Unconditionally
2 Cheiro de Café?
— Que cara é essa? — Perguntou-me Luana.
Luana havia entrado na cafeteria um mês antes de mim e desde então se tornou minha grande amiga a quem eu contava todos os meus segredos.
— Já faz tempo que te vejo suspirando pelos cantos— Continuou ela me olhando enquanto ajeitava a pilha de pratos — Eu não me lembro quando foi a ultima vez que te vi com essa expressão.
— Estou preocupada.
— Com o que?
— Em poucas semanas perderei meu emprego e nem sei como vou pagar a faculdade — Respondi o que não era uma mentira por completa.
— E o que mais?
— Não há mais nada.
— Você não me engana Ana — Atacou ela ignorando seus afazeres e me encarando com seus olhos de jabuticaba — Você sabe que pode confiar em mim.
Eu não poderia esconder algo da única amiga que tinha, mas nem eu mesma sabia o que se passava em minha cabeça algo havia retirado meu cérebro do comando. Já fazia duas semanas desde o ocorrido ele não havia voltado como o príncipe encantado para saber como estava à donzela em perigo e talvez não voltasse o que me deixava ainda mais louca que o convencional.
— Conte me Ana. — Insistiu ela.
— David.
— Quem? — Perguntou ela franzindo a testa enquanto enxugava as mãos no pequeno avental amarrado em sua cintura.
— O rapaz daquele dia.
— Assim o que te deixou estourar a cabeça na mesa.
— Não foi culpa dele Luana — Respondi me sentando no ritmo do meu apaixonado suspiro — Ele me protegeu e eu nem agradeci direito e agora isso não sai da minha cabeça.
— Ana conta outra como assim o fato de não agradecer não sai da sua cabeça? — Respondeu ela mexendo as mãos como se tivessem vida própria.
— Fale baixo se o Senhor racista ouvir vai acabar sobrando tudo pra você já que eu estou cumprindo o aviso — Alertei enquanto os olhos de Luana se mantinham focados em mim com seu brilho de curiosidade — Eu não sei o que houve comigo o fato é que eu penso nele a cada instante já faz duas semanas e eu ainda lembro nitidamente dos olhos dele do cheiro do perfume eu sei que não há chance dele entrar nesse lugar e mesmo assim a cada pedido eu corro ver se não é ele.
— Não sei se isso é paixão ou obsessão Ana!
— Eu não me importo é algo novo e eu estou gostando da sensação.
— Ele é casado.
— Eu sei não estou dizendo que vou dar em cima dele! — Ataquei.
— Bom querida vou continuar o meu trabalho seu expediente vai terminar em meia hora por que não faz um café para esquentar essas mãos no caminho hoje está mais frio que o normal.
Terminei de servir as mesas restantes enquanto Luana preparava meu café vesti meu casaco marrom por cima do uniforme gelado, dei duas voltas em meu cachecol rosa sem me importar em marcar meu cabelo ondulado.
O choque que se toma quando se sai de um ambiente quente nas ruas geladas de inverno é totalmente indesejável impossível não fechar os olhos quando o vento gelado rasga a temperatura confortavelmente quente da pele rosada de meu rosto o que me obrigou a tomar o primeiro gole do café que esquentava minhas mãos desprotegidas causando um tremor interno se acalmando apenas depois do ultimo gole, caminhei em direção ao centro sem vontade de ir para casa parei na primeira lixeira que encontrei jogando o pequeno copo branco e verde, virei-me em direção a uma livraria do outro lado da rua com as mãos nos bolsos suspirei e olhei para o céu cinza que nessa tarde estava mais denso que o normal lentamente tornei a olhar a livraria e por um instante tudo tornou se cinza como o céu apenas uma forma tinha cor os cabelos loiros inconfundíveis balançavam ao vento meu coração explodiu enquanto via David entrar na pequena e sem graça livraria eu não sei como minhas pernas tremulas conseguiram atravessar a rua sem desmoronar ao chão, minhas mãos já estavam tocando a vitrine e meus olhos procurando o rapaz desesperadamente, meu pés se levantaram na ponta dos dedos tão eficaz quanto uma bailarina em sua primeira apresentação, queria poder cuspir meu coração que parecia estar na garganta queria poder segurar-lo em minhas mãos e colocá-lo em um dos bolsos estaria menos desesperado, ele surtou desesperadamente em meu peito no momento em que meus caçadores esverdeados encontraram o loiro no caixa parecia comprar três livros meu corpo estava quase se fundindo ao vidro que me separava do ambiente onde ele respirava e de alguma maneira eu conseguia ouvir a musica que tocava dentro da livraria era uma melodia antiga um clássico em piano, ele não combinava com aquele ambiente eu me encaixaria melhor que ele e foi esses pensamentos que cegaram meus olhos deixando meu alvo fugir alertando apenas pelo pequeno sino da porta dando passagem a saída do rapaz, fiquei imóvel quase me esqueci de como se respirava, a silhueta estava passando por detrás da minha pude sentir quando ele parou ao meu lado se agachando um pouco, tão próximo que pude confirmar o mesmo cheiro amadeirado do perfume penetrar em meus pulmões ele estava ali e eu não pude fazer um movimento se quer o tremor voltou a me percorrer como uma corrente elétrica que só se acalmou quando ele se ergueu passou a mão nos fios dourados e caminhou até a entrada do beco o que eu estranhei já que pude ver do outro lado da rua o momento em que ele saiu do carro preto bem atrás de mim minha curiosidade guiou meus pés mais uma vez meus passos eram atrapalhados minha respiração irregular eu nem percebi que estava correndo virei quase como um peão entrando no beco sendo surpreendida pelo corpo alto a minha frente minha velocidade me impediu de parar com o susto, as pernas se desequilibraram e me jogaram contra parede do corredor apertado ele estava ali muito próximo me encarando com seus olhos brilhantes. Meu corpo paralisou o momento em que os dedos quentes tocaram minha testa causando um pequeno desconforto em meu ferimento quase cicatrizado, os dedos macios desenharam por cima de meu corte enquanto ele se aproximava.
— Eu sabia que era você — Soprou ele seu hálito doce enquanto seus olhos pressionavam os meus a encará-lo — Tive que ter certeza, mas seu cheiro me era familiar um doce cheiro de café eu não me esqueceria dele jamais.
“Eu cheiro café?” — Pensei comigo mesma.
— Eu...
— Você está me seguindo? — Perguntou ele sorrindo de forma sedutora.
— Jamais David.
— Já sabe até mesmo o meu nome e eu nem imagino o seu — Respondeu ele tocando minhas bochechas.
— Ana! — Gritei.
— Ana é melhor você ir embora a chuva vai cair em breve. — Respondeu ele recuando.
Algo estava realmente quebrado em mim não sei de onde surgiu minha ação meu coração explodiu no momento em que meu corpo se moveu sozinho, minhas mãos cercaram o pescoço do rapaz enroscando nos cabelos de ouro meus lábios espremeram os dele meus olhos intimidaram os dele que agora se arregalavam, senti suas mãos me empurrar novamente contra parede, ele parecia respirar com dificuldade me encarando agora serio enquanto o céu que presenciava tudo começou a derrubar suas primeiras gotas geladas, pensei que David correria para seu carro, mas ele permaneceu ali a minha frente com a mesma expressão confusa olhando para baixo, me entristeci sabia que tinha feito besteira, tornei a estremecer quando os olhos azuis se levantaram a me encarar pareciam furiosos, já estávamos ensopados a sacola de livros estava no chão tentei me abaixar para pegar fui surpreendida pelas mãos tomar meu corpo em instantes estávamos nos beijando novamente agora eu estava sendo conduzida por ele meu interior gritava enquanto ele continuava a chuva e os beijos quase me deixavam sem ar algum ele me soltou quando já estávamos no chão me encarou por alguns segundos em seguida se levantou e caminhou para fora do beco.
— David! — Gritei aflita.
David olhou para trás achei que ele estaria irritado ele apenas sorriu e tomou seu caminho novamente.
A chuva continuou a cair e eu não me levantei continuei imóvel com as mãos nos lábios o gosto dele ainda permanecia em mim só me levantei o momento em que vi a sacola com os livros enrugada ao chão. Corri até a frente da livraria, mas o carro já havia partido não me restava outra opção se não fosse levar eles para casa.
Depois de tomar um longo banho vesti meu roupão, passei um café forte e caminhei com a minha xícara até a mesa onde havia deixado os livros peguei um e folhei na ultima pagina havia uma ficha de compra e para minha sorte lá estava o numero de David.
“Seria o destino?”

Fale com o autor