Under A Silver Moon
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Espero que gostem.
Boa leitura
Arredores do território de Mushiona, 1573
Hiashi estava em silêncio. O balançar das folhas eram, de longe, o único som que ecoava. Não havia sequer o chiar dos pássaros noturnos. Não havia sequer a presença intimidadora dos animais selvagens. Aquela parecia uma floresta abandonada, mas o homem sabia bem que quem ele buscava estava mais vivo que qualquer outra coisa.
— Não deveríamos estar aqui, vossa alteza... — Kento, um dos melhores em sua guarda pessoal resmungou com o pulso rente à espada. Nem parecia o tão fabuloso guerreiro que as histórias de Mushiona contavam. Na verdade, Kento parecia um gato de rua arrisco que, no fundo, é medroso. — Não deve confiar nesse feiticeiro, meu senhor.
— Melhor confiar nele do que em um acordo utópico com os reinos vizinhos. — Hiashi retrucou mais que rapidamente. Não era mentira que os intensos conflitos entre os três grandes reinos vinham se tornando cada vez mais fervorosos. E na cabeça de Hyuuga Hiashi, um acordo de cessar fogo passava longe da melhor ideia. — Não confio em Namikaze Minato tanto quanto não confio em Haruno Kizashi.
Kento não sabia mais o que falar. Aparentemente, o rei já estava convicto de sua decisão. E mesmo que aquele lugar lhe desse arrepios, ainda precisava acompanhar seu rei.
Uma cabana caindo aos pedaços estava mais adiante entre dois grandiosos carvalhos que, graciosamente, ou melhor, assustadoramente, formavam um teto vivo sobre aquele lugar.
Crânios humanos e de animais decoravam a porta pequena e de madeira podre. A mensagem era clara sem que houvesse a necessidade de palavras: mantenha distância. Insetos voavam chiando pelo local, bem como moscas brincavam sobre o lixo ao lado da parede. Hiashi fraquejou ao tentar avançar um passo lerdo. O ar era carregado e ele não sabia se aquele frio que percorria sua espinha era devido ao frio que surgia com a chegada do inverno ou era resultante daquela sensação.
— A que devo a honra de sua digníssima visita, majestade? — uma voz gélida atravessou o ambiente tirando Hiashi do estupor. O homem era alto, magro e de cabelos castanhos. Ele riu ao ver que o rei engoliu a própria saliva em seco. — Não há motivos para amedrontar-se majestade. Se está aqui é porque o senhor deseja auxílio meu.
O homem virou-lhe as costas e dera um passo para o lado a fim de permitir que o rei de Mushiona adentrasse. Hiashi encarou o canto da parede assim que a coragem lhe permitiu entrar naquele casebre. Duas crianças estavam encolhidas no chão, brincando com peças de madeira simples. Eram dois meninos, ambos de cabelos negros e olhos profundos e escuros como a noite.
— Saiam. — o feiticeiro disse para os dois meninos. O que parecia ser mais velho puxou o outro pelo braço porta a fora. — Em que posso ajudar a realeza?
— Ajude-me a derrotar os meus inimigos. — Hiashi resmungara — Ajude-me a ser o grande e único rei dos três reinos.
[...]
Arredores de Doratora, 1573
Já haviam se passado três noites desde o encontro de Hiashi com o feiticeiro. Um encontro nada casual e pouco convencional. Suspirou enquanto sentia a carruagem parar rudemente nas montanhas. O território de Namikaze Minato ficava logo após as montanhas rochosas e antigas. Montanhas que guardavam segredos e tesouros inimagináveis. Encarou o céu. O feiticeiro havia lhe dito que a lua era a chave para tudo. Que a lua cheia promoveria o tal feitiço que ele buscava. O reino de Falysias era governado por Haruno Kizashi, o herdeiro do dragão cujo exército era gigantesco o suficiente para tomar Doratora e Mushiona sem muito esforço, caso essa fosse sua vontade. Seu pedido fora um exército capaz de derrotá-los. Mas ele não imaginava que as coisas aconteceriam daquele modo.
Ele conseguia ouvir os gritos mesmo estando distante da cidade principal. O som de lamúrias e gritos implorando piedade invadiam seus ouvidos. Encarou a filha a sua frente. Hinata, sua primogênita e herdeira. Uma jovem de apenas quinze anos. Ela estava assustada e nervosa, não por menos. Mesmo distante conseguiram ouvir o primeiro uivo. Um uivo agudo e alto o suficiente para causar calafrios. As palavras ditas pelo feiticeiro ainda rondavam a mente do rei enquanto ele mandava o cocheiro voltar o mais rápido possível para Mushiona. Não demoraria muito para que tudo chegasse ao fim.
O cavalo erriçou-se e empinou-se nas patas traseiras quando um grande lobo branco pulara em sua frente. Os olhos azuis e brilhantes da fera mantinha-se fixos na figura de Hiashi. Ele sentiu os pelos em sua nuca erriçarem-se, mas acalmou-se assim que o grande lobo, bem como outros que surgiam por suas costas, ajoelhavam-se em sua frente.
— Destruam Falysias até não sobrar nenhum homem, mulher ou criança. — Hiashi resmungou a ordem que coçava em sua garganta. O lobo branco rosnou, ergueu a cabeça uivando rapidamente e correu pela floresta, sendo seguido pelos outros lobos. — Não demorará muito agora.
[...]
Reino de Falysias, 1573
Sakura deixou as lágrimas frias escorrem por seu rosto. O coração estava apertado. O ar parecia rarear em seus pulmões e as mãos tremiam, mas não sentia medo. Estava com raiva, ódio. Ainda era uma criança, mal havia completado seus quinze anos. E agora estava ali, entre a relva escura observando o reino que seus pais tanto se dedicaram simplesmente ruir em fogo e sangue.
— Minha senhora. – Jiraya, um dos servos mais leais de seu pai chamou-a. Ela virou o rosto apenas para o observar o velho senhor de cabelos já branco. – Devemos nos manter distante o quanto antes.
A garota encarou o reino em chamas novamente. Os lobos surgiram do nada. Lobos gigantes que nunca havia sequer ouvido falar. Bestas sem consciência que simplesmente atacavam para matar. O choro prendeu-se em sua garganta. As mãos, apertaram-se em punho. A força que colocava era tão grande que sentiu as unhas penetrarem a carne e sangue escorrer por entre seus dedos.
— Eu prometo, Jiraya... – o homem a observou em silêncio. Ela ainda mantinha os olhos presos ao caos. – Eu vou me vingar por tudo isso. Não deixarei que simplesmente destruam meu reino assim.
1578
Cinco anos depois
— Você está ficando velho, Jiraya. – Sakura resmungou enquanto rodopiava uma espada em suas mãos. O cabo da arma era trabalho em ouro e bronze. O fio prateado brilhava em contato com a luz direta. – Desse jeito acabará perdendo para uma mulher.
— Alteza, meu trabalho é proteger a senhora. – disse o velho homem desviando o ataque de Sakura com a própria espada. – E... – ele cessou o ataque quando sentiu sua lâmina voar para longe, aterrissando no chão mais distante. A ponta da espada de Sakura estava a milímetros de seu pescoço. – E eu estou ficando velho.
Sakura riu fracamente e guardou novamente a espada na bainha. Encarou o grande ser a suas costas. Ele dormia serenamente. A respiração baixa provocava uma leve brisa que arrastava algumas ervas daninhas para longe. Aproximou-se da criatura deixando que sua mão realizasse uma leve carícia sobre a pele escamada do animal. Ele abriu ligeiramente os olhos, apertando sua própria cabeça contra a mão feminina na busca de mais contato. O som de um bater de asas ecoou no céu atraindo a atenção de Sakura e do dragão que descansava no chão. O animal afastou-se dela e ergueu-se aos céus voando juntamente a seus irmãos.
— Eles estão agitados hoje. — Jiraya deixou-se pronunciar. Sakura apenas confirmou brevemente com a cabeça, sentando-se no chão. — O que será que aconteceu?
Sakura ergueu o rosto para encarar os três dragões que dançavam no céu. Draco, Saphira e Rathtardar eram sua família, a única que sobrara depois que os lobos invadiram o território de Falysias. Nem sequer acreditava na existência de dragões antes que os três ovos prateados, sua herança que carregara consigo no fatídico dia, se encontraram chocados. Eles representavam a esperança em reconstruir sua casa, seu reino. Suspirou, passando as mãos sobre os cabelos longos e em um tom único de rosa. Ergueu-se do chão, pronta para retornar ao pequeno casebre nos arredores da antiga Falysias, agora tomada por lobos e outros animais selvagens.
Dos três grandes reinos, apenas Mushiona não sofrera ataques dos lobos. Doratora, o reino vizinho, havia sido completamente aniquilado pelo ataque de lobos gigantes cinco anos atrás. O rei do território, Minato, juntamente com o herdeiro do trono, Naruto, haviam sido brutalmente assassinados pelos monstros sanguinários. Boatos dizem que na época do ocorrido, o rei de Mushiona havia convocado um famoso feiticeiro para fazer um feitiço e criar essas monstruosas criaturas. Outros dizem que o rei de Mushiona era o próprio senhor destas feras e que, durante a lua cheia, ele mesmo se transformava e atacava vilas com os monstros em seu encalço.
Sakura não era tola para acreditar em contos de fada, mas seus próprios dragões mostravam que nem tudo passava de lenda. Não acreditava que Hiashi houvesse feito assim, mas também sabia que o rei de Mushiona não era nenhum santo quanto a tudo que acontecia. Com a queda dos outros dois grandes reinos, Hiashi tornara-se o soberano de todas as terras que cercavam a cidade principal de Mushiona.
[...]
Reino de Mushiona, 1578
Hiashi observava todos os membros daquele conselho com os olhos irritados. Detestava incompetência. Detestava ainda mais quando soldados com anos de serviço não conseguiam pegar uma única garota de vinte anos. Era frustrante. Se via como um fraco, derrotado por sua própria cobiça. E do que lhe importava se aquela garota tinha três dragões? Ele tinha uma alcateia de lobos gigantes que somente obedeciam a si. De tão irritado com aqueles incompetentes, gritou que todos saíssem daquela sala, menos Kento.
— Chame-me o feiticeiro. — O homem resmungou para Kento. O soldado, seu braço direito, o encarou duvidoso e até temeroso. Não confiava naquele feiticeiro. Nem sequer sabia se aquele homem ainda era vivo. — Preciso do feiticeiro. Preciso de algo que coloque aqueles dragões no chão, como uma pilha de ossos definitivamente.
— Como desejar meu senhor... — Kento resmungou contra-vontade. Detestava a ideia de ter que retornar aquela floresta, aquele casebre no meio do nada. — Estou indo.
— Eu só serei o rei de tudo quando aquela garota morrer. — disse o homem para si mesmo. — Não posso permitir que os lobos a matem. Não quando ela é a única escapatória para que eles voltem a ser humanos.
A garota que observava toda a conversa do conselho escondida nas sombras deixou o olhar arregalar-se ao ouvir tais palavras. Seus passos a levaram para fora do castelo, evitando os guardas que ali trabalhavam. Se a vissem, muito provavelmente a seguiriam ou pior, avisariam a seu pai que havia saído novamente.
Hinata caminhava por entre os becos e vielas do vilarejo tentando ao máximo cobrir o rosto com suas vestes. Não deveria estar ali, mas aquele caminho tornou-se tão familiar para si nos últimos cinco anos que, mesmo que todos os guardas de seu pai dissessem ser perigoso para a herdeira de Mushiona, ela ainda continuava vagando para lá. Encarou o riacho que cortava a vila e sorriu internamente ao atravessar os bosques densos. A trilha já estava demarcada de tanto que seus pés a levaram até ali.
De longe conseguiu ouvir alguns ruídos e rosnados, mas nada lhe assustava ali. Sentia-se segura de um modo que nunca se sentiu estando presa dentro do palácio. Um ruído, semelhante a um ronronar, chamou sua atenção e ela sorriu radiante. Um grande lobo amarelo de olhos azuis brilhantes parou em sua frente, observando-a fixamente. Hinata sorriu erguendo a mão para tocar o topo da cabeça da fera. O lobo deveria ser alguns centímetros mais alto que ela, mas isso não lhe dava medo.
— Que bom vê-lo novamente, Naruto... — sussurrou a jovem de olhar perolado e sorriso gentil. — Senti saudades.
Não levou muito tempo para notar que o lobo amarelo era o herdeiro de Doratora. Ela estava lá com o pai quando tudo aconteceu. Estava lá quando os lobos uivaram pela primeira vez e quando os gritos de súplicas foram substituídos por rosnados e ganidos. Não queria que aquilo acontecesse. Nunca quis, para dizer a verdade. Nunca compactuara com a ideia insana do pai, mesmo que ele retrucasse ao dizer que aquilo era para o bem de todos os Hyuuga. Hinata suspirou lentamente. Não estava ali apenas para matar as saudades de seu tão fiel confidente. Estava ali para libertá-lo daquela maldição. Bem como a todos os outros moradores de Doratora. Mais uma vez recorreria a uma maldade, mesmo que isso lhe torturasse por dentro.
— Há um modo de você voltar ao normal, Naruto... — disse. — De todos vocês voltarem. — ela não sabia o quanto Naruto ainda conseguia entendê-la, mas algo brilhara nos olhos do lobo gigante a sua frente. — Terão que matar a princesa de Falysias. Terão que matar Sakura.
[...]
Sakura observava o túmulo raso a sua frente. Um péssimo enterro para alguém tão digno. As lágrimas queriam escorrer por seu rosto. Oh, como queriam. Mas não se permitiria a chorar. Não chorara por cinco longos anos. E não seria agora que começaria novamente. Não era mais a garotinha que teve os pais arrancados de si. Não era mais a garota fraca que já chegara a ser. Os dragões que tanto amava, haviam voado para longe, mas Sakura não se preocupava. Já havia se acostumado com a ação dos animais. Eles se sentiam mais livres em algum lugar e aquilo já aliviava seu coração.
Ouviu o som de passadas e ergueu a espada, virando-se na direção do som. Ele era alto, incrivelmente pálido e exuberantemente belo. Nunca havia visto alguém como aquele rapaz. Bem, não é como se houvesse encontrado muitos rapazes nos últimos cinco anos, mas aquele conseguia ultrapassar facilmente a beleza dos deuses. Por um segundo Sakura estremeceu a espada quase abaixando a guarda. Não sabia o porquê, mas algo naquele rapaz de cabelos e olhos tão negros quanto a noite sem o brilho das estrelas a fascinava, a ponto de colocá-la em um estado de estupor.
— Quem és tu? — questionou-o só então notando que o moreno sangrava. O sangue encobria-se facilmente nas vestes negras que o mesmo usava. — Estás sangrando...
— Uma ajuda viria a ser útil. — resmungou facilmente apoiando-se nas próprias pernas. O rapaz estava quase desmaiando. — E com ajuda eu não me refiro a uma espada em meu pescoço.
Sakura repreenderia-se futuramente por tal ato, mas abaixara a espada, recolocando-a na bainha. Apoiou o moreno sobre o próprio ombro, levando-o para debaixo de uma árvore que havia ali. O rapaz resmungou rapidamente de dor e contorceu-se ao sentar corretamente sobre o chão. Sakura tirou uma tira de pano do vestido simples que usava e amarrou-a sobre o ferimento. Não era um ferimento mortal, mas poderia acabar em uma infecção se não tratado. E nestes cinco anos a jovem Sakura aprendera isso da forma mais difícil.
— Não respondestes minha pergunta. — retrucou a rosada. — Quem és tu?
— Meu nome é Sasuke. — retrucou o moreno mais pálido do que Sakura consideraria normal. — E você bela moça? Quem és?
— Não há a necessidade de saberes. — falou a jovem de cabelos rosados. — Quando estiveres melhor, deves partir. Não confio em ti, Sasuke.
Não era mentira. Havia aprendido do pior método que não poderia confiar em viajantes aparentemente inofensivos. E se Jiraya ainda continuasse por ali, ele muito provavelmente brigaria consigo por, tolamente, ajudar outro homem desconhecido.
— Prepararei um remédio para sua ferida e quando estiver melhor, siga seu caminho. — falou rapidamente, virando-se de costas para o homem e caminhando até a pequena casa em que vivera por cinco longos anos. Encarou o céu em uma busca silenciosa por seus três dragões, mas aparentemente a viagem destes não havia chegado ao fim. Suspirou lentamente enquanto preparava um remédio de ervas para feridas que Jiraya levara um ano lhe ensinando. Amassou as folhas e flores que sempre deixava reservadas para necessidades e voltou-se ao rapaz moreno. Ajoelhou-se ao lado dele e aplicou o remédio sobre a ferida ouvindo-o gemer de dor. Riu baixinho e cobriu novamente o lugar com o pano. — Pronto. Podes descansar. Amanhã estarás melhor.
Sakura ouvira um gutural granido vindo dos céus e virou o rosto na direção dos dragões que, silenciosamente, aterrissavam a menos de cinco metros de distância. Encarou o rosto de Sasuke esperando ver confusão ou até mesmo medo, mas a única coisa que vira fora uma expressão de nada. Franziu o cenho ligeiramente confusa, mas sorriu profundamente.
— Você tem um sorriso bonito... — balbuciou o moreno para ela, vendo-a parar de rir imediatamente. — Desculpe-me... Devo ter dito algo que não a agradou. Perdoe-me.
— Não... — sussurrou a jovem — Não preocupe-se. É que... Não pareceu-me surpreso ao ver os dragões. — Sakura sentiu Draco encostar o nariz em suas costas em busca de carinho. Ela riu do ato do dragão e virou a mão para ele. — Eles normalmente colocam medo nas pessoas quando os vêem.
— Não me dão medo. — retrucou o rapaz atraindo a atenção tanto de Sakura quanto de Draco cujo ela acariciava. — São animais fascinantes. Mal interpretados pelas histórias, mas não menos fascinantes.
— Parece conhecer bastante sobre eles... — ela disse surpreendida. — Para alguém que provavelmente nunca vira um vivo.
— Vivo não... Mas morto sim. — ele disse com um sorriso no canto dos lábios e Sakura não gostara daquela expressão, mesmo que houvesse amado aquele sorriso. Bem, ela nunca diria isso em voz alta. — Há muitos esqueletos nas ruínas de Falysias.
— É proibido adentrar os limites da cidade. — falou Sakura. Draco aparentemente achou a parte dos esqueletos um pouco desconfortável, pois o dragão grande e em um tom escarlate grunhiu, acanhando-se sob a mão da jovem. — Os lobos ocupam aquela região.
Sasuke concordou com um aceno, mas não pareceu convencer a jovem. Certo que quando era criança, Sakura costumava fugir para as cavernas sob o palácio e observar os esqueletos dos grandes dragões que outrora viviam sobre a superfície, planando no céu. Mas somente alguns poucos conheciam aquele lugar. E todos pertenciam a família real. Se Sasuke houvesse visto os ossos provavelmente teria sido depois do ataque de lobos e o abandono completo do território de Falysias. Mas duvidava muito que ele houvesse passado como uma sombra pelos lobos. O rapaz sorriu brevemente erguendo a mão na direção de Draco. O dragão o encarou aparentemente duvidoso, mas farejou o cheiro do rapaz. Sasuke sorriu novamente.
— Eu sei que é proibido, mas... — a frase de Sasuke foi interrompida por um uivo longo e cortante. O corpo de Sakura tremeu e ela correu a mão para a espada. Draco grunhiu e balançou as asas, fazendo areia planar sobre os dois. — Lobos... — resmungou o moreno — Fuja.
— Não! — exclamou Sakura erguendo a espada. Ela conseguia ouvir os rosnados e uivos mais próximos. — Fuja você.
— Não entende. — retrucou — Seus dragões podem ser fortes, mas eles não vencerão esses lobos. Pelo menos não agora.
Sakura pensou em contradizer, mas Draco rugiu uma vez e Saphira e Rathtardar ergueram-se para o céu. Poderia dizer que seus dragões venceriam facilmente aqueles lobos, mas ela sabia que Sasuke tinha razão. Quando os lobos resolviam caçar, eles caçavam unidos. Seriam muitos para que seus dragões vencessem. Além do mais, poderiam acabar se ferindo. Ainda a contragosto, Sakura subiu nas costas do dragão vermelho e ergueu a mão para que o moreno a pegasse.
— Vá! — ele exclamou retirando uma pequena adaga branca de dentro da bainha. — Eu os atrasarei. Veja isso como um modo de pagar-lhe o cuidado que teve comigo.
Pensou em retrucar, mas Draco ergueu-se do chão. O dragão bateu as asas contra o vento, voando rumo aos outros dois. Do alto, Sakura conseguiu ver a multidão de lobos brancos, cinzentos e marrons aproximarem-se do local em que antes estava, em direção a Sasuke. Virou o rosto para frente, forçando-se a seguir adiante. Tinha que sair dali.
Levou alguns minutos para notar a direção que os dragões seguiam. As ruínas de Falysias estavam a sua vista. O grande castelo, parcialmente destruído por um incêndio, erguia-se do topo de árvores. Ela suspirou lentamente quando o dragão pousou suavemente no chão. Desceu, tirando a espada da bainha. Caminhou pelos grandes portões que antes eram belos e brilhantes. Atravessou o grande salão, encontrando um grande trono em bronze. Ele tinha grandes asas gravadas em suas costas, asas que agora estavam parcialmente destruídas. Ainda haviam cinzas e alguns ossos pelo salão. Ela subiu as escadas que levavam ao trono.
— Pai... — sussurrou levemente fechando os olhos. Ouviu o som de um rosnado e virou-se rapidamente para o lado contrário. Um grande lobo branco de olhos vermelhos a observava. Provavelmente era o lobo que ficava para trás quando a alcateia deixava as ruínas. Fora tola de pensar que estaria segura ali, mesmo que por um instante. Aqueles lobos a perseguiriam para sempre. Ergueu a espada focalizando toda a sua atenção no lobo que, como um predador, circulava a cercando. — Fique longe...
O lobo abaixou-se nas próprias patas e rosnou. Sakura já havia visto lobos o suficiente na vida para saber o viria a seguir. O animal deu o bote, jogando-se com as presas visíveis sobre ela. A espada tremeu em sua mão, mas não fora a sua que acertara o animal, derrubando-o inerte no chão.
Sakura encarou a figura de cabelos negros a sua frente. Ajoelhou-se, atônita. Sasuke tirou o pequeno punhal branco da carcaça do animal e limpou-o na barra da camisa. Seus olhos chocaram-se com os esmeraldinos arregalados em surpresa. Ele deixou um meio sorriso escapar quando virou-se em direção a jovem ajoelhada no chão. Sasuke ainda segurava o punhal em mãos. Ele ainda a encarava de um modo que fez com que o coração da jovem acelerasse. O fato, era que ela não sabia se aquele sentimento era de medo ou de algo que vinha negando ter sentido desde que colocara os olhos sobre a figura do moreno.
— Eu poderia matá-la... — sussurrou o moreno. — Eu deveria.
— És outro espião do rei Hiashi, certo? — questionou Sakura. Tola, imbecil. Não deveria acreditar em estranhos. Fora a primeira e pior lição que aprendera quando deixou aquele mesmo castelo em que estava prestes a morrer. Sasuke concordou com um breve aceno. — Irá matar-me, certo? — ela sussurrou contra a própria vontade. Não gostava sequer que mencionar tal sentença. — Então o que estás esperando?
— Não ordenei aos lobos que a procurassem. Eles fazem isso por ordens acima de mim. — retrucou rapidamente. — Mas incitei o dragão a trazer-te aqui. Sabia que entraria nas ruínas. Sabia que acabaria aqui no salão do trono. Um lugar onde seus dragões não entram. — Somente naquele segundo a jovem lembrou-se de ter visto Draco farejar a mão de Sasuke. — Entenda, Sakura... Não estou fazendo isso por querer. Estou fazendo para proteger aqueles que amo.
— Quem és tu, realmente? — perguntou a jovem. A espada estava pesada em sua mão e questionou-se o que havia acontecido consigo. — O que fizestes comigo?
— Bastara um toque... — resmungou rapidamente. — Um feitiço. — Sakura deixou os olhos se arregalarem e Sasuke abaixou-se apenas para manter-se na altura dela. — Desculpe-me novamente... Você deveria ter morrido quando os lobos invadiram sua terra. Se houvesse morrido naquele tempo, nada disso aconteceria. Meu irmão não seria prisioneiro e eu não seria um capacho para Hiashi.
*
Hiashi observava os dois garotos parados no centro do salão. Encarou Kento irritado. Ele havia mandado ao braço direito que trouxesse o feiticeiro não dois rapazes.
— O que significa isso? — Hiashi ergueu-se do trono, pronto para mandar retirar aqueles dois rapazes quando Kento ajoelhou-se. — Quem são esses rapazes? Pedi que trouxesse o feiticeiro.
— O homem morrera, majestade. — retrucou Kento. — Estes são os filhos dele. — Hiashi então lembrou-se das crianças que vira naquela casa cinco anos antes. — Eles dizem não praticar magia, mas acredito que estejam mentindo.
Hiashi riu baixinho ao ver a expressão dos jovens. Chamou os guardas que seguraram ambos pelos braços. Sentou-se novamente no trono, colocando a mão sob o queixo e encarando os dois rapazes. Ambos altos, ambos homens feito. Um deles tinha longos cabelos negros, presos por um elástico. Duas grandes cicatrizes cortavam sua face. O outro era ligeiramente mais baixo. Os cabelos eram curtos e negros. Ambos possuíam uma marca desconhecida na bochecha. A mesma marca que, lembrou-se Hiashi, de ter visto no homem que esperava ver naquela noite.
— Prendam o mais alto nos calabouços. — ele viu os guardas levarem o mais velho para o calabouço e o mais novo tentar-se inutilmente livrar-se das mãos dos guardas. — Quanto a você, rapaz... — retrucou chamando a atenção do mais novo. — Tenho trabalho para você. Não se preocupe! — exclamou rapidamente erguendo as mãos para cima. — Não tocarei em um fio de cabelo do seu irmão se fizer exatamente o que quero. — ele viu o moreno concordar rapidamente com um aceno breve. — Mate a herdeira de Falysias. Não deixe o lobos matarem-na. Você deve matá-la com as próprias mãos.
*
— Você morrerá de qualquer modo esta noite. — resmungou Sasuke para a jovem Sakura. — Não importa se seja por minhas mãos ou pelas garras dos lobos. Ambos a querem morta. Ambos precisam que morra. — Sasuke segurou o queixo de Sakura entre as mãos. Os rostos dos dois estavam muito próximos. Ela conseguia sentir o hálito de menta do moreno sobre seu rosto. Seu toque era quente e nenhum pouco rude. — Permita-me que a deixe partir sem sentir dor.
— Eu... — sussurrou Sakura. Sua boca pesava. Sua língua estava parcialmente dormente. Agora entendia que havia sido atingida por um feitiço de paralisação. — Posso ajudar você... Posso ajudar a resgatar seu irmão...
— Não pode...
— Eu tenho três dragões. — resmungou com todas as forças que possuía. — Hiashi tem medo do que posso fazer com eles sob meu comando. — tentou com todas as forças erguer a espada, mas o aço bateu rudemente no chão. — Posso ajudar você. — tentou mais uma vez. A única coisa que Sakura vira após isso foi a escuridão. Seus olhos se fecharam e tudo acabou.
[...]
Sentia seu corpo ligeiramente mais leve. Sua mão estava dolorida, bem como seu pescoço. Ergueu-se do que parecia uma cama aos pedaços. Encarou o ambiente só então notando que estava no antigo aposento de seus pais. Seus olhos toparam na figura de Sasuke, parado na porta dos aposentos.
— Fiz um feitiço para manter os lobos longe por enquanto. — ele comentou aproximando-se de Sakura. A jovem buscou a espada na bainha, mas não havia nada ali. — Não está aí. Não precisa se esforçar em procurar. — ela ergueu-se da cama, mas sentiu as pernas travarem. Estava em pé, mas não conseguia se mover. — Um feitiço de restrição. Não tem uma longa duração, mas você não poderá se afastar mais que cinquenta centímetros desta cama por enquanto.
— O que está fazendo? — questionou.
— Disse que poderia ajudar-me a resgatar meu irmão. — falou Sasuke. — Estou forçando-me a acreditar que seja capaz disso.
Sakura surpreendera-se com as palavras de Sasuke. Encarou a figura masculina a menos de dois passos de distância. Os cabelos negros, levemente úmidos. Os olhos escuros que pareciam esconder um mar de segredos. A marca de uma escrita estranha e aparentemente antiga gravada em uma de suas bochechas. Sem que pudesse impedir a si mesma, as mãos dela tocaram o rosto do moreno.
— E por que eu deveria acreditar em você? — ela perguntou. — Tentou me matar.
— Não deveria. — concordou o rapaz segurando em uma das mãos de Sakura. — Mas estou confiando em você. Então não a matarei por enquanto.
Ela suspirou exausta. Não sabia o que fazer. Havia dito aquelas palavras no calor do momento, quando jurava que seria morta. Agora que o momento de fulgor havia passado ela não sabia o que fazer ou o que falar. Gostaria que Jiraya ainda estivesse ali. Gostaria de ouvir os conselhos do velho amigo. Ele saberia o que ela deveria escolher naquele momento.
— Como posso ajudar? — ela questionou mais a si mesma que ao moreno. — Preciso de mais que um trio de dragões para enfrentar Hiashi e sua tropa de lobos, certo? — comentou e Sasuke riu suavemente, concordando. — Então como?
— Nisto posso ajudá-la. — falou o moreno. Sasuke ergueu a mão e Sakura sentiu o corpo pender para frente: podia mover suas pernas. — Siga-me. — ela concordou automaticamente seguindo o moreno pelos corredores antes tão conhecidos por ela. — Um feitiço foi o responsável por criar os lobos gigantes. — Sasuke virou o rosto em direção a Sakura provocando nela um suspiro incontido. — Meu pai foi o responsável por isso a mando de Hiashi. Recebeu uma boa quantia de dinheiro na época.
— Seu pai foi o responsável pela destruição de todos os moradores de meu reino e do reino de Doratora. — resmungou a jovem — Tudo por uma quantia de dinheiro?
— Ele não destruiu o reino de Doratora. — retrucou Sasuke — Eles ainda estão vivos... Bem... — sussurrou o moreno encarando o lobo morto no grande salão. — Menos um. — disse vendo o rosto confuso da jovem. — Meu pai transformara os habitantes de Doratora em lobos para que Hiashi pudesse destruir Falysias. Mas meu pai não poderia provocar um estrago tão grande assim... — Sasuke caminhou até uma porta do outro lado do salão e a abriu, dando passagem para Sakura. — Se os lobos matassem toda Falysias, voltariam ao normal. E Hiashi não quer isso... Por isso estou aqui.
Sakura arregalou os olhos ao ver o lobo branco de olhos azuis a sua frente. Ele rosnava e puxava as grandes correntes que o prendiam na tentativa de livrar-se da prisão. Ele era enorme. Talvez o maior de todas aquelas feras que ela já vira.
— Este é Minato. — riu Sasuke ao ver o lobo rosnar para si. — O rei de Doratora.
— O que fará com ele? — questionou Sakura. Lembra-se vagamente sobre Minato. O rei de Doratora havia visitado Falysias uma vez quando ela ainda era pequena. Ele era bondoso e bonito naquela época. Nenhum pouco semelhante ao lobo gigante que rosnava em sua direção.
— Vou quebrar o elo que o liga a Hiashi. — retrucou — Libertá-lo da maldição... Mas precisarei do sangue de uma virgem. — ele riu da expressão corada no rosto de Sakura. — Apenas algumas gotas.
Ela cruzou os braços, encarando o lobo novamente. Voltou seu olhar para Sakura e maneou a cabeça em confirmação. Ele riu e retirou a adaga branca da bainha. Sakura estendeu a mão na direção do moreno vendo-o pressionar a lâmina em sua mão. O sangue gotejou e caiu no chão. Sasuke riu colocando um pano limpo sobre o local e soltou a mão da rosada.
Sakura ouviu-o liberar alguns cânticos em uma língua desconhecida, mas provavelmente antiga. Sentia o ar pesar e um frio escorregar por sua espinha. Sabia que aquilo era mágica e, talvez, algo muito grandioso aconteceria ali. Encarou o teto quebrado que permitia que a luz da lua adentrasse. Sakura ouviu o lobo rosnar e grunhir. Ele parecia sentir muita dor quando os cânticos de Sasuke tornaram-se mais altos.
Aos poucos o lobo perdia a forma. Aos poucos cabelos loiros ficavam visíveis. Aos poucos os olhos azuis famintos se tornavam serenos. Sakura virou o rosto para o lado ao notar que Minato provavelmente estaria desprovido de roupas quando acordasse e somente naquele momento notou que não vestia o mesmo vestido de cedo. Encarou Sasuke que parecia muito concentrado na mágica. Seu rosto estava mais vermelho que um tomate e ela resolveu caminhar para longe dali.
O som cessou depois de um par de minutos. Sakura virou o rosto para trás, encontrando Sasuke saindo ligeiramente exausto. Ele quase iria cair se ela não houvesse erguido-o pelo braço.
— Você está bem? — ela questionara. Ele apenas concordou com um aceno quando então a vinda de outro homem chamou a atenção de Sakura. — Pelos deuses...
Era Minato, rei de Doratora. Ele havia deixado de ser uma fera. Havia retornado a forma humana de algum modo. O rosto dele transmitia um sentimento de culpa e receio. E por um segundo Sakura teve a certeza. Ele provavelmente foi o responsável pela morte de seus pais.
— Precisamos continuar... — sussurrou Sasuke atraindo a atenção dos dois. — Temos muitos lobos para trazer de volta.
[...]
Duas semanas depois
Arredores de Mushiona
Eles encaravam a cidade mais distante. Minato conversava facilmente com Sasuke enquanto Sakura acariciava Saphira que, desajeitadamente havia deitado o queixo sobre sua perna. Os outros dois dragões dormiam mais distante. Sakura sentiu uma presença atrás de si, mas não era um sentimento assustador como antes.
Naruto a encarava em dúvida. Ela era ligeiramente diferente da imagem que havia sido passada para si pelos anos. O loiro aproximou-se em dúvida da rosada, vendo o dragão em seu colo remexer-se, chiar e afastar-se rumo aos outros dois.
— Ela é ciumenta. — disse Sakura com um pequeno sorriso nos lábios. — O que lhe perturba? Está com a feição preocupada desde que voltara ao normal.
— Posso pedir-lhe um favor? — Naruto perguntou. Sakura apenas maneou a cabeça confirmando rapidamente. Não via o porquê de negar um pedido de Naruto. Desde que o loiro voltara ao normal, tratara a jovem perfeitamente bem. — Por favor, não machuque Hinata.
— Hinata? — perguntou. Naruto confirmou. — Hyuuga Hinata? Por quê?
— Desde que fomos transformados ela sempre preocupou-se conosco. — ele disse — Ela não compactua dos feitos de seu pai. E eu... — Sakura conseguiu ver as bochechas de Naruto corando. — Eu a amo.
— Claro... — sussurrou Sakura sorrindo brevemente e sem que pudesse impedir seu olhar tropeçou na figura de Sasuke que terminava de passar o plano principal com Minato. — Eu entendo, de certo modo... Não farei mal algum a ela. Confie em mim. — Naruto afastou-se sorridente depois daquela conversa. Sakura ergueu o olhar para o céu que começava a tornar-se escuro. Ouviu passos atrás de si. Nem precisou virar o rosto para ter certeza que Sasuke a observava. — Como foi?
— Terminamos de passar os principais detalhes do plano. — retrucou — Consiste em uma distração pelo céu vinda de você e de seus dragões. — Sakura concordou — Enquanto isso, Minato e o exército de Doratora invadem pelo portão desprotegido. Eu lanço alguns feitiços de paralisia e encontro meu irmão. Você oferece uma morte digna a Hiashi e o jovem Naruto ali pode casar-se com a princesa que tanto deseja.
Sakura deixou um riso escorrer por entre os lábios. Sasuke murmurou algo sobre ela precisar descansar para o dia seguinte e ela concordou, erguendo-se da rocha em que estava sentada e caminhando até uma tenda improvisada. Mas ela não conseguia dormir. Estava alerta demais. Ansiosa demais por assim dizer. Se Jiraya estivesse ali estaria orgulhoso de si? Ela finalmente vingaria sua casa, seu povo, seus pais. Na noite de amanhã ela teria a chance de reconstruir o reino novamente. Mas estava aflita. Nunca havia matado ninguém. Suas mãos não eram sujas de sangue, seja inocente ou não. E não sabia se aquilo lhe traria consequências emocionais depois. Seria mesmo capaz de tirar a vida de um homem?
Balançou a cabeça para os lados, afastando os pensamentos. Enrolou-se na manta e saiu da tenda. Talvez observar o céu a ajudasse a dormir. Só não esperava encontrar Sasuke parado na frente de sua tenda, como se estivesse prestes a pedir licença e entrar.
— O que está fazendo? — perguntou-lhe Sakura. — Por que ainda não dormiu?
— Devo questionar-lhe o mesmo? — ele devolvera. Sakura riu baixinho e caminho até sob os galhos de um carvalho. Sasuke a acompanhou, parando ao lado dela. — Por que ainda está acordada?
— Ansiosa. — resmungou — E nervosa. E talvez um pouco assustada. — ela murmurou brevemente — Como é?
— Como é o quê? — Sasuke perguntou virando o corpo de frente para Sakura. Estavam próximos demais, perto demais.
— Matar alguém. — disse. Sasuke fechou a expressão. Era um assunto delicado. — Nunca matei ninguém antes. E amanhã terei que matar Hiashi. — Sakura murmurou abaixando o olhar para o chão. — Eu...
— Sabe que não precisa fazê-lo se não quiser... — sussurrou o moreno erguendo o rosto da jovem pelo queixo. — Muitos de nós gostaríamos de ter a chance de matá-lo. Eu mesmo adoraria matá-lo pelo o que ele fez comigo e meu irmão. — Sasuke comentou. O polegar fez uma carícia leve na bochecha de Sakura e ela teve que se esforçar para não fechar os olhos com tal ato. — Mas todos sabem que fora você que sofrera mais nas mãos de Hiashi. Tem a honra de matá-lo.
— Não vejo honra em tirar a vida de um homem. — retrucou a jovem princesa. — Não sei se consigo fazê-lo.
— Não se preocupe com isso. — retrucou o moreno. — Você não é obrigada a fazê-lo. Eu posso fazer isso por você.
Sakura suspirou lentamente. A mão de Sasuke desceu por seu rosto, cessando na base de seu pescoço. Os olhos dele eram hipnotizantes e ela teve que morder levemente os lábios para reprimir qualquer ação vinda deles, seja falar ou se entregar ao ósculo. Sasuke sorriu, como sempre o fazia, e depositou um beijo calmo no topo dos cabelos de Sakura.
[...]
O sol nasceu no horizonte trazendo consigo o clima de tensão. Sakura suspirou brevemente enquanto montava Draco. Saphira e Rathtardar já sobrevoavam a floresta. Os olhos dela e de Sasuke se encontraram mais uma vez e ela sorriu timidamente em sua direção, erguendo-se do céu com a espada em mãos. Ouviu gritos assustados dos moradores quando viram os dragões voarem sobre as grandes muralhas. Rathtardar parecia rugir com alguns soldados que jogaram suas lanças em sua couraça. Saphira voou em direção a uma torre e o fogo escapou por sua boca, queimando qualquer rastro de ser humano. Enquanto isso, Draco aterrissou no pátio principal do castelo para que Sakura descesse.
Foi recebida por alguns guardas que brandiam os escudos em direção ao grande dragão vermelho. Sakura ergueu os olhos em direção a Draco e como mágica, o dragão ergueu-se do solo e voou em direção aos céus, soltando fogo nas muralhas e derrubando lanceiros e arqueiros.
Os guardas tiraram suas espadas e avançaram em direção à jovem. Sakura brandiu a espada e repeliu o primeiro ataque, acertando o guarda entre as pernas e mandando-o choramingando para longe. O segundo atacou com a espada erguida sobre a cabeça. Sakura contra-atacou, jogando a espada do inimigo longe e cortando-lhe a mão fora. O homem berrou e caiu no chão gemendo de dor. Outro guarda tentou atacá-la pelas costas quando Saphira o puxou pelos ombros e jogou-o de quase dez metros de altura.
Sakura conseguia ouvir os homens de Minato invadindo pelo portão leste e seguiu rumo ao palácio. O local era realmente semelhante ao antigo castelo em Falysias. A mesma estrutura de rochas e pedras ornamentais. A mesma decoração em joias que faziam as paredes brilharem contra o crepúsculo. Ela afastou mais dois guardas antes de terminar seu caminho pelo corredor. Abriu as grandes portas, encontrando Hiashi sentado no trono. O homem a encarou com ódio e rancor no rosto.
— Esperava ver qualquer um aqui, menos você. — resmungou. Kento, seu guarda de honra, ergueu a espada e avançou rumo a jovem. — Morra rapidamente.
Kento atacou. A espada zumbira em seu ouvido quando Sakura desviou o golpe com a direita. Mas isso provocou um pequeno desequilíbrio que, por pouco não provocara sua morte. Kento voltou com a espada pela esquerda tentando acertar a cabeça de Sakura. Ela deu um pulo para trás no momento certo e depois tentou uma investida reta, na tentativa de acertar o peito desprotegido do homem. Sakura viu seu golpe ser facilmente defendido. Kento era um guarda com anos de experiência e mais mortes no currículo que qualquer outro ali.
Sakura suspirou. A espada começava a ficar pesada em seu braço. O cansaço lhe abatia. Os golpes de Kento pareciam mais rudes e velozes a cada segundo que se passava. Ela teria sido feita em pedacinhos se uma adaga branca não houvesse sido colocada contra seu corpo e a arma do guarda. Sakura virou o rosto para ver Sasuke colocar-se em sua frente, em uma posição de proteção.
— Você... — riu Hiashi. — Achei que havíamos feito um acordo.
— E tínhamos. — falou Sasuke arrumando a adaga em sua mão e colocando-se em uma posição que permitia-lhe tanto atacar quanto se defender de golpes. — Mas descobri que poderia libertar meu irmão de outro modo.
Kento gritou de dor. Uma flecha vermelha estava presa em seu peito. O homem caiu rudemente no chão atraindo a atenção de Hiashi. Sakura virou o rosto e encarou a figura de um moreno muito parecido com Sasuke. Ele provavelmente deveria ser o irmão dele. Sakura voltou o rosto para Kento. O homem já não respirava no chão. Sangue escorria pela ferida provocada pela flechada. Hiashi ergueu-se do trono.
— E quem será aquele que acabará com o grande rei? — questionou Hiashi com um sorriso presunçoso no rosto. Sakura fechou a mão no punho da espada. — A doce e imprestável princesa que correu para longe do perigo? Ou um dos irmãos bruxos com mais mortes nas costas do que eu próprio?
Hiashi ergueu uma espada de cabo grosso e lâmina afiada. O metal reluziu com a luz que adentrava através de vitrais. Sasuke virou o rosto na direção de Sakura pronto para mandá-la sair dali, mas ele se surpreendeu ao ver a determinar nascer no rosto da jovem. Sakura caminhou cabisbaixa em direção ao homem. Hiashi desceu um degrau da espada, erguendo a espada rumo a garota e rindo alto.
— Realmente acha que consegue me matar? — questionou o rei. — Sou treinado desde muito antes de você nascer. Não pense que pode derrotar-me.
Sakura ergueu a espada. O olhar encarando Hiashi. Ele riu e avançou em direção a ela. Sakura desviou para o lado e acertou a base da espada na parte de trás do joelho do homem. Hiashi franziu o cenho e virou-se novamente para ela. Atacou mais uma vez. Novamente, Sakura desviou do golpe e desta vez cortou com a lâmina aquela região. O homem caiu de joelhos no chão quase que instantaneamente. A força havia abandonado suas pernas. Sakura aproximou-se de Hiashi. Com a espada ela acertou a parte interna dos cotovelos. A espada pesada deixou a mão do homem, provocando um ruído surdo no chão. Sasuke e Itachi observavam tudo boquiabertos com a facilidade que Sakura manejava a espada.
— Você transformou todos os moradores de Doratora em lobos e os obrigara matar todos em Falysias. — resmungou Sakura erguendo a espada no queixo de Hiashi. — Matou meus pais. — disse. — Eu fugi com um dos melhores amigos de meu pai. Este homem me protegera até o último dia de sua vida. Abandonara a esposa, os filhos... Tudo para manter-me viva para que eu pudesse vingá-los. — Hiashi riu baixinho — Para que eu pudesse matar você.
— Então o que está esperando. — resmungou. Hiashi, no fundo, não conseguia acreditar que Sakura o mataria. — Mate-me.
Sakura ergueu a espada sobre a cabeça. Seu coração bateu rapidamente no peito. Hiashi riu e Sakura desceu a espada. Hiashi parou de rir.
[...]
A jovem princesa encarou o que antes era os aposentos de seus pais. Sorriu triste, mas sorriu. Hyuuga Hinata havia assumido o trono de Mushiona após a morte de Hiashi. Ela sabia que, de algum modo, ela manteria o povo em paz. Doratora havia sido restaurada depois que todos os habitantes retornaram para suas casas e Minato fora pessoalmente até as ruínas de Falysias, juntamente com Naruto, convidar a jovem Sakura para o casamento que uniria Doratora e Mushiona corretamente.
Draco, Saphira e Rathtardar voavam pelos arredores das ruínas. Sakura ainda questionava-se como iria reconstruir sua casa. O povo que ali morava havia sido morto pelos lobos. As pessoas viam aquele lugar como assombrado e deserto, manchado por uma tragédia de sangue. Ela suspirou passando as mãos sobre a colcha de cetim que havia colocado.
— Oi. — sussurrou uma voz conhecida por Sakura. Ela virou o rosto, chocando os olhos na figura de Sasuke.
— Oi.
— Eu... — sussurrou o moreno adentrando o quarto. — Estou partindo. Eu só vim...
Não teve chances de dizer mais nenhuma palavra. Os lábios de Sakura fecharam-se contra os seus. Um beijo calmo, mas que fosse capaz de transmitir qualquer tipo de sentimento. Todo o tipo de sentimento. As mãos do moreno puxaram a jovem pela cintura, colocando o corpo de Sakura ao seu. Os passos apressados os fizeram tropeçar na cama e o par de corpos encontrou a maciez do colchão, somente assim separando os lábios.
Os olhos brincaram de um para o outro. Sasuke sorriu como ela sempre gostava de vê-lo sorrir. Não chegava a ser um sorriso completo, aberto. Mas ainda era aquele sorriso que aquecia seu coração. E ela precisava que aquele sorriso estivesse ali, junto a si.
— Eu te amo... — sussurrou a jovem princesa. — Acho que demorei muito para dizer isso.
— Esperei por um longo tempo. — riu o moreno aproximando novamente os lábios dos de Sakura.
Fale com o autor