A porta soltou um rangido alto ao ser aberta. O quarto era pequeno, escuro e abafado. A única fonte de luz era a tela de um monitor, no canto.

Verge entrou em passos leves, e fechou a porta com cuidado. Andou até a mulher sentada no chão que digitava freneticamente em um teclado desgastado. Colocou com cuidado a sacola sobre a mesa. Desde o “finado acontecido” (como ele preferia chamar), ele preferia tomar cuidado em todos os seus movimentos. Afinal, nunca se sabe se a colega poderia o atacar em algum acesso bizarro.

- Zhaeri, — disse — trouxe alguma coisa para você comer. Faz cinco semanas que você está sentada na frente desse computador, direto. Você parece uma gárgula de pedra, e quase consigo ver dentro da sua cabeça, de tão dilatadas estão suas pupilas. Então eu acho que você deveria comer.

Zhaeri desviou seu olhar da tela pra o pacote.

- De onde trouxe esse sangue?

- Da divisão da polícia. Eu conversei com aquele homem branquelo que não sabemos exatamente o nome, e disse que estava preocupado com você. Então, ele me deu isso. Mas, a procedência, eu não faço a menor idéia.

- Agradecida. – Disse ela rasgando a ponta do pacote, e bebendo um grande gole. Imediatamente, suas pupilas contraíram e seus dentes pontudos se pronunciaram. — Era... De um bandido, um traficante. O nome era Robert Megan e devia ter 35, 36 anos... Ele tinha uma filha, pequena que ele não via há muito tempo.

- Você sabe disso simplesmente... Tomando um sangue?

- Sim. Aparentemente o sangue humano leva traços da memória de onde foram retirados. Então, por um segundo, eu consigo ver quase todas as memórias de uma pessoa. E depois passa. Não é como o sangue dos animais... Você sente a vitalidade vindo, e acertando como uma pedra.

- Conveniente. – Verge disse, e se sentou ao lado de Zhaeri. – Mas então, o que descobriu sobre o caso.

- O caso se trata de uma pequena cidade se chama Urze, e fica cerca de 600 km daqui. É uma cidade linda, repleta de florestas e cachoeiras ao redor, o que deveria atrair muitos turistas. Porém, há rumores que seja amaldiçoada, pois muitas das pessoas que foram visitar lá ou desapareceram misteriosamente, ou sofreram algum acidente fatal.

- Sinistro.

- A cidade tem cerca de duzentos habitantes, e não está recebendo muitas visitas ultimamente. A cidade é praticamente governada por um homem chamado Raymond Jarnigan, descendente de uma família que manteve riquezas durante várias e várias gerações.

- É uma cidade muito pequena, quase um vilarejo ou alguma coisa assim. Ou um distrito.

Zhaeri deu uma pausa, para beber mais sangue, e continou:

- A maioria da população da cidade, e quando eu digo a maioria eu estou me referindo a 99% da população segue uma religião que eu não consegui descobrir o nome, porém foi criada muitos anos atrás pela família de Raymond, tornando ele um “sacerdote”. Eu sei de apenas isso. Aparentemente é uma religião muito fechada e secreta.

- Você não encontrou absolutamente nada sobre ela?!

- Um jornalista que visitou lá uma vez escreveu um artigo, incompleto por sinal, e fez o upload em uma hospedagem em cloud. Uma semana depois, foi encontrado morto, em sua casa. Quem encontrou o artigo foi um hacker que procurava outro artigo referente ao jornalista. É o único registro que tem sobre aquele lugar e sua religião.

- E o que dizia?

- O artigo conta que os habitantes daquela cidade cultuam uma deusa chamada Sonem. Descrita como uma Deusa do Sol, sua pele brilha radiantemente como diamantes ao tocar do sol. Mas fora isso, não tem mais nada. Se existem hábitos ou orações, doutrinas ou paradigmas. Não fala mais nada.

- Você acha então que uma vampira que apareceu anos atrás para os ricos ascendentes da família de Raymond, e eles a cultuaram como deusa?

- Tenho quase certeza disso. Mas, não vejo uma maneira de relacionar isso com os desaparecimentos... Por isso, eu queria viajar para lá, e investigar melhor.

- Mas... Você vai sair assim? Tipo, quando você sai no sol... Você também brilha que nem purpurina, esqueceu?

- A vantagem é que essa época do ano em Urze é chuvosa. Então posso me passar por uma humana normal, uma turista ou coisa assim.

- Então se você quer se passar por humana normal, trate de beber mais sangue, para ver se você fica menos pálida! E acho que vamos ter que conseguir algumas lentes para você. Vou sair daqui para arrumar as malas e...

- Não, você não vai!

- Como assim?!

- Pode ser perigoso!

Verge deu uma pausa, e se levantou.

- Ah, agora só porque virou uma versão macabra da mulher maravilha vai me dispensar? Tá esquecendo que sou policial também, sua doida?!

- Mas...

- Sem “mas”, mulher! Eu vou, e ponto. E se discutir, eu vou de novo.

Zhaeri suspirou.

- Você é quem sabe. Então, arrume para nós malas e equipamentos.

- Certo. E você vai sair de casa hoje, vai para um bar, conversar com algumas pessoas, e aprender de novo como se socializar. Tem muito tempo que você está trancada aí sem dar as caras no mundo.

- Eu vou. Prometo.

Verge sacudiu os braços. Não tinha mais o que falar. Estava preocupado com a amiga. Até então, tudo o que ele achava ser apenas um mito estava ali, sentado em sua frente.

- Bem... Então eu vou indo. – Disse, e deu meia volta, fechando a porta.

Zhaeri virou-se para a tela e suspirou. Era o primeiro caso dela em sua forma sobrenatural. Esperava que tudo desse certo, e principalmente: Que não colocasse ninguém em risco.

Notas finais
Bem, essa é uma Fic que se passa no mesmo universo de crepúsculo. Mas, não necessariamente vai envolver os personagens. Então, não estranhem.

Enfim, digam o que acharam (se acharam), e é isso.

Até o próximo capítulo.