Under the bed

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Espero que gostem dessa história. Já está terminada e tem apenas um capítulo. Boa leitura.

#autoral
#psicoseTv

Papai falou que mamãe foi viajar, para o céu e que não a veria mais. Fiquei tão triste com isso, amo a mamãe e não entendi por que ela teve de viajar. Hoje faz um ano que ela se foi. Papai estava chorando na cozinha. Ele pensa que não vi, mas eu vi. Isso me deixa confuso, ele falou que mamãe estaria feliz e olhando por nós, então por que chora?
Noite passada quando estava deitado, mamãe falou comigo. Fiquei tão feliz ao ouvi-la depois de tanto tempo. A procurei em todo o quarto e não a encontrei em lugar nenhum. Comecei a chorar, era minha cabeça me pregando peças novamente. Fechei os olhos para dormir e ouvi sua vez mais uma vez.
— Tudo bem meu filho, estou aqui. Durma. — Percebi que sua voz saía de baixo da minha cama e abri os olhos novamente, assustado.
— Mamãe, o que está fazendo embaixo da cama. — Ouvi sua risada, não era a mesma de antes, era estranha, seca, sem humor.
— Estou tomando conta de você, meu querido. Durma.
— Mas eu quero te ver, agora. -Falei, tirando os cobertores e colocando os pés para fora da cama.
—NÃO. -essa resposta me assustou, me arrepiou dos pés a cabeça. Tinha alguma coisa errada com ela. — Mamãe está bem meu amor, estava com tanta saudade. Relaxe, durma. Amanhã será um novo dia.
Depois disso, dormi rapidamente, com uma sensação estranha no peito, mas feliz por que ela estava novamente ali comigo, cuidando de mim. Acordei no dia seguinte mais animado. Falei para meu pai que conversei com mamãe ontem, que ela agora estava em casa e que estava tudo bem. Ele me olhou estranho e perguntou do que eu estava falando.
— Mamãe voltou para casa, ela falou comigo ontem, embaixo da cama. Ela está bem e falou que estava com saudades. Onde ela está papai? — Procurei ao redor e não a encontrei. Ele me abraçou e com a voz embargada falou:
— Ela não está aqui, deve ter sido um sonho. Mas eu estou aqui e vou cuidar de você. Venha, vamos tomar o café.
Anoiteceu novamente e meu pai me colocou na cama, desejando boa noite e beijando minha cabeça. — Tenha bons sonhos. — ele disse, com a expressão triste. Perguntei se ele não gostaria de dormir comigo essa noite, eu sei que ela viria me visitar e ele a veria com seus próprios olhos. Ele apenas respondeu que não, muito sério. Falou que isso estava na minha cabeça, encostou a porta e foi para o seu quarto.
Não estou inventando isso, sei que é real, sua voz era real, seu cheiro e sua presença ainda estavam ali. Por que ele insistia em falar que era mentira? Será que não a amava mais?
— Tudo bem meu filho, um dia ele vai acreditar nisso. — Ouvi sua voz triste, novamente em baixo da cama.
— Por que não apareceu para ele? Ele acha que estou mentindo. Mamãe, não faz sentido.
— Tudo ao seu tempo meu bem. Um dia ele saberá que isso é verdade.
— Certo. Mas agora eu quero te abraçar. Por que não sai? Aí em baixo tem monstros. Eles podem te machucar. — Ouvi sua risada, a mesma risada que me arrepiou na noite passada.
— Eles não podem fazer nada comigo, eu os expulsei. -E então ela se calou. A chamei novamente e não obtive nenhuma resposta. Ouvi a porta do meu quarto se abrindo e de lá, apareceu meu pai, nervoso, perguntando com quem estava falando.
Falei que estava falando com minha mãe. Ele me olhou irritado e acendeu a luz do meu quarto. — Me diga, aonde está sua mãe? Não estou vendo. Não faça isso comigo meu filho, isso dói. — O encarei chorando e repeti que ela estava ali. Embaixo da cama. Ele então se abaixou e me chamou para ver também. Não tinha nada lá, apenas alguns sapatos meus. Abriu meu guarda roupas e lá também não tinha nada. O quarto estava vazio. — Não tem como sua mãe estar aqui. — E chorando, me abraçou. — Eu sei que é dificil de aceitar, mas não a veremos mais. E por favor, não faça isso novamente.
Concordei e voltamos para a cama. Essa noite papai dormiu comigo e ela não apareceu mais. Também não toquei mais no assunto, fingi que estava tudo bem, mas todas as noites eu tentava falar com ela, e não recebia nenhuma resposta em troca, só o silencio.
Uma semana depois, ouvi novamente sua voz, chorando. Falando que sentia nossa falta, que não aguentava viver sem nós dois. Falou que tinha como ficarmos juntos novamente, mas que eu precisava ser forte e fazer isso por ela, por nós. Ela pediu para fazer o papai ir para o céu também. Fiquei assustado com seu pedido. Por que ela pediria isso? Sabe que não posso fazer o que me pede.
Fiquei calado enquanto ela continuava falando para eu "matar o papai", que depois disso tudo ficaria bem e que só assim ela seria feliz novamente. Comecei a chorar em desespero, enquanto ela continuava repetindo as mesmas palavras e ria baixinho. Não, papai não pode ir para o céu também, não pode me deixar. Gritei negando várias vezes até que o silencio se fez novamente.
Ouvi barulho de passos e vi meu pai aparecer na porta. Vendo meu estado, correu e me abraçou forte, enquanto eu repetia que não, que não o deixaria ir também.
— Está tudo bem. Calma. Vamos, me diga o que está acontecendo. — Falou num tom calmo, enquanto ainda me abraçava. Respondi que mamãe havia voltado e que pedia para que eu fizesse um favor para nós três. Mas não continuei, fiquei calado enquanto ele ainda tentava me fazer falar. Apenas fiquei ali, me deixando ser abraçado.
Fomos para seu quarto e ali ficamos, até eu não aguentar mais ficar acordado. Vi a cara de preocupação dele. Deve achar que fiquei louco. Não estou louco.
Durante um mês, ele dormiu comigo, pois eu não conseguia mais voltar para o meu quarto. Só pensar nisso já me dava arrepios, não queria ouvi-la falando assim novamente, aquela não era a minha mãe.
Certa noite, meu pai decidiu que já era hora de eu voltar ao meu quarto, segundo ele estava tudo bem e nada de mal aconteceria comigo. Me deitou em minha cama, e mesmo com meus pedidos para que ficasse, me deu um beijo e foi embora. Eu sabia que isso estava acabando com ele também. Não era o sonho de nenhum pai ter um filho medroso como eu.
Assim que a porta foi fechada, ouvi um raspar de unhas leve embaixo da minha cama, seguido de lamentos e lá estava ela novamente, falando comigo e perguntando por que eu estava fazendo isso. Por que diabos eu estava sendo um filho tão ruim e não a obedecia. POR QUE?
Tapei os ouvidos e comecei a chorar e repetir:
— Não é minha mãe, você não é minha mãe. Por que está fazendo isso comigo? Pare por favor. -Me encolhi na cama enquanto ouvia seus lamentos e gritos de fúria ali. Certo momento, pensei que ela destruiria minha cama, tão forte foi a força usada para esmurrar. Continuei ali, repetindo que isso não estava acontecendo e que era coisa da minha cabeça. Não chamaria papai novamente, isso não mudaria nada. Apenas pararia por essa noite e voltaria a acontecer na próxima. Não queria que ele pensasse que eu estava doente.
Passadas algumas horas, tudo parou e eu fiquei no mais assustador silencio. Levantei lentamente e olhei a janela, lá fora o sol já começava a aparecer por entre as nuvens. Uma noite inteira acordado. Fui para a escola e lá fiquei, recluso, calado. E mais uma semana se passou, todas as noites minha mãe falava comigo, chorava, gritava, falando que eu a estava fazendo sofrer. Que eu a estava impedindo de ser feliz novamente. Eu apenas ficava ali, quieto. Ouvindo tudo o que era dito, chorando em silencio.
Eu já não aguentava mais ficar noites sem dormir, meu pai perguntava o que estava acontecendo comigo e eu apenas respondia que estava tudo bem, apenas estava tendo alguns pesadelos, mas que tudo ia ficar bem. Ele estava preocupado comigo, sei disso, mas se eu falasse algo além disso, sei que seria pior, não queria machuca-lo com as palavras ruins que saíam da boca da mamãe. Isso acabaria com ele.
Até que um dia ela resolveu aparecer para mim. Estava uma noite calma, eu estava quase pegando no sono quando ouvi ruídos embaixo da cama. Unhas arranhando novamente, eu odiava aqueles ruídos. Eu odiava a mamãe. Ela sussurrou, fiquei calado, apenas esperando tudo acabar, como sempre. E então ela perguntou:
—Você quer me ver? Venha cá, me abrace. Estou com tantas saudades do meu filhinho. — Ouvi atentamente enquanto ela falava, com medo do que estava por vir. Olhei para baixo e lá estava sua mão, saindo lentamente, depois o restante do seu corpo. Era mesmo ela, continuava tão linda como no dia em que se foi. Ela sorriu e me abraçou. Eu fiquei calado, sem reação. E então perguntou. — Por que não me abraça? Não era isso que queria fazer na primeira noite em que conversamos? POR QUE NÃO ME ABRAÇA? — Senti suas mãos subindo minhas costas, em direção ao meu pescoço, me sufocando. A falta de ar me tirou o reciocinio e apenas fiquei ali, parado, enquanto ela continuava a me sufocar.
Não era ela, lágrimas saíram dos meus olhos quando, mais uma vez, constatei que não era ela. Tinha a sua aparencia, mas não era ela. Era algo ruim, que estava ali para me fazer mal. Me soltou e puxei o ar com força para meus pulmões. Ouvimos um barulho vindo de fora do quarto e me lembrei de meu pai. Ele estava acordado e correndo perigo. Sem pensar muito, consegui me desvencilhar de seu agarre e corri para o escritório de meu pai. Sabia que ele tinha uma arma para se defender. Ele dizia que a guardava ali para nos proteger de coisas ruins. Nunca me deixou tocá-la, sempre falando que crianças não podiam mexer com essas coisas. Mas abri sua gaveta e peguei, era pesada, mais pesada que a minha arminha de agua, e bem maior. Deve funcionar do mesmo jeito.
Tenho que proteger meu pai a todo custo. Ouvi a porta se abrindo e minha mãe vindo em minha direção, lentamente, com um sorriso no rosto enquanto falava que aquele brinquedo não ia funcionar nela. Apontei a arma em sua direção e apertei o gatilho. O barulho foi alto, deve ter sido ouvido até pelos vizinhos. Mas ela continuava andando em minha direção, sangrava, mas não parecia surtir nenhum efeito nela. Atirei mais uma vez, seu corpo se abalou, senti o cheiro de sangue e continuei atirando até não haver mais munição. Ela chegou perto de mim, ficou de joelhos, sorriu e então eu vi quem realmente estava ali.
Meu pai estava a minha frente, me olhando incrédulo, sangue saindo de seu corpo, de sua boca. Sua ultima frase foi: Por que? E então caiu ao meu lado. Olhei para aquela cena, aquela arma em minha mão. Eu não fiz aquilo, eu não podia ter feito aquilo. Não podia estar acontecendo, não podia. Abracei meu pai, chorando, pedindo para ele não ir também, para que não me deixasse sozinho, mas já era tarde demais. Ouvi apenas a risada dela ecoando pela casa, depois o barulho de passos, pessoas fardadas entraram correndo e nos viram ali, meu pai jogado no chão, sangrando e eu ainda segurando aquela arma. Eles nos separaram rapidamente, sob meus protestos, eu não queria ficar longe do meu pai. Não podia.
Eles falam que eu o matei, não acreditam na historia que conto sobre a mamãe. Falam que invento isso para me sentir melhor, mas que no fundo sei que fui eu. Falam que sou cruel, que não sou humano.
Agora estou neste quarto branco, com essas amarras de couro em meus pulsos, dopado, não sei quanto tempo se passou desde o ocorrido, perdi a noção de tudo ao meu redor. A única coisa que sei é que à noite, meus pais sempre vem me visitar, embaixo da cama, pedindo para que eu me junte a eles para que nossa família esteja completa novamente, como antes.
Já está tudo pronto, quando me soltarem essa noite, sei o que fazer. Os comprimidos que estou guardando vão me ajudar, são vinte ao todo. E se não funcionar, ainda tenho a lamina que guardo tão carinhosamente. Mamãe me deu a ideia de acabar com tudo. Resolvi escuta-la. Finalmente esse tormento terminará, a saudade vai passar, todos os medos irão embora.
Só preciso ouvi-los e ficar embaixo da cama.

Notas finais
O que acharam? Comentem por favor
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!