Unchained Melody
62 The Good Mariage
Notas iniciais
Quando a marcha nupcial ecoou por toda a nave e elas ouvira o coro de toda a gente se levantando, souberam ser esse o sinal para que saíssem de seus respectivos cubículos. Cada um deles em lados opostos da igreja. Clara veio da direita em relação ao centro onde o tapete vermelho esperava retilíneo em direção ao altar. Marina caminhou vindo pela esquerda também na mesma direção. Da porta central, timidamente caminhou o garoto loiro com o objetivo de encontra-las no início do corredor que as levaria até o altar.
Cronometradamente os três se encontraram. Ivan, filho de Clara deu as mãos a elas, momento este em que houve uma breve salva de palmas, porque apesar daquela ainda não ser a hora para aquilo alguns pessoas simplesmente não conseguiram conter o frisson causado pela iniciativa das duas de serem entregues pela criança.
Enquanto caminharam por aquele tapete ambas, intimamente, sentiam-se como em um sonho. A realidade vinha-lhes em um borrão que na verdade de realidade não tinha nada, viviam aquele momento em total surrealidade ao ponto de terem medo de que as pernas não lhes obedecessem e de que a qualquer momentos parassem de seguir em frente. “Talvez seja por causa dessa sensação de incapacidade iminente que os noivos sempre (ou quase) são levados por alguém ao longo daquele corredor, isto é, para não haver o risco de as pernas ganharem vida própria e saírem correndo na direção oposta a fim de frear e terminar com a emoção que ameaçava o coração de explodir” . Pensou Marina em desespero e se perguntou como havia deixado Clara convencê-la a fazer aquilo. A princípio quando pensou no casamento delas nunca, jamais e em tempo algum cogitara algo como aquilo. Estava mesmo, ela, Marina Meirelles em uma igreja a caminho do altar? A resposta era óbvia e aterradora. Clara, por sua vez, sentia-se nauseada de alegria, não apenas por se casar com o amor de sua vida, como também por estar realizando o sonho de se casar, dessa vez, diante do Deus em que ela acreditava.
Elas não olhavam diretamente uma para outra, olhavam para o lado oposto visualizando um a um o rosto dos convidados, de pé, esperando-as passarem por eles e no rosto de cada um enxergavam a força para continuar, apoio e suas próprias alegrias refletidas. Tanto que o sorriso não saia-lhes do rosto. Parecia que tinha sido prensado ali como uma tatuagem de tal modo que era bem capaz de elas nem terem a consciência de que estavam sorriso. Não eram, em absoluto, capaz de qualquer outra reação. E assim eles foram — em um ritmo que, a elas, pareceu muito mais rápido do que realmente foi. Já que para as duas tudo aconteceu em um flash — até o final do tapete vermelho.
Quando passavam pela última fileira, a mão de Clara, emocionada se virou para o marido.
_ Olha a minha filha, que linda! — Chica cutucava Ricardo e falava em lágrimas. — Nunca vi a minha filhinha mais feliz.
_ Sim, tá linda. — O homem confirmou e comprovou a sinceridade olhando para a noiva admirado. — Mas calma, se você continuar desse jeito não vai conseguir chegar até o final do casamento. — e Chica concordou assentindo com a cabeça.
Em toda a igreja os convidados sentiam uma coisa não conseguiriam descrever. Íntimos e não-íntimos podiam absorver uma coisa diferente no ar: Boas vibrações.
Nas fileiras da frente era visível no semblante, além do dos pais, dos padrinhos e madrinhas o orgulho que todos sentiam das duas por terem decidido fazer aquilo. Por terem decidido se exporem naquela cerimônia como pioneiras e representantes de todos os outros casais que viriam depois da decisão delas. Naquele momento ambas não estavam apenas realizando seus próprios sonhos, mas
abrindo caminho para que centenas ou milhares de outras pessoas que também se amavam pudessem realizar os seus.
Deixando-as em frente ao altar, Ivan sentou-se ali pertinho, ao lado da avó.
Quando enfim param de frente uma para outra diante do altar, a emoção fez com que as lágrimas tornassem-se inevitáveis e a preocupação em borrar a maquiagem caiu por terra, afinal de contas, não adiantaria nada mesmo.
_ Bom, Clara, Marina — – O líder religioso falou cumprimentando individualmente a cada uma e sendo retribuído por sorrisos emocionados. — é com muito prazer que eu, com o poder a mim investido, realizarei esta união. — a partir desse momento sua fala passou a ser dirigida a todos presentes. — Primeiro eu gostaria de informar que com base no art. 226 da Constituição Federal, regulamentado pela lei 6.015/73 em seu Art. 72 esta cerimônia terá também efeitos civis. Segundo, bom...por dias eu fiquei pensando no que diria a vocês nesse momento, buscando palavras que fossem especiais. Tão especiais quanto esta ocasião é, não só para vocês como pra mim e para essa igreja. É a primeira vez que eu celebro um casamente assim como o de vocês e eu não poderia estar mais lisonjeado por poder fazê-lo. Contudo, depois de muito pensar decidi dizer a vocês o mesmo que venho dizendo a todos os que passaram por esse altar porque conclui que as palavras ditas por mim a eles, isto é, aos que se comprometeram a estar na minha frente e ouvirem o que tenho a dizer, sempre se trataram das que eu julgo as mais fundamentais a dizer para os que assumem o compromisso de firmarem sua união com finalidade de constituir uma família, por isso, não acabei não vendo sentido para que dessa vez eu diga algo diferente. Afinal de contas o objetivo de vocês duas aqui, diante de mim é semelhante não é verdade? É constituir uma família? — As duas assentiram. — Pois então, Clara, Marina tudo o que eu tenho a dizer a vocês e peço que vocês, assim como todos os que aqui estão testemunhando a união de vocês, reflitam com sabedoria enquanto eu vos falo se resume a uma palavra: Comprometimento. E sobre o seu real significado. Muitas pessoas acreditam que estar comprometidas com o casamento significa assumir as obrigações que são inerentes, então talvez decidam manter os compromissos por causa dos filhos ou por sentir que possuem esse dever em relação a Deus. No entanto, o comprometimento matrimonial é muito mais do que isso. Representa a conquista da alegria de viverem juntos.
Para os cônjuges serem felizes é preciso ter muito mais do que senso de obrigação; observar alguns quesitos é fundamental e eu costumo mencionar quatro deles:
O primeiro, o grande desafio: Comprometimento é, acima de tudo, um pacto moral; é agir em conformidade com o que acredita e tem vontade de fazer. O compromisso matrimonial envolve abnegação e devotamento, pois, muitas vezes, será preciso renunciar algo em favor da harmonia conjugal. Uma pessoa egoísta não se compromete com seu casamento, especialmente diante de dificuldades que exijam algum sacrifício pessoal. Sem compromisso a relação é tênue, fraca e não suporta intempéries. O grande desafio é enfrentar o próprio egoísmo e ampliar a visão do "eu" para o "nós".
Em segundo, a prioridade: Muitas vezes, envolvidos nas situações do dia a dia, o casal se esquece do que mais lhe interessa e acaba menosprezando o que há de mais importante. Muitos só se dão conta disso quando tudo já está perdido; assim, é importante que os cônjuges estabeleçam o casamento como prioridade e se dediquem ao fortalecimento dos laços que os unem. É essencial que esse seja um trabalho dos dois e que ambos manifestem o quanto um é prioridade na vida do outro. Através do diálogo será possível um entendimento no sentido de aumentar o comprometimento, mostrando um ao outro o nível de interesse de cada um.
Em terceiro, a lealdade: Para manter o comprometimento no casamento, toda a lealdade ao cônjuge é fundamental e isso inclui não só a fidelidade sexual, mas todo o envolvimento emocional. É imprescindível que os cônjuges se esquivem de qualquer situação que possa alimentar neles atração por outra pessoa. Caso isso aconteça, é preciso tomar atenção no sentido de evitar maior contato e não tecer de forma alguma comparações entre essa pessoa e seu cônjuge. Lembre-se que o desconhecido é mais tentador, mas quase sempre representa grande equívoco. Coloque-se no lugar da pessoa com a qual você tem um compromisso e analise o que você sentiria se ela fosse infiel a você. A fidelidade não é um compromisso com um outro, mas sim, com o nosso sentimento.
Em quarto, a superação: É perfeitamente normal que com o passar dos anos os conflitos surjam e quanto maior o comprometimento do casal, maior a habilidade e vontade de administrar situações conflituosas. Muitas questões colaboram para os desentendimentos: casa, trabalho, educação dos filhos, problemas com a família de origem... Enfim, a vida em comum tem peculiaridades que podem se converter em grande problema e é por isso que o cultivo do companheirismo previne desavenças e cultiva a harmonia conjugal.
Importante levar em consideração que reconhecer um erro também pode significar comprometimento, desde que a pessoa se arrependa e mude seu comportamento.
Será que eu me fui capaz de me fazer entender? — O homem perguntou a elas que assentiram ao que seus semblantes demonstravam agradecimento pelas belas palavras proferidas. — Muito bom. — Ele sorriu – Então, peço, por favor, que entrem com as alianças.
Surpreendentemente o senhor de cabeça branca que Clara encontrara no dia anterior na casa de leilões de sua família, o responsável pelo encontro das duas meses atrás, caminhou pelo tapete vermelho levando as alianças e observando a linda ornamentação da igreja ao seu redor. Rosas azuis e brancas enfeitavam a mesmo. As azuis, inexistentes na natureza, representavam a diferença, a diversidade enquanto que as brancas, sem precisar de maiores explicações, simbolizavam a paz.
_ Clara, você aceita Marina como sua legitima esposa e promete amá-la e respeitá-la na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza todos os dias da sua vida até que a morte as separe? — O religioso perguntou à mãe de Ivan quando já de posse das alianças.
A noiva tentou dizer sim de imediato, porém a palavra ficou presa na garganta embargada, mas após um instante ou dois ela conseguiu fazer com que ela saísse. Limpa e clara (Com o perdão do trocadilho).
_ Sim.
Marina vibrou internamente tomando cuidado para não exteriorizar maiores emoções porque tinha medo de que qualquer ato ou movimento a mais fizesse com ela não se aguentasse, dai quem sabe o que poderia acontecer?
_ E você Marina? Aceita a Clara como sua legitima esposa e promete amá-la e respeitá-la na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza todos os dias da sua vida até que a morte as separe?
_ Sim. — Ao contrário da noiva, Marina conseguiu ser enfática instantaneamente.
_ Podem trocar as alianças.
E elas obedeceram, fazendo uma breve promessa uma a outra no processo:
_ Eu prometo caminhar ao seu lado por todos os dias da minha vida amando o que eu conheço de você e confiando no que eu ainda não conheço. — Clara disse enquanto depositava a aliança no dedo da mão esquerda da fotógrafa.
_ Eu prometo caminhar ao seu lado por todos os dias da minha vida amando o que eu conheço de você e confiando no que eu ainda não conheço. — Marina falou retribuindo as mesmas palavras e depositando a outra aliança também no dedo da mão esquerda de Clara.
Elas sorriram sentindo o peso e a textura do objeto em suas mãos.
_ Peço agora que as testemunhas se aproximem para assinarem o livro.
Chica e Ricardo se levantaram e foram até o altar. Assinaram, com alegria, o livro de registros ao que posteriormente as noivas também o fizeram.
_ Pelo poder a mim investido como líder dessa igreja e civilmente pela lei do nosso País eu as declaro casadas. — Ao final dessas palavras houveram risos e comemorações por toda a nave e sem que fosse preciso autorizá-las elas se beijaram. Aliás, Clara beijou Marina. Um beijo intenso que mostrou a todos ali a força do amor que as unia, então, houveram palmas, muitas palmas reflexo não só da comemoração como também do embasbacamento. Embasbacamento este que também atingiu Marina, para ela, a maneira com que foi beijada ali em frente a todas aquelas pessoas significava algo mais, era uma declaração muda da – agora – esposa de que ela não levaria a vida disposta a se esconder. Que a partir daquele momento não haveriam constrangimentos diante do filho ou da família ou do ex-marido ou diante de todo e qualquer público, como já havia acontecido anteriormente, principalmente logo no começo.
Assim, elas saíram felizes, de mãos dadas, — ao som da canção (que em um outro momento soaria piegas mas naquele não) escolhida com carinho pela banda para elas – casadas, pelo corredor central em meio a uma chuva de pétalas de rosas de todas as cores que caiam do teto e a aplausos calorosos dos convidados em polvorosos e alegres.
“Foi Deus
Que me entregou de presente você
Eu que sonhava um dia viver
Um grande amor assim
Foi Deus
Foi Deus
Numa oração que um dia eu pedi
Acorrentado em teus olhos me vi
Quando te vi pela primeira vez
Foi Deus
Que me entregou de presente você
No teu sorriso hoje eu quero viver
No teu abraço encontrei minha paz
Valeu
Ter esperado o tempo passar
Pra de uma vez meu amor entregar
E não sentir solidão nunca mais”
**
A festa
_ Marina, vem aqui. — Clara puxou a esposa pela mão e a levou até a mesa em que o filho estava sentado sozinho.
Assim que as duas se sentaram próximas à criança, Clara informou a outra que Ivan queria dar-lhe um presente de casamento.
_ Um presente pra mim, jura?
_ Uhum. — O menino confirmou empolgado e tirou do bolso uma caixinha de veludo e entregou a ela. Certamente havia uma joia ali.
_ Uhm... Que isso, hein? O que vocês me aprontaram?
_Eu não aprontei nada. — Clara se defendeu. — A ideia foi dele.
_ Abre logo, Marina. — Ivan disse.
_ Tá, tá bom. Vou abrir.
E abriu. Dentro havia um cordão fino e delicado de ouro e quando viu o pingente Marina se emocionou profundamente. Talvez até mais do que tinha se emocionado durante a cerimônia (Mentira. Isso não era possível, mas era quase). O pingente, chapado, tinha a forma de um menino que tradicionalmente as mães ganhavam logo quando acabavam de dar a luz. Clara tinha um igual que trazia em seu pescoço desde que Ivan nascera e não tirava para nada. A fotografa concluiu com alegria que esta era a forma do garoto dizer-lhe que acabara de ganhar uma nova mãe — o que era muito bom porque ela sentia, já a algum tempo, que havia ganhado um filho -. Ela então se levantou e foi até o menino fazendo-o se levantar da cadeira e dando um abraço longo e apartado nele. Retribuído com a mesma ternura pelo mesmo. E assistido por uma Clara mais uma vez em lágrimas.
Depois os três: Marina, Clara e o garoto de 8 anos permanecerem ali, na espécie de um mundo paralelo/feliz/acolhedor/completo, enquanto a música ecoava pelo salão, a pista de dança se enxia de dançarinos cada vez mais animados e os outros convidados bebiam, comiam e conversavam entre si. E a festa seguia seu curso em volta deles.
FIM
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