_ Cheguei!

Clara entrava animadamente pela porta do apartamento de sua irmã mais velha – Helena – com os braços abertos e trazendo seu tão conhecido e contagiante sorriso no rosto.

Todos que estavam à mesa, nesse momento, a recepcionaram devolvendo a ela o mesmo sorriso animado.

_Irmã, senta aqui, toma café da manhã com a gente.

Se adiantou em dizer a dona da casa.

Ao terem terminado o café, cada um deles destinaram-se a realizar suas respectivas tarefas diárias permanecendo no apartamento apenas Helena, Clara e Chica, mãe das duas. Foram para a sala, sentaram-se no sofá conversando corriqueiramente sobre coisas da vida.

_Clarinha, meu amor. E o Cadu como está? Ainda com aquela ideia de abrir um restaurante?

Perguntou Chica à filha mais nova.

_ Ih mãe, ainda com a mesma ideia e eu tô torcendo, viu? Quem sabe abrindo esse bendito restaurante o Cadu não se acerta na vida de uma vez e a gente sai dessa fase terrível de “vacas magras”.

As as outras duas riram, não por acharem a situação do casal engraçada, mas sim pela maneira de Clara ao falar disso.

_Ah, mas você adora o maridão né não mana? Mesmo ele sendo meio molecão.

Helena manifestou.

_ Adoro não. Amo. Não é querendo me gabar não, mas eu tenho o marido mais lindo, cheiroso, gostoso desse mundo. E o sorriso? Gente, aquele sorriso é capaz de fazer qualquer mulher cair de amores há quilômetros de distância.

Dessa vez as três caíram na risada.

_ O Cadu é meio irresponsável, mas é louco com você. C sabe disso né filhinha?

Dessa vez foi a mãe quem falou.

_Sei sim mãe, e eu também sou louca pelo meu marido. Não tô reclamando da vida não. Vocês sabem que eu gosto da nossa vidinha de mamãe, papai e filho, de cuidar da nossa casa, das nossas coisas. Eu torço pra esse restaurante sair é pelo Cadu mesmo, ele tem tanta vontade, sonha tanto com isso... E se, em decorrência disso nossa vida financeira melhorar, que mal tem?

Disse essa última parte rindo.

As outras duas assentiram e Chica continuou o diálogo:

_Aliás, as duas deram muita sorte com os maridos Virgílio e Cadu são dois príncipes.

_Ih Leninha, acho que a dona Chica é mais apaixonada pelos nossos maridos que a gente, hein.

_ É já faz tempo que eu suspeito disso irmã.

Respondeu Helena.

_Ei, vocês duas querem parar? Sou apaixonada pelos meus genros sim, porque eles fazem as minhas filhas felizes e afinal de contas não é isso o que toda mãe sonha?

As duas concordaram e juntaram-se para dar um abraço duplo na mãe tão amada.

Após conversarem por mais algum tempo, Helena se manifestou. Precisava ir trabalhar. Despediu-se das duas e Clara aproveitou para ir embora também. Despediu-se da mãe e encaminhou-se ao próprio apartamento que ficava no mesmo prédio.

Chegando em casa viu que Cadu já tinha levado Ivan para o colégio e agora o mesmo se encontrava na cozinha.

_Uhm, que cheirinho bom.

_Ei amor, vem aqui provar é um molho para massas novo que eu tô testando.

Clara olhou-o com falsa desaprovação e se aproximou do marido.

_ Você não larga essa cozinha né, Cadu?

_ Claro que não ué, estou testando sabores para o nosso futuro restaurante.

Falou isso já abraçando e beijando a esposa. Soprou o conteúdo da colher e levou-o à boca dela.

_Nossa Cadu, que delícia.

_ Sabia que você ia adorar amor, tô doido pra fazer essa receita pro pessoal, a turma vai cair pra trás.

_Ai ai os amigos da culinária.

Falou Clara já andando em direção ao quarto.

Cadu a seguiu de perto e a abraçou por trás, jogando-a logo na cama envolvendo-a em seus braços.

_Que que tem os amigos da colunária, hein?

Disse à esposa sorrindo já demonstrando seu real interesse.

_ É que as vezes você parece se preocupar mais com esses seus amigos do que com a sua mulher.

Falou fazendo um charme proposital, demostrando anuência ao interesse do marido.

_ Capaz de eu me preocupar mais com um monte de homem barbado do que com a minha mulherzinha. Nunca.

Disse enfático já beijando a extensão do pescoço da esposa.

Fizeram amor pelo resto da amanhã.

****

Dias depois

Clara arrumava a casa aproveitando a ausência do marido e do filho.

“Como esses meus dois homens fazem bagunça, meu Deus!” Pensava ela. Mas, apesar do cansaço, pensar no marido e no filho trazia-lhe profunda alegria. A lembrança do marido e da vida que tinham lhe preenchiam o ser. Eram felizes, um casal feliz, com um filho lindo.

Ao acabar os afazeres domésticos foi até a portaria a fim de recolher a correspondência e voltou para casa. “Contas, contas e mais contas. Ai Cadu, o senhor precisa arrumar logo um emprego ou abrir esse tal restaurante” disse a si em voz alta.

Junto às contas também tinha chegado a edição mensal de uma revista feminina que a dona de casa assinava. E ela, aproveitando o momento de descanso, jogou-se no sofá para lê-la.

Clara gostava muito dessa revista, dava dicas de beleza, emagrecimento além de trazer sempre uma entrevista com alguém famoso. Nessa edição específica, havia uma matéria sobre fotografia com o título: “As belezas que podem ser captada pela lente de uma câmera”. Haviam várias fotos que ilustravam o artigo. Porém, o que chamou a atenção da dona de casa não fora o que estava escrito na matéria, e sim as fotos, a beleza nas fotos. Pouco se deu conta de que as modelos presentes nelas estavam todas nuas. Encantou-se pensando no trabalho do fotografo, era um artista. Tentava imaginar como o trabalho era realizado para que se conseguisse aquele resultado. Ao terminar de admirar as imagens teve curiosidade em saber o nome do fotografo procurando-o no final da matéria, leu: Marina Meirelles.

_Marina Meirelles.

Sentiu um arrepio percorrendo todo o corpo ao pronunciar esse nome, ali, sozinha, em voz alta.

***

Há alguns milhares de quilômetros de distância, naquele mesmo instante, em Londres, Marina também sentiu um arrepio percorrendo-lhe a pele, começando pela orelha e se estendendo até os pés, como se alguém tivesse sussurrando algo em seu ouvido.

“Eu hein, coisa estranha”.

***

Clara jurou já conhecer esse nome de algum lugar e resolveu procurar por ele na internet, na rede não havia muita informação sobre a vida pessoal de Marina Meirelles, mas contavam bastante coisa sobre a sua obra e em minutos a dona de casa estava tão imersa nas fotos de autoria da fotografa que até se esqueceu do motivo que a levou àquela busca. Distraiu-se por um longo tempo admirando o trabalho dela. Ir a uma exposição da mesma passou a ser um de seus pequenos sonhos “deve ser mágico” disse a si mesma. Até aquele momento nunca tinha observado como a fotografia lhe encantava. Estava acostumada admirar outro tipo de arte. Como as peças e pinturas que o cunhado Virgílio produzia, o teatro e é claro: O cinema. Mesmo assim nada que a levasse a aprofundar seus conhecimentos, admirava, porém, era apenas isso, admiração superficial. Curiosamente até aquele momento nunca havia lhe ocorrido que fotografia também era uma arte, digníssima de se admirar, e aquela pequena “viagem” que fizera na internet despertou nela um interesse até então desconhecido, a partir daquele momento sempre olharia para a fotografia com outros olhos.

***

Dois meses depois...

Após uma longa temporada expondo no continente Europeu, Marina havia voltado ao Brasil há quase duas semanas. Iria expôr, em grande estilo no Rio de Janeiro. Lugar onde nascera e que mantinha residência fixa, embora passasse meses ou até anos longe dali.

A rotina da organização de uma grande exposição era quase sempre a mesma, no entanto, Marina ainda ficava nervosa toda vez. Gostava de preparar pessoalmente a transformação de uma fotografia em tamanho padrão em super-painéis que variavam de 1 metro à 2, 3 metros de altura. Ficava de olho pessoalmente nisso porque tinha medo de que a ampliação da foto fizesse com que ela perdesse a proposta ou a qualidade.

Desde o dia em que pisara no Rio estava com a cabeça a mil por causa dessa exposição, em especial. Já havia produzido várias, em muitos cantos do mundo, mas essa, especificamente, estava lhe causando inquietação. “Deve ser porque faz muito tempo que não exponho aqui” acreditava ela.

Quis cuidar pessoalmente, inclusive, dos convidados. Fazendo sua própria lista e entregando-a a Vanessa, sua sócia e assistente, que era quem cuidava dessas coisas. A mesma estranhou a atitude de Marina.

_ Como assim, justo você, uma artista, se preocupando com esses assuntos menores? Não costuma fazer isso nunca.

Disse a sócia irônica e rindo ao mesmo tempo.

_ É verdade, mas dessa vez, sei lá. Achei que era importante.

Respondeu ela.

_Tudo bem, vou anexar a sua lista a outra que já fiz. Os convites ficam prontos amanhã, darei as listas à Gisele, foi ela quem ficou encarregada de endereçá-los e postá-los.

***

Na lista feita por Marina estava o nome de um antigo amigo de seu pai, um colecionador de artes que naquele exato momento estava em uma respeitável casa de leilões no Leblon.

Fora ao local para adquirir algumas peças e assim ampliar sua coleção, porém, adentrando a casa acabou arrebatado não por um artigo de arte mas, pela linda morena que ali se encontrava. Não pôde deixar de se aproximar dela e elogiar-lhe. Recebendo um sorrido tímido e sem graça de volta.

Conversaram por alguns minutos. O homem perguntou-lhe se ela era fã de artes pensando ser esse motivo que a levara até ali. A moça disse que gostava sim, um pouco, e que recentemente tinha adquirido um gosto especial pela fotografia, mas que estava ali, na verdade, porque era uma das donas do lugar. O senhor desculpou-se dizendo-lhe que tinha feito a confusão porque era frequentador da casa há anos e nunca havia visto a jovem.

foi quando ela lhe explicou que realmente não trabalhava no estabelecimento e que o mesmo era gerido pela irmã e pelo cunhado.

_Então está explicado, mas então...

Ia chama-lá pelo nome quando percebeu que ela não havia lhe dito qual era.

_Clara, me chamo Clara.

_Prazer Clara, meu nome é Alfredo. Um velho colecionador, você é uma moça realmente bonita e muito simpática. Me acompanha em um café?

_Prazer. Bom, eu bem queria, mas já está na hora de buscar meu filho na escola e meu marido já já chega para o jantar, então, preciso correr.

Respondeu ela, tentando cortar as investidas do homem da maneira mais educada possível.

_ Ah, marido? Filho? Vocês devem formar uma bela família.

Disse ele, compreendendo que Clara estava cortando-o, mas não se ofendendo com isso. “O importante era o galanteio” divertia-se mentalmente.

_ Sim, er eu acho que sim.

Respondeu ela de cabeça baixa e com um sorriso no rosto. Era bastante tímida.

_ Bom, então tchau.

_ Tchau, Clara. Não vou me esquecer desse seu sorriso tão encantador, hein?

Notas finais
Opiniões, sugestões, correções serão muito bem vindas. :)