Notas iniciais
Quero agradecer ao Evanescence, pela sua música "Lithium". Esta me inspirou não só neste capítulo, mas em toda a história.

Não posso negar que os motivos que levaram minha mãe sair de minha cidade natal, Londres, Inglaterra, tenham sido meio estranhas. E não só os motivos, mas tudo que tinha ocorrido em minha antiga casa.

\"Um dia, eu havia voltado da escola e estava fazendo lição de casa na sala de estar em nossa antiga casa em Londres. Começou a chover como sempre, e eu estava com medo de ficar naquela casa sozinha.

\"Eu adorava a minha casa, antes de meu pai ter enforcado-se no sótão. Eu estava tendo sonhos estranhos todas as noites desde então. Minha mãe vinha ver o que havia acontecido comigo, quando gritos que pareciam estranhos até para mim escapavam pelos meus lábios.

\"Naquele dia, minha mãe entrou pela porta, com os olhos arregalados de medo. Ela começou a berrar algo desconexo, como:\' Eles estão vindo. Nós temos que sair daqui\'.

\"Lembro-me de ter ficado apavorada com o modo como os olhos de minha mãe pareciam querer saltar das órbitas, era como se ela estivesse possuída. Por sorte eu não desmaiei.

\"Eu esperei até que ela se acalmasse, mas ela desmaiou. Chamei uma ambulância e ela apareceu alguns minutos depois.

\"Quando minha mãe acordou no leito do hospital, perguntei a ela o que ela queria dizer com \'Eles estão vindo. Nós temos que sair daqui\'. Ela simplesmente não lembrava-se de mais nada, ela só sabia que tínhamos que mudarmo-nos de nossa casa. Nenhuma de nós duas estava confortável, nem seguras lá.

\"Passou-se alguns dias e minha mãe começou a procurar os lugares para onde poderíamos mudar, ao que parecia, ela queria sair do país. Voltar para onde ela morava, Romenia.

\"Ela veio contar-me que havia conseguido uma casa em Constança, bem perto da casa de meus avós e mudaríamo-nos para lá dentro de alguns meses.\"

Hoje, quando acordei de madrugada, um vento frio escapava pela minha janela. Tentei, sem sucesso fechá-la, mas a janela estava emperrada. Estava chuvendo forte e algumas gotas escapavam pelas frestas e molhavam as tábuas de madeira no chão. Eu fui até o interruptor e liguei a luz. Eu fiquei uma meia hora tentando decifrar alguma coisa na pequena possa.

Eu via o meu reflexo, uma menina extremamente branca, de cabelos negros e olhos azuis fitava-me. E ao lado dela parecia haver uma sombra com formas extremamente masculinas fitando-a com seus olhos negros.

Um berro saiu de minha garganta, um berro desumano. Minha mãe não veio ver-me. Eu fui até ela.

A porta de seu quarto estava entre-aberta, uma luz escapava por lá. Um trovão soou ao longe e fez-me pular. Eu abri a porta de seu quarto mais um pouco para poder ver o que ocorria. A mesma sombra estava bem na frente da porta e agora encarva-me, com um sorriso tenebroso em seus lábios, mais de perto.

Não lembro-me de mais nada que tenha acontecido, só de sentir as mãos de minha mãe tentando me acordar, ela pressupôs que eu havia dormido na entrada da porta de seu quarto ontem à noite. Eu não queria assustá-la, então deixei que pensasse isso.

E agora aqui estávamos nós, num avião atravessando a Europa só para poder chegar até uma cidade que parecia esquecida por Deus, em um país igualmente esquecido por Deus.

Tentava lembrar-me dos verões em que mamãe havia mandado-me para Constança, para casa de meus avós. Eu odiava aquele lugar, para mim, essa mudança seria um inferno pessoal. Eu aprendi a falar romeno em uma das tardes nebulosas, quentes e nubladas naqueles portos. Meu avô ensiva-me tudo o que eu queria saber. Estávamos perto daquele castelo branco quando eu escrevi \"Te iubesc\" (eu te amo, em romeno) para meu avô, com um graveto que eu havia achado. Eu escrevi na pequena margem de areia entre o calçadão e as pedras.

Lembro-me de ver o sorriso em seu rosto com isso.

- No fim de semana nós poderíamos ir até a Transilvânia, ver se Van Helsing e o Drácula ainda estão por lá — disse minha mãe sorrindo, e colocando o cotovelo em minhas costelas.

Do jeito que eu estava, ver o Drácula seria um alívio, assim que ele terminasse de sugar meu sangue todo o meu medo desapareceria.

- Mãe — eu disse mesmo assim. — Você sabe que Van Helsing mata o Drácula, e pelo o que eu saiba, lobisomens morrem como qualquer outra pessoa normal — fingi um sorriso.

Minha mãe sorriu de volta, mal percebendo meu esforço por trás daquele sorriso.

- Como explica o fato de existir o castelo dele, então?

Eu dei um forte suspiro, minha mãe fazia-se de burra quando não tinha nada mais para falar. Mesmo assim fui educada com ela.

- O castelo que está na fronteira da Valáquia e da Transilvânia é do príncipe Vlad Tepes III, o Empalador. O antigo governador da Valáquia. Ele também era conhecido como \"Drácula\", foi dele quem Bram Stoker pegou emprestado o nome de seu tão famoso conde.

- Ah, conte-me mais.

Minha mãe estava tentando ignorar meu mau humor, pedindo que eu fosse sua enciclopédia. Eu vi-me num relato completo sobre como Vlad empalava seus capturados de guerras. E quem foi o nobre que mais tinha ligação vampirística, Elizabeth Bathory, \"A Condessa de Sangue\" como era conhecida popularmente.

- Você sabe bastante sobre vampiros, não? — perguntou minha mãe com as sombrancelhas unidas de preocupação.

- Sim, sei o bastante, eu sou fascinada por eles — pena que não são reais, acrescentei mentalmente.

E assim continuamos nossa longa viagem até nossa primeira conexão em Graz, na Áustria.