Notas iniciais
Olá! eu não vou postar todos os dias, mas fiquei feliz que vocês aceitaram de coração aberto essa história! Afinal, é uma continuação de algo que não é meu, então comecei um pouco na defensiva mas acho que não precisava. Agradeço à todas! Lembrando que meu conhecimento de New York é 100% google.

Quinn está acordada há algum tempo, mas ainda deitada na cama de Naomi. Ela observa o perfil de Rachel com o coração disparado. A morena parece tão tranquila, seu ressonar preenchendo o dormitório. Ela pensa quantas vezes vai ver a morena assim nessa semana juntas. A semana antes do ano novo. As duas não conversaram ainda, mas Quinn tem certeza que Rachel tem planos épicos para passar a noite da virada na Times Square. Passar esse dia em New York, o primeiro ano novo desde que elas saíram de Lima, vai ser especial. Vai ser a certeza de que tudo isso aqui é de verdade, por mais que ambas já terminaram seus semestres na faculdade. Os fogos e a multidão só vai deixar tudo mais palpável.

A loira não consegue evitar, mas ela pensa sobre a emoção conflitante de beijar Rachel quando o relógio bater meia noite.

Claramente uma ideia estúpida e idiota, que ela não tem muita coragem para ficar alimentando de esperança porque toda vez que ela o faz, a noite em Yale passa em frente à seus olhos. Cada segundo eternamente doloroso. Desde o karaoke onde tudo parecia perfeito, Quinn tinha Rachel brincando e sorrindo, voltando pra casa orgulhosa dela. E depois o caos – o polegar de Quinn passando delicadamente pelo contorno do rosto de Rachel, o impulso de beijá-la, o hálito quente em contato com o seu. As consequências adultas de um ato infantil. Achando que Rachel a beijaria, até se dar conta do que estava acontecendo?

Às vezes Quinn adormece pensando em como seria se ela tivesse aprofundado aquela espécie de beijo. Foi um doce roçar de lábios, e é tudo o que Quinn tem. Ela se força a continuar essa memória, sorrindo com o que seria beijar Rachel realmente. Sentir sua língua quente explorando sua boca enquanto ela seguraria a garota firmemente pela cintura, aproximando seus corpos, Rachel a retribuindo, e Quinn a amando.

Ela pensa muito nisso, e isso dói pra caralho. Porque nunca vai ser real.

Quinn faria qualquer coisa – qualquer coisa – para voltar ao passado e botar um pouco de juízo em sua versão anterior. A versão com medo e mágoa. Como quando ela entrou em seu antigo quarto, na casa de seus pais, pela primeira vez ao voltar de Yale. Como tudo parecia diferente porque ela era uma pessoa diferente. Porque o principal motivo de ela ser daquele jeito – tentar a todo custo esconder seus sentimentos de Rachel – não era mais um segredo inclusive para a própria Rachel. Nem em seus sonhos íntimos ela imaginaria que seria assim. Se ela pudesse voltar e brigar com a Quinn que insultava Rachel, sua aparência, modo de vestir, sua confiança... ela trocaria por tudo o que ela tem.

Pra começar, se seu comportamento fosse um pouquinho diferente Rachel não seria tão na defensiva com ela, mesmo quando elas eram só amigas. Tentando conquistar a amizade dela, naquela situação onde nenhuma sabia muito bem uma da outra porque nenhuma falava diretamente com a outra, a loira já via Rachel se diminuir na maioria das coisas. Rachel diminuir seu corpo, seu rosto, sua criatividade, às vezes até sua voz. Não acontecia muitas vezes, claro, mas quando todo o resto não dava certo, Rachel parava até de acreditar em sua voz. Quinn morria por isso.

E depois, quando sentimentos românticos foram revelados, Rachel poderia ter levado para outro lado se todo o ensino médio fosse diferente. Ela sabia que as perguntas e respostas na cabeça de Rachel terminavam com “mas, apesar de tudo isso, é a Quinn”. Quinn, que chamou ela de traveco uma vez no corredor antes de ir pra aula. Que disse que ela não era bonita e tinha mãos de homem. Apesar de se mostrar uma boa amiga de verdade, ainda era Quinn. Ainda a amando e a protegendo, era Quinn, e Rachel tinha todo o direito de duvidar, diminuir e não acreditar quando a loira diz que a quer como uma namorada, como uma pessoa que a beije e a trate bem, com elogios e mimos.

Rachel parece estar acordando quando a loira para de divagar.

“Bom dia, Q”, ela coça os olhos. “Acordada há muito tempo? Poderia ter me acordado. Não quero que você fique se sentindo como se aqui não fosse seu dormitório... você pode ir até o refeitório ou se quisesse ir tomar banho,”

“Rachel, Rachel!!”, Quinn a interrompe sorrindo, “está tudo bem, sério. Eu acordei faz uns minutos mas eu queria ficar deitada. Estava aqui pensando só.”

“Algo em especial?” Rachel se senta na cama, se espreguiçando. Quinn olha fixamente para ela, parecendo tão adorável.

“Não, só nos últimos tempos.”

“Tem certeza que seu pai e sua mãe ficaram bem com você passando o ano novo aqui do que lá com eles?”

“Sim, eles não se importam. Eu sei que não. Minha mãe teria pedido caso algo extraordinário acontecesse, mas Frannie também não vai voltar pra lá, aparentemente ela vai passar com o namorado.”

As duas ficam em silêncio, apenas se olhando. Rachel tem estado tão diferente desde algum momento da viagem de Lima, Quinn pensa. Ela está mais... acessível. Ela continua sem filtro – comentários sobre o quão linda Quinn fica em uma roupa, o quanto os olhos de Quinn são verdes pela manhã, depois ficam mais castanhos (e lindos). Rachel nunca parou de elogiar Quinn, depois de tudo. Mas há algo de diferente em seus elogios. A forma como eles são jogados no assunto. Ela sente que Rachel está dizendo o que pensa e que o constrangimento inicial que a impedia de fazer isso já passou.

Parece que Rachel deixou de sentir uma coisa em relação a Quinn.

Culpa.

Rachel não se sente mais culpada por Quinn ter demonstrado seus sentimentos românticos por ela.

A culpa se transformou aos poucos em envaidecimento e até agradecimento. Não de uma forma ruim, mas de cumplicidade. Quinn sentia que falar que se apaixonou por Rachel a principio deixou ela com medo e raiva, porque a mágoa dos anos anteriores atingiram nas duas em cheio. O tempo foi passando, e depois de mais e mais confissões, Olívia e Luke passando por suas vidas, a insegurança daquilo não ser de verdade sumiu. Evaporou. Quinn não queria deixar dúvida alguma da verdade de todos os seus bonitos sentimentos.

Os presentes de Hanukkah foram pra isso.

Ela havia dito para Rachel que estava apenas presenteando-a como amiga, e era verdade. Desde o ano passado Quinn queria dar à ela pequenos presentes muito significativos, e ela sabia que Rachel a entenderia. Mas ela queria, mais do que todas as coisas, que Rachel parasse de se sentir culpada. A morena não tinha culpa alguma.

Quem poderia culpá-la por ser ela mesma?

Quinn achava injusto que Rachel se sentisse assim e esse sentimento deveria desaparecer para que as duas pudessem conviver em paz, como melhores amigas devem fazer.

Certo. Parecia estar dando certo.

“Você parece um pouco diferente, Rach”, Quinn solta seu pensamento e vê Rachel reagindo de um modo distinto do que ela esperava. A morena estava tão relaxada e em um segundo mudou sua postura, sem nem ao menos Quinn explicar o que achou diferente nela.

“Eu?” Rachel pergunta, porque aparentemente é tudo o que ela consegue dizer.

Rachel torce para que Quinn não perceba que sua voz rouca é de nervosismo, e não por causa de estar recém desperta. Quinn notou algo diferente nela. Quinn percebeu que Rachel abria algumas portas que antes nem aparecia no relacionamento das duas. Pela menos não antes de Rachel saber toda a verdade. No que Quinn quis dizer que ela estava diferente? Seus sentimentos estavam diferentes? Quinn ia dizer que sabia que ela se arrepiava toda vez que suas mãos se tocavam sem querer enquanto elas caminhavam juntas ou que Rachel começou a abraçá-la mais vezes e do nada, apenas porque queria proximidade?

Quinn ia perguntar se Rachel estava apaixonada por ela também, se queria beijar a loira até ficarem com sono e tentar um relacionamento com ela, era isso?

Por que Quinn perguntou isso – agora?

Rachel sentia o coração bater com violência em seu peito só com o olhar que Quinn estava lhe mandando.

“Você”, ela se levanta e senta ao lado de Rachel na cama da morena. “Você parece... como posso explicar...” Quinn coloca a mão esquerda sobre o ombro dela, “mais leve, depois que voltou de Lima. E a gente,” ela sorri de leve “você está agindo diferente comigo também.”

A cara de Rachel é de pânico.

“Diferente bom, Rach”

Ah, sim.

“S-Sério?”

“Yep. Você está agindo naturalmente perto de mim, e isso me deixa muito feliz. Como se estivéssemos voltando ao nosso eixo, e você está nos guiando a isso. Esse lugar onde você sabe que pode ser quem você é comigo e me deixa à vontade para me comportar assim também.”

“Eu... eu fico feliz que você sinta isso, Quinn”, Rachel devolve um sorriso agora, “eu sentia tanta falta de apenas ser com você. A distância geográfica já era difícil de encarar, mas a emocional poderia nos afastar tanto a ponto de nunca mais estarmos na mesma página”.

Quinn sabe que isso é a pura e absoluta verdade.

“Então, melhor amiga que me acorda e fica encarando o teto pensando na vida, o que temos pra hoje?”, Rachel brinca escapando do assunto. Antigamente Quinn era a fujona e Rachel tinha que laçá-la de volta para usar as palavras, mas ultimamente Rachel sente medo do que pode dizer quando o assunto começa a ficar sério.

“Hey – “ Quinn dá um tapa de leve no braço dela, “eu não te acordei. Ou você ouviu o barulho dos meus pensamentos?”, Ela brinca.

“Ouvi sim. Tão barulhentos. Você pensa que o que passa na sua cabeça não tem uma trilha sonora daquela bem estranha do jeito que você gosta?”

“O-O quê? Rachel!”, a loira se finge de ofendida e ri diante da risada aguda da morena.

“É brincadeira, Quinn, você sabe o quanto eu amo que você escute essas músicas. Eu amo seu gosto musical. É meio dork e flerta com hipster” – ela está quase estourando o riso diante da cara de incredulidade que Quinn faz – “mas eu gosto.”

“Você diz isso mas pensa que eu não sei que você já escutou cada música que tem no pen drive que eu te dei”, Quinn ri.

“Eu escutei todas sim. São ótimas e todas me lembram você”, o rosto do Rachel agora tem uma seriedade. Ela lembra dos presentes que ganhou de Quinn, cada um deles extremamente significativo e perfeito. Ela não contou para os pais sobre isso, apenas Naomi sabe. Ela não sabe o que dizer a eles porque certamente eles vão começar a enchê-la de perguntas que ela não quer responder. Ela quer sentir as coisas boas que Quinn causa à ela e o modo como seu coração fica aquecido a cada coisa doce que a loira faz.

Rachel estende seu braço direto em direção às costas de Quinn, convidando-a para um abraço. A loira imediatamente passa as duas mãos em volta do pescoço de Rachel, e assim ela consegue dizer um “obrigada pelos presentes, Quinn” com a voz na altura do ouvido dela.

Rachel consegue sentir até algumas lágrimas se formando mas logo tenta afastá-las. Isso é sobre se permitir apenas coisas boas. Isso é sobre tentar conhecer seus sentimentos antes de tomar qualquer atitude mais próxima, íntima.

Ela tem pensado em beijar Quinn basicamente, todo o tempo em que a mente dela não está prestando atenção ao que Quinn está falando. Às vezes até quando seus olhos descem pro rosto da loira e alcançam seus lábios. Ela direciona o olhar para qualquer outro lugar quando Quinn a olha de novo, mas aquilo já está feito. Aquele pensamento. Aquela ansiedade.

Elas se separam Rachel espera Quinn usar o banheiro antes dela. Decidem fazer algo na cidade hoje – além de ver vitrines, Rachel leva Quinn ao Central Park no exato lugar onde ela e Naomi costumavam ir e mostra a Quinn a árvore que Naomi abraçava parecendo uma maluca.

Quinn está tão, tão aliviada pelo caminho que sua amizade com Rachel está tomando. Ela sente que está indo para o único lugar certo, além de uma possível relação amorosa. De volta aos eixos, sim.