objetivo, mas numa sintonia totalmente diferente. Cada um em sua tarefa de decorar a casa, um distraído e o outro pensativo. Quando uma voz cortou o silêncio, parecia que não escutavam nada há séculos.

— Por que tinha uma árvore tão grande no armário? — A pergunta de Shownu foi retórica, já que em sua cabeça nada justificaria ter algo daquele tamanho no dormitório de seis pessoas que sequer pareciam se lembrar de decorar a casa no natal.

— Acho que um dos managers deixou aqui depois do último natal. Provavelmente era melhor tumultuar nosso armário do que o da própria casa. — Kihyun deu de ombros. Não era uma reclamação, afinal agora tinham uma árvore.

Shownu produziu um ruído de compreensão com a garganta e mergulhou no silêncio para terminar de pendurar os fios com luzes coloridas na janela.

— Se terminou aí, então tem mais pisca-pisca naquela caixa. — Kihyun cortou o silêncio com uma nova ordem, seu dedo apontava para um objeto de papelão com uma das abas abertas.

— Vai precisar construir mais janelas então. — O mais velho comentou ao se aproximar da árvore.

— Tem a dos quartos.

— É meio tarde pra querer decorar tudo, não acha? — Rebateu. — E tem coisa inacabada aqui, então... — À medida que falava, Shownu pegava uma bola colorida e a erguia para um dos galhos.

— Mas não precisa. Eu já estou quase acabando. — Kihyun rebateu, o misto de autossuficiência e perfeccionismo transbordando em cada sílaba.

Shownu revirou os olhos em silêncio. Acreditava que para um bom entendedor meia palavra bastava. Ele enfiou a mão no bolso da calça e retirou o celular. O dedo deslizou pelo bloqueio de tela e o aplicativo de música preencheu o display, atiçando a curiosidade de Kihyun que parecia ter notado a movimentação pela visão periférica.

— O que está fazendo? — Questionou, a voz um pouco suave já que a “culpa” por expulsar Hyunwoo da tarefa com a árvore começava a pesar.

— Procurando uma música. — Shownu deslizava os dedos pela tela do celular, os olhos atentos nas músicas que apareciam na playlist natalina.

— Vai colocar uma música?

A resposta silenciosa do líder foi um olhar. Não queria ser grosseiro, mas a pergunta do mais novo era um tanto desnecessária.

— Devíamos fazer uma música de natal. — Shownu continuou. Um segundo depois, apertou o dedo sobre uma faixa com título em hangul.

Um som abafado começou a sair do auto falante e menos de dois segundos depois uma voz masculina introduzia o clima natalino.

— Jingle Jingle? — Kihyun perguntou, reconhecendo a faixa.

Shownu respondeu com um balanço da cabeça antes de começar a cantar os primeiros versos da colaboração entre Mario & Amen com o 4Minute. Houve uma performance meio cômica no espaço da sala às costas de Kihyun, mas para o líder ficava claro que não era o único se divertindo com a mudança repentina no clima do dormitório.

— Por que não para um pouco e vamos escutar música?

— Eu posso escutar música enquanto decoro a árvore. — Kihyun rebateu.

— É claro que pode. — O leve tom de ironia não pôde ser disfarçado na voz do líder. — Mas não morreria com uma pausa. — Completou antes de voltar a atenção para a playlist e rolar as faixas até escolher a nova música. Assim que a selecionou, o rapaz deixou o objeto sobre o braço do sofá para que as mãos ficassem mais livres.

Um suave som de campainhas começou a escapar do celular de Shownu, todas produzidas por notas de teclado que se sucediam num ritmo doce e animado. Depois de quatro segundos o tom-tom da bateria se juntou à melodia, produzindo uma ponte de surpresa que terminou com a voz feminina começando a canção com uma nota aguda.

Os primeiros versos denunciavam o compasso e pelo sorriso no rosto de Kihyun, o líder sabia que a música havia sido reconhecida. Mas como não reconheceria? Underneath the tree podia não ser a primeira música que as pessoas citavam quando pensavam no natal, mas para alguém que estudava tanto a música quanto o vocalista principal do grupo, não era uma surpresa que ele soubesse sua letra de cor.

Shownu começou a balançar o corpo, os lábios se movendo junto aos versos do refrão apesar de pouco som sair de sua garganta. Não estava verdadeiramente cantando, pelo contrário, era uma dublagem meio exagerada enquanto ele se preocupava mais em seguir no compasso das batidas com uma dança limitada a se mexer de um lado para o outro. Se estivesse exagerando muito, poderia até dizer que estava fazendo um cover de Carlton Banks em sua dança lendária.

Enquanto dançava, o líder se aproximou de Kihyun e lançou um olhar de convite ao mesmo, mas não obteve resposta. Àquela altura parecia estranho que o garoto ainda tivesse seus picos de timidez. Shownu estendeu a mão e pegou na dele, puxando-o para um espaço mais distante da árvore. Não houve resistência daquela vez, na verdade o gesto pareceu gerar alguma confiança no mais novo que começou a cantarolar as primeiras estrofes da música enquanto seguia o ritmo da dança.

Chegava a ser engraçado que apesar do mau jeito proposital da coreografia, Kihyun ainda se esforçasse para manter sua dignidade encaixando as notas corretamente. Ele sabia que não havia ninguém ali? Nenhuma plateia ou professor de canto para vê-lo desafinar? Apesar do mais velho saber a resposta, estragar o clima da música com alguma mudança de humor do vocalista parecia um preço alto demais a pagar por um comentário como aquele.

— I found what I was looking for... — Kihyun saiu do refrão para a segunda parte da música. — Sua vez, hyung! — Ele se apressou em dividir os versos no breve intervalo entre o fim de uma frase e o começo de outra.

— A love that's meant for me... — Shownu completou meio perdido no tempo. Não estava esperando fazer parte da cantoria.

— A heart that's mine completely. — Kihyun tomou as rédeas da canção novamente, colocando-a na sintonia certa. Teria sido uma nota estendida perfeita se seu parceiro de dança não tivesse distanciado os corpos e depois o puxado para rodar de volta para si.

— Knocked me right off my feet. — O líder cantou o outro verso com a voz engasgada pelo riso.

Kihyun não tinha o olhar mais assustador do mundo naquele momento – talvez pelo clima de natal –, mas ainda ficava claro seu descontentamento com o último passo de dança quando cantou o novo verso:

— And this year I will fall.

— With no worries at all. — Shownu completou.

— 'Cause you... are near... and everything's clear. — Kihyun abaixou a voz à medida que cantava a frase, parecendo repentinamente constrangido com a letra. Não era como se ele tivesse pensado muito sobre os versos quando sugeriu o dueto.

— You're all I need. — O mais velho continuou e num gesto bem simples ergueu o braço que tinha as mãos dadas com o vocalista e o enrolou contra si, as costas de um no peito do outro.

Cantaram juntos o último verso e seguiram pelo refrão com muito menos atenção na afinação do que antes. Shownu puxou o outro braço de Kihyun e de repente era como se fosse uma camisa de força para o mais novo, já que suas mãos estavam cruzadas nos lados opostos. O mais velho continuou balançando, o rosto meio de lado para que os lábios não acabassem provando os fios de cabelo do menor que apesar de não se mexer muito, ainda balançava no mesmo ritmo.

Ninguém poderia dizer se Kihyun ainda dançava por vontade ou por conveniência. Certamente estar de costas para o mais velho facilitava esconder o rosto tão vermelho quanto uma das bolas que havia pendurado no galho da árvore, mas se esse era o único motivo, não sabia dizer. Fazia tempo que as respostas não pareciam mais tão simples e as perguntas eram cansativas de mais para que investisse muito tempo nelas. Naqueles momentos, Yoo Kihyun concordava sobre a ignorância poder ser uma benção.

Dançaram juntos daquela mesma forma por algum tempo até que o som do saxofone começasse na música, dando fim a mais um refrão. Com a falta de letra naquela nova parte da canção os dois rapazes dedicaram sua total atenção à dança. Shownu soltou uma das mãos de Kihyun e puxou a outra o suficiente para que ele rodasse no próprio eixo, desvencilhando-se do mais velho.

Moveram-se de um lado ao outro juntos enquanto mantinham as mãos juntas, mas levou quase o trecho inteiro do instrumental para que o menor conseguisse olhar no rosto de seu hyung. Como poderia depois de se embaraçar com aquela letra, afinal? A pergunta foi facilmente respondida quando um sorriso apareceu nos lábios do líder. Talvez ele estivesse absorto demais no momento para ter reparado os versos, talvez tenha reparado e não achado que era motivo para ficar envergonhado. No segundo caso, no entanto, Kihyun se perguntaria se era porque o mais velho não fizera a devida interpretação da letra, se ele simplesmente não tinha motivos para se importar com os versos ou se simplesmente era porque achava melhor esconder a vergonha.

Secreta e interiormente o vocalista temia a segunda opção e sentia seu estômago revirar com a última possibilidade. Ele se fez as perguntas e ansiou as respostas daquela vez, mas essas não chegaram. Era tímido demais para agir rápido e colocar sua mente e boca para trabalhar em conjunto na busca pelos esclarecimentos, ao contrário de Shownu que àquela altura já o estava conduzindo de outra forma mais divertida pela sala.

Dançaram pelo espaço que tinham, despreocupados com o mundo ao redor. Talvez não precisasse de resposta para nada. Não naquele momento. Talvez fosse sair muito mais feliz daquela música se apenas a aproveitasse como merecia. E aproveitou. Kihyun deixou que o corpo cedesse por completo ao som junto de Shownu e quando as últimas notas chegaram o desejo íntimo de recomeçar surgiu no interior de ambos. Haviam se aproximado novamente em algum ponto próximo ao fim, então quando o silêncio pairou pela sala, havia duas pessoas estáticas próximo à árvore de natal, uma de frente para a outra.

A inércia e a escassez de som tornaram-se incomodas depois dos primeiros dois segundos de contato visual. Kihyun desviou os olhos primeiro e o mais velho o copiou, olhando para a árvore como se estivesse interessado em seus galhos verdes.

— Você me atrapalhou ali. — Kihyun acusou um segundo antes de se abaixar e pegar um pingente dourado da caixa de decorações.

— Na verdade eu te ajudei. Você estava levando muito a sério. — Shownu respondeu enquanto pegava uma bola vermelha de um galho na altura de seu ombro e a movia para um ponto mais no alto.

Kihyun não sabia como receber a informação e de repente mais perguntas surgiram. O que estava levando muito a sério? A dança? O canto? A letra...? A última possibilidade o incomodou. Isso queria dizer que Shownu o atrapalhou como uma forma sutil de dizer que levar a composição a sério era algo fora de cogitação ou...

— Não devia colocar tudo no mesmo lugar. — O mais velho disse, interrompendo o fluxo de pensamentos do vocalista.

Kihyun não respondeu, mas por instinto segurou o pingente com firmeza na mão quando Shownu tentou tomá-lo para si.

— Não vai me dar? — Hyunwoo tinha uma sobrancelha arqueada.

— Como? — O menor perguntou surpreso.

— Solta o pingente, vou colocar mais em cima.

— Não. — Kihyun apertou mais o objeto. — Pega outro na caixa.

— E o que isso muda? Você já encheu a parte de baixo, vamos ter que mover qualquer outra decoração mais para cima, seja esse pingente ou outro da caixa.

— Ya! — Kihyun protestou informalmente. Não gostava daquela história de ser o mais baixo do grupo.

— Ya? Devia me agradecer por aparecer e te ajudar. — Shownu já tinha tirado o pingente da mão do rapaz e o prendia em um galho acima da cabeça. — Você parecia muito soturno para alguém no clima de natal. — Continuou quando o menor não fez qualquer comentário sobre a ajuda.

— Eu não estava não! Eu estava empenhado em decorar a árvore.

— Ainda acho que devia ter colocado uma música enquanto fazia isso. Está sozinho no dormitório, afinal!

— Estava. — Kihyun corrigiu enquanto pegava outro objeto na caixa.

Shownu concordou com um som simples escapando dos lábios, não chegando a ser uma palavra em específico.

— Isso quer dizer que devíamos escutar mais música. — O líder disse e girou nos calcanhares.

Quando deu as costas para a árvore e avançou alguns centímetros na direção do celular, Kihyun repentinamente se pegou pensando em mil coisas. Música não parecia uma boa opção depois da última experiência... Ou talvez fosse, se não levasse em consideração que isso poderia coloca-lo numa situação tão intrigante quanto da última vez.

— Anyo! — O menor disse e de forma automática sua mão segurou o pulso do mais velho e o puxou.

O líder que estava na troca de um passo viu seu corpo sem apoio se desequilibrar e pender. Ele tentou recuperar a postura, mas chutou a caixa de decoração durante o ato e cambaleou um pouco até conseguir se endireitar. Quando parou não estava em cima de Kihyun como geralmente acontece nos filmes, mas estavam próximos e de frente um para o outro novamente, como quando a música acabou.

Os dois se olharam e por mais que o vocalista sentisse a maçã do rosto esquentar, não conseguiu encerrar o contato naquele momento. Queria xingar, queria colocar seu modo raivoso para jogo, mas o clima natalino parecia deixa-lo mais tímido e tranquilo... Se é que era mesmo o natal que o estava deixando assim. No momento, Papai Noel parecia uma boa pessoa para culpar.

— Viu? Soturno. — Shownu disse, a voz dois tons mais baixa.

Kihyun moveu a cabeça em negação, temendo que falar denunciasse sua insegurança.

— Não parecia odiar aquela música.

— Não odeio. — O mais novo respondeu antes que freasse a própria língua atrás dos dentes. — Mas o silêncio está bom.

Shownu sorriu de canto. Deveria ter pensado antes que para pessoas que viviam cercadas de outras companhias, um dormitório silencioso era quase um presente dos deuses. Ele mesmo não havia ido procurar por essa calma mais cedo na piscina?

Um aceno positivo foi a confirmação de que entendia e a falta de conversa que se seguiu mesclava o conforto e o desconforto. Era bom não ter a obrigação de colocar para fora qualquer coisa boba ou a complexidade dos pensamentos, por outro lado era ruim ter nada além do rosto do outro para olhar.

Kihyun estava pensando no que dizer para quebrar aquele mísero segundo de contato visual que parecia uma eternidade quando os traços de Shownu ficaram meio borrados. Primeiro pensou que o chocolate que tomara mais cedo estava fazendo efeito em sua corrente sanguínea, mas depois percebeu que a perda de foco era causada pela aproximação do mais velho.

Ele não entendeu o que aquilo podia significar... Ou talvez, sendo bem honesto consigo mesmo, apenas tentou afastar as interpretações erradas que a expectativa poderia causar.

Não, não era o que pensava. Não era nem lógico pensar. Havia diferença entre realidade e fantasia, ele sabia. Todos tinham o direito de imaginar seus universos mágicos de vez em quando, mas nunca, nem por um segundo, podiam se perder na linha tênue entre o paraíso das ideias e a dura realidade. Daquela vez, no entanto, parecia cada vez mais difícil não atravessar os limites. Não parecia justo que precisasse lutar contra a insanidade enquanto sentia a respiração quente bater no rosto, trazendo consigo o aroma doce e amargo do chocolate quente. Não parecia justo que precisasse lutar contra a insanidade enquanto o corpo de Shownu se aproximava mais, quebrando seu espaço pessoal. Não parecia justo que precisasse lutar contra a insanidade enquanto os lábios do líder tocavam os seus num gesto tão delicado que parecia o carinho de uma pena contra a pele.

Kihyun fechou os olhos como se assim pudesse responder as perguntas confusas de sua mente, mas percebeu, enquanto se perguntava sobre a justiça de sua luta interior, que ao invés de mergulhar na fantasia, a fantasia parecia ter nadado até a superfície. Haviam tantas variáveis que demorou um novo segundo para perceber finalmente que a pressão contra os próprios lábios era física, real. O vocalista abriu os olhos, mas não conseguiu enxergar muita coisa claramente porque estavam perto demais. Temendo encontrar os olhos escuros do líder, apertou as pálpebras novamente, transformando toda a visão em um completo breu.

A escuridão, no entanto, não ajudava. Uma tela em branco era mais facilmente preenchida com imagens, então não levou um segundo para que a mente de Kihyun viajasse, desenhando cenas na frente de seus olhos fechados que acompanhavam perfeitamente o frio na barriga.

Parecia estar caindo. Papai Noel se sentia assim ao entrar pela chaminé? Era como estar numa montanha russa, segurando o fôlego enquanto o estômago afunda durante uma descida brusca. Aquilo era real? Devia ser. O contato dos lábios era palpável demais para que fosse apenas imaginação.

O segundo pareceu uma hora inteira, mas aquele foi o tempo necessário para que Shownu tomasse a coragem de investir um pouco mais. Um lábio moveu contra o outro e um carinho singelo foi oferecido – e recebido – de uma boca a outra. Era sereno. Duvidoso. Doce. Errado. Certo. Confuso.

Não durou muito e tampouco foi algo arrebatador e apaixonado. Foi inseguro e ao mesmo tempo decidido. Era como se soubessem o que queriam e só não soubessem se deveriam ou se seriam correspondidos. Mas foram. Talvez pelo susto, talvez porque estavam em sintonia ao momento e aos sentimentos. De qualquer forma, pensar numa resposta não era exatamente a coisa que mais queriam naquele instante. Às vezes, só algumas vezes, não fazia mal deixar que as mentes fantasiassem o que bem quisessem, perto ou longe da realidade.

Com os rostos pertos e as respirações se cruzando, Shownu abriu a boca para falar, mas ao som da primeira sílaba de uma frase incerta, o barulho da porta sendo destravada o fez automaticamente olhar na direção do corredor que levava da entrada à sala. Kihyun aproveitou a quebra do contato visual para se virar novamente em direção à árvore, escondendo o rubor nas maçãs do rosto.

O silêncio entre os dois membros do grupo foi tão grande que o som de passos ficando cada vez mais perto era facilmente ouvido. Quando parou, mesmo de costas, Yoo soube que quem quer que fosse, havia chegado na sala.

Houve um suspiro pesado e um som de reclamação. Alguém sacudia sacolas.

— A neve apertou lá fora! — A voz de Kim Taeil, o manager, ecoou pela casa. — Achei que todos já tinham ido embora! — Ele se voltou especificamente ao líder.

— Estava fazendo companhia ao Kihyunnie enquanto o hyung não aparecia. Minhyuk disse que ia demorar. — Shownu respondeu. Ao contrário do mais novo, parecia controlar muito bem a cor da face e a firmeza na voz.

— É! É! — O manager mexeu a cabeça. Apesar das roupas grossas de inverno, parecia suado. — Longo dia!

Shownu acenou positivamente, havia entendido que os compromissos pessoais e profissionais na véspera de natal tendiam a crescer.

— Vocês fizeram isso agora? — Taeil perguntou, os olhos estudando as decorações.

— Kihyun fez a maior parte.

— Por isso te chamam de omma. — O manager riu. — Mas estou aqui, então temos que nos apressar ou vou passar o natal no caminho de Goyang para Seul! — Dessa vez Kim estava falando diretamente para Kihyun que ainda insistia em ajeitar – desnecessariamente – alguns pingentes nos galhos do pinheiro artificial.

O vocalista deu a volta na árvore e enfiou o plug do pisca-pisca em uma tomada próximo do rodapé da parede. Imediatamente as cores vibrantes preencheram a sala, produzindo um brilho especial às decorações em meio às folhas de plástico.

— Ficou lindo! — Shownu elogiou. O manager fez o mesmo antes de esfregar as mãos em sinal de pressa.

Kihyun sorriu satisfeito.

— Obrigado, hyung! — Agradeceu ao finalmente desviar os olhos para o líder. Não tinha mais as bochechas tão rosadas, mas encará-lo não era exatamente a coisa mais fácil do mundo. Pelo menos a voz não falhou.

— Ótimo! Mas precisamos mesmo ir! — O manager insistiu, quebrando qualquer oportunidade que os dois mais novos tinham de se constranger ou, numa visão mais promissora, repetir o que haviam feito antes.

— Eu vou pegar minha bolsa. — Kihyun disse com certo desânimo camuflado na voz.

— Você quer uma carona até sua casa, Hyunwoo? — Kim Taeil ofereceu enquanto o vocalista do grupo atravessava a sala em direção aos quartos.

— Ah, não! Eu vou chamar um táxi. Vocês vão por outro lado, então vai ser melhor se não se atrasarem mais. — Shownu desviou o olhar do manager para a árvore. Era bonita, mas não apenas por ser bonita. Era bonita porque haviam feito aquilo juntos. Era bonita porque havia mais do que obrigação natalina em cada pingente colocado.

Distraído, o líder não teria percebido a presença de Kihyun de volta à sala se o mesmo não estivesse lhe chamando de algum ponto bem próximo.

Ele se virou e os olhos caíram ao rosto do mais novo. Seus cabelos agora estavam cobertos por uma touca vermelha que combinava com as camadas pesadas de roupa que vestira para se proteger do frio.

— Feliz natal, hyung! — Kihyun reuniu a coragem que tinha e envolveu a cintura de Shownu em um abraço apertado.

— Feliz natal, Kihyunnie! — O líder retribuiu e, aproveitando a deixa, beijou o alto da testa do mais novo.

— Até semana que vem! — O vocalista sorriu, seus olhos encontrando os do mais velho quando se afastaram.

— Nos falamos à meia-noite! Vou ligar. — Hyunwoo prometeu com um sorriso.

— Então me ligue antes dos outros! — Kihyun praticamente impôs a condição, embora soubesse que dificilmente Shownu ganharia dos outros membros naquele quesito.

Kim Taeil pigarreou num sinal de pressa e Kihyun se virou em direção à saída.

— Feliz natal, hyung! — Shownu desejou ao manager, a mão se levantando num gesto de “até mais”.

— Feliz natal! — Taeil retribuiu ao gesto antes de girar nos calcanhares e seguir Kihyun para a saída.

Sozinho, Shownu sentou no sofá e observou a árvore de natal um pouco mais. Não tinha pressa para se afastar daquele lugar, mas mesmo quando o fez, uns quarenta minutos mais tarde, parte de seus pensamentos ainda permaneceram naquela sala. Embora estivessem ambos indo para casa, era impossível que deixassem para trás o que havia acontecido sob a árvore de natal.

Notas finais
Feliz natal e um próspero ano novo!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!