Underground
2 2 de abril de 2011
Notas iniciais
2 de abril de 2011 – 21:30
Coisas estranhas, muito estranhas, aconteceram hoje, nesta terça feira. Mas é melhor contar o que resolvemos ontem e depois resumir o dia de hoje com os fatos mais importantes.
Ontem, enquanto conversávamos, todos tentaram a primeira solução mais óbvia: usar o celular. Mas, infelizmente, aconteceu como esperávamos; todos estavam fora de área. David sugeriu que saíssemos do trem para investigar o lado de fora do túnel. Isso começou certa discussão.
— Está um breu lá fora, espertinho. – disse Johnny. Aaron e Ethan concordaram com ele. Eu não achava uma boa idéia ficar aqui sem fazer nada, mas ao mesmo tempo sair não me parecia uma boa idéia – a não ser que alguém tivesse uma lanterna e conhecesse bem o caminho do metrô.
— Poderíamos usar as luzes dos celulares. – sugeriu Josh.
— São cinco quilômetros, e não tem como recarregar caso a bateria acabe. – disse Ethan.
— Vamos revezando. – disse David.
— Não, não vai dar certo mesmo assim. – falou Blake – São cinco quilômetros a pé, e para enxergarmos no breu que há lá fora precisaríamos de todas as luzes juntas.
— Você está certa, Blake. – concordou Aaron – Mas temos que fazer algo. Isso ou ficarmos aqui esperando alguém nos ajudar, o que eu acho pouco provável pelo que ouvimos.
Ele estava se referindo ao eco de gritos. Não sabíamos se vindos da superfície ou das extremidades do metrô – o mais provável. De qualquer forma, esses gritos nos tiraram a hipótese de que a ajuda estaria vindo.
— Temos que tentar. – resumiu David – Não temos opção. Vamos nos dividir; três ou quatro de nós saem, o restante fica. Eu, obviamente, vou lá fora.
— Vou com você. – falei logo. Sou uma repórter, é da minha natureza querer ir atrás dos acontecimentos importantes.
— E eu. – Blake levantou-se.
— Blake, é melhor você ficar. – falou Aaron – Precisamos de alguém para cuidar de algum ferimento que possa acontecer por... algum motivo. Eu vou no seu lugar.
— Vou também. Quero ver no que essa idéia vai dar. – fiquei surpresa ao perceber que fora Johnny quem dissera aquilo. Não imaginei que ele fosse sair para executar um plano que David havia arranjado.
Então lá fomos nós: eu, David, Johnny – que persistiu em ir mesmo depois de Blake pedir que ficasse, dizendo que a deixaria preocupada se fosse — e Aaron. Eu tinha um pressentimento ruim, mas pensei que fosse apenas isso mesmo, um pressentimento. Mas não era.
De dentro do trem o lado de fora parecia um breu, saindo do trem parecia um buraco negro. Eu mal conseguia ver meus pés. Pensei em por que não acenderam a luz caso tenham nos parado de propósito. Parecia óbvio que aquela parada havia sido provocada por algum acidente com os controladores. Nenhuma das opções parecia reconfortante.
— Ok, liguem seus celulares. – ouvi David sussurrar de algum ponto à minha esquerda. Não sabíamos se havia ‘algo’ no túnel, então todos concordamos que era melhor o mínimo de barulho possível.
Quando ligamos os celulares alguns – inclusive o meu – soltaram aquelas músicas irritantes de inicialização. Quando cessaram as músicas, ficamos em completo silêncio, aguardando algo assustador, quem sabe, pular sobre nós. Mas nada veio, não naquele momento.
— Ok, agora todos virem os celulares para frente. Antes diminuam o volume. – falou mais uma vez David.
— Certo, David. Não somos idiotas, sabemos qual o óbvio a se fazer. – retrucou Johnny ao meu lado.
— Por favor, não comecem uma briga agora. – reconheci a voz de Aaron à minha esquerda. Então fizemos o que David dissera e apontamos os celulares para adiante.
Não parecia haver nada além dos trilhos um pouco destruídos do trem – decidimos que a estação mais próxima seria a de onde estávamos vindo e resolvemos seguir o caminho que voltava para ela. Apontamos as luzes para cima e as lâmpadas do túnel não pareciam ter qualquer problema, estavam intactas. Então alguém havia desligado o sistema do metrô abruptamente, por isso descarrilamos, talvez até as lâmpadas estivessem queimadas.
— Parece que à frente está limpo. – falou Aaron – Mas vamos ter realmente muito que andar.
— Então é melhor começarmos logo. – disse Johnny, seguindo em frente. Preferimos segui-lo a ficar parados olhando. Eu continuava com aquele meu pressentimento, mas ainda pensava que não havia necessidade de falar sobre ele.
A partir do momento em que começamos a andar todos ficamos em silêncio, tínhamos total atenção no ambiente à nossa volta. Nem Johnny e David começaram a discutir enquanto andávamos. Foi quando vimos algo vindo de longe. Parecia uma pessoa correndo. Paramos.
— O que fazemos? – perguntou David.
— Ah, finalmente não sabe o que fazer. – disse Johnny – É melhor ficarmos aqui parados.
— Não, é melhor irmos até lá. E se for alguém precisando de ajuda? – argumentou David.
— E se for alguém que nos faça precisar de ajuda, hum? É melhor ficarmos aqui. – pensando por esse ângulo, achamos melhor ficarmos parados mesmo.
A pessoa, ou criatura, continuava vindo em nossa direção. Quando estava a uns dez metros de nós, Johnny, que estava uns três passos à frente de todos, arregalou os olhos e começou a andar pra trás.
— Certo, é uma pessoa, uma mulher jovem, mas não acho que seja muito... ‘Confiável’. – foi então que ela entrou no campo de visão de todos e percebemos seu estado: ela usava uma blusa branca e calça jeans, na sua blusa via-se a mistura do que parecia ser vômito e sangue. Sangue dela mesma ou de outra pessoa? Não quis ficar para saber. Seu rosto também sujo, seus cabelos loiros despenteados e seu olhar ensandecido não ajudaram muito na hora de evitar que eu me virasse e começasse a correr de volta para o trem.
A corrida pareceu durar mais do que deveria. Quando cheguei logo comecei a bater na porta. Eu não conseguiria abrir, estava tremendo de nervoso.
— Abre! Abre! – gritei. Blake surgiu rapidamente e abriu a porta para mim e os outros três entrarem. Três marmanjos e nenhum deles tentou conter a garota.
Quando Johnny, o último, entrou, fechou a porta rapidamente. No segundo seguinte a tal mulher se jogou contra a porta. E Blake, desavisada sobre do que fugíamos, soltou um grito e deu um pulo para trás.
— É melhor sairmos daqui antes que ela perceba que tem como abrir a porta. – disse David. E saímos correndo para a frente do vagão, onde corpos, Ethan e o Josh nos aguardavam.
— Cara, o que houve? Acharam o Marilyn Manson?- perguntou o garoto.
— Acho que o que vimos assusta mais que ele, francamente. – disse Johnny. Me sentei num dos assentos.
— De fato. – Aaron arfou – Eu estou velho demais para isso, não agüento nem correr da esquina da rua até minha casa.
— Mas o que foi que houve? – indagou Ethan. Então senti uma batida vinda de trás de mim, mas do lado de fora do trem. Levantei-me de um pulo.
— Mas o quê... – comecei. Mas vi pela janela que se tratava da mulher que nos seguira – aparentemente ela nos viu indo até a frente do vagão pelas janelas.
— Ela não vai desistir. – falou Johnny. Josh havia se levantado também e estava olhando de olhos arregalados. Medo ou espanto, os dois talvez.
— A não ser que paremos ela. – sugeriu David.
— Quer dizer... Matar?- perguntou Blake. Ele assentiu e todos caímos no silêncio. Parei e percebi que... Ah, não! Preciso ir ajudar!
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