6 anos depois


Mais uma noite. Havia se passado mais uma noite que eu estava naquele inferno, me dando por completa para desconhecidos que vinham de toda parte do mundo. O último cliente da noite tinha acabado de sair do quarto quando Borges entrou.

– Olá minha querida Raíssa, como foi essa noite, hein? Faturamos bastante lá no caixa, mas você ganhou muitas gorjetas? Porque você sabe que é nossa melhor garota, está aqui há mais tempo, é mais experiente, e tamb...

–Ok, já chega! Aqui está sua gorjeta imunda, não preciso disso, e não preciso que você fique me dizendo quanto tempo estou aqui, nãos se preocupe, eu nunca me esquecerei disso. – Borges venho em minha direção, e segurou em meu queixo com força, me fazendo olhar em seus olhos cheios de rugas e sinais de cansaço.

–Olha aqui sua garotinha teimosa, eu só não farei nada contigo hoje, pois já tenho compromisso, senão você iria aprender como se comportar quando eu estiver por perto, estamos entendidos?- puxei meu queixo com força da mão nojenta dele, e confirmei com a cabeça. Ele saiu do quarto, mancando com sua bengala velha, e bateu a porta. As lágrimas começaram a cair dos meus olhos e eu nem percebi. Eu ainda estava de lingerie, e o quarto estava todo bagunçado. Deitei na cama, abracei um travesseiro e comecei a me lembrar de como tudo começou.

“Acontecia desde quando eu tinha 3 anos de idade, minha mãe era ‘namorada’ de um cara meio estranho, morávamos no interior de São Paulo, em uma parte bem pobre de lá, mas ainda preferiria estar lá, do que aqui, onde estou, mas não na minha casa, eu era abusada pelo ficante da minha mãe até meus 8 anos. Minha mãe? Ela não fazia nada, só ficava olhando, e ás vezes nos deixava sozinhos, era prazeroso para ela ver aquilo, afinal eu era o fardo da vida dela, e ela dizia que amava muito esse cara, que disse que só ficaria com ela se me tivesse também, e assim foi acontecendo. Quando completei 8 anos , ela fez um quase ‘bordel’ em nossa própria casa, homens iam lá o tempo todo, e pagavam à ela para ter uma noite de prazer com uma garotinha inocente de apenas 8 anos. Mas bem antes disso, eu já havia sido vendida à alguém bem mais poderoso, Sr. Borges, um famoso dono de uma boate em Portugal, quando eu completei 10 anos, ele foi me buscar e me trouxe para cá, para seu doce ‘lar’. Desde meus 10 anos, sou a atração principal desse lugar, por ser mais nova e digamos mais ‘fácil’ de se pegar.”

O que falar da minha vida? Abusada pelo “padrasto” dos 3 aos 8 anos. Prostituída e vendida pela própria mãe, na própria casa. Exportada, e mais prostituída por um desconhecido, que eu nunca havia visto, mas ainda sim, teve que me “experimentar” para saber se eu servia para a famosa boate dele.

Despertei dessas lembranças e fui tomar um banho, deixei a água quente cair sobre meus ombros e penetrar cada célula do meu corpo, eu odiava minha vida, aquilo não era vida de verdade, eu estava presa, presa para sempre, e tinha apenas 16 anos, como isso podia acontecer, porque comigo, porque minha mãe não me colocou em um orfanato, como todas as outras fazem, ou deixou na porta de alguém, ou me colocou no lixo, morrer teria sido uma saída melhor do que este inferno. Não pensem que eu não havia tentado fugir, várias e várias vezes, mas eu sempre falho, eles são mais rápidos, mais espertos, não tinha saída, eu estava condenada para sempre.

Desliguei o chuveiro e me sequei, coloquei um shorts e uma camiseta, arrumei o quarto que estava uma zona total, e fui me deitar, o que me restava era dormir agora, era a única coisa pura que eu fazia, deixei que o sono me levasse para um outro lugar, um lugar para que eu pudesse ser eu mesma, apenas uma adolescente, com problemas de uma adolescente e pensamentos de uma adolescente.

Notas finais
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